Fado Tropical - Imigrantes portugueses no Rio

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Entrevista Fado Tropical no. 14: Antonio Correia

Foto 1: Braga, Portugal, 1945, Antonio Correia (à direita), sua mãe e seus irmãos

Entrevista Fado Tropical no. 14: Antonio Correia

FICHA DE ENTREVISTA PROJETO FADO TROPICAL

Código da entrevista: EFT 014
Data de realização da entrevista: 04/11/2006
Local: Casarão de propriedade do entrevistado, onde, atualmente, funciona uma academia de ginástica, que fica na Praça Seca – JPA, na cidade do Rio de Janeiro.
Entrevistado: Antonio Correia
Data de Nascimento: 24/07/1925
Local: Freguesia de Parada de Gatim- Conselho de Vila Verde – Distrito de Braga.
Data da chegada ao Brasil: 11/11/1949
Local: Rio de Janeiro
Profissão atual: Aposentado
Profissões anteriores: agricultor, militar, trabalhou no minério, caixeiro e carregador de caminhão, comerciante, comerciário.
Estado Civil: casado (ou viúvo)
Filhos: teve 4, atualmente são 3
Netos: 4
Entrevistadora: Fernanda Crespo
Curso: História
Período: 5º
Gravação: em fita (mas foi digitalizada)
Nº de fitas: 2
Duração total aproximada: 1h 30min
Nº de páginas do depoimento transcrito: 33 (arial 12)
Data da conferência: 19/11/2006
Data da assinatura da carta de cessão: 19/11/2006
Fotos: Sim
Número de fotos: 3


Projeto “Fado Tropical” – História Oral
Entrevistado: Antonio CorreiaEntrevistador: Fernanda Nascimento Crespo
Local: Casarão de propriedade do entrevistado onde, atualmente, funciona uma academia de ginástica, no bairro da Praça Seca – Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro.
No dia 04/11/2006.

Convenções:

Negrito – Utilizado para identificar as falas do entrevistador.

[ ] – utilizados para identificar as falas do entrevistador que estão no meio da resposta do entrevistado e vice-versa.

( )- utilizados para reproduzir intervenções emotivas do entrevistado. Ex. (risos), (silêncio emocionado) etc.

{ } – utilizadas para trecho de transcrição acerca do qual não se tem certeza da fidedignidade.

/ / - utilizadas para indicar interrupções da entrevista e continuação da fala.

(?) - utilizadas para indicar fragmentos ininteligíveis


Fita 1, lado A (ou CD 1, faixa 1)

Sumário (pp.02-12) :

(p.02) Vida na lavoura em Portugal – Caracterização da cidade de Braga e comparação de Portugal daquele tempo com Portugal atualmente – (p.03) Vida no tempo da Guerra , 1945: alimentos, trabalho no minério – Boa fama do Brasil em Portugal – Visita a Portugal dez anos depois – Governo e políticas de Salazar, no tocante à educação e ao exército – (p.04) Comunistas acabam com tudo – Necessidade de emigrar – Brasil como motivo de curiosidade e sonho de destino dos portugueses – Metade da Aldeia veio para o Brasil– Falta de perspectiva no trabalho da lavoura em Portugal – Pedido de carta de chamada ao seu pai – (p.05) Más condições de viagem – (p.06) Primeiras impressões do Brasil – Tempo de Dutra – Vida dura nos primeiros meses – Exemplos cotidianos de sacrifícios pelos quais passou – Todos que querem vencer passam dificuldades – (p.09) Trabalhou 30 anos, 16, 18 horas por dia – Portugueses não eram bem vindos no Brasil – Patrões preferiam os portugueses – (p.10) Não tem queixa de preconceito – Assaltos sofridos – (p.11) Fez muitos amigos – Naturalização brasileira – (p.12) Os filhos e tudo que ganhou estão no Brasil – Já não compensa visitar Portugal.

· Então Seu Antônio, eu queria saber como era a vida da sua família em Portugal.

A minha família em Portugal vive da lavoura, vive na..no.. nos campos trabalhando..cultivam o milho.. semeiam o milho, centeio, arroz, batata, couve, repolho..eles lá só compram mesmo é a roupa, o resto eles colhem tudo.

· E...os seus pais trabalhavam na lavoura, né.. [Ahn?] E como..como era a cidade em que vocês viviam naquela época? [Quando era a cidade?] Como era a cidade.

Olha, ela era...Não estava tão adiantada como está hoje. Hoje a cidade de Braga é uma..é a terceira cidade que tem em Portugal, e que já foi até capital de Portugal, mas agora, agora é Lisboa lógico..Mas é...hoje está muito adiantado, por causa de..de daquela fusão da Europa...na Europa aqueles países todos Portugal, Espanha, França, Itália, Bélgica é....Holanda, todos aqueles países, Alemanha, é..aquilo agora é um bloco só. É... você tem..você é Português e tem um passaporte de todos os países. O dinheiro que é em Portugal é na França e é em outros..em todas as nações..faz troco ali.. que antigamente não, não era, mas agora como a Europa é uma comunidade e...então aquilo é dirigido por um ministro, que eles no meio, de seis em seis meses .. {mas eles não duraram aquilo}, quer dizer...os países pobres passavam a ser ricos igual a eles. Por exemplo, Espanha e Portugal eram os países mais pobres, então a Alemanha que era rica, a França, Itália, a Holanda..então eles ajudaram, fizeram um bloco só, ajudaram, e colocaram Portugal e Espanha no mesmo patamar que eles..ele...Hoje você pega num passaporte..antigamente não..isso aconteceu comigo; eu já visitei trinta e dois países, mas aí eu...eu tinha que ter passaporte pra cada um, mas agora não: agora um passaporte dá pra todos, o dinheiro é o mesmo, o preço é o mesmo. Uma camisa que custa em Paris, custa em Lisboa, mesma coisa. Eles não são mais do que os outros, então é uma coisa só, de..de maneira que Portugal agora está muito bom. Muitas estradas boas..tem estradas..tem tudo que precisa, tem tudo. Eu acho que até têm demais porque agora muitas pessoas não..não deixam ficar aquele terreno que produzia muito, deixam...não trabalham mais..antigamente comia-se pão de milho agora só come pão de trigo..quer dizer..a coisa melhorou muito..a Europa quando se uniu, ela melhorou..é...e.. mas quando eu estava lá ainda era..dificuldade. Então no tempo da guerra...eu passei o tempo da guerra lá, em 1945, o tempo do Hitler..nós tínhamos de..nós tínhamos de...direito de comprar 250 gramas de arroz, 250 gramas de açúcar por pessoa durante um mês. O que valia é – nós comprávamos pouco, é certo -, mas o que valia é que eu tinha um tio, que já faleceu, que tinha um armazém; então ele recebia aquela mercadoria pras pessoas e distribuía as senhas, mas tinha pessoas pobres que não podiam nem comprar aquelas..aqueles..aquele pouquinho de.. de mantimento, então sempre ficava com aquilo e dava pra família, quer dizer..ele não mandava de volta..também não dava prejuízo, mas é..ele dava pra quem quisesse..pra quem quisesse comprar, e por isso ainda havia mais um pouquinho de fartura, mas lá... naquela época, no tempo de guerra..aquilo lá.. atrapalhou um pouquinho, pouquinho. Aí é..eu também não disse, mas é...eu antes de vir aqui pro Brasil eu trabalhei um ano no minério, minério é..fazer negócio de.. fazer armas..aquele ferro...Aqui como... tem uma.. uma...uma Vale do Rio Doce..não tem muito ferro?! Lá também em Portugal tinha muito, mas..então nós, quando foi a guerra, nós procuramos ir aonde tinha estanho, tinha cobre.. então a gente procurava e lavava aquilo e vendia. Então era era..era uma... era uma vantagem que nós tínhamos...Mas que isso só..Acabou a guerra, acabou aquilo tudo. Não houve mais nada pra...

· É..E...É..O que se falava do Brasil, naquela época, lá em Portugal?

Ah!...O Brasil era tudo! Basta o nome! (muitos risos) Brasil todo mundo quer ver! (muitos risos) A passagem é que era ruim.. E era 15, 16 dias de viagem dentro de um navio (risos) E..nem todo mundo se dava no navio porque...e passava mal, mas de qualquer jeito o Brasil em Portugal foi muito.. e é sempre muito bem visto. Eu confesso que vim.. estive aqui, dez anos depois eu tive o prazer d´eu ir lá. Eu..vim de lá solteiro e..depois de dez anos..depois cheguei lá casado, com um filho,que é este que está aqui na..na.. papelaria. Então pra nós foi uma satisfação: vimos os nossos pais, vimos as nossas avós, vimos a minha sogra é...vimos todo mundo. Foi uma alegria! Eu fui fazer um tratamento lá, num lugar que chama-se Pedras Salgadas, negócio de coluna... E...Mas foi uma alegria! Só que.. Portugal inda tava muito abalado.. Salazar queria um governo forte, mas um povo fraco (risada), entendeu? Melhor coisa que ele tinha é o seguinte: você tinha uma filha, ou filho, que aos sete anos tinha que mandar pra escola, de qualquer maneira, senão ia preso ou pagava uma multa... Ele obrigava.. daquelas freguesias todas..aqueles filhos que estivessem, ao completar sete anos...escola. Se não..se não.. manda pra escola, o professor era obrigado a mandar uma multa pra pessoa; então nós...os nossos pais nos obrigavam a ir lá pra escola. E..outra coisa que ele também queria: era escola e..militar. Tinha que ser militar e tinha que ir pra escola..duas coisas que ele fazia muito. E o governo é...era um governo muito rico, tinha muito ouro, mas os..depois os comunistas, quando ele morreu, acabaram com tudo e...o que valeu foi agora a união da.. européia, senão..Portugal era muito pequeno não dava pra...todo mundo...tinha que imigrar...a gente chegava..chegava a certa idade, dezoito, vinte anos tinha que migrar, porque lá não tinha futuro; e o Brasil tava sempre..tinha a mesma fala, a gente sabia, então tava sempre na cabeça da gente: “Um dia eu vou pro Brasil! Um dia eu vou pro Brasil!”. E quando ia às vezes algum brasileiro lá..que não era brasileiro, era.. era.. português, mas a partir de vir aqui.. a partir de estar aqui uns anos ele chegava lá e eles diziam: “Chegou o brasileiro! Chegou o brasi..!” (risos) Então,todo mundo queria saber como é que era, como é..e a gente..já ia construindo o caminho mais ou menos, já fazia umas farrazinhas e todos estavam (risos), todos estavam., como se diz..ansiosos pra vir pro Brasil. E veio muita gente aqui pro Brasil. Muita gente! Lá da nossa aldeia, onde eu fui criado, metade da aldeia quase veio toda pra cá. (risos)

· E como surgiu a idéia de vir pra cá? [Ahn?] Como surgiu a idéia de vir pra cá?

Bom, eu..eu depois que eu servi o exército, eu não me dava mais em Portugal, porque eu não..naquela época eu não via é.. eu não via...como é que se diz...nada pra eu fazer, e voltar pras terras, trabalhar nas terras é.. na agricultura, é um risco...se der..se fosse um ano bom, que chovesse, tudo bem; se fosse um ano fraco não dava nada..a gente perdia a terra a cimento, entendeu? Então não saia daquilo, era aquilo, aquilo mesmo. E eu então...meu gênio não dava para ficar ali...para ficar ali..pra ficar lá. E...meu pai estava aqui no Brasil, era estivador. E eu então eu pedi ele.. pra ele me mandar uma carta de chamada.. E ..e tinha que ser um comerciante, então ele pediu a um senhor que era nosso conhecido e... para mandar que.. ele tinha um armazém, para mandar a carta de chamada para que durante 2 anos ele era responsável pela gente, se agente não se desse bem ele era obrigado a nos mandar embora. E eu vim para cá porque tinha meu pai, e...mas ao mesmo tempo eu não dava mais não..eu não dava mais...não tinha nada pra servir de..que a gente pensasse pra fazer, entendeu? Era aquilo e aquilo mesmo. E têm alguns que eu vou....eu vou lá muitas vezes. graças a deus, fui lá umas 14, 15 vezes já. Mas acontece que... aqueles que ficaram na terra.. que são da minha idade..que ainda têm alguns, estão a mesma coisa. (risos) Não..não subiram, não cresceram.. estão no mesmo lugar, nas mesmas terras trabalhando de sol a sol. Quando o sol nasce já estão lá na terra, quando sol vai embora, então vêm embora porque não vê mais, né?..


· E como foi a viagem do senhor? [Ahn?] Como foi a viagem do senhor?

A viagem! A viagem foi muito ruim. Porque nosso navio levou 14 dias e no 4º dia eu enjoei. O mar começou muito agitado, depois da Ilha da Madeira, é... o navio vem, encostou na Ilha da Madeira e depois foi à Guiné e da Guiné, veio, a Guiné era..Guiné ainda pertencia a Portugal como pertence à Ilha da Madeira. Então nós viemos pro Recife, mas nessas mudanças eu enjoei, tudo que eu comia botava para fora. Ali tinha um rapaz, lá da terra, que veio comigo também, no mesmo navio, então ele ía.. quando eu tava enjoado assim, ele ía lá na...na cozinha e pedia para me dar um chá que eu estava passando mal, que eu tava deitado da cama, que não podia nem levantar. Então eles faziam.. os cozinheiros faziam alguma coisa pela agente. Assim como depois eu fiz pelos outros, porque é.. o navio, naquela época – hoje são grandes – mas naquela época eram pequenos, é.. tipo um barco pesqueiro pequeno. E quando viam aquele...quando nós passávamos no Equador, a onda era maior que eu.. de que o navio. Então, tinha ocasiões que a onda vinha de lá e passava por cima da proa do navio (risos). E o navio ficava {logo mal}, quer dizer.. a gente balançava muito. É aqui perto é...aqui perto não, mas no meio do mar, vinha aquela onda e o navio ia lá e voltava, ia lá e voltava e com aquilo... quando tombava um pouco de lado (risos)... lá vai todo mundo! A gente passou umas...poucos foram os que não enjoaram, mas... não tínhamos outro jeito... Era aquilo e aquilo mesmo, mesmo. Tomava um remédio e...(?) que passava mal, porque o navio é...o navio também não tinha comodidades que tem hoje. E hoje...não.. também não tem mais navio que venha para cá. Mas antigamente a Mala Real Inglesa tinha uns navios que levava dez dias. E Portugal também tinha uns navios, o Vera Cruz e o Santa Maria também levavam nove, dez dias. E era..era tipo um hotel, já tinha a estrutura para que não balançasse, para ninguém enjoar, tinha cinema, tinha tudo de noite e... tinha dança, quem quisesse dançar tinha música, porque eram muitos dias. E..mas isso foi depois, ahn? Quando eu vim o negócio era meio brabo ainda (risos).

· E assim. O que o senhor achou quando você chegou aqui no Brasil? [Ahn?] O que você achou do Brasil assim que o senhor chegou aqui?

Ah, quando eu cheguei aqui no Brasil eu confesso: No primeiro ano, se houvesse uma estrada que fosse para Portugal, eu ia a pé pedindo esmola! (muitos risos)
Porque.. imagina só. Eu não era pobre...não era rico, mas também não era tão pobre assim, entendeu? E... me sujeitar a ser carregador de caminhão, com saco de farinha, com saco de milho, com saco de batatas, caixas de banha. Quando eu carregava caixa de banha de 60kg, aquela banha Itajaí, talvez não era do seu tempo é.. mas é.. tudo vinha em caixa, então o pescoço vinha assim (risos). Quando era pilha de arroz, a gente tinha que fazer uma pilha até lá em cima. Então a gente com o saco..é...com saco levava ele assim na cabeça, botava na mão e depois {torneava} ele, pra botar lá em cima. Então, eu ficava triste porque eu via uns rapazes lá mais pequenos que eu e fraquinhos e faziam aquilo como maior brincadeira! Eu mais, forte não fazia! (risada). Eu aí disse: “Eu tenho que fazer!” Até que me obrigaram a...eu..eu..comigo mesmo “Tenho que fazer!”. E com o tempo eu fazia..eu faria. Mas isso...eu fiz, mas isso levava muito tempo, entendeu? É.. levava muito tempo para fazer, e era muito difícil. Aqui, ao principio, quem vem, passa um pouco mau.
Agora, por exemplo. Não precisa escrever, não precisava. Assim eu subi no tempo do Dutra. O salário mínimo era C$600. Eu ganhava C$ 600. Então, o que eu ganhava, era pra minha pensão e pro quarto onde eu dormia. Não sobrava nada! Mas em Irajá tinha uma feira, na rua Cisplatina, que ainda tem hoje. E.. então, tinha lá um conhecido, um patrício, que precisava de um rapaz que resolvesse trabalhar na feira vendendo batata. Então...ao domingo, ao domingo eu não trabalhava, então... ele me contratou pra eu ir lá todos os domingos e me dava C$ 60.. por domingo. E se eu vendesse algumas batatas podres que ele tinha por lá, que era..que enganava o freguês e...pra ele nos dar....então ele nos dava, quando nós vendíamos aquela batata que era mais verde, nos pagava uma Malzibier e um sanduíche de carne assada (risos). Então eu...eu não tinha dinheiro, eu... não tinha quem lavasse a minha roupa, porque aqui não tinha gente pra lavar... tinha muita gente, mas cobravam.. naquela ocasião C$ 50, eu não os tinha...tinha que lavar a minha roupa, entendeu? (risos)
E... a gente, a principio, passa um pouquinho apertado. Depois que a gente já conhece, já começa a ter amizades, já começa a cuca a funcionando melhor aí a gente...(risos). Mas no princípio não é brincadeira, não.

· É..então, o senhor podia falar um pouquinho mais das dificuldades que você passou aqui? Assim, assim que você chegou?

Ah, já passei dificuldades.. Eu ganhava pouco, o que eu ganhava não dava para eu comer. Eu comecei... eu a principio comecei a tomar Malzibier, que era doce e...e tomava uma Malzibier por dia, metade ao meio dia e metade à noite. Mas por fim, o dinheiro não dava e deixei de tomar. Depois...mas quando chegava na parte da tarde, é... eu tinha fome. E então..e uma média com pão com manteiga, no botequim do lado, custava 800 réis... E uma dúzia de banana d’água... que um rapaz tava lá com um tabuleiro ao lado do armazém, custava 600 réis. Então, eu, para não gastar os 200 réis, eu comia uma dúzia de banana d’água, que era..era menos 200 réis, e me enchia a barriga (risos). E um pouquinho... eu tomava um copo d’água lá da Rio D`Ouro que passa lá em Irajá, eu já ficava bem, que dizer...e...não tinha outra coisa e eu já economizava os 200 réis. É...é triste de dizer, mas é a realidade, entendeu? E...quando eu lavava minha roupa, eu tinha uma tábua.. eu lavava roupa, tinha uma tábua... Então eu botava a calça certinha e eu passava uma mão assim, depois uma tábua, tipo um rodo pra ela ser vincada (risos); porque no outro dia ..eu tinha..eu tinha que vestir ela, entendeu? E..De maneira que..que tudo isso era dificuldade que a gente tinha. Eu hoje...pus-me pensando como é que eu fazia. Aqui...em Irajá não tinha correio, só havia correio em Madureira, na Estrada da Portela. Então eu quando queria mandar uma carta pra Portugal, pra..pra futura esposa, ou então pra minha família, eu vinha à Madureira. Pegava o bonde em Irajá e ia até Madureira. Que em Madureira.. o bonde vinha até a... atravessar a linha do trem. Não sei se é do seu tempo, mas atravessava e vinha até a Ministro Edgar Romero, até aqui em baixo, até o centro de Madureira. E.. Então eu vinha de bonde, mas é...eu vinha no bagageiro. Vinha o bonde era...o {621}.. Primeiro o da frente e o de trás, o da frente puxava o de trás.. lá ia. E.. como estava em Irajá eu via quando o patrício lá...quer dizer, sempre dava patrício lá.. tocava a companhia, tocava a companhia tin-tin, tin-tin, tin-tin e pra não criar essa (?), púnhamos no bonde. E aí... o bonde era 200 réis. Aí, eu ficava no bonde aí sentado...como se pagasse...como se fosse o...sabe com é? como se não tivesse nada.. Aí o patrício: “Peraí! Como é que é? Você não pagou!”, “Eu paguei sim”, “Pagou não, pago não!!”. Aí ele brigava comigo e eu pulava fora, quando vinha outro eu pegava outro (risos). Mas não gastava 200 réis, entendeu? Que dizer, por aí você nota que a ..a gente é... passa sacrifício quem não tem família aqui...que eu tinha meu pai, mas meu pai estava no cais do porto e estava em Niterói. E então, pra ir pra lá era muito {trabalheira de... viagem} e eu não podia. É.... agente só se encontrava aos domingos lá longe. Mas eu..não..não..não tínhamos nada. Agora, é...pra a gente juntar e pra eu pagar a minha passagem, que eu fiquei devendo dinheiro lá, eu.. levou dois anos para eu pagar a minha passagem. Tudo que eu panhava eu juntava...tostão por tostão pra pagar a passagem, porque senão meus pais tinham que pagar. De maneira que... a princípio, quem não tem família aqui passa mal, passa mal. Quem tem pai ou isto é mãe, quem tem família, quem tem família já... eles sempre dão mais conforto. Eu conheço alguns rapazes, que vieram para cá e já tinham família, já tinham cama, já tinha...tinha comida, já tinham alguma coisa para ele trabalhar e voltar. Porque trabalho tinha, só que era...ganhava-se muito pouquinho e..e.. as coisas também não eram baratas, não. E o dinheiro sendo pouco a gente tem que economizar, não é? Tem que economizar. E, por isso, a..a gente, a princípio... não foi só eu que fiz isso...que aconteceu não, foi com diversas pessoas, que eu sei que foi mesmo.. É...quem não tem, aqui, família para o amparo, fica sozinha sem saber o que vai fazer. E...e não conhecendo o dinheiro, às vezes não conhecendo... as coisas como estão aqui, a gente se atrapalha um pouquinho. Sofre um pouco, sofre. E...às vezes da vontade de...à noite eu dava vontade de chorar... um pouco, pensava... como é que estava lá...que eu não era rico, mas também não tava tanto na miséria, aqui eu tinha dinheiro e não tinha (risos)..E aquelas coisas...a gente, às vezes, ficava muito triste. Por isso é que eu disse: se eu tivesse uma via....depois não; nos primeiros meses, se tivesse uma estrada eu ia a pé pra lá, entendeu? Agora, todo mundo passa...todos os que querem vencer, todo mundo passa, entendeu? E eu posso dizer a você, que é que eu fui além um pouquinho... Que eu trabalhei trinta anos! Nota bem, não foi trinta dias, não. Trinta anos! Dezesseis, dezoito horas por dia. Então, às vezes digo aos meus filhos que eu já trabalhei mais de 100 anos! Porque eu abria a padaria às 5h da manhã, às 5h da manhã, e fechava à meia-noite e lavávamos a padaria, só chegávamos em casa as 2h da manhãs. Às 5h já tinha que estar lá!....Pra que? Pra se ganhar mais alguma coisa, entendeu? Para se aproveitar, porque se não...as coisas vão, mas com sacrifício. As coisas não vêm inteiras na nossa mão. E aquele que conseguiu alguma coisa, que não foi herança ou que não foi loteria esportiva, ele se sacrificou. Apesar que agora o tempo é mais livre, o tempo agora é muito mais, como se diz?...Tem muito mais liberdades, há mais opções para poder trabalhar... É...se você não quiser, não trabalha hoje...é..é uma questão de querer trabalhar. E...eu na verdade não queria...quiseram me levar para.. para eu ser pedreiro “Eu não..não quero, não. Eu quero é comércio”. Eu achei que tinha uma inclinação para..para..para comerciante e..e foi a carreira que eu segui e, felizmente, não me dei mal; mas passei por ela, passei por ela..

· E sobre o preconceito contra português aqui no Brasil? [Ahn?] Sobre o preconceito contra portugueses aqui no Brasil?

Bom, agora nem tanto, mas...antigamente, a coisa...nós éramos um pouquinho.. como se diz?...Um pouquinho estranho para as pessoas, embora falasse a mesma língua, mas sempre havia uma coisinha que afastava. Enquanto nós estávamos em Portugal e o brasileiro era muito bem vindo, aqui os portugueses não eram, porque os portugueses trabalhavam mais um pouco e não se incomodavam de horário e..eu... não é que eu queira dizer mal de brasileiro, mas o brasileiro não se esforçava..como estava na terra dele, ele não se esforçava. Então os patrões davam preferência.. a quem trabalhasse mais. E às vezes um brasileiro não tinha trabalho porque o português tava lá (risos) e ele trabalhava mais. É..e ele tinha um pouquinho de preconceito. Agora, não..Agora eu acho que não... as coisas mudaram. E acho...que agora não tem. Mas aqui.. o que ainda tem alguma coisa, é o negocio de..de..de cor, isso ainda tem alguma coisa por aí, que... a gente sabe que tem. Mas.. com português aquilo foi acabando, acabando...A..história de galego, de chamar às vezes, “Olha o galego aí”, apesar que ninguém de nós era galego. Galego é o espanhol que nasceu na Galiza, mas (risos). Como a gente trabalhávamos mais (sic), às vezes nos chamavam de galegos.
Agora...o preconceito aqui...eu não tenho..eu não tenho queixa nenhuma, eu vivi muito anos aqui, estou vivendo...nunca me aconteceu nada. Já fui roubado muitas vezes, mas isso é natural. Já fui roubado aqui em casa, eu dormindo...é ... eu dormindo é..eu com os filhos e...a esposa. Botaram uns pavios por de baixo das portas e nós ficamos doidos, quando acordamos de manhã, estávamos todos tontos. E eles botaram uma escada na janela e foram lá para cima, entendeu ? E... de maneira que depois nós soubemos que foi um rapaz.. Quando nós fizemos ali a piscina..Esta piscina foi feita por duas vezes, mas a primeira vez aqui não era...agora é que é academia, mas antigamente era só para nós. É.. então um empregado daqueles apanhou...o...mais ou menos as maneiras dos móveis daqui, ele veio aqui de noite, ele acabou...depois fugiu.. E...eu quando soube queria prendê-lo, mas eu nunca mais o vi, mas estava com risco até de morrer aí, porque ele podia nos matar..Nós ficamos dormindo, todo mundo, e quando acordamos de manhã tava tudo espalhado, a roupa espalhada..tudo.. Levaram ouro, levaram...a minha esposa tinha muito ouro, muito cordões daqueles que davam até quatro voltas no pescoço. Ouro de 18 quilates, era bom. Eles levaram tudo, caneta, levaram...muita coisa que..não nos abalou porque já tínhamos alguma coisa, mas levaram.
Já fui roubado na rua. É... me roubaram já dois carros... Me chamaram de uns nomes até meios chatos, mas é... que que eu posso fazer? Podia fazer nada.
Um dia eu estive aqui, estava com o carro aqui na porta num....eu vou apenas dizer...o que ele me disse...eu... o portão..é, é muito pesado e não abre com aquele...aquele... aquela facilidade que a gente tem de abrir os outros. Então, eu botei o carro em frente e vim abrir os portões. Quando eu olhei pro lado, não vi ninguém. Quando eu...Ali apenas tinha um latão da prefeitura daqueles grandões que leva lixo, estava aqui em cima, naquela época tinha um mercado, que era o mercado Leão, estava ao lado do mercado. Eu pensei..olhei pra lata..eu pensei..bom.. esse negócio da..de.. do Leão botar mercadoria, botar lixo. Quando eu abri o portão e fui pra fora, veio um fortão, mas forte que eu, me deu com a...me deu com o revolve aqui na costela e me disse logo: “Seu filha da puta!”. Desculpe. “Filha só da puta, viado! Me dá esse carro ai!” (sic). Eu só disse para ele assim: “Pode levar o carro, mas não precisa bater não rapaz, que isso”. “ARHHH!!”(grita, imitando o bandido). E virou e me deu um pescoção na cabeça. E eu caí, fiquei lá. E levaram o carro e foi embora. (risos)
Outra vez, eu tava na Penha e tinha um carro também, e... quando eu pus o carro lá na bomba de gasolina os... essa foi muito engraçada até, que eu ia para buscar um carro e tava por perto da casa, onde trabalhava, na rua Nicarágua, {então deixei ele na porta que casa} que , porque já ia fechar mesmo e ali era mais.. ali era mais.... menos perigoso. Então o.. camarada chegou lá e..me disse assim: “Me dá esse carro aí”. Falei para ele: “Porque rapaz?”, “Me dá esse carro!Se não eu te fuzilo!” e logo pôs as armas. “E faz uma coisa, bota a mão para cima...bota a mão por cima”. Então veio outro e... ver se eu tinha alguma coisa e “Olha, tá tudo dentro do carro”. E eu fiquei assim com as mãos (junta as duas mãos e levanta os braços). Umas pessoas freguesas nossas lá da casa comercial me viram e disseram “Olha, seu Antônio tá rezando!” (risos). O cara me botou...o cara me mandou botar as mãos pra cima e eu fiquei assim até...(risos) E quem me conhecia dizia que eu estava rezando (risos).
São coisas passadas que a gente...acontece, que dá graça, mas é agora; mas na hora não dá graça nenhuma não, tá entendendo?...
Mas eu acho que não tem..Eu, por exemplo, não tive...fui comerciante aí muitos anos... É...tivemos diversas casas... Depois tinham uns rapazes, meus amigos, que vieram lá...da mesma freguesia..e nós fazíamos...então fizemos uma firma com...com..sócios e com diversas casas. Todo mundo era igual e.. todo mundo no fim do mês prestava contas, mas nós éramos donos de algumas casas. Então.. Ah, roubar..e aí..a gente já sabia que tinha..que às vezes ser roubado mesmo, porque eles viam quando a gente tinha dinheiro, quando não tinha... A gente se prevenia um pouco, mas deixava para lá.
Mas o resto não, eu fiz muitos amigos até aqui.. arranjei muita amizade mesmo aqui, tanto no distrito, como na fiscalização, como..como até na polícia. É..é.. às vezes fazia um almoço pra um, às vezes dava alguma coisa para outro...e...um conhecia o outro. E o fiscal...Me perdoa, mas todo fiscal gosta de uma notinha, tá?..E então, ele às vezes passava lá...”Este mês tu não me deu nada”, “Então pega lá” ..Aí ele ía, ”Vai lá que naquele cara que ele é boa praça”.. Então, quer dizer.. uns passavam pros os outros (risos), mas porque levava..E a gente já botava isso na despesa e acabava.. Não tenho queixa, tanto é que eu me naturalizei brasileiro. Tenho título de eleitor, tenho tudo, porque eu tenho ....quase já fiz.81 anos, vou fazer 82..e eu só tenho 20 e poucos de Portugal. Então, meus filhos estão aqui, minha...minha...o que eu ganhei está por aqui e..e em Portugal eu já perdi minha família toda, só tenho irmãs e sobrinhas, e não devo de ir lá mais. Fui lá agora a pouco tempo, mas agora não devo ir mais, não compensa mais.. é muito cansativo e se gasta muito para me levar... Tá boa, mas tá muito cara e não compensa mais. Depois que você perde os seus íntimos mais fortes...e...como eu estou aqui..eu e outros mais há muitos anos eles não dão tanto valor a gente, entendeu? Passa-se a ser um outro mundo. Aquelas pessoas que..que.. estavam na nossa época..elas morreram.. a maior parte morreu, outras foram pra França, pro Canadá, Estados Unidos.. e então ficaram aqueles mais novos que passaram... a gente agora a conhecer, porque eles... nem nos conheciam a nós.. nem nós a eles, então não há aquela...já não há aquele carinho..

/ Pequeno intervalo para trocar o lado da fita /


Fita 1, lado B (ou CD 2, faixa 1)

Sumário (pp.13- 24):

(p.13) Afeição por alguns bairros do Rio de Janeiro – Relacionamento com outros portugueses – Reunião de comerciantes portugueses e suas famílias – (p.14) Ajuda mútua entre portugueses – Português era muito unido – Comércio quase todo tomado pelos portugueses – (p.15) Patrícios não faltam ao enterro de um amigo – (p.16) Portugueses já não vêm mais pra cá: Preferem a França ­– Fartura da mesa portuguesa – (p.17) Gosto tanto pela música portuguesa quanto pela brasileira – Religião: Católico Praticante – (p.18) Santa de devoção: Nossa Senhora do Sameiro – Torce pelo Vasco da Gama “para não fugir à raça” – (p.19) Copa do Mundo: Atualmente torce mais pelo Brasil – Corresponde-se através de cartas com os parentes que estão em Portugal – (p.20) Afeição pelo Carioca e pelo Rio de Janeiro – Relacionamentos: Primeira e segunda esposa.

· A que costume brasileiro o senhor teve assim mais dificuldade de se adaptar? [É..em que tempo eu.. eu... eu tive dificuldade de me adaptar aqui?] Não, a que costume brasileiro ou carioca o senhor teve dificuldade assim.. de se adaptar?

Não! Eu me acomodo muito bem. Eh..eu...Porque eu...tem dois lugares que eu estive mais tempo e eu gosto até muito. O primeiro é Irajá, foi quando eu fui...a primeira vez quando eu vim, fui trabalhar lá; depois viemos pra Madureira - e gostei sempre de Madureira - e por fim, vim pra Jacarepaguá em... 1960. Em 60 viemos aqui para a Praça seca...até hoje. E..um lugar que eu gosto é a Praça Seca. Já quiseram me levar para outro lugar..Não, não vou... Ás vezes, vou pra São Lourenço, porque eu tenho lá um apartamento e fico só em São Lourenço, mas eu gosto dessa Praça Seca, apesar que a Praça Seca não cresceu nada, mas gosto da Praça Seca. É...se me queria levar para outro lugar não vou.

· E você se relacionava com outros portugueses aqui?

Muitos. Muitos, muitos..Tem turma de português que nós já (?). Tem aqui aquele cara de Coimbra...e tem é..e tem um outro que é...(?) ai meu deus..tem um aqui em Jacarepaguá que vai me lembrar daqui a pouco. Mas a gente se reunia. Outras vezes nós íamos à...no..no..Rancho das Veigas, que fica lá na Penha. Então a gente se juntava com.. na Fazenda Marapendi tem um que vive lá. A gente com a aquele título, comprava o título e aos domingos, nós nos juntávamos lá. Iam os comerciantes.. Eu era comerciante, comerciantes iam pra lá, levavam suas famílias, cada um levava uma coisa e no final é.. a comida era pra todo mundo, entendeu?! E um levava o arroz, o outro levava a batata, o outro levava o vinho..cada um levava por livre arbítrio... E as mulheres ficavam lá tratando da bóia. E nós íamos jogar natas, íamos jogar malha , íamos jogar bola e a gente se juntava muito. Lá mesmo se juntava muito. Muito, muito, muito. Aqui mesmo...eu vim..muitas vezes, eu chamei os rapazes da minha idade, que andavam comigo na escola – tinha aqui muitos –, nós às vezes fazíamos...eles vinham pra aqui é...num domingo, no domingo seguinte eu ia pra casa deles, depois ia pra casa dos outros...Nós andávamos igual a ciganos...távamos num , távamos no outro. E até hoje ainda tem muitos aí. Se morrer alguma pessoa da família a gente vai no enterro, custe o que custar, vai embora...só se tiver doente. Vai no enterro, vai na missa de sétimo dia...né, aqueles antigos ainda são unidos a mesma coisa. E o português aqui tem uma coisa..tem..uns com os outros...quem for correto e ..quem for correto, que não seja 71, que seja trabalhador e honesto, os portugueses ajudam...ajudam. Tá precisando? Então diz: “Olha, fulano está precisando”, “fulando tá..”. A gente sabendo que ele é trabalhador também, e se tiver dinheiro, empresta. Já fiz isso muitas vezes, fizeram também uma vez comigo..Que às vezes a gente também bota a mão onde não pode. Temos uns seis apartamentos ali na Rua Domingos Lopes, muito bons...e...eu comprei não tinha um centavo (risos)..não tinha um centavo. Então eu..mas me ofereceram e “Eu vou comprar”. Aí fui na..telefonei pra um, telefonei pra outro.. “Olha, custa-me tanto. Quanto é que você tem pra me emprestar?” “Ah! Eu te empresto, pode deixar!”. Aí..me emprestaram, eu comprei os apartamentos e..até hoje tão lá! Só me custou a entrada, que a prestação, depois, o próprio apartamento foi se pagando...entendeu?! De maneira que isso foi, isso foi, foi... isso se fazia mesmo..é...não havia...e até hoje, eu conheço ainda muitos,..até hoje se alguns precisar um dos outros, a gente ajuda. E até não cobra juros e empresta sempre pra outros e “olha, só paga quando você quiser”...quer dizer, até hoje, aqueles antigos....os novos não porque agora não vêm mais pra cá, mas..vão mais pra França; mas o português era muito unido sim....era mesmo muito unido. E o comércio aqui também antigamente era quase só português, né?! Botequins, armazém, antes de ter esses supermercados, essas quitandas, esses armazéns, tudo isso, botequins...tudo isso era quase patrício. Então nos conhecíamos os outros e..de maneira que eu tenho ali uma placa ali, na entrada da porta, não sei se já chegou a ver, que diz assim: “Se vens aqui como amigo, entra que a casa é tua; se não vens, também te digo, é melhor ficar na rua – Vila Parada de Gatim”, quer dizer..lá não era Vila, era Freguesia, né..Aliás, muitos passavam por aqui e viam “Parada de Gatim”; aí perguntavam ao empregado , conforme tava ele, nós tínhamos um jardineiro aqui –:
“Vem cá, esse moço aqui é de Parada de Gatim?”
“Eu não sei, não”, diz aqui o empregado, “Sei, não”
“Onde é que ele está?”
“Ah, está lá naquela padaria”.
Eu estava naquela Padaria Marangá que hoje é a drogaria Pacheco. Ali era uma padaria, não sei se você lembra. De maneira que tava lá e...daqui a pouco o cara entrava lá mandava vir um chope e...não me conhecia...mas dizia assim: “Eu quero saber quem é que é de Parada de Gatim!” (risos) Aí eu chegava perto dele: “Queres tomar um chope de graça? Podes tomar até dois, rapaz!” (risos) “Você é de Parada?” “Não, eu sou de São Romero, sou de São Martinho, sou de (?), eu sou até...daquelas regiõezinhas pequenas como aqui...eu sou do Tanque, eu sou da Taquara, ou tu é da Praça Seca, ou tu é do Campinho é...então a gente não sabia, mas naquela hora começava a perguntar..“Olha! Vamos almoçar então qualquer dia!”, “Tudo bem! Iremos almoçar!”(risos) E.. aqui e ali ainda tem..na Barra tem uma casa garopa, que todos os domingos tem um almoço quase só pra portugueses. É caro. Não é todo mundo que pode ir lá, mas come, bebe do bom e do melhor e..há fartura, mas quando chega a vez dele pagar tá tudo sem dinheiro (risos). Um vai lá e paga, mas o outro também tem que pagar, não é só..não é só comer não, também tem que pagar e..mas é um lugar (?). A gente manda ofertas de fim de ano, se comunica, telefona, feliz aniversário, festa...se tem enterro então..se tiver um enterro então é que é...eu..faz me lembrar quando infelizmente perdemos a nossa filha.... no Jardim da Saudade, quase não cabia gente lá; e aqui, esta Igreja que tá aqui..ela é pequena para a gente que estava lá. Ela tinha muito conhecimento. Ela já trabalhava em Vargem Grande e dava...já tinha uma parte da academia ali em cima na rua, já estava se preparando para essa daqui, de maneira que além da nossa família, além de conhecidos dela de faculdade..então, tinha tanta gente ali, nossa senhora! E os patrícios, que eram nossos conhecidos não faltavam de jeito nenhum: “Se precisar de um apoio estamos aí”, “Tens um apoio”. E também faço a mesma coisa. E a gente faz mesma coisa. Eu tenho ido a muito lugar.. Eu outro dia fui à Niterói numa missa de sétimo dia, que um rapaz morreu e era dono de uma padaria lá e faleceu. Á toa. Disse que tava assim e caiu pro lado e (?), problema do coração. E me telefonaram e eu fui. “Português vai”....Fui embora...tinha que ir, né..porque é tradição..tinha que ir. Eu..tive uma vez um tio aí...ele era tio do meu pai..é...já.. sobrinho dele era meu pai. Ele morava em Rocha Miranda e perdeu a família toda, só estava com a neta e depois ele faleceu, mas ele já tava com noventa e tantos anos. Eu só vim conhece-lo aqui, lá não o conhecia. Aqui é que me disseram quem ele era. Cê sabe que nós fomos lá, mas só tinha quatro pessoas (risada). Era o bastante para pegar o caixão. Por que? Porque os amigos dele todos se morreram, os conhecidos todos morreram e ele tava meio esquecido..só não tava pra nós, que nós éramos...fazíamos parte de alguma coisa de...de família, mas o resto não. Nós fomos lá no enterro, levamos ele lá pro cemitério...e ele só..ele deixou uma neta. Tem uma neta lá, que às vezes ainda me telefona.. e às vezes a gente ainda se fala. Mas o...aqui os portugueses se davam bem. Agora já..agora não quase mais nenhum. Agora você procura um por aí não...não tem. E eles.. faziam muita...havia, às vezes, muita confusão, havia muita coisa pra ver, muitas casas pra ir...mas agora não há tanta não. Eles vão muito pra França. Na França eles ganham bem, o dinheiro agora é o euro e..é igual a Portugal, é a mesma coisa...eles ganham, talvez, em dois meses, eles ganham o que eles ganhavam num ano em Portugal. Os salários, de acordo com qual é a profissão, são mais altos; eles vão muito pra lá. E eles lá vão de ônibus, têm ônibus que vai de Portugal pra Espanha, vai pra França, vai pra Alemanha. Tem {cadeira} de ônibus que vai...tem.. é..lá é comboio, aqui é trem; tem os trens, aqueles trens de luxo também, que atravessam as fronteiras todas, e.. agora...antigamente tinha lá sempre que ir com a carteira pra mostrar, agora não precisa mostrar a carteira, agora não, todo mundo é igual.

· Seu Antônio, e aqui na sua casa, na sua família [Ahn?] Aqui na sua família, como vocês se alimentavam? Tinha muita comida da terrinha...?

Tá. Tinha, tinha. Olha, a princípio não, porque não podia. Mas quando eu pude, eu fazia questão de..à segunda-feira, muitas vezes, fazia uma feijoada, é... na terça-feira fazia um cozido, na quarta-feira a gente já fazia bacalhau (risada), entendeu? É...todas...era uma coisa assim diferente. Não era todos os dias a mesma coisa (sic). Em comida, não é que eu queira engrandecer os outros, mas o português em geral e todos, eles são.. são fartos na comida. A comida do português ele..ele não aperta a mão não, eles dão. Eles podem ser apertados em uma coisa, mas pra comer eles..eles não tiram o sustento não...eles..eles.. podem até andar mal vestidos, com uma roupa mais fraca, mas na alimentação eles não tiram não, não tiram não.

· E que tipo de música vocês escutavam? Algum tipo de música portuguesa?

Ah! Escutávamos! Amália Rodrigues eu escutava muito, o Roberto...o.. é..o Roberto Ribeiro, quer dizer..que é também um grande cantor, mas já faleceu, tinha uns outros que eu também sabia, mas.. mas..era.....era muito conhecido aí... até que ele morreu aí, eu sabia, mas não veio mais à memória. Mas nós escutávamos os discos de lá. Ah, e também nós gostávamos dos discos daqui: Carmem Miranda, que ela tinha...ela..como se diz...era portuguesa, mas morou aqui, foi pros Estados Unidos, ela tem mais cartaz aqui do que tinha lá. Mas ela cantava aquelas modinhas de lá mesmo e a gente gostava. Na verdade gostava das músicas portuguesas e as daqui também! Uma..uma..uma música que..como se diz...foi duas..que uma tocou muito até meu coração, foi uma do Roberto Carlos, quando ele fez uma música para a mãe dele, Madre..como é que é...Madre Laura, né? “Leva pra casa..”[1] (risos) E aquela dum outro que..que é a Índia, Índia é meu... “Índia é meus cabelos” (risos) Eu gostava dessa música. E outras mais que a gente gostava, né, mas é..às vezes o trabalho não...não dava pra gente ficar assim, não. Agora é que eu deixei de trabalhar, eu posso escutar e...mas antigamente não...não podia perder tempo, não.

· E qual a sua religião, Seu Antonio? [Ahn?] Qual a sua religião?

A minha religião? [Isso.] Católica. [E você tem algum santo de devoção?] Católica e como é que se diz....é...como é que é o negócio? Católico e...e..eu..como é que é essa palavra que se pode indicar é...meu deus...Praticante! Eu sou católico praticante. Mas não vou contra as outras religiões; cada um vai à sua. Porque deus...pode quem quiser ir a..ir ter com deus, há muitos caminhos... pra ele, depende da maneira como se vai e..mas eu..a gente..o português quase todo mundo são católicos. Lá, os padres lá dominavam e ainda dominam o povo. Mas eu sempre fui católico, vou à missa todos os domingos, comungo todos os domingos e na páscoa a gente faz alguma coisa mais esforçada, quer dizer..eu ainda tenho essa tradição; já meus filhos, não. (risada) Não querem saber. Até os vinte anos eu consegui levá-los assim, depois dos vinte anos eu não consegui mais nada e um dia eu fiz...tava, aqui, um padre que era muito nosso amigo, Padre Gilberto, e eu fiz queixa a ele:
“Padre Gilberto, meus filhos tão assim, tão assado”.
Diz ele: “Não têm vinte anos?”.
“Têm”.
“Então, o problema é deles. Você criou os filhos, mas não são mais teus, não. Eles é que têm a vida deles, têm que procurar. Você não..não se incomoda, não, que (risada).. que você não manda mais neles, não.”
E aí eu deixei à vontade, cada um seja o que quiser.

· E você tem algum santo de devoção? [Ahn?] Algum santo de devoção, o senhor tem?

Tenho uma santa. Nossa Senhora do Sameiro. Sameiro, porque é o lugar onde ela está. Antigamente a gente é...posso dizer...a padroeira de Portugal antigamente era a Nossa Senhora do Sameiro, assim como a daqui era...como aqui é a....era a Nossa Senhora da Aparecida, não é isso? Aí depois que apareceu é...veio o aparecimento de Fátima, então Fátima ficou maioral, fizeram um templo muito grande. Uma coisa enorme! Um terreno maior do que essa Praça Seca é...e gente lá é...centenas de pessoas...quando é no 13 de maio...todo dia 13 assim, {no verão}, é tudo cheio é...mas antes disso a Nossa Senhora do Sameiro...que eu que era de Braga e que estava...eu morava perto...então eu sempre tive muita devoção por Nossa Senhora do Sameiro e qualquer coisa que eu tenho eu (risada)...lembro dela...lembro dela.

· Agora, falando de futebol. Pra que clube o senhor torce? [Ahn?] Pra que clube de futebol o senhor torce?

Bom, eu para..para não fugir à raça, eu torço pro Vasco. É.. não dos apaixonados, nota bem, não sou apaixonado... Já fui muitas vezes é..no Maracanã, já fui em São Januário, já..já..um dia quando o Tostão foi comprado, não sei se você sabe essa história do Tostão...Vasco comprou o Tostão, Tostão era do Cruzeiro, mas ele estava meio cego já, então venderam ele para o Vasco e o Vasco perdeu ele..que depois ele foi para os Estados Unidos e perdeu... e então, o turno do Campeonato Paulista, eles perderam na ocasião e..e como eu tinha padaria..e todos aqueles que eram fregueses...todo mundo ajudou a pagar o...a pagar o... o Tostão porque o Vasco não tinha. Depois se perdeu tudo...Que o Tostão era, na ocasião, era o apogeu, mas ele foi pra uma..foi pra.. pra..como se diz..foi jogar lá fora e... mas ele tinha um problema na vista, e quando chegou aqui, os médicos do Cruzeiro viram, mas os do Vasco, parece que engoliram mosca, e não viram e ele aí não pode jogar mais...até que o... ele é médico, mas não é...mas agora não é mais jogador porque ele..ele estava...como se diz...bichado duma vista. Ele é do tempo do Pelé. Antes do Pelé, o Tostão era o ídolo..dele..era o Garrincha, o Pelé, o Gerson e o....e o...e esse Tostão também era..também era um grande jogador, foi um grande jogador; depois que ele teve problema na vista é que não.

· E durante a Copa do Mundo? [Ahn?] Durante a Copa do Mundo? Na última, por exemplo? [Nessa última?] O senhor assistiu onde?

Não, eu..Foi uma decepção. (risada)

· É..E o Sr. torceu pra Portugal, pro Brasil?

Olha, quando eu....eu vou ser franco. Quando é.. joga o Brasil, lógico que eu sou pelo Brasil. Quando joga Portugal eu torço, vou lá. Mas agora, sinceramente, agora já torço mais pelo Brasil, porque Portugal tá sempre fraco, então aí..(risos) eu aí fico sempre do lado do melhor. Mas não sou apaixonado, nem sou...nem pratico nada, porque que não tenho tempo.

· Você procura ter notícias de Portugal? [Ahn?] O Sr. procura ter notícias de Portugal?

Eles me escrevem. Todo mês eu recebo cartas e escrevo carta também pra lá. [O senhor..] Nós temos lá...nós temos... ainda tem muitos primos lá, ainda temos duas irmãs, temos sobrinhos e a gente se corresponde muito com lá. Inda agora chegou um rapaz de lá e trouxe um litro de azeite, daquele bom, colhido lá, que a família...as minhas irmãs mandaram..para cá, que é para o fim do ano e...então eles, é..é..a gente se corresponde com eles só.. só que não pode ir lá sempre, porque não adianta agora.

· O Sr. se sente um pouquinho carioca? [Ahn?] O Sr. se sente um pouquinho carioca?

Eu gosto do carioca. Eu gosto do carioca. E gosto do..do.. Rio de Janeiro. E, confesso, nunca tive mal, nem nunca me fizeram mal; mas não vou com São Paulo não vai, não entra nenhuma, eu gosto do mineiro. Eu tenho um apartamento em São Lourenço e o mineiro eu acho muito bom. Mas não pode enganá-lo! Se enganar ele, tem um inimigo! Agora, se não enganar ele, ele é muito sincero. Agora o resto, eu já subi aqui o Norte, mas aí eu fui..andamos uma vez vinte e dois dias, com três carros e, primeiro nós fomos lá na Festa da Uva e corremos o Rio Grande do Sul todo. Depois fomos pro Norte e..só tive aquele contato assim na hora do hotel, na hora que a gente chegava, na hora que a gente saía, não tenho...não conhecia nenhuma...mas de preferência eu...Ás vezes eu fico triste, porque tenho uma filha em São Paulo e...eu digo “Volta pra cá, garota! Vem pra cá!” E ela também não gosta muito não, mas o marido dela tem um emprego muito bom lá então..tá, tem que aproveitar. Agora o paulista é muito fechado; já tive lá muitas vezes e eles se trancam. O carioca é mais alegre! (risos)

· E o senhor se sente um pouquinho carioca assim...você se sente?

Eu me sinto sim, eu me sinto



· Bom, Seu Antonio, como você conheceu a sua esposa? [Ahn?] Como você conheceu a sua esposa? [Quando eu conheci?] Como, como? [Como eu..A d´agora? Sabe que eu fiquei viúvo...] Uhum.

A primeira eu conhecia lá na terra. Ela é minha vizinha, ela era costureira, quer dizer..e tinha um armarinho. Fazia roupa e vendia roupa feita. E como nós éramos vizinhos, a gente..logo de pequeno começou gostando um do outro; sendo que a mãe dela não gostava muito que...disse que ia...a filha dela não podia trabalhar na lavoura que..o negócio que era muito melhor. Mas, o destino é quem sabe, né? Ela não queria namorar mais ninguém, eu também não queria...E chegamos a ponto, pra não haver guerra pra ela nem pra mim...pra mim não porque ninguém me dizia nada, mas ás vezes a família dela, a mãe dela não gostava muito; e nós...ela mesmo...a mulher é muito inteligente...é muito mais até do que o homem. Bom, ela mesmo arranjou um buraco numa parede lá da loja dela e toda semana...ela botou uma pedra na frente do buraco.... e toda semana eu ia buscar uma carta e trazia outra dela. (gargalhadas) E assim vivemos muito tempo e quando....eu estive casado com ela há 47 anos e até hoje eu...não é que eu desgosto desta que esta é também muito boa pra mim, mas...amor, só um. (silêncio emocionado) Eu sinto aquele amor {permanente} pela minha esposa...{eu ainda gosto muito dela}. Agora esta que está aqui é... foi a casualidade. Ela trabalhou comigo em Irajá, naquele armazém; ela era a caixa. Eu sou mais velho do que ela oito anos. Ela estava na caixa e eu estava no balcão e..e..de vez em quando ia entregar algumas compras..ela ficava ali. Mas é que depois eu vim pra padaria e ela ficou lá no armazém com o irmão dela que chegou de Portugal; foi ensinar o irmão e ficou por lá. E aí... casou, arranjou lá um camarada lá, e casou com um brasileiro aí; embora ela seja portuguesa, mas ela casou com um brasileiro. O marido dela era filho de português e então enquanto o pai foi vivo tudo ocorreu muito bem; mas depois que o pai dele faleceu, ele...o pai dele tinha bastantes propriedade, mas como ele começou a beber e a fumar e acabou com a herança toda deles. E ela já tava casada com ele, com duas filhas. Então ele um dia bateu nela e..não dava nada dentro de casa, andava com uma amante dentro do carro...E um dia elas resolveram, a mãe e duas filhas, sair de casa e foram pra Copacabana, com uma conhecida que estava lá; alugaram..uma quitinetezinha pra elas ficarem – as três – e começaram vendendo roupa. Iam à Petrópolis, naquela rua que tem lá, que é.. a rua dos..a rua que vende roupa e andavam vendendo roupa por aqui. É.. mas voltando, ela foi lá pra Copacabana e eu vim pra...pra Jacarepaguá e passou-se uns vinte e tantos anos que eu não..não a via. Eu sabia que ela morava em Copacabana, sabia que ela tinha duas filhas, eu sabia que ela ficou viúva e ela também sabia que eu estava viúvo, mas o nosso encontro..nunca encontramos. Um dia eu fui visitar um rapaz muito um amigo que ainda está vivo é.. na Praça Saens Peña, na Conde do Bonfim, aonde ele tem uma casa comercial; e eu estava me despedindo dele, que eu fui visitar ele, tomamos um café, começamos conversando...estava visitando ele, quer dizer, conversando com ele e aí veio aquela moça assim parecida...na própria calçada..e eu disse pro...“Olha a Rosa Moreira lá!”; e ele “É mesmo, é mesmo”. Ele admirou, foi lá ver e eu também, porque nós sabíamos que ela existia, mas...lá em Copacabana. Quando ela veio, nos..nos conheceu logo e..nos cumprimentou, cumprimentamos ela e houve aquela satisfação de encontro entre três pessoas que já há muito tempo não tinham se visto. Eu mais ele, de vez em quando a gente se encontra, mas ela não. Então ela disse assim...conversamos um pouquinho e ela disse:
“O que tá fazendo por aqui?”
“Eu vim visitar aqui o Eduíno”. Eu é que...: “O que você ta fazendo aqui? Você mora lá em Copacabana! Grã-fina mora em Copacabana.”
“Não! Eu agora eu moro aqui no Rua Uruguai!”
“Ah! Mora aí! Tá bom...meus parabéns..”
“Tudo bem? Eu tenho duas filhas. Não quer vir conhecer minhas filhas..e..e ver minha família que é aqui pertinho?”
Eu disse pra ela: “Ó, Rosa, hoje não. Porque eu tenho um compromisso em São Lourenço que..a minha esposa..tinha falecido há um ano e pouco..e eu estava com o inventário daquele apartamento lá.” E eu disse: “O inventário lá já acabou e eu tenho que pagar o {Estado}, e vou lá ficar talvez uma semana ou três dias. E..e quando eu vier, depois eu vou na tua casa. Mas num...nunca eu pensei que eu ia casar outra vez...Até porque eu dizia a todos que eu não queria casar mais, é...”mulher pra mim só uma” e..tava..pensava assim.. Mas o tempo é que foi me obrigando..a gente viu o quanto custa ficar só. Aí, mas ela ficou..ela..então nós dois se despedimos, e eu fui pra São Lourenço, tratar de pagar o inventário lá. É em São Lourenço o apartamento e tá até no nome da filha que está em São Paulo e ...eu não sei quem lhe deu o meu telefone. Ela pediu o telefone lá de São Lourenço, a alguém aqui e..e um dia à noite me telefonou. O telefone tocou e eu:
“Alô?”,não sabia quem era..
“Olá, Antonio! Tudo bem?!”
“Quem é que ta falando aí? Quem é que ta falando?”
“É Rosa!”
“Ô, Rosa! Que que há contigo? Tá doente, cê tá com algum problema?”
“Não, não! Eu lembrei de telefonar pra você..pra ti”
“Tá bom..ora..”
{“Sabes quando é que vens aqui pra baixo?”}
{“Olha, eu ainda tenho aqui uns dias pra me demorar. Porque vim tirar uma certidão e eles não me dão na hora.} Mas lá pro fim da semana eu vou.”
“Tudo bem.”
Fim da semana, de fato, eu vim; e naquele...naquele dia que eu cheguei aqui mesmo, ela ligou aqui pra casa – no apartamento que a gente mora – pra saber se eu cheguei bem, se eu não cheguei...Tá bom.
Eu disse: “Olha, cheguei bem, tá tudo bem. Consegui fazer o que eu quis, paguei tudo, tá em nome da filha de... que tá lá em São Paulo e..se eu morrer aquilo já é dela e acabou.
E ela disse pra mim:
“Quando é que vens aqui na minha casa pra conhecer as minhas filhas e a minha família?”
E eu disse: “Olha, quando você quiser..”
“Vem cá domingo?”
“Vou.”
Fui lá domingo...
“Mas vem cá almoçar conosco!”
“Tá bom..”
“Ver o meu genro, ver os meus netos..”
Ela tem dois netos e duas filhas. Uma filha é solteirona e a outra..é casada com dois filhos. Um.. dos netos trabalha até na Globo agora. E...de maneira que então eu fui, almocei lá..e a conversa, conversa puxa conversa e...e ela já estava viúva há quatorze anos. E...e eu disse pra ela:
“E como é que é? Você está sozinha...A casar-se?”
Diz ela: “Não..mas é muito chato estar sozinha..Ui..É horrível! A gente...os filhos são bons, mas vão pra qualquer lugar e a gente fica só..Como é que é triste ser sozinha..”

“Ah! É assim mesmo! Nasceu só tem que morrer só.”
“Ah, mas não tá bem não, ta bem não..”
É..mas como estava todo mundo ali conversando e eu não me abri com nada, não disse nada e..e viemos embora. Eu vim me embora e ela veio comigo até o portão...disse pra mim:
“Volta..volta-te aqui, ou então telefona pra gente, pra gente ter um contato mais afetivo depois..”
Resultado: Dia seguinte ela me telefonou é...que ela vinha aqui em Madureira e...se eu queria tomar um café com ela com a cunhada dela.
“Não. Na casa da tua cunhada eu não vou, porque não gosto muito de ir pra lá. Mas eu posso tomar o café cá fora , não tem problema, eu tomo o chope, tu tomas o café. Aí a gente foi. Aí fui lá em Madureira, ela apareceu no local que tinha...E... Ela tomou um café, eu tomei um chope e ficamos conversando ali, quase umas duas horas. Então cada um de nós tinha uma história pra contar e umas lágrimas pra chorar. Sendo que as minhas eram boas recordações...Graças a deus...que Deus me conserve sempre assim..Não sei.. sei se eu mereci, se foi..só sei que eu só tenho recordações boas da minha família, só..da minha filha, da minha esposa. Eu choro, choro sim..É..é (emocionado) por nada quando falam o nome delas. E ela não. Tinha revolta do marido dela. O marido dela é..bateu nela, deixou ela sem nada, vendeu tudo, deixou elas na miséria. Então, a gente se conversando e..e..na mesma hora, surgiu uma conversa dela:
“Ah, você ainda podia casar outra vez, ainda tá muito novo!”
Digo: “Não..eu tô velho..já estou daqui a pouco com oitenta anos...então tô velho.”
“Ah, que nada! Também já tenho quase 70, mas..”
Aí...Conclusão: O fogo começou, a chama começou (risada) se acendendo, entendeu? Ela começou me telefonando e eu telefonava pra ela à noite. E...a conversa foi, conversa vai..toda semana eu passava a ir almoçar com ela, mas não na casa dela. Que eu disse: “ Não vou na tua casa mais..senão..”
/ corte por falha da gravação /

/ Pequeno intervalo para troca de fita /


Fita 2, lado A (ou CD 2, faixa 2)

Sumário (pp.25-33):

(p.25) Proposta de casamento pela, agora, segunda esposa – (p.26) Segundo casamento apenas no religioso, para não prejudicar a herança dos filhos – Levou a segunda esposa à Portugal – (p.27) Bom relacionamento com a atual esposa – Primeira esposa deixou família e trabalho em Portugal para casar-se com ele no Brasil – (p.28) Primeira esposa e filha mais nova, ambas falecidas, deixam muita saudade – Primeira esposa: o grande amor –– Foi feliz nos dois casamentos – Todos os filhos já foram a Portugal – Duas filhas estão naturalizando-se portuguesas – (p.29) Relação muito boa com os filhos – Triunfar em país estrangeiro é uma questão de sorte – (p.30) Brasil é um país muito bom, mas está atravessando por uma fase ruim – Políticos só pensam em interesses particulares – Violência – Polícia tão culpada quanto “esses vagabundos” – Corrupção dos políticos – Governo Lula “não vai pelos pobres” – (p.31) Desigualdade – Queria Brasil melhor para os netos – Não vem mais português pra cá– O mundo sabe de tudo que se passa aqui – Brasil podia ser a maior potência do mundo – (p.32) Não tem vergonha se dizer que é português, nem que se naturalizou brasileiro – Sente-se igual a portugueses e igual a brasileiros – Só disse a verdade nessa entrevista – Habilidades e amigos ajudaram para seu triunfo – Bloco de ajuda mútua – (p.33) Encontro de portugueses em clubes aos domingos – Doenças e preocupação com a saúde – Realizou tudo que pediu a Deus.

/ continuação /
A gente é... passou a almoçar um dia por semana lá na Tijuca. Qualquer restaurante. Passávamos a tarde assim conversando. Mas eu confesso, já não estava..eu já não estava tanto a fim de ficar só. E ela...há muito tempo que ela não queria. Então, há um tempo que ela queria encontrar uma pessoa, mas que ela conhecesse e que ela soubesse que tivesse que lidar. Então a gente discutiu isso assim e um dia eu disse pra ela assim...que ela disse: “não, podíamos juntar os trapos um dia...e a gente podia casar, então. Eu vou com você pra onde você quiser lá pra cima, perto dos teus filhos,e.. a gente podia casar.” Aí eu disse pra ela: “Bom, lembra-te bem, eu posso fazer isso, porque é bem pra você e bem pra mim. Bem pra você, que você vive com dificuldade e bem pra mim, porque eu levo uma pessoa conhecida e...que eu conheço há muitos anos e que trabalhou comigo, que a tua mãe me deu pensão muito tempo – a mãe dela morreu aqui e me dava pensão – e...mas eu quero te explicar: tudo que eu tenho.... – porque às vezes pra não pensar que eu estava.... pensou às vezes que eu estava pensando é...prejudicar meus filhos – então eu disse pra ela assim: “eu tenho alguns bens, você sabe, mas eu tenho comprometimento com meus filhos. À minha morte, tudo é dos meus filhos”. E isso já foi feito enquanto a minha esposa era viva, por conta de uma nora que nós tivemos aí, que era mulher do Antônio Augusto que está ali. Não sei se você soube que ela até depois fugiu com um rapaz, depois morreu...um caso sério. Mas ela era...que deus a tenha onde ela merece, porque ela..ela fez umas coisas muito, muito chatas. Mas eu disse então pra ela: “É..tudo que eu tenho, á minha morte, é dos filhos. A única coisa que eu posso fazer....juntar alguns trocados que dá, e...podemos casar, mas só pela Igreja. Porque se casarmos pelo civil, eu vou prejudicar meus filhos. E eu não quero prejudicar meus filhos, que eles não merecem; eles são meus amigos...ela depois..inda há pouco tempo eles...eles lembraram aqui que eles me deram uma festa surpresa, quando eu fiz oitenta anos, encheu aqui a casa e eu... quando eu cheguei..fui à missa...tá aqui a casa aqui cheia de gente (risada) uma festa de surpresa dos meus oitenta anos. Mas então..o genro dela até ficou admirado. Então eu disse: “Olha, por conta da Tânia, e ela ainda era viva, eu fiz isso mais a minha esposa, mais a Francelina” ,que ela também conhecia. “Então, a única coisa que tu podes ter é algum dinheiro que eu posso te deixar e...porque o que eu tenho é tudo deles.” E ela disse: “Eu só queria...eu só queria arranjar uma casinha pra eu morar aqui...pagar aluguel não é fácil.” “Bom, isso aí..”, eu disse pra ela, “isso aí a gente pode tentar”. Então, já temos um dinheiro na Caixa....no Banco do Brasil e....um pouco na caderneta de poupança e vez em quando a gente bota lá 5, bota 10, pra casinha dela. Eu disse à ela:
“Se quiser..se quiser uma casinha aqui por cima, já dá. Um apartamento aqui já dá. Mas você só quer... gosta da Tijuca. Tijuca é tudo mais caro.”
“Não! Mas tu não vai morrer tão cedo, não! Eu vou pedir a deus pra tu não morrer tão cedo que é pra eu...que é pra eu ainda poder comprar minha casinha lá na Tijuca.”.
“Tudo bem”
Se ela concordou...E outra coisa que eu impus: “E não levo ninguém. Íamos casar sozinhos..” Que eles queriam....queiram fazer alguma coisa pra nós....algum ajuntamento, alguma coisa.....quando eles souberam que...quando eu resolvi então casar, eu....juntei os filhos e falei com eles. Escrevi pra Portugal, pra minhas cunhadas que estão lá...o que eu ia fazer...elas também conhecem..Depois levei ela lá a Portugal...Todo mundo gostou porque éramos conhecidos e viam que eu agi com lealdade e....e então, o ..aqui, por exemplo, na Igreja onde casamos, lá na Tijuca, só estava eu, o padre e duas moças que ajudam lá na Igreja, foram as testemunhas (risos) e dali, dali nós fomos pra São Lourenço, uma semana depois viemos e juntamos a família toda, mais de 200 pessoas aqui na Gruta do Barão, aí eu paguei o almoço pra todo mundo e aí é que apresentamos como casal (risos). Agora, resumo da história, pra minha opinião: Alguém nos juntou. Nem ela me procurou, nem eu a procurei. Nenhum de nós procurou! Nós nos dávamos bem, ela é muito minha amiga; ela é mais nova, tem mais vitalidade de que eu; ela me faz tudo que eu...tudo pra mim, quer que eu precise; ela não tem.. não quer que eu saia de casa sozinho; que às vezes eu tenho problema, eu tenho...sou diabético...eu já não escuto bem..eu tive um problema de audição, comprei uns aparelhos pra botar...me custaram dez mil e quinhentos reais, mais só vivem quinze dias comigo, um mês lá no conserto..quer dizer..então agora eles tão lá. mandaram fazer outros novos e eu reclamei assim, mas aí eu vou pro Procon..que não pode ser... “Vocês me enganaram”. E...mas ela vai comigo pra qualquer lugar, eu andei tratando glaucoma, tenho até um irmão que morreu disso...aqui das vistas e...eu fui me consultar num médico em Bangu, ela sempre vai comigo..ela nunca..eu também não a nego nada, não. Ela hoje disse “Eu vou tomar um café com a minha filha”, “Pode ir, não tem problema.” Ela me deu o almoço e ela lá foi. Eu também não a contrario, mas ela também não me contraria, ela já conhece mais ou menos o que eu gosto, ela faz aquilo que eu gosto...estamos vivendo muito bem, graças a deus; mas não esqueço a outra, não. Eu estou de bem com esta, nota bem, eu me dou bem com esta, ela faz tudo pra mim, eu faço o que eu posso por ela, não há queixa de parte à parte... mas a outra...(silêncio emocionado) [Bom..]... a outra deixou a mãe dela, deixou a terra que ela nasceu, deixou um negócio que tinha de fazendas, ela tinha umas quatro ou cinco costureiras trabalhando pra ela, deixou tudo e veio pra cá. Não tínhamos nada um com o outro. O primeiro..o único beijo que demos um no outro foi quando eu vim de Portugal e que eu subi no navio...que ela mais a irmã dela vieram ao porto e uns parentes meus também, vieram ao porto se despedir de nós..no cais do porto..Foi o único beijo que eu dei nela, no rosto, do lado, que lá em Portugal naquela época se desse um beijo na boca ou um beijo qualquer a moça já estava difamada, entendeu? (risos) Já não casava mais. Então, havia aquele respeito mútuo. Eu fui...ela foi minha esposa e eu marido dela, mas depois deu casar. Antes de casar, eu sempre respeitei ela, ela também respeitou e.. por causa disso, que eu vivi muito bem. E.. nós educamos os filhos..os filhos são meus amigos e por causa disso eu sinto saudades...dela. Não é por que eu esteja mal, não. Graças a deus, eu tenho pra comer, pra beber..não to querendo contar vantagem nenhuma, mas..quando eu morrer meus filhos não precisam trabalhar que tem é...que se conservar o que eu deixo, eles têm...têm coisas que dá pra eles. Deus me...Deus me ajudou muito, muito, muito. Agora, eu nunca pensava que chegava aonde cheguei...Agora, não posso esquecer a minha filha mais nova....minha esposa (muito emocionado)...Eu considerava elas a pedra fundamental da minha família. (silêncio muito emocionado)... O primeiro foi ela e em fim vem outra filha mais nova...que eu adorava. Que ainda agora fui no cemitério, vou lá...Tem um rapaz que eu pago todo mês uma mensalidade pra ele me tratar da cova..{Fui lá dia 2 agora}, fui levar a rosa..quer dizer, todo mês eu vou no Jardim da Saudade. Não tenho vergonha de dizer que choro (silêncio, com olhos rasos d´água, muitíssimo emocionado) ....E...não tenho vergonha de dizer que eu gostava dela, entendeu? E...e...mas eu gostar dela, também não tira nada de eu gostar desta, né? Que esta agora é a que está comigo...E esta é boa pra mim. Mas é aquela história é...primeiro amor é o tal.. Aquilo que a gente passou...Eu chegava em casa, ela nunca estava aborrecida comigo (voz engasgada de emoção), eu às vezes tava nervoso, porque nem tudo corria muito bem..ela vinha logo “Que que tens? Que que tens? Que que fizeram? Que é que aconteceu com você? Que é que tu queres?” Ela se preocupava muito comigo, entendeu? Porque a gente consegue construir alguma coisa, mas... através de muito sacrifício. E pra manter é...a gente pra manter aquela honestidade, aquele nome..que ..que..eu acho que o nome de uma pessoa vale muito e eu procurei sempre conservar e.. de maneira que eu às vezes chegava em casa triste e ela queria saber...porque que eu não dizia porquê.. senão, ela não descansava. Agora, não desprezo esta que está aqui nada; ela é boa pra mim, é ótima, tudo bem...eu farei tudo que puder por ela..E eu posso dizer que eu fui feliz nos dois casamentos.

· E seus filhos, Seu Antonio? Sobre seus filhos...é..é..Você conversava com eles sobre Portugal...?

Meus filhos já foram todos a Portugal, que eu levei. O...a mais nova foi umas duas vezes ou três, a outra foi..e foi nos Estados Unidos..os outros também foram. Eles..eles gostam de Portugal. Tanto é que as duas filhas estão se naturalizando portuguesas, quer dizer..Então, elas estão...Como agora há esse entendimento, elas não perdem a cidadania brasileira e passam a ter a cidadania portuguesa também. Porque eu sou português, a mãe também é..E eu há dois anos fui lá, então deixei tudo escrito e agora meu sobrinho foi esse ano lá a Portugal e tava com os documentos todos e a Lúcia já tem o documento de ..de..de Portugal e a lá de São Paulo também está tratando disso...O filho é que não; o filho é...ele não deu sorte com a esposa que viveu.. e ele era bom demais e...ele não quis casar mais. E tem uma moça que é sócia dele, não sei, lá numa casa que eles têm lá no Méier...eles compraram essa casa lá no Méier e ela também é desquitada do marido, tem dois filhos...Não quero me envolver na vida dele, não sei o que ele quer, não tenho nada a ver...Só tenho a dizer que meus filhos são muito bons pra mim. Muito, muito..e se souber que eu tenho alguma..alguma uma dor..uma no dedo, se souber..ah, vão logo em cima! Porque eles..eu sustentei muito bem, eu procurei dar o conforto, o que eu podia...alguns até mais que eu podia...Quando eles casaram eu dei casa a cada um, quando eles fizeram quinze anos eu dei festa a todo mundo é...dei o que podia! Quando ele fez dezoito anos... eu fiz cinqüenta e ele fez dezoito anos. Eu paguei quinhentas e tantas pessoas que estavam ali na Gruta do Barão, quando foi isso...ele com dezoito e eu com cinqüenta. Então, é..é.. aquilo... nós éramos um bloco. Até hoje, somos um blocozinho assim, pequeninho, mas somos. A de São Paulo não passa...dia sim dia não me telefona pra ver como é que eu estou, a daqui também fala comigo toda hora, o..ele também vem aqui..Eu, se eu puder ajudar eles eu ajudo, nota bem, eu ajudo..Faço o que eu puder por eles. A Lúcia andou..andou..com problemas por causa da casa; ela morava num apartamento nosso, ela não queria morar, então eu passei uma casa a essa, ela comprou uma casa. Eu fiz tudo por ela e não fiz mais nada que a minha obrigação, entendeu? Mas os meus filhos merecem, porque eles sempre foram meus amigos, também sempre me respeitaram muito. Não tem nada a ver com isso..a vida é deles. Agora, elas querem a cidadania portuguesa, mas ele não deve querer, não.

· É..e o que você diria pra alguém..[Hum?] O que o Sr. diria pra alguém que quisesse sair do seu país pra ir tentar a vida em outro lugar? [Se eu dissesse a alguém pra ir tentar...?] Não, o que você diria pra alguém que taria saindo do país, do seu país, pra ir pra outro lugar tentar a vida?

Olha, isso é uma sorte...que a gente tem. Eu não quero eu..eu..dizer..eu não quero dizer mal do Brasil é.. mas quero dizer uma coisa que é realidade: O Brasil está bom. E é um país muito grande, mas ta atravessando na minha opinião uma fase muito crítica. É...O rico, cada vez mais rico, a classe média passou a ser pobre, e o pobre passou a ser miserável. (silêncio) Entendeu? (silêncio) É o que eu penso. Antigamente o rico era rico pra sempre, mas havia classe média que...coisa e tal. Hoje a classe média é pobre! Eu me considero é..é..como se diz?.. de classe média, mas pobre! E o pobre miserável! Porque (?) as coisas assim.. sem pé nem cabeça..as coisas sem..sem pensamentos assim..Não pensam no..no país, eles pensam no bom interesse deles. Eu até ..eu não gosto de ler jornais, por que eu só vejo “roubou aqui, roubou lá”, “morreu...”, “mataram pra roubar”, quer dizer, só se vê escândalos aqui. E...e a polícia é tão culpada, quanto esses vagabundos..Esses morros é..é.. cheios de vagabundos, porque o governo também aceitou, deixou fazer aquilo tudo, entendeu? E agora, os vagabundos têm mais poder do que têm a polícia, não sei se você sabe...É! São eles que.. são eles que... Ainda agora mataram uma menina de ..de..numa favela, que estava brincando lá.. de bicicleta mais a vizinha, veio uma bala perdida e matou a moça..a menina.. de sete anos...quer dizer..Pra um pai ou pra uma mãe (?)..Isso todos os dias acontece..Isso acontece todos os dias, né..Porque a própria polícia está infiltrada no meio. Pode ver..esses caras que vieram agora..deputado, senador, deviam ter vergonha de ser deputados e senadores e..e..roubar o país, entendeu? É..é..como roubaram aí..tem o “Mensalão dos Correios”, “Mensalão” de de..como é que se diz?..é..é..das..das..dessas..dessas eleições.. Todo mundo..todo mundo só quer ganhar..não distribui nada pra ninguém. Aqui tem muita miséria! Eu andei, eu andei pelo Norte e {tive o desprazer} de ver..pessoas..muito pobres. A vida deles num..barraquinho..feito de madeira..quando vem assim um pedaço de chuva, leva tudo, entendeu?...Quer dizer...O governo que diz que vai pelos pobres, não vai, não...Olha, eu não sou contra o Lula, não sou contra ninguém, mas ele disse que ia pelos pobres, mas eles...o maiores ladrões são os amigos dele! (entonação forte da voz) São..é é..e agora? Vai se fazer o que? Se há ladrão.. deputado, foi do PT. Não é que eu queira criticar..não voto mais em ninguém...podia votar, mas não voto mais em ninguém.. Mas se só se vê nesses grandes políticos..roubalheira. E quanto mais..e quanto mais rouba, o Brasil mais rico é. O Brasil é um país muito rico que dá tudo e tem tudo. Mas tem que ter governo, pra saber governar e saber aplicar o dinheiro..E por isso que o Brasil fica assim nesse estado, né..Há uma desigualdade muito grande. Eu ás vezes passo ali..por aqui..vem um camarada “Oh, por favor (?) Paga um cafezinho pra mim que eu não tomei café hoje”...Às vezes já são três horas da tarde..Aí eu dou um real, alguma coisinha...”Obrigado.” Mas aquilo corta! Aquilo dói, entendeu? Aquilo dói! A gente ver essas pessoas que quer trabalhar às vezes e não têm aonde...Outros também não querem trabalhar, mas também não se interessam, não vão roubar, né..E..aqui há um pouco de desigualdade..aqui é...Não que eu tenha queixa! Eu to bem, graças a Deus! Ninguém me faz mal..Pra mim não..Pra mim pode ser qualquer...agora pode ser qualquer filho da p... que vier por aí, que pra mim não vai mudar nada..só mentira..(risada) só mentira, entendeu? E...não dá. E..agora, eu gostaria de ver um Brasil melhor para meus netos. Que até para meus filhos já está meio difícil, né...Mas, e agora pra aqui pro Brasil não vai mais gente..português não vem pra cá não..de jeito nenhum! Eles sabem, através dos jornais, de notícias de televisão..sabem o que está se passando aqui...tudo, tudo, tudo. É...internacionalmente o mundo sabe o que passa por aqui. Os americanos sabem tudo, os ingleses também sabem..franceses, portugueses...Todo mundo sabe, acredito, que roubam muito...Não..eu fui..fizemos uma viagem...Cidade Maravilhosa, saímos daqui na agência Abreu..E andamos 32..32 países por lá. Pagamos aqui em dólar, fomos pra lá e tudo bem. O povo lá, não é tão mendigo, não vive tanto na miséria.. Existe mais igualdade de pessoas! Todo mundo trabalha, faz alguma coisa, ganha seu dinheirinho, mas..mas vive! É..aqui..eu fui ao Norte, com dois casais, fomos lá ao Norte...Que que eu vi? Pobreza! Como é que eu vi pobreza...nossa senhora! Nós fomos...eu quis ir mesmo na...naquelas cidades mais afastadas..Vimos o principal e vimos o..o que era bom e o que não era bom. Não é fácil , não. Por duas vezes nós fomos interrompidos de viajar, por causa desses sem-terra. Fizeram um cerco, botaram umas cordas e não passava ninguém. E...crianças. E os grandões tavam lá atrás com as armas. Eles tavam nos pedindo dinheiro. Então a gente dava o dinheiro que queriam..não exigiam. Ele dava dez a um, vinte a outro e assim...Então tiravam a corda e iam embora...Quer dizer..a que ponto nós chegamos..de ele botar a corda ali pra ..para obrigar a pessoa a dar o dinheiro. Então você dá porque não quer morrer, não quer fazer nada...E por isso o Brasil é muito bom, é muito rico mas..se os outros países tivessem aqui..tivessem a riqueza que tem aqui..queira nem saber! O Brasil podia ser a potência maior do mundo, porque aqui...a terra brasileira..ela produz duas vezes por ano se for preciso. Ela dá frutos duas vezes por ano! Enquanto na Europa só dá uma vez...difícil; aqui é duas vezes. Planta, daqui a pouco já pode colher. Aqui não. Aqui o clima ajuda e as coisas ajudam, mas...como a gente não manda nada, deixa isso pra lá.

· E o que significa ser português pro senhor? [Ahn?] O que significa ser português pro senhor? [O que significa pra mim, eu ser português?]

Olha, não..Eu sou português..Não tenho vergonha de dizer que sou português, não tenho vergonha nenhuma de dizer que..que me naturalizei. Que alguns diz que “Ah! Tu te vendeu, Antonio! Tu te vendeu!”. (risada) Não vendi, não. É que meus netos estão aqui e.. meus filhos estão aqui..eu fiz aquilo que queria. Eu não vendi Portugal, porque eu ainda sou português. Eu tenho documentos portugueses, eu vou lá, eu entro, tudo bem..Só que a minha moradia agora é aqui (risada). E..e eu não tenho nada de complexo com o brasileiro e com o português..eu não..Pra mim, me sinto igual a todos..E lá me sinto igual a eles, aqui me sinto igual a todos aí também.

· E o Sr. gostaria de acrescentar mais alguma coisa? [Ahn?] O Sr. gostaria de acrescentar mais alguma coisa na entrevista?

Não!!! Eu..eu..se você quiser mais alguma coisa, pergunta. As fotografias estão aí. Agora se você tiver mais alguma coisa pra perguntar, pode perguntar.

· Bom, por mim tá legal..Eu queria saber o que você achou da entrevista.

Ah, a entrevista tá boa! Tá bem! O..o..que eu não menti nada, só falei a verdade, entendeu? E disse a realidade. O tempo bom que eu..o tempo ruim que eu passei e o tempo bom, que depois eu adquiri com certas habilidades, certos amigos..é..o conjunto de..de patrícios amigos Que..um só não faz nada! Mas três ou quatro valem alguma coisa. Então é nesse bloco que eu entrei, nós éramos todos honestos e tínhamos diversas casas, mas o cofre era um só. Então chegava no fim do ano, tanto pra um, tanto pra outro..ninguém reclamava..e todo mundo ficou bem! Tá entendendo? Porque a gente era honesta. E trabalhava-se. Não era esse negócio de não..de ficar em casa (risada) Não tinha disso não. Agora, ás vezes aos domingos a gente se juntava e ia pra um clube, ia pra alguma coisa, fazia uma festa..é..muitas vezes a gente fez isso. Agora nem tanto porque eu já..eu...eu agora sou diabético e eu não posso nem comer, nem beber certas coisas; porque eu...minha esposa morreu diabética, o meu irmão, que era mais novo do que eu quinze anos, faleceu por ser diabético por que ele não ligou importância e depois o glaucoma atacou-lhe aqui as vistas, ele ficou cego e depois os rins dele pararam e ele tinha que fazer hemodiálise dia sim dia não pra tirar uns dois, três litros de água, senão aquilo ia pro o pulmão e de repente ele foi..estava no hospital e deu um derrame ele faleceu lá mesmo. E eu..e eu..agora me previno de muita coisa porque ..por causa da minha saúde, pra poder viver mais alguma coisa. Mas eu sei bem que já tenho..já fiz oitenta e um anos e agora vou fazer, daqui a pouco, oitenta e dois..quer dizer..Já não é brincadeira...já não é brincadeira. E pelo sacrifício que eu já tive eu me considero realizado. Eu realizei tudo que eu pedi a Deus eu realizei. Trouxe minha mãe aqui duas vezes...ela teve aqui no Brasil duas vezes...Eu queria que ela ficasse aqui..eu já tinha essa casa aqui.. “Ah, meu filho...Não..eu quero morrer na minha terra...eu quero morrer lá..” (risos) É.. muitos parentes já vieram aqui nos visitar..a gente ia buscá-lo lá no Galeão e passava aqui uma semana. Depois eles andavam...ia pra São Paulo com eles..e eles também tinham outros parentes em São Paulo..outros portugueses...iam pra Rio Grande do Norte...fomos a Caxias do Sul, também tinha lá uns conhecidos nossos..quer dizer..também quando nós íamos lá, às vezes eles também nos levam pra algum lugar..então é...havia aquela troca de gentilezas, (risada) entendeu?

Seu Antonio, muito obrigada. Foi ótima a entrevista..


FIM

[1] O entrevistado refere-se à canção “Lady Laura”, de Roberto Carlos.

1 Comments:

  • Muito legal, sempre passo em frente ao casarão e vejo aquela placa, sempre me despertou muita curiosidade. Gostaria de saber quem é o autor? É o próprio entrevistado? “Se vens aqui como amigo, entra que a casa é tua; se não vens, também te digo, é melhor ficar na rua – Vila Parada de Gatim”.
    Abraços!
    Sathya Beltran (jornalista)

    By Blogger Excluído, at 6:19 PM  

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