<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-38027118</id><updated>2011-04-21T20:15:32.803-07:00</updated><title type='text'>Fado Tropical - Imigrantes portugueses no Rio</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>33</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38027118.post-117057647310652355</id><published>2007-02-04T00:04:00.000-08:00</published><updated>2007-02-04T00:07:53.123-08:00</updated><title type='text'>Entrevista Fado Tropical no. 27: Mário Duarte Ribeiro</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Entrevista Fado Tropical no. 27: Mário Duarte Ribeiro&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FICHA DE ENTREVISTA PROJETO FADO TROPICAL:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Código da entrevista: EFT 026&lt;br /&gt;Data de realização da entrevista: 09/11/06   &lt;br /&gt;Local: Macaé – Rio de Janeiro&lt;br /&gt;Entrevistado (a): Mário Duarte Ribeiro&lt;br /&gt;Data de nascimento: 09/ 02/ 1943     &lt;br /&gt;Local: Moura Morta – Portugal&lt;br /&gt;Data de chegada ao Brasil: 24/ 08/1961      &lt;br /&gt;Local: Rio de Janeiro&lt;br /&gt;Profissão atual: Comerciante&lt;br /&gt;Profissões anteriores: Comerciante&lt;br /&gt;Estado Civil: Divorciado       &lt;br /&gt;Filhos: Duas filhas  &lt;br /&gt;Netos: Três&lt;br /&gt;Entrevistador: Rossana Agostinho Nunes&lt;br /&gt;Curso: História                &lt;br /&gt;Período: 6º&lt;br /&gt;Gravação: Em fita cassete&lt;br /&gt;Nº de fitas: 1  &lt;br /&gt;Duração total aproximada: 42 minutos&lt;br /&gt;Nº de páginas do depoimento transcrito: 19&lt;br /&gt;Data da conferência: 18/11/2006&lt;br /&gt;Data da assinatura da carta de cessão: 1/2/2007&lt;br /&gt;Fotos: Não&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Projeto “Fado Tropical” – História Oral&lt;br /&gt;MR: Sr. Mário Duarte Ribeiro&lt;br /&gt;RN: Rossana Agostinho Nunes&lt;br /&gt;Local:Loja do entrevistado, Centro, Macaé.&lt;br /&gt;Data: 09 de novembro de 2006.&lt;br /&gt;Código da entrevista: EFT 026&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN:  Como era a vida da sua família em Portugal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: é, pois é, sobre trabalhar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: È, a sua vida em Portugal, antes de vir pro Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Lá a vida da gente era trabalhar na roça. A gente lá trabalhava na lavoura, lá é uma coisa muito difícil por causa do gelo. Nós lá só trabalha nove meses. Três meses a gente não faz nada. Por que o gelo não deixa. A gente tem que fazer tudo, colher, os nove meses. Nos nove meses a gente tem que, tá ligado já?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Tá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: A gente tem que fazer tudo aquele nove meses. Pra não, naqueles três meses, nem todos os anos é a mesma coisa, mas a maioria é o gelo, não deixa a gente trabalhar. A gente fica em casa, a gente lá não é igual aqui no Brasil, a gente lá tem o mês certinho pra plantar. Se não plantar naquele mês acabou. Não planta mais, só no outro ano. A terra lá é uma terra muito cansada, não dá. É um país muito antigo, as terras muito, não é igual aqui no Brasil, você aqui não tem, não tem  verão, não tem inverno, não tem nada, lá não, lá vem aquele inverno que a neve fica dessa altura. Você não pode sair de casa. Por lá a vida é, por isso que o pessoal vem pro Brasil e não vai mais embora. Isso aqui é  é um paraíso. Chegou um cara ali. É um paraíso isso aqui, é muito bom, não tem coisa melhor. Agora o Brasil, a maior parte ao dia não trabalha. E lá não, lá a gente aqueles nove meses só trabalha. Eu vou dar um recado a ele para ir lá em cima.&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: E o sr. poderia falar só mais um pouquinho sobre a cidade que o sr. morava lá? Como que era a cidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Bom, hoje deve ter modificado, mas pouca coisa porque a nossa cidade lá não tinha nada. Não, naquela época já tinha um comércio. Um senhor que até pouco tempo estava aqui no Brasil, ele foi pra lá e montou um comércio, mas ele era português. Aí montou um comércio, mas não tinha nada, a gente lá andava, andava, por exemplo, com os animais, com os gados, as ovelhas, essas coisas, mas do resto não tinha nada, a gente vivia daquilo e da lavoura. E aquilo na época que eu vivi lá foi quando acabou a guerra. É muito difícil, então a gente apanhou aquilo, porque eu já me lembro que a guerra era de 43 e aquilo ali, então, a minha terra não tinha nada. Só tinha, nós tinha só a roça, vivia da roça. Do plantio, do coisa, ninguém tinha um carro, ninguém tinha nada era só os carros de boi, o, aquilo que chamava, aqui é cavalo, mas lá era aquele burro pra carregar as coisas, mas aquilo era um ou dois que tinham. Porque era muita pobreza. Um lugar muito pobre. Então por isso que a gente, olha, por exemplo, nós mais ou menos éramos vinte e nove rapazes. Nós vinte e dois ou vinte e três viemos pro Brasil. E outros foram pra África, ficaram lá uns dois ou três só. Todo mundo saiu. Agora o povo lá é um povo assim muito aventureiro. Sai, procurando, sem destino, pra ver, mas é obrigado. Por que aquilo ali a gente não, ali a gente vive daquilo pra comer. Não tem nada. É um, aquilo não é nem uma coisa, é uma aldeia que a gente chama. Hoje já tem casas melhores, o pessoal, os imigrantes que chamam, vão pra fora e constroem casa lá. Então as casas boas são do pessoal de fora. Os caras estão ali, é aquela, aquilo a vida toda. Nasce, morre naquilo ali, não conhece nada. Nós pra pegar uma condução anda dois quilômetros. Não tem. Luz, fomos nós que botamos, não foi o governo, que o governo lá não é igual aqui. Aqui o pessoal fala que é o governo, lá não, nós cada um ajudou um pouco para colocar a luz. Não tem. Quando eu vim pra aqui não tinha luz não tinha nada. Não tinha nada. Era um lugar muito, lá não tinha banheiro, não tinha nada. Na época que eu fui criado a gente não tinha nada. Era uma aldeia, morava ali umas cinqüenta ou sessenta famílias que não tinha nada, a pessoa vivia daquilo ali. E o lugar que tinha que plantar naquela época certa, senão não dá. Se viesse uma geada que queimasse tudo a gente passava fome. Era! Hoje não, hoje já tá igual quase ao Brasil, por que eu tive lá há dois anos. Quase igual ao Brasil. Mas, aquilo lá é muito difícil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Lá se falava do Brasil? Falava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Gostava...é todo mundo é já se falava naquela época que o Brasil era muito bom. Ah o Brasil, Brasil! &lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;Acho que foi por isso que eu vim parar aqui. Lá  naquela época se falava do Brasil. Todo mundo dizia que o Brasil era bom. Só que a gente quando chega aqui tudo é diferente. É o costume, é a cultura, a gente pensa que é fácil, mas quando chega aqui também não é. Mas naquela época a gente já ouvia falar do Brasil. E os antigos, antes de mim, eles já vinham pra aqui. Iam pra lá, já contavam mais ou menos como é que era o Brasil, a gente pensava que era diferente. Quando chega aqui não é fácil não. Pessoa vem sem destino, sem nada, muito difícil, muito difícil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Então a idéia de vir para o Brasil surge desses contatos, dessas pessoas que vão falando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: É. Vão falando, vão vendo, e a gente aí se anima pra, pra vir. Mas que não é fácil não, mas lá a gente falava muito do Brasil. Mas eu não gostava de vir para o Brasil, gostava de ir pra Angola. Mas só que quando eu cheguei pra ir pra Angola eles queriam duas passagens. Eu falei então se eu vou pra minha terra, que Angola naquela era época era de Portugal, se eu vou pra minha terra, que era Angola, então eu vou para o Brasil que eu só pago uma passagem. E aí paguei uma passagem só. Mas eu já vim legalizado para o Brasil.&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;[3]&lt;/a&gt; Foi lá um moço caçar daqui, que eles lá tem aquelas épocas de caçar. Lá não é igual aqui não. Se pegar uma pessoa fora da época vai presa que não sai. Lá todo mundo ainda tem medo é de justiça. Justiça lá não é. Aí eles num tinham coisa, eu era garoto, [?] tinha meus dez ou doze anos, aí eu pedi a ele pra levar, pra levar a merenda que eles davam dinheiro a gente, a merenda então eles iam pro mato, lá caçar e a gente ia com a merenda nas costas. Ah, eu falei com ele: ah o senhor é do Brasil? Pois sou. Eu disse assim, ah eu queria ir para o Brasil. Mas eu queria ir legalizado. Olha você vê, eu já não queria vir como, sem legalizar. Ele olhou, olhou e disse assim: eu vou te mandar uma carta chamada. Eu disse o senhor manda, manda. Mas, veio embora, isso foi não sei que mês. Veio embora pegou [?], pegou tudo. Quando foi dia 27 de Abril de 1961 minha carta chamada chegou lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: E o sr. não conhecia ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Não, ele era, tinha tado aqui muitos anos, ele era de lá. Um moço de lá. Mas eu nunca pensei que ele fosse mandar por que era uma responsabilidade. Eu de menor e mandar uma carta de chamada sendo meu responsável. Por que se eu não desse aqui ele era obrigado a colocar me lá de novo. É uma responsabilidade, tá doido, e se acontecer um troço, ele era como se fosse meu pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: E como que era essa carta de chamada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Ele vai no consulado, com meu nome, ele tem que ter um comércio aqui, tem que ter condições, não é uma pessoa empregada que pode mandar vir. Aí ele tinha que ter tudo. Aí ele foi e mandou uma carta, como responsável por mim. Aí eu fui tratei da documentação,então fiquei abril, maio, foi dia 27, abril não, maio, junho, julho e só vim em Agosto. Já vim com tudo certinho. Com a minha documentação tudo certinho. Aí eu vim pra cá, mas foi difícil. Esse aí a gente vai demorar um pouquinho, vc espera?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Espero.&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;[4]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Seu Mario como que foi a viagem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Pra vir para o Brasil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Eu vim de... Como é que eu vim né? Eu vim de navio. Navio, doze dias. Levei chegando de lá aqui. A viagem até foi uma viagem muito boa. Vim pelo navio. Quem, eu já viajei de navio já outras vezes, mas a primeira vez eu não [?] de navio, enjoei muita coisa. Ai, foi muito difícil. Mas é quem gostar de navio, agora já viajei outra vez de navio já gostei. Já não enjoei mais. Agora a primeira vez enjôo muito. E quando eu cheguei aqui que eu avistei aqui o Rio de Janeiro eu olhei, não gostei não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR:Não. A gente vem de uma cidade de um país para o outro é muito difícil. Vem de lá, criado lá de outra maneira, e vir pra aqui a gente chega aqui estranha. O que eu estranhei mais aqui, por exemplo, foi o calor. E eu cheguei no mês de Agosto. Por que a gente vem acostumado do frio, chega aqui no calor. Saímos lá de Lisboa, num frio de doido, e era em Agosto, já cheguei aqui no mês de Agosto tava quente. Olha é muito difícil, mas a gente com tudo acostuma. Tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: O Sr. veio sozinho pra cá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Sozinho, eu e Deus. È difícil, né! Com dezessete anos vir pra aqui, muito difícil. Se tivesse talvez um, um, naquela época, se tivesse uma estrada era capaz de eu ir a pé. {risos} Que jeito. Olha, me arrependi muito. Eu não gostava do Brasil não. Eu fui acostumar...eu fui embora. Fiquei aqui cinco anos e meio e fui embora outra vez. Só que eu  já não me acostumei mais lá. Aí que eu fui ver o que era lá e o que era aqui. Fiquei lá um ano, um ano e pouco, lá em Portugal. Depois eu vim e nunca mais fui pra lá não. Nunca mais quis ir pra lá não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Mas, mas  porque que o Sr. não gostou do Brasil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Não gostei. De maneira nenhuma. Não gostava do Brasil. Não adiantava. Tinha nada, eu só queria ganhar dinheiro para eu ir embora. A gente [?] da passagem, trabalhando de empregado, pagar a passagem que era mil e tantas dólares e depois eu pensava depois que já ganhei para o da passagem, dizia assim, poxa ficar lá, chegar lá sem dinheiro nenhum. Aí fiquei, fiquei, fiquei, mas quando eu fui já tava aqui em Macaé. Tava ali. Mas eu fui pra ir embora, só que cheguei lá não me dei mais lá não. Aí eu quis voltar outra vez, aí nunca mais gostei de lá. Só gosto daqui. Ah, eu quero ver eu ir pra lá. Em 87 depois de vinte anos, eu fui em 67, em 67, 77...em 87 eu tornei a voltar para ir embora, mas aí depois fiquei lá um tempo, aí já só levei uns meses, quatro ou cinco meses, aí já não, aí então que eu não gostei mais de lá. a gente acostumado. Sabe por que a gente chega aqui estranha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Hã?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Por que o povo brasileiro com tudo ruim que tem no Brasil é o melhor país e é o melhor povo que tem. O povo lá você mora perto de um vizinho, é vizinho, ele nem bom dia te dá. Não. O povo lá é tudo fechado. Não indica nada a você. Nada. Agora se eu conhecer, que é criado junto, é fácil. Mas se chegar uma pessoa lá estranha não consegue não. De maneira nenhuma. Aqui não, o povo brasileiro já vai indicando, já vai levando as pessoas já vai tudo. Brinca. Eu achava difícil era um pouco a brincadeira que o povo tinha aqui. Ah, não gostava nem por nada. Aonde eu fui trabalhar? Em Caxias. No meio daqueles motoristas de lotação, que você nem se deve lembrar mais. O pessoal brinca, ah eu achava muito ruim. Lá o pessoal não brinca não. Ah lá, é duas coisas que lá a pessoa respeita muito é brincadeira e a policia. A gente lá respeita muito a polícia. Aqui não. Pra você ver no meu lugar que nós mora, até hoje não tem policia. Não tem nada. A pessoa lá, a policia é muito pouca, tudo, porque a pessoa lá respeita muito, o pessoal se respeita muito um ao outro. Você sabe o que eu acho aqui do Brasil, lá? eu fui lá há dois anos. Você tá num lugar a pessoa é conhecida, aqui se fizer uma coisa dessas é...Lá você vê uma pessoa, vai numa festa, vai num coisa, você é vizinho, que foi criado, têm a mulher do outro você botar ela dentro do carro e diz assim: oh vai comigo, aí a pessoa vai, chega, deixa ela lá em casa, ninguém fala nada. Aqui, faz aqui no Brasil pra ver! Oh, lá já é diferente. Lá o pessoal não tem, assim, agora quando é estranho êê, nem falar fala. A pessoa que vai daqui pra lá, conheci lá muito brasileiro , eles dizem que tá lá muito bem, mas não vem embora que é difícil. Agora não, agora já tem tudo.  Mas ainda tudo, Brasil, com tudo Brasil ainda é umas das melhores terras que tem. Muito bom isso aqui. Pra se ganhar dinheiro, pra tudo aqui é muito bom. Lá a vida é muito difícil. Agora lá o que é difícil também é o gelo. Você fica três meses no meu lugar, que o meu lugar é muito alto, não trabalha. Só cai aquele gelo. Tem vez que fica um mês, quinze, vinte dias que você não sai de casa. Carro fica tudo parado. Não consegue. È difícil. Aqui não, aqui não tem frio, não tem calor, não tem nada. É o lugar melhor que tem isso aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Mas o sr. quando veio pra cá, no início, não sofreu nenhum tipo de preconceito, essas brincadeiras que o sr. não gostava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Ah, isso aí eu não gostava não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Mas havia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Havia. O pessoal que, que eu fui trabalhar era, o que eu falei, no Rio eu trabalhava de borracheiro. Nesse mesmo ramo. Então era aqueles motoristas de lotação, o trocador. Oh, que povo pra brincar. A gente lá não vem acostumado essas brinc...a brincar. E o pessoal aqui brinca. Lá não. A pessoa não brinca. Até hoje, muito difícil. Eu estive lá tem dois anos e até hoje o pessoal lá não brinca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Mas era que tipo de brincadeira, era...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR:  Ah o pessoal ficava, é se agarrando, brincadeiras. O pessoal aqui tem muito esse coisa. Mas, lá não. Pessoa lá já é tudo, pessoal muito sério. Então a pessoa lá não brinca, é mas aí é o costume de lá. Aqui até hoje, também o pessoal não é tanto, mas quando eu vim é que o pessoal de lotação, no Rio de Janeiro, ah, aquele motorista de lotação que não tem coisa pior. Aquilo brinca com todo mundo. E se a pessoa também não brincar, como é que vai passar o dia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: é pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: É. Agora lá o pessoal trabalha é muito. É por isso que o pessoal não tem nem tempo. Lá se trabalha, quando é aqueles nove meses, a gente lá trabalha quinze, dezesseis horas por dia. É do amanhecer até o escurecer. Por que depois tem aquele três meses que a gente não faz nada. Tem que ficar dentro de casa. Então o pessoal lá trabalha muito, muito mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: E..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Não, nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Não, pode procurar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: É a questão de preconceito contra os portugueses assim, pelo fato do sr. ser português, piadinha, alguma vez aconteceu isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Não, isso aí as vezes a pessoa contava as piadas e a gente vai acostumando aí também vai acostumando e conta também as da gente, aí..{risos}. Isso é piada a pessoa vai contando. Mas, aqui, naquela, hoje já não tem tanto, mas naquela época o pessoal contava muitas piadas. Aí a gente também contava, aí passava, mas eu não acostumei, levei uns dois anos pra, pra me acostumar. Eu não...a gente não gosta. Sabe, a gente vem de lá. Que, até hoje, que eles contam as piadas de lá, tudo, mas aí depois a pessoa vai acostumando com o povo daqui e esquece lá. A gente vai acostumando aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN:  É, o sr procurou manter algum vínculo com Portugal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR:  se eu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: É, depois que veio pra cá, pro Brasil, o sr. procurou manter algum vínculo com Portugal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Alguma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: É ida a Portugal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Ah fui. Eu levei, eu, não, eu levei aqui cinco anos e meio, depois levei dez ou quinze anos quando fui lá, quando eu voltei para lá que eu vim. Mas agora vou lá de vez em quando. De vez em quando eu vou a Portugal. Levo dois, três anos, aí volto, depois eu volto, mas aí levo lá só assim uns sessenta dias. Aí entre dois ou três meses, não passa disso. é, uma vez eu fui lá, até só vinte dias. Mas, vinte dias você tá chegando e tá voltando. Mas quem for no inverno lá tem que ir no verão. No verão, porque vai no inverno, êê [?] Aí num acostuma mais com o frio. A gente lá não se acostuma mais, por que a gente não agüenta aquele frio. Quando as vezes vem uns dois ou três dias frios lá aí é muito difícil, muito difícil mesmo. Aqui já não, aqui é um frio, mas é um frio que não cai gelo, não cai nada. Lá ainda, não cai sim, porque eu fui aqui em Campos do Jordão e vi cair neve lá. As minhas filhas foram, eu levei elas lá, elas ainda eram pequenas, oh, caiu neve lá. Eu vi. Nunca vi aqui no Brasil. Campos do Jordão é frio, muito frio mesmo. Que aqui de vez em quando eu também vou, mas... eu gostava muito de Campos do Jordão, mas, agora é muito longe pra gente ir lá. Daqui lá deve ser o que? Uns 600 quilômetros, mais ou menos.A gente vai mas, mas hoje eu já não gosto mais de ir de carro, porque eu ia de carro. Hoje a gente ir de carro é difícil. Mas mesmo assim aqui é ainda é um dos lugares melhores que tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: E, o sr,  aqui no Brasil, o sr. busca se relacionar com outros portugueses?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Ah, a gente se juntava. Quase todo mês. Agora que eu larguei, no Rio. Nós tínhamos um clube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Ah é? Que legal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: A gente ia pra lá. Ainda tem lá na Penha. Mas eu vou lá por lado de  seis meses, um ano, as vezes eu não vou lá. Mas ainda tem. Todo, todo final do mês tem um almoço lá. Mas eu agora já tenho, tenho, o que? Tenho uns oito meses que eu fui lá. Uns oito ou nove meses. Mas tem é lá...só, vai brasileiro, mas muito pouco. Primeiro era lá na, na, como é que é? A gente esquece. Na Tijuca. Ali perto da praça Sans Peña. Agora é lá na Penha. E tem em Jacarepaguá, mas tem mais clubes. Mas o que eu ia sempre era ali na Penha. Ia sempre naquele clube ali. Então ali faz o almoço, a pessoa conversa, almoça. Ah e a gente se junta todo mundo. O pessoal do meu lugar a gente sempre se juntava ali. Ai é muito bom que a gente se junta, todo mundo, mas eu agora, eu agora já vou aqui no dos espanhóis. Aqui em Macaé tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Ah, tem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR:  Tem, mas só que não é de portugueses, é de espanhóis. Quase a mesma coisa. Eu vou no clube deles ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Aí o sr. vai sempre?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Vou quase sempre ali no clube. É, eles tem um almoço também todo final de mês. Mas eu não vou todo mês. Mas de vez em quando eu vou ali. Ai eu gosto, vou pra ali. Eles tem um vinho bom lá, que eles dão ali, então ali é bom. Você não conhece não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Perto do Detran.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Ah, sei onde é. Na Imbetiba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN:  Ali onde é a delegacia, ali pela aquela rua do Jesuíta, sai lá no, ali atrás do Fórum, quase atrás do Fórum. Ah aquilo lá, a gente vai pra lá, chega lá uma hora, uma e pouca e a gente sai de lá quase a noite. Ah é muito bom. Ainda agora eles até coisa eles  deram pra eu fazer um coisa da minha filha. De um ano, da minha neta. Eles fazem lá a festa, fazem [?] É muito bom. E depois a gente acostuma aqui e é por isso que eu já não vou mais lá. Mas aqui de vez em quando também vai uns portugueses ali. Vai, mas muito pouco. Ali é quase, é 95 % é espanhol. Lá vai um ou outro, quem ia ali muito era aquele da padaria Reis, Seu Monteiro. Mas ele morreu. Aí pronto, agora vou eu, vai às vezes um cara ali do [?] Mas muito pouco, a gente vai muito pouco ali. Mas eu vou sempre ali nos espanhóis. Sempre, to sempre ali com eles. Ai eu sempre gostei da gente se juntar, conversa, mas é bom. Mas é isso aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: E o clube que o Sr. torce, qual é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: De futebol?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Eu torço pelo Vasco da Gama, mas não sou muito, muito coisa do Vasco da Gama não. Eu nunca torci muito pro coisa. Olha eu fui uma vez no Maracanã. E lá em Portugal eu às vezes ia, mas era quando a gente é novo, quando eu fui embora também. Mas depois jogo eu não vou muito não. É, a pessoa um gosta de uma coisa, outro gosta...as minhas filhas uma já é Vasco, a mais velha, e a outra é Flamengo. {risos}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Mas tem alguma relação pelo fato do sr. ser Português se identificar mais ao Vasco?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Não. Não coisa não. [o telefone toca]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Sobre o fato da sua ex-esposa, ela era portuguesa ou brasileira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Não, a minha ex-esposa ela era brasileira. Mas a gente morou pouco tempo. Moramos só sete anos, aí separei e depois é, ela, minhas filhas hoje já são casadas. Já tenho vinte e tanto anos que eu sou separado. Vinte e pouco anos. O casamento é assim não dá certo eu acho que tem que ficar amigo e cada um ver o que é que quer. Ah é a melhor coisa. Os filhos não tem nada a ver com isso. Tão sempre as minhas filhas, to sempre junto delas. Elas vem aqui em casa, tudo. Ai, elas tão sempre aqui comigo. Eu hoje até ia ligar, mas nem tive tempo. Eu sempre ligo pra elas. É to sempre em contato com elas. Por que os filhos não tem nada...eu quando me separei a mais nova tinha dois anos. Era nova ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Mas houve alguma dificuldade pelo fato da sua ex-esposa ser brasileira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Não. Não chegou. Até o casamento foi muito coisa, mas não houve nada não. Até que a gente viveu bem, mas depois já não dava certo e aí  gente foi separou. É, foi separou se amigavelmente, é a melhor coisa. Hoje é muito difícil duas pessoas viver debaixo de um teto. Muito difícil mesmo. A gente hoje pra viver junto ou um cedo um pouco ou então não consegue não, muito difícil. Mas eu, aquele sete anos que eu morei, moramos juntos não houve dificuldade nenhuma não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: É uma pergunta que eu acabei esquecendo de fazer, porque que o sr. resolveu vir pra Macaé? O Sr. tava no Rio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Eu não vinha pra Macaé. Eu , eu , eu trabalhava no Rio e eu ouvia falar em Campos. Eu achava o nome bonito. Aí eu sempre, nunca falei nada, eu sempre me [?] eu ainda vou conhecer Campos, eu ainda vou conhecer Campos. Aí um dia eu virei pro meu patrão, porque eu nunca tirei férias e nunca tive ordenado também não, eu trabalhava ganhava, não trabalhava não ganhava. Mas eu até quando eu tava lá no no Rio que eu trabalhava, eu falei pro meu patrão: eu vou trabalhar de noite. Ele: por quê? Por que eu quero. Eu ganhava muito mais. Eu não queria que ele me pagasse ordenado. Porque ele só pagava salário mínimo. E eu, eu trabalhando por minha conta ganhava comissão, eu tirava três, quatro salários. Então eu não queria. Mas eu um dia virei pra ele e disse assim: Olha aqui eu quero ir a Campos. Ele disse assim: Campos você sabe lá onde é? Eu digo: Não, mas eu quero ir lá. Então o dia que você quiser vai no final de semana. Eu disse então tá. Aí um dia eu lá resolvi e vim pra Campos. Peguei o ônibus que era da Santo Antônio, naquela época, não tinha essa estrada aqui não. Quando eu cheguei ali naquele morro que eu olhei Macaé, olhei achei tão bonito, tão bonito. Não tinha nada. Quando o ônibus desceu o morro eu puxei o coisa, desci e fiquei em Macaé. Até hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Aí nunca mais voltou pro Rio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Só fui lá avisar meu patrão que eu não ia pra lá. Eu gostei daqui, como eu não sei. Aí eu desci onde hoje é o Costa mil, era um posto de gasolina, eu desci ali. Na hora que eu desci que o ônibus seguiu eu ainda gritei o ônibus pra pegar ele de novo. Eu [?] porque que eu desci aqui se eu comprei a passagem pra Campos? Aí fiquei parado [?] aí fui pro lado do Cajueiro, pro outro lado ali, pra cá pro lado do Cajueiro. Quando eu cheguei ali na, no posto que ainda tá ali até hoje eu encontrei um rapaz da minha terra, porta com porta, criado junto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Sério?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Ele tava sem camisa, encostado com uma marreta na mão. Aí eu olhei, eu não sabia que ele tava aqui não, eu olhei, ele ficou olhando. Ficamos olhando assim um pro outro. E ele disse assim: Você é Mario e eu sou fulano. Eu disse é. Aí que a gente começou a conversar, aí, dali eu peguei e não fui mais pro Rio. Fui lá avisar meu patrão. Não tinha carteira assinada, não tinha nada. Aí fiquei em Macaé. [acaba o primeiro lado da fita] Trabalhou ali umas três semanas, aí deixou coisa pra mim, mas nosso (cantinho) não dava nem pra nós dormir, era uma coisinha miudinha. A gente trabalhava na rua no sol e na chuva. Aí ele foi embora eu fiquei. Veio um irmão meu e ficamos ali. Ai eu nunca mais fui embora de Macaé. Não sei nem como eu fiquei em Macaé até hoje. Há quarenta e cinco anos que eu tô aqui. Mas fui lá avisei meu patrão. Meu patrão ficou até chateado por eu ter vindo embora. Eu disse não, vou embora. Ele disse: Como você vai embora? Eu digo: Olha se você quiser eu fico uma semana aqui com você, mas eu resolvi, vou embora. Não quero trabalhar mais aqui não. Aí vim embora. Ele disse: não, então você pode ir. Aí fiquei aqui em Macaé até hoje. Não sei nem como, não tenho. Olha eu não sei nem explicar. Perdi a passagem, toquei o coisa e encontrei esse rapaz do meu lugar que nós fomos criados juntos. Agora eu não sabia que ele tava em Macaé, se vê que coincidência? Ele tava aí sozinho também, sem ninguém. Cê vê que coisa ele aqui em Macaé e a gente se encontrar num lugar tão longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Lá de Portugal né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Eu estava a dois anos ou três eu fui num casamento em Portugal. Era de um primo meu, ou sobrinho, era um primo. Tô lá no casamento, ce vê que coisa, aí tô, aí veio a comida, aí mais um mucadinho chega uma moça bateu nas minhas costas, falou assim: Oh Macaense. Eu olhei, ela disse assim: você não me conhece não? ela disse assim: já te comprei pneu. Eu, você me comprou pneu? Comprei, e não foi só uma vez, foi duas. Você mora na Telio Barreto, tens uma loja ali. Eu olhei. Aí ela disse assim, eu tô nos cavaleiros, eu tenho uma loja de roupas nos Cavaleiros, num shopping. Eu nem sabia que tinha shopping. Pago aluguel a Círio, tudo e vim aqui passear que é é venho num casamento de uma irmã minha que está casando com um português. Mas o casamento não era aquele. Ela foi naquele convidada porque ela tava lá. Ce vê, aí ela de Macaé, a gente se encontrou lá. Mas o rapaz é que falou, que era da minha terra, que falou que aquele rapaz assim assim tá em Macaé. Agora. ce vê que coisa, se a gente tivesse fugido, tivesse ficado alguma coisa no Brasil, como é que a gente se encontra? Num lugar lá tão longe, uma moça lá. Ce vê, a gente conversou, tudo, aí ela até me convidou pra esse casamento. Mas eu digo não, esse casamento eu não posso ir não. Ce vê se encontrou lá no casamento. Ela aí ficou sentada lá na minha mesa, ficou conversando. Ela também não conhecia ninguém. E a mim também não. Pois ela e eu nos encontramos lá mais umas duas vezes. Agora ce vê, lá tão longe, tava ela e a mãe dela passeando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Que legal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: É uma coisa, bom. {risos}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Que coincidência né.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: É uma coincidência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN:  E , quando o sr veio pra Macaé, o sr continuou pensando em ir pra Portugal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR:  Pra lá não vou mais não. Gosto de lá, chego lá, ando, adoro aquilo lá, é o lugar que eu nasci, mas fico lá dois meses já tô doido pra vir embora. E eu tenho minhas filhas, netas. Eu não gosto mais de ir pra lá não. Ah eu gosto de ficar aqui. Já acostumei aqui, agora, pois, quarenta e cinco anos. Ah não vou pra lá mais não. Tenho certeza de que não vou pra lá mais não.&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;[5]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; RN: E o sr procura transmitir para suas filhas, pros seus netos um pouco dessa cultura portuguesa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Elas não muito assim chegadas a gente portuguesa porque elas nunca foram criadas com..elas ainda quase não...minhas filhas levei elas umas duas vezes no Rio. A mais nova eu acho só foi lá uma vez. A mais velha gosta de se juntar de vez em quando com esse pessoal. Mas agora ela já não fala mais, porque agora ela já casou, também tem a vida dela. Aí não procura mais essa coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Agora, pra acabar assim, olhando pra trás o que o sr vê de mais positivo nessa vinda para o Brasil? E o de mais negativo também?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Como assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: É, avaliando assim a sua vinda para o Brasil, a saída de Portugal o que o sr. vê de mais positivo nessa escolha de vir para o Brasil, sabe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: De vir pra aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Eu, assim, de mais positivo que eu vejo, assim de vir pra o Brasil eu até hoje nem entendi muito. Eu só queria conhecer o Brasil, de vir pra aqui. Eu era, eu achava o nome do Brasil bonito, e então era o que eu queria vir era pra aqui. Não, eu quero conhecer o Brasil. Só que, é como eu já falei, eu cheguei aqui me arrependi muito. Mas depois a gente vai indo, vai indo, vai indo, acostuma. E o Brasil se a gente for ver é um do lugar melhor, é o que eu falei, é um dos lugar melhor do mundo. Lugar muito bom. Lugar bom pra gente viver. Tudo que você aqui faz, a terra não tem coisa pra, é planta tudo. É o lugar melhor do mundo, isso aqui. Não tem uma coisa melhor. O clima muito bom, posso dizer que não tem verão, não tem inverno, não tem nada. Depois a gente, você vê, 90% que vem pro Brasil ninguém quer mais ir embora. Agora vai pra lá muita gente, quer vir embora. Por que a pessoa acostumada com esse clima vai pro clima de lá, hum, até se acostumar lá é muito difícil. O frio, olha, a gente ainda quando é novo não sente, mas depois que chega a idade ê, é muito difícil.  Eu não acostumo mais com o gelo não. Ah, eu fui lá há dois anos peguei lá um dia ou dois de frio eu acho, eu não vim embora outro dia porque...muito difícil. Você pega um frio, uma friagem lá, que as mãos da gente nem abre. Naquele frio mesmo a mão não abre. Então ás vezes a água do coisa, ela congela. Os animais na na no inverno a gente colhe eles dentro de casa senão eles morre. Eles morre de frio. O meu lugar, é um dos lugares que é perto da serra de Estrela, é um dos lugares mais altos que tem. Agora na serra Estrela mesmo, o gelo só sai dali uns três ou quatro meses. Tem sempre gelo lá. Também não dá nada, só pedra. Quando vai o, sai o gelo eles botam a terra dá [?] ovelhas, aqueles troços, os pastores vão pra lá e não dá nada. Não dá, se plantar não tem como dá, porque não planta nada lá não. E tem um hotel muito bonito que a pessoa  só vai lá quatro meses. Três, quatro, no máximo, cinco meses. Que a pessoa quer ver lá, eu já fui lá, sobe aquela altura doida. É um lugar muito alto, então só tem gelo. Só gelo. Aquilo ali não pode plantar nada, você vê aquela terra tudo só gelo, não tem nada.  Agora lá é tudo plantado, porque a terra lá, o povo é muito, agora não, mas na época que eu me criei, é que a gente já foi para o estrangeiro, mas a gente plantava tudo. Lugar ruim, lugar coisa, a gente plantava tudo, tudo, tudo. Era a mesma coisa que a gente naquela época a gente não tomava café. Que era muito caro. Café não se dá lá. A banana não se dá. Eu nunca tinha visto banana, eu vim ver banana aqui no Brasil. È , que o gelo come o, o pé dela é mole, então o gelo mata ela. Não tem. Chuchu não se dá lá, banana e café. Arroz também não. Que é  o gelo então estraga. É uma coisa interessante, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: Legal. E agora, de fato pra acabar, o que significa pro sr. ser português?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Oh, já muita gente dizia assim, você naturaliza-se brasileiro. Eu não quero. Por que eu não sei. Por que, não sei, eu sempre gostei de ser assim português. Por que a gente, eu por exemplo, que já tenho muitos anos, tenho comercio, tenho tudo, podia me naturalizar brasileiro, aí eu votava, fazia coisa, mas eu sempre gostei do nome de lá, do nome de português. Não sei, cada um gosta de um...tem muitos que vieram pra aqui e se naturalizaram, mas eu nunca me naturalizei. Gosto daqui, não vou mais pra lá, tenho quase certeza, não sei o dia de amanhã, mas tem muitos que fizeram coisas lá, eu nunca fiz nada lá. Mas não sei, eu gosto é daqui. Mas o nome já gosto do nome de lá. Cada um gosta de uma coisa. Tem muita gente que não né, naturalizou-se, que a gente lá nem é obrigado a votar, a gente lá vota se quiser. Aqui se eu me naturalizar eu sou obrigado a votar, aí eu já não gosto. Agora eu gosto do nome de lá. Cada um...eu acho que todo mundo gosta do lugar da onde nasceu. Ce não gosta daqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RN: gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MR: Então, você se for pra lá você nunca vai. Tudo quando a gente é criança a gente não esquece. Dos 10 anos até os 15 a gente lembra-se dos amigos que teve, da escola aonde andou, de tudo, a gente se lembra de tudo. Além que a gente lá nem escola quase tinha pra gente estudar, que a gente lá desde criança era trabalhar, trabalhava na roça, eu com sete anos já tinha que guardar boi, os animais tudo, aqui não, aqui diz que menor não pode trabalhar. Aí o que que ele vai fazer? Vai estudar, mas outros vão pra coisa ruim, porque nas escolas tem muita coisa, eu tive uma filha também que estudava, eu me preocupava com ela que era uma coisa. Se ela não é ruim, sempre tem um que chama. Ih, não tá nas escolas sempre acontece isso . Mas é isso aí. Oh, o telefone de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Nesse momento houve uma primeira interrupção. Não foi muito prolongada, durou apenas alguns minutos. Seu Mário foi dar um recado a um senhor que tinha chegado lá para consertar alguma coisa que tinha dado defeito em sua casa.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;[2]&lt;/a&gt; O MR quando fala seu tom de voz se modifica, como se suspirasse, mas não num sentido negativo, muito pelo contrário.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;[3]&lt;/a&gt; Seu Mário enfatiza esse ponto, o tom do discurso muda. Marca sua fala com uma maior ênfase – eleva a entonação.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;[4]&lt;/a&gt; Momento em que houve a segunda interrupção. Essa foi bem longa e durou pouca mais de meia hora. Chegou um senhor para tratar de assuntos comerciais. Depois desse sr. um outro sr. ainda falou com ele, também sobre assuntos comerciais.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;[5]&lt;/a&gt; o MR assume uma postura mais séria, o tom do seu discurso se modifica. Continua descontraído, mas é perceptível que o tom se altera um pouco.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38027118-117057647310652355?l=fadotropicalrio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/feeds/117057647310652355/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38027118&amp;postID=117057647310652355' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/117057647310652355'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/117057647310652355'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/2007/02/entrevista-fado-tropical-no-27-mrio.html' title='Entrevista Fado Tropical no. 27: Mário Duarte Ribeiro'/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38027118.post-117032781327071766</id><published>2007-02-01T02:39:00.000-08:00</published><updated>2007-02-01T09:24:36.753-08:00</updated><title type='text'>Entrevista Fado Tropical no. 29: Dona Manuela</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Entrevista Fado Tropical no. 29: Dona Manuela (nome fictício, ver ficha de entrevista &lt;em&gt;infra&lt;/em&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FICHA DE ENTREVISTA – PROJETO FATO TROPICAL:&lt;br /&gt;Código da entrevista (ver mapa de entrevistas): EFT - 029&lt;br /&gt;Data de realização da entrevista: 11/11/06&lt;br /&gt;Local:Casa da entrevistada.&lt;br /&gt;Entrevistado(a): Dona Manuela (nome fictício)&lt;br /&gt;Data de nascimento: 20/05/1957&lt;br /&gt;Local: Braga, norte de Portugal.&lt;br /&gt;Data da chegada ao Brasil: ?/10/62&lt;br /&gt;Local: Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;Profissão atual: Comerciante.&lt;br /&gt;Profissões anteriores: Professora, balconista (no estabelecimento da família).&lt;br /&gt;Estado Civil: Casada.&lt;br /&gt;Filhos: 02&lt;br /&gt;Netos: não tem&lt;br /&gt;Entrevistador: Natasha Schumack Corrêa Lima&lt;br /&gt;Curso: História&lt;br /&gt;Período: 4o&lt;br /&gt;Gravação: (X) em fita cassete&lt;br /&gt;No de fitas: ( 2)&lt;br /&gt;Duração total aproximada: 1h 30 min&lt;br /&gt;No de páginas do depoimento transcrito: 39 (Arial 12)&lt;br /&gt;Data da assinatura da carta de cessão: 26/11/2006&lt;br /&gt;Fotos: (X ) sim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observação: A entrevistada não se lembra o dia exato do desembarque no Brasil.&lt;br /&gt;Obs 2: A entrevistada permite que seu relato seja divulgado na Internet, desde que os nomes das pessoas envolvidas e citadas, assim como os locais mencionados sejam desidentificados, ou seja, substituídos por um nome fictício, o que foi feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FADO TROPICAL – UM RELATO DOS IMIGRANTES PORTUGUESES NO RIO DE JANEIRO NO SÉCULO XX. UM PROJETO DE HISTÓRIA ORAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Transcrição da entrevista EFT-029&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Niterói&lt;br /&gt;2006&lt;br /&gt;Universidade Federal Fluminense.&lt;br /&gt;Centro de Estudos Gerais.&lt;br /&gt;Instituto de Ciências Humanas e Filosofia.&lt;br /&gt;Departamento de História.&lt;br /&gt;Disciplina: História Oral&lt;br /&gt;Docente: Marcos Alvito Pereira de Souza.&lt;br /&gt;Aluna: Natasha Schumack Corrêa Lima. Período: 4o Turno: Manhã&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FADO TROPICAL – UM RELATO DOS IMIGRANTES PORTUGUESES NO RIO DE JANEIRO NO SÉCULO XX. UM PROJETO DE HISTÓRIA ORAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Código da entrevista: EFT – 029&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistada: Dona Manuela *&lt;br /&gt;* Nome fictício, pois a entrevistada solicitou que a entrevista fosse desidentificada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Natasha Schumack Corrêa Lima&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Data da entrevista: 11/11/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Local da Entrevista: Casa da entrevistada. Bairro de Vila Valqueire, cidade do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convenções adotadas na entrevista:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;{ } – Chaves: Indicam pequenos esclarecimentos, intenções da entrevistada, interferências de terceiros e partes do áudio com risadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Negrito – Indicam as falas da entrevistadora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[?] – Interrogação entre colchetes: Indica um trecho ininteligível, não transcrito em função do áudio, no qual não se arriscou aproximação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;( ) – Parênteses: Indicam os trechos transcritos nos quais, em função do áudio, não se teve certeza da exatidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observação 1: Como é de desejo da entrevistada, conforme manifestado na carta de cessão, os nomes dela e dos demais envolvidos na história, bem como os locais citados, serão substituídos por nomes fictícios, no intuito de preservar as identidades dos mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevista EFT - 029&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Então, como é que era a vida, assim, em Portugal, e o que fez vocês virem para cá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Meu pai já tava aqui. Meu pai já era imigrante, aí meu pai chamou a minha mãe. Mandou uma carta de chamada pra minha mãe. Só que ele já estava aqui por mais ou menos uns 10 ou 12 anos, né? Aí ele pegou, depois desse tempo ele mandou chamar a minha mãe comigo e com a minha irmã, eu com 5 e a minha irmã com 10.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Uhm...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D.Manuela: né? Era a idade que nós tínhamos. Aí nós chegamos aqui e fomos para a casa de um tio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Aqui no Rio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Em Nova Iguaçu, em Nova Iguaçu. Ficamos lá 15 dias, na casa dele. É...15 dias. E aí depois nós fomos para Cabuçu, que é um município de Nova Iguaçu e fomos, ficamos durante 15 dias morando nos fundos de uma padaria, é... dormindo em cima de madeira, madeira de botar em forno, em forno. Aí essa pessoa, como a gente não tinha onde morar, ela cedeu esse lugar, que não era nem um lugar, era um lugar no fundo de uma padaria, né? Rústico, até bem rústico. Aí nós ficamos ali e aí depois o meu pai arrumou um apartamento de sala, quarto, cozinha e banheiro e aí a gente foi morar, arrumou uns móveis usados, velhos pra botar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Lá mesmo em Nova Iguaçu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Em Cabuçu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Em Cabuçu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Que é um município de Nova Iguaçu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Uhm&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Aí arrumou esses móveis, foi um senhor que arrumou esses móveis e a gente foi morar nesse apartamento. E aí meu pai conseguiu, comprou uma...um, um bar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;{nesse momento há uma interferência da filha da entrevistada, Luiza}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Fala as profissões do vovô, mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela{voltando-se para sua filha}: Ahn?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: das profissões do vovô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela {voltando a falar para a entrevistadora}: Aí comprou um bar em Imbariê e ficou 1 ano nesse bar. Aí ele resolveu...Aí nesse, nesse período a minha mãe engravidou logo, nesse período em que nós chegamos, logo que nós chegamos a minha mãe engravidou e a minha irmã veio nascer. Logo no ano seguinte, em junho, no dia 25 de junho {corrigindo-se} de julho a minha irmã veio a nascer. Aí a minha mãe vai vender esse bar logo a seguir, vendeu esse bar e aí comprou um outro. A minha mãe chorou muito, ficou muito desesperada porque minha mãe ficou com medo da situação, das necessidades, ela não teve resguardo e a gente teve que trabalhar junto, ajudar. Cada um tinha que fazer uma tarefa porque a minha mãe não cuidava da gente, a minha mãe só trabalhava e a gente tinha que cuidar da irmã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Uhm&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Né? A gente tinha que cuidar da mais nova. E ela foi criada assim, jogada também, né, igual é criado hoje em dia as crianças praticamente assim, tipo favela, né, cada um se vira, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Cada um por si, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, jogada...a minha mãe pegou naquela época tinha caixas de água mineral quadrada, de madeira, a minha mãe forrava, jogava a minha irmã ali dentro, né? E assim foi sendo criada. O meu pai também fez uma...fazia um banco, fez um banquinho onde a gente subia no banquinho pra poder atender o freguês, pra poder ter altura pra poder atender. Aí a gente ficou... aí depois a gente... ele comprou outro, mas comprou em sociedade, com o primo dele, também dentro de Imbariê. Aí ele ficou mais ou menos uns cinco anos com essa sociedade, aí depois a minha mãe, nessa sociedade meu pai comprou a parte. Não dava certo porque...é...nós éramos 3 filhas e o outro tinha uma filha, então, por exemplo, a gente não tinha acesso ao bar, não tinha acesso a comer nada, a beber nada, entendeu? Porque...é...era sociedade tinha que ser do lado de fora e como a gente éramos três e o outro era um, é como se a gente tivesse tirando a mais da sociedade, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Justamente pelo fato de vocês serem três.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Três. Então o que acontecia: a filha do outro ficava, mas nós não podíamos ficar. A única coisa que... era um bar e restaurante, a única coisa que vinha pra gente nesse período, quando a minha mãe trabalhava de manhã, é que minha mãe mandava comida pra gente. Do bar. Então ela mandava um prato de comida e a gente tinha que dividir esse prato de comida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E nisso vocês ficavam em casa cuidando da irmãzinha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Cuidava da irmã, se virava pra escola, não tinha lavadeira, não tinha cozinheira, né. O cara só fazia o horário, então quando a minha mãe tava em casa, quando ela vinha de tarde ela fazia a janta e a gente jantava, aquela coisa toda. Quando a minha mãe tava de manhã é quando ela mandava o prato de comida pra gente dividir entre nós três, porque era aquilo que vinha pra gente, né? Mas aí era eu e a mais velha, né, que a gente tem diferença de cinco pra uma e eu de seis para a mais nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: A senhora é a irmã do meio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Eu sou a do meio. Então o que acontecia: é...cada um tinha que fazer as tarefas, as tarefas eram divididas dentro de casa. Uma cuidava da casa, outra cuidava da cozinha, lavava, passava, a gente se virava. Nunca teve ninguém pra lavar uniforme, nunca teve ninguém pra passar uniforme, entendeu? A gente, muitas das vezes, na rua perdia a chave, a porta da casa ficava aberta, sem chave, a gente dormia sem nada, apanhava quando perdia, entendeu? Então a gente era dona de casa, era tudo. Não existia ninguém pra, pra, pra colaborar. Aí numa dessas fases da minha adolescência, eu por volta da quinta série, mais ou menos, uma vez eu peguei um ônibus que o motorista me con... conhecia meu pai. E ele sabia que eu era filha dele, mas eu não o conhecia. Aí ele disse que meu pai tinha sido leiteiro {alguns risos} e eu fiquei constrangida, falei que meu pai nunca tinha sido leiteiro, aí depois ele disse que sim, que conhecia meu pai. Aí eu peguei, quando cheguei em casa perguntei ao meu pai se meu pai tinha sido leiteiro. Realmente meu pai tinha sido leiteiro e esse homem conhecia meu pai porque ele era motorista de ônibus e meu pai tinha sido motorista de ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Já aqui no Brasil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Já aqui no Brasil, antes de a gente chegar. Então antes de a gente chegar o meu pai já tinha sido leiteiro, ele tinha sido vendedor de gelo, entregava gelo. Ele apanhava gelo nas casas de gelo, porque naquela época ali não tinha eletricidade, só tinha nos grandes centros, então o que é que as pessoas, como as pessoas gelavam as coisas? Através do gelo. Entendeu? Então eram umas barras, aquelas barras de gelo grandonas, entendeu? Então o que ele fazia? Aí ele ia entregar no comércio. Sentava naquelas bicicletas que a carga era na frente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: sei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: ...entendeu? E ia entregar. Então ele, ele entregou gelo, foi geleiro, né, foi leiteiro e depois ele foi motorista de ônibus em Caxias por muito tempo, aí depois desse tempo ele conheceu um senhor, um português, e eles passaram a pegar água mineral de uma fonte chamada Santa Rita. Água Mineral Santa Rita, que é uma marca até hoje até...as pessoas antigas conhecem essa marca, que fica no município de Magé. Então o que é que ele fez: ele distribuía água, aí então ele tinha um caminhão, ele distribuía água, entregava água mineral. Foi através desse homem, que depois também ficou muito rico, era um dos donos da “Status Veículos” , em Duque de Caxias, esse homem se tornou empresário [?]. Entendeu? Aí depois, foi quando a gente nesse período foi quando nós chegamos que meu pai passou dessa, dessa coisa pra...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E ele já morava, quando ele chegou ao Brasil ele já mo..., já se estabeleceu ali no distrito de Cabuçu, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, ele se estabeleceu em Nova Iguaçu. Eles andavam, o que é que acontece, o que é que aconteceu com o imigrante quando ele chegava aqui na época do meu pai, que foi diferente do Joaquim {refere-se ao seu esposo, Sr.Joaquim, também imigrante português, que chegou ao Brasil num período posterior ao do pai de D. Manuela} : o meu pai, eles... é... quando ele chegou, meu, meu tio, eles iam pra esses quartinhos igual você tem nessas favelas que você vê aí no...é...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Como se fosse um cortiço?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Cortiço! Eles iam pra cortiços. Entendeu? Pra cortiços. Alugavam esses quartos, dividiam pra, pra não ter despesa, então ficavam 3, 4 dentro daqueles quartos, é... como um nortista que vem lá do Norte, entendeu? Então eles conhecem um: “ah, fulano é daqui da minha cidade” , aquela coisa toda, então: ficavam ali, todo mundo se virava, tinha que lavar sua roupa, fazer sua comida pra economizar dinheiro, né? Então eles ficavam todos juntos aí nesses quartos, nessas quitinetes. Então ele quando veio, ele veio pra esses tipos de grupo, geralmente homens imigrantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E vinham solteiros?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: E alguns casados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ele chegou mais ou menos então em cinqüenta e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Meu pai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: ...e três, né, se ele chegou 10 anos antes da senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Meu pai, meu pai, meu pai, não. Ele chegou muito antes, meu pai chegou antes. Meu pai quando ele chegou, eu tenho uma irmã que ela tem cinqüenta e... seis... {fazendo as contas da idade de sua irmã}...cinqüenta e quatro! Vai fazer cinqüenta e cinco. A gente tem diferença de cinco, eu tenho quarenta e nove, ela tem cinqüenta e quatro. Quando meu pai veio a minha irmã já era nascida. Entendeu? Então a minha irmã deve ser mais ou menos de que ano?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: [?] Seu avô foi... estava lá [?] quando ele veio pro Brasil, depois foi lá, fez você, depois voltou pro Brasil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Então, {falando agora em um tom de voz mais baixo, como se estivesse falando consigo mesma} estamos em 2006, ela tem quantos anos? {virando-se agora para a entrevistadora} Ela tem cinqüenta e quatro, né? Dois... cinco... {D. Manuela está, nesse instante, fazendo as contas em um pedaço de papel, com a finalidade de descobrir, através da idade de sua irmã mais velha, em que ano seu pai chegou ao Brasil}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Cinqüenta e dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Cinqüenta e dois!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Então ele veio em mil novecentos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Ele deve ter chegado aqui em torno de cinqüenta e um...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Então ele já veio crescido, né? Já veio mais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Já, já veio adulto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Já veio adulto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, porque o meu avô, o meu avô já tinha estado no Brasil, entendeu? O meu avô já tinha estado, é o que eu te falei, ele era enfermeiro da Santa Casa, eu só fui descobrir isso quando eu estive na Santa Casa com meu pai, quando eu tinha 18 anos que tinha feito uma cirurgia dentro da Santa Casa, e uma irmã muito idosa tava lá e ainda se lembrava do meu avô. Aí o meu pai me apresentou a essa senhora. Essa senhora veio no quarto, ele me apresentou a essa senhora, foi a única... foi quando eu tive, assim, uma referência do meu avô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: A senhora não chegou a conhecer o seu avô?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não. Entendeu? Então essa foi a referência que eu tive sobre o meu avô, de quem realmente ele tinha sido aqui dentro do Brasil. Só que naquela época se matava muito imigrante...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É, mas como assim? Assim “de graça”?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: De racismo... Então dava muito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, então dava muita, muito, muitas brigas. Entendeu? Então se matava. Muitas das vezes as pessoas não, não...nem...a família nem sabia onde elas estavam. Muitas das vazes a família nem sabia onde ela ia parar, porque naquela época é... era muito, era... era guerra de negócio de foice, de facada, briga de rua. Briga de rua era muito forte, o cara xingava o outro e partia pra...pra briga e era briga assim {voltando-se, nesse momento, para a entrevistadora} de peixeira que eles chamavam, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É... de peixeira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: De peixeira. Então era assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E qual era a imagem que se fazia do português aqui no Brasil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Pra te dizer a verdade, assim, imagem, imagem eu não sei, só que era como se fosse um invasor, né, que tava roubando um lugar e que vinha, e então juntava aquela, aquele coisa porque {o português} era o burro, o porco, tudo, tudo era colocado, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E a senhora sofreu isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Eu cheguei a sentir preconceito um pouco na escola, de...de brincadeiras, tinham muitas brincadeiras. Aí o que aconteceu: o meu avô, quando ele percebeu, quando meu... meus pais... meu pai e meu tio quis uma carta de chamada, que meu avô chamasse, o meu avô não quis dar a carta de chamada. Que meu avô, pra todos os efeitos o meu avô era bem colocado, entendeu? Mas o meu avô temia que acontecesse alguma coisa com eles aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Temia que eles viessem e sofressem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É. Então o que aconteceu: ele, como ele não queria ter culpa nenhuma, meu avô fez o que? Foi embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Voltou pra Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Voltou pra Portugal. Meu avô não fez, não fez vida aqui. Ele tinha um emprego e ganhava o salário dele, mas ele não fez vida, vida assim de comércio, de...de ter alguma coisa assim. Não, ele não fez, então o que ele fez? Foi embora. Só que não adiantou nada porque meu pai e meu tio vieram. O meu tio veio na frente, só que quando meu tio chegou aqui, o meu pai não conta o que é que aconteceu com ele, mas ele foi morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Seu tio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Foi morto aqui. O que meu avô temia acabou acontecendo e, mesmo assim, acabou meu pai vindo, entendeu? Só que como a gente não sabe aonde ele ta enterrado, o que é que aconteceu, meu pai não toca nesse assunto e nem meu pai nunca soube onde colocaram o corpo dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Você acha que ele foi morto justamente por briga de rua?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Por briga, esse tipo de coisas que davam quando eles começavam, assim, esse tipo de brincadeiras, de afrontas e aquela coisa toda, entendeu? Então quer dizer, deve ter sido num tipo de briga dessas que aconteceu uma, uma tragédia dessas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E a senhora é de que região de Portugal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Eu sou de Braga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Braga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Braga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E...mas o que é que fez a sua mãe querer sair de lá, como é que era a vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Porque ela era rural, ela era do campo e a vida do campo era uma vida que... dura, e além de ela ser uma vida dura ela não, não... você não tinha assim, vamos dizer, como você obter muitos bens. Entendeu? E geralmente a pessoa rural ela não vai muito pra escola. Ela não tem acesso à escola. E naquela época só se mandava pra escola o homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah, é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É. A mulher não ia pra escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ficava em casa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Ficava em casa. Então o homem ia pra escola só pra ele aprender as contas, o básico. Então geralmente ele ia até a terceira série, né, que lá chamava “terceira classe”, ele ia até aí e isso representava muito. O cara realmente ele sabia, saía sabendo bem as contas, não o português, mas contas, as operações o cara sabia e sabia bem e todo mundo sabe até hoje, entendeu? Até hoje tem uma visão boa. E a mulher, ela era criada pra trabalhar no campo, ser um burro de carga mesmo, ser escrava do campo, fazer as tarefas de casa. Então só quando tinha alguma classe social um pouco mais elevada, com uma posição melhor é que eles mandavam a mulher. Entendeu? Mas é uma coisa, mas não passava daquilo, passava num primário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É, mas você já vinha pra que, já vinha pra...com vistas a trabalho? Vinha pra...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: ...trabalho, e a minha mãe já vinha com carta de chamada do meu pai. Era esposa e já vinha com carta de chamada, porque ela ficava lá sozinha, né? Pra você ver, meu pai quando foi lá, uma dessas viagens foi quando ele deixou a minha mãe grávida de mim e veio embora. Eu conheci meu pai com cinco anos. Até então eu não tinha referencial do meu pai, de quem era meu pai e nem meu pai tinha referencial de quem eu era. Porque é... por exemplo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;{nesse momento a entrevistada, ao lembrar-se de seu pai, é tomada por uma forte emoção e chora}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela {com a voz embargada}: ...eu não tinha intimidade com meu pai, entendeu? Porque nasceu minha irmã e essa minha intimidade foi toda pra ela. Quando ela nasceu a minha mãe tava de resguardo e a gente saiu pra brincar. Aí o meu pai ficou tão irado, tão irado, que pegou uma borracha e deu uma surra em mim e na minha irmã, porque, na cabeça dele era só trabalho, trabalho, aquela coisa toda, né, que é do jeito que ele foi criado, não foi assim pelo jeito de mau. Porque eu acho que quando a violência vem, você é violentado porque você violenta também. Então isso tem muito a ver, né? Então nessa época eu senti, assim, muita revolta e aquilo, isso tinha me marcado muito porque toda vez, assim, que eu era garota, que eu ia brincar, aquela coisa toda, eu lembrava desse fato. Será mesmo que ele é meu pai? Entendeu? Porque, o que é que acontece: as atenções se voltaram todas pra mais nova, né, porque ela era... passou a ser o xodó, aquela coisa toda, porque meu pai, por exemplo, ele nunca disse que queria ter um filho homem, ele sempre gostou de ter filha mulher. Aí o que é que acontece: houve aquela coisa toda, uma vida que, por exemplo, a gente não tinha tempo pra ter família, tempo pra conversar nem nada, porque era trabalho, trabalho, trabalho. O comércio é uma coisa que, que separa a família, que você não tem tempo de estar com a família, ainda mais se você tem o objetivo de ser alguém na vida. Então se você imigra e você não tem estudo, você não tem nada, você tem que conseguir alguma coisa como?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Trabalhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Trabalhando. Então você não, não... você não tem horário pra sentar numa mesa com a família pra conversar, você não... a família não fica dentro de casa, quando um entra o outro sai, entendeu? É, você não tem aquele referencial de, por exemplo, escola: a minha mãe só queria saber se eu passei de ano, e não queria ser chamada na escola. Então era o que? É... ela não entendia, porque ela era analfabeta, mas ela cobrava. Indiretamente. Ela cobrava assim: vai pra escola, tem que estudar e tem que passar, né? Ela também não... Agora, ela sempre perseverou por isso, por estudar. Nesse ponto ela foi uma pessoa que nunca deixou correr solto essa coisa assim ah, vai estudar se quiser. Não. Vai estudar. Entendeu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Era uma imposição praticamente a de estudar, né? Vai estudar pra ser...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, mas ela não tinha, é... por exemplo, o que é que ela ia cobrar de uma conta pra mim, de uma coisa, se ela não sabia faze-la? Entendeu? Se ela não sabia escrever. E o meu pai também ia cobrar o que? Ele sabia. Ele sabia até que ele sabia mais do que a gente sabe até hoje. Mas ela não tinha, mas ela tinha essa coisa, apesar de que eu considero a minha mãe uma mulher muito inteligente. Muito inteligente porque ela faz contas, ela... ela viaja, ela , por exemplo, ela faz câmbio de moeda que eu não faço. Muito rápido. Ela vem do Brasil para Portugal, ela cambeia o ouro no, no cruze...{a entrevistada referir-se-ia ao cruzeiro, antiga moeda brasileira, quando lembrou-se que a moeda vigente, no momento da entrevista, era o real} no real e no dólar com a maior facilidade. Então ela entrou pra dentro de um balcão de botequim, né, de botequim que a gente chama. Isso é antigo, hoje em dia se fala bar, e ela se virou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Aprendeu tudo aquilo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: ...aprendeu tudo aquilo na maior facilidade. Negociou, trabalhou... Aí é o que digo a você: não existia sábado, não existia domingo, não existia feriado, não existia nada. Não existia hora pra entrar dentro de casa, não existia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Era trabalho de sol à sol...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Era trabalho. Era de quatro da manhã, de quinze...das quatro da manhã até as dez, dez e pouca da noite. Entendeu? Então não tinha natal, não tinha ano novo, não tinha férias, não tinha lazer, não tinha sair.Tinha que... que juntar dinheiro, tinha que fazer uma vida, tinha que ter o pé de meia. Então você tinha que abrir mão disso tudo. Se você não abrisse mão, você não fazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E o que é que se falava do Brasil naquela época?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Tinha assim, o que tinha era que aqui era um país promissor, que você ganhava dinheiro. Você trabalhava, mas você ganhava dinheiro, você conseguia juntar dinheiro. Você na lavoura, você trabalha pra comer e pra vender. Então o que acontece: chega no final você não, não fica com nada, não dá pra você, assim, é... ter compras, comprar um bem... Aquilo vai durar tua vida toda. E aqui, como aqui é um país que tinha... era grande, um país grande e tinha poucas pessoas, era interessante a imigração. Ela foi interessante porque ela alavancou todas as idéias, aquela coisa toda, então ela levantou o país. A imigração ela fez muito, em todos os sentidos, assim, não só portuguesa como a espanhola, no Rio e nos outros estados, ela teve uma prosperidade e ela deu assim uma visão muito grande até de cultura, de como fazer as coisas todas, entendeu? Então ela teve... então era isso. A pessoa vinha porque sabia que aqui ela tinha condições, que... Por exemplo, quando eu cheguei aqui, o irmão do meu pai, um dos irmãos do meu pai ele já tinha uma fortuna aqui dentro, assim, ele já era bem de vida. Ele já era dono de comércio, já era dono de imóveis, entendeu? Então quer dizer, eles sabiam que se, que eles se... se... se resguardassem e combinassem, que eles iam ter dinheiro, porque a moeda valia. A moeda, naquela época, no Brasil ela valia. Ela tinha valor. Ela tinha muito mais valor do que a moeda em Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Então dava pra, se trabalhando, juntar um dinheiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Dava&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: ...fazer um comércio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Dava. Dava pra você, entendeu? Você... desde o momento em que você se... você não tivesse lazer. Você não tivesse e economizasse. Por exemplo, eu me lembro que eu cheguei aqui e a gente tinha que fazer o que? A gente tinha que passar roupa de uma pra outra, sapato de um pro outro, sapato a gente comprava grande pra poder...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;{nesse momento, há outra interferência da filha da entrevistada, Luiza}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: ...pra dar pros três!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, pra dar pra um e depois passar pro outro. Então você tinha que... a roupa do outro vinha, né, sempre que saía pra pior ou menor. Então tinha essa coisa então. Então você se sujeitava e eu me lembro muitas das vezes que, na minha... eu nunca tive natal, assim, de ganhar nada de presente, nem roupa nova, ah, vou estrear uma roupa nova no natal , isso não existiu, entendeu? Isso não existiu. A meta era outra, então primeiro você tinha que pagar, tinha que pagar aquilo que comprou, depois tinha, é, vivia de aluguel, depois tinha que conseguir alguma coisa. Pra você ver, praticamente quando meu pai comprou um... um local pra construir alguma coisa eu já estava praticamente... quando nós saímos do aluguel eu já estava com quatorze anos. Entendeu? Quando meu pai, é... quando meu pai conseguiu... quatorze... com treze... Quando eu mudei pra minha casa própria, que, casa própria, quando eu passei dentro das obras, eu já tava com quatorze pra quinze anos. Foi quando a minha irmã casou, que ela tinha dezenove. Ela não chegou nem a desfrutar da casa. Ela... nós nos mudamos em janeiro, em fevereiro ela casou. Então ela nem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Aí foi morar com o esposo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Com o esposo. Ela nem chegou a desfrutar assim, a dizer assim: eu usufruí daquilo que, que o meu pai construiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E essa casa era aonde? Era lá mesmo em Cabuçu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Cabuçu. Continua em Cabuçu. Aí foi quando ele comprou a propriedade do bar e em cima do bar ele fez os apartamentos. Entendeu? Aí eu lembro muito dessas fases assim, que quando meu pai comprou meu pai não tinha dinheiro, pegou dinheiro com agiota, a minha mãe chorava muito porque minha mãe tinha medo de não conseguir pagar, tinha medo de já perder o pouco que tinha, porque tinha muito, assim, agiota que emprestava como antigamente também tinha muitas pessoas que, quando precisavam de dinheiro, elas deixavam jóias, vendiam jóias, penhoravam, aquela coisa toda. Então tinha muito essa coisa, entendeu? Aí então ele pegou, quer dizer, ainda demorou muito tempo pra, acho que foram nove anos, pra eu, pra gente conseguir morar numa coisa que fosse nossa. Porque, peraí, porque praticamente você também tinha três filhos pra sustentar, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Né? Você tinha esposa, três filhos, entendeu? Então quer dizer, então, então, muita restrição. Não é uma vida fácil que, assim, a pessoa ficou bem às custas... não, ela ficou bem às custas de muita... de você abrir mão de muita coisa. E isso continua até hoje: muitas pessoas não tem muita coisa hoje porque elas também não acham mais interessante abrir, e também é muita escravidão você fazer isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E qual foi a primeira impressão que a senhora teve quando chegou no Brasil? A senhora veio direto pro Rio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Eu fui direto pra Nova Iguaçu. Eu não tive, é, uma impressão assim, não muita porque eu era uma criança, então eu não tinha noção disso. A gente... você vai tendo uma noção assim, com o passar do tempo, né, que você vai tendo a noção. Só que eu sentia muito a falta de família, família que eu digo, assim, eu não tinha família, eu só tinha um tio aqui. Então quando eu comecei a entender as coisas eu não sabia o que é que era ter uma avó, porque eu não lembrava da minha avó, eu só lembrava do... do meu avô numa cama doente, porque quando eu saí ele tava doente. Então, quer dizer, você acaba, é... numa faixa de cinco anos, você acaba tendo imagem de todas as coisas, assim, que foram mais marcantes. Então a imagem que eu tinha foi do dia que eu saí, que era um dia assim, quando a minha mãe saiu com a lamparina, era de noite e a minha mãe queria que não fizesse barulho, e pra cavalg... pra andar era difícil, entendeu? Então a minha mãe não queria que fizesse e aí nós fomos pruma... pra casa de uma tia em Lisboa pra esperar o dia do vôo, né? E que a gente veio com a roupa do corpo, com uma roupa pra sair e outra pra chegar aqui. O retrato, assim, que eu lembro de lá e quando cheguei aqui, essa foi a figura: do meu padrinho, que me acolheu, que fui pra casa dele, que fui assim, nos primeiros quinze dias, que ele não tinha filhos, então aquela referência dele... Mas depois você perde o referencial, entendeu? Aí você fica assim: quem é quem? De quem são teus, teus membros... Você sabe que tem tios, você sabe que tem primos, você sabe que tem uma avó, mas você não vê que... é... a minha avó foi morrer eu já tava com dezenove, dezoito anos. Quer dizer, aí eu fiquei triste porque a minha avó morreu e eu nem sei que é a minha avó. Porque era a única que eu tinha, que era da parte da minha mãe, viva. Né, porque logo assim que nós chegamos aqui no Brasil meu avô morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Aquele que já tinha estado no Brasil, voltado pra Portugal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, aquele já era morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah, sim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Da parte da minha mãe, esse que eu deixei doente, que tenho a lembrança da visita ao quarto dele. Tenho, assim, aquela lembrança. E quando eu cheguei a Portugal a primeira vez, há vinte e poucos anos atrás, solteira, eu quis ir à casa dos meus avós e quis ver se o lugar onde a gente estava era o mesmo. Entendeu? As lembranças que eu tive que certificavam que realmente eu... aquilo não era uma coisa assim, da minha cabeça, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: A senhora ficou, então, quanto tempo, desde que a senhora chegou ao Brasil, a sua primeira visita a Portugal foi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Aos vinte e quatro anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Aos vinte e quatro anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Dos cinco aos vinte e quatro anos, quer dizer, foi dezenove anos depois. Dezenove anos depois é que eu fui a Portugal. Né, quer dizer, também não tinha mais nada pra ver porque nada eu lembrava. Tinha poucas lembranças, não lembrava assim, de como eu levei essas pauladas aqui na testa {a entrevistada mostra para a entrevistadora, em sua face, algumas pequenas cicatrizes, localizadas na testa, na altura da sobrancelha esquerda} lá, entendeu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Isso foi lá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Foi. Eu lembrava como o menino tinha me tacado a pedra, o pau, isso eu lembrava, essas coisas assim eu lembrava. O local que tinha sido, assim, eu lembrava, um local onde que colocavam o milho, que tava lá a coisa, entendeu? Então as coisas, assim, o que certificava de que tinha na minha mente, as poucas coisas que eu lembrei, assim, na faixa dos cinco anos, elas... realmente elas estavam lá, né? Que eu tinha praticamente... porque eu tava com cinco anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Tinha acabado de fazer cinco anos quando veio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não. Eu sou de maio, vim em outubro, quer dizer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Tinha acabado de completar cinco anos, então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, entendeu? Então essa foi a referência. E aí nós ficamos dentro de Cabuçu e não saímos mais, que é um lugar que não tinha... era um subúrbio que não tinha... mal tinha energia elétrica, que tinha... só o centro de Cabuçu, a praça que tinha, é, saneamento, o resto das ruas não eram calçadas, não tinha saneamento básico, só tinha uma escola, entendeu? Um lugar extremamente paupérrimo. Então você fazer uma vida dentro de um lugar desse também é difícil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É difícil... E em relação ao estudo, nessa época que a senhora trabalhava, a senhora também estudava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Estudava. Ia pra escola, depois ficava no bar e ficava dentro de casa. Então a gente tinha que fazer tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E foi assim até terminar os estudos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Foi assim até terminar os estudos, até eu casar. Sempre... na minha casa nunca teve empregada, nunca teve faxineira, nunca teve nem máquina de lavar. Não que meu pai já não pudesse colocar, mas porque se acostumou assim e assim foi, né? Hoje já mudou a cabeça dele, as colocações. Quando eu casei ele já tava bem, ele, graças a Deus, depois ele pode pagar a escola pra mim, entendeu? Fiz o primário em escola pública, mas depois ele pagou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: O ginásio, então...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Ele pagou. Ele pagou a faculdade, entendeu? Ele pagou, então depois ele nunca se omitiu a essa parte de... de...de estudo também. Ele se omitiu, muitas das vezes nas futilidades, vaidades. Ele, por exemplo, nunca me deu, assim, bobeira, de roupas, esbanjar, essas coisas assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Sempre teve o necessário?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É. Mas a estudo ele nunca se omitiu, a pagar o estudo... ele nunca reclamou de pagar o estudo. Agora, só que a gente trabalhava, né? A gente trabalhava em casa, fazia as tarefas de casa, ia pra escola e fazia as tarefas do bar. Ia trabalhar no bar, cumprindo horário, ficar lá. Quando eles não estavam presentes, alguma de nós tinha que estar fazendo a presença deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E tradições portuguesas? Como é que a senhora mantinha isso em casa, ou se mantinha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, não mantinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Não mantinha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não mantinha e eu não tenho tradição nenhuma. Eu me considero, assim, uma brasileira nata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: A senhora se considera, então, mais brasileira do que portuguesa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Muito mais brasileira. Eu tenho mó, assim, carinho, eu sei cantar o hino, mas não sei o de Portugal, nem como começa, nem como termina. E eu tenho... eu me sinto emocionada com o hino nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Do brasileiro? { a entrevistada balança a cabeça, num gesto afirmativo} . Copa, então, se jogar Brasil e Portugal a senhora torce pro Brasil? Ou não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, eu... nem um, pro outro. Eu não tenho essa, essa, essa definição. Se tiver um interesse pra torcer, ainda torço, assim, até pra Portugal. Entendeu? Mas não por questão, assim, de, de diversidade nem por questão de... é... é esse ou aquele. Não. Entendeu? Por exemplo, eu, eu sinto até muita revolta das pessoas não terem o senso de nacionalismo que eu acho que eu tenho muito mais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Do que muitos brasileiros natos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Muitos, e muitos. Por exemplo, eu, na escola, eu tinha prazer de cantar o hino nacional, que tinha colega que fugia pro banheiro pra não cantar o hino nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah, é? {risos}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Entendeu? Então eu tinha essa... assim...eu brigava, eu brigava pras colegas ficarem em ponto de sentido, que naquela época a gente botava a mão no coração. A gente cantava toda segunda-feira, durante a semana. Eu adorava, tinha paixão e chorava quando meu pai não deixava eu marchar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Você marchava então o “Sete de setembro”...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Marchava o “Vinte e cinco de agosto”, que era o Caxias, que era o patrono, do dia do soldado e marchava o “Sete de setembro” em Petrópolis. Então quando o meu pai não deixava, eu me revoltava porque eu queria marchar. Eu queria tocar em banda, eu tinha essas coisas assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Mas aí ele não deixava por que, assim? Tem algum motivo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Ah, porque...Não, não era por coisa...Era assim: “Ah, é pra muito longe”, porque a gente saía de Cabuçu e ia marchar lá em Petrópolis. Então era mais por, assim, por...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Economizar dinheiro de passagem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, porque a gente ia no ônibus da escola. Ai, é... é... Como é que se diz? Mais por... porque... é... negócio de pai mesmo, ficar segurando, não vou, vai com quem, é bagunça, mais essas coisas assim, não... não por restringir porque... não, nada disso. Então vir comigo assim, por exemplo, que as pessoas às vezes aqui no Rio de Janeiro quem... o português que morava no centro urbano, ele tinha acesso a essas Casas portuguesas, Casa do Minho, Casa de Viseu, Casa de não- sei- mais- aonde tinha esse... Entendeu? Freqüentavam esses locais. Mas nós não freqüentávamos. É... meu pai exclusivamente entrou dentro de Cabuçu e ficou dentro de Cabuçu. Ele não saiu pra nada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;{nesse instante, há uma pausa para a troca do lado da fita do gravador. Fita 1, lado “B”}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Mas então a senhora falava do... de associações portuguesas, que não tinham...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, não tinha porque era um bairro muito pequeno. Até hoje ele é um bairro muito pequeno, entendeu? É um... é um lugar menorzinho, assim, do que a Praça Seca aqui {a entrevistada reside em Praça Seca, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro} Um lugar assim: é só a Praça Seca e os lugares em volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Tinha uma identificação dos portugueses? Vocês buscavam... continuavam... buscavam ficar juntos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não. Tinha essa coisa de comunicação porque era dentro do... eles também eram... eram... o comércio era deles também. Entendeu? Então era meia dúzia de bares, no caso eram quatro portugueses que eu conheço assim de... seis! {o número de estabelecimentos comerciais gerenciados por portugueses no distrito de Cabuçu} Duas padarias e quatro bares. Então eram os quatro e acabou. Eram seis portugueses e acabou. Então era de trocar, assim, falar coisas de comércio, mas nada assim de... de reunião, de ir pra casa um do outro. Nada até porque não, não... ninguém tinha tempo pra isso. Entendeu? Então qual era a referência da gente? A referência da gente era o cliente, era o freguês. A gente trabalhava até tarde da noite e recomeçava o trabalho no dia seguinte, bem cedo. Então era com ele que a gente batia papo, era com ele que a gente brincava, era com ele que a gente falava. Pelo contrário, tinha mais as referên... é... é... chegou...chegava um ponto, por exemplo, que tinha freguês que ele não tinha família, então ele se identificava com a minha mãe , que a minha mãe é que sabia o que ele gostava de comer, o que ele gostava... né? E aí nisso, por exemplo, tinha um senhor que não tinha família, que ele era da Marinha, aposentado, morava lá, que ele passava o natal com a gente. Então não era português que passava, era brasileiro que passava. Os empregados, por exemplo, meu pai teve dois empregados, um que era do Espírito Santo, que veio morar no Rio, que meu pai arrumou um lugar pra ele dormir lá num terreno que o meu pai tinha. Ele não tinha família pra ficar, então ele almoçava, dormia, tudo lá, entendeu? Então tava com a gente. E depois tinha outro, também ficava com a gente. Então quer dizer, {nesse instante, a entrevistada vira-se para sua filha e pede que ela feche a janela, por causa do vento: “Luiza, fecha essa janela, que está vindo um vento gelado”} então, é... é... que a gente, por exemplo, natal: a gente fechava o bar dez e poucas, onze horas da noite, a gente sentava e ia comer ali, dentro do bar mesmo. Ninguém ia fazer mesa, juntava mesa e que se tivesse alguém que... que não tivesse pra onde ir, por ficar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Acolhia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Então sentava junto com a gente e a gente ficava. Depois o cansaço era tanto que a gente ia dormir e não... não tinha essa coisa toda, né, de nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: A senhora diz, então, que o trabalho às vezes não dava tempo de...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não dava!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: ... de manter essas tradições portuguesas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não manteve essas tradições. Não teve essas tradições porque era só isso, era... era... Às vezes, por exemplo, a gente chorava com eles (os fregueses) e ria com eles. Não tinha essa coisa, não... de referencial justamente porque a gente não tinha vida social. A gente não saía, não se divertia. Entendeu? E a gente não tinha (vida social) no local e nem saía do local. Primeiro porque era distante e antigamente também era difícil você vir de um lugar pro outro distante, era difícil o acesso, aquela coisa toda. Quando veio a ter, as pessoas já não tinham mais idade pra... já não queriam mais, estavam cansadas. Porque você,por exemplo, se você não se acostuma com aquilo, aquilo derrepente não te faz mais falta. Então o que aconteceu? A minha mãe só conhecia entrar dentro dum bar, trabalhar o dia inteiro, de domingo a domingo, e acabou. Ela não saía. Pra lugar nenhum. Entendeu? E nem ele, por ser rigoroso demais, ter medo, também não deixava a gente sair. Então a gente só saía pra ir pra escola, pra faculdade, era o essencial que tinha. Mas eu nunca fui de freqüentar festas, nem bar, nem show, nem nada disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Era por causa disso mesmo, né, do trabalho, que não dava tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, não dava tempo, e também pela distância, porque muito distante do centro urbano. Então você não tinha... e também não tinha referencial, porque o povo também do local era humilde, e ninguém... Quem saía dali, saía dentro dali, daquele círculo. E dentro daquele círculo meu pai não deixava. Dentro daquele círculo não deixava. Não é por que não era pra se misturar, é porque ele não... não... é, por exemplo, é igual eu com a Lu... com a minha filha hoje: eu não gosto que ela vá pra... pra certas festas e bares até porque eu temo. Então a pessoa também.. eles também temiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Naquela época já tinha um temor muito grande, hoje então...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: ... pior ainda. Mas naquela época você também tinha aquele negócio, não era nem o temor de ir pra esses lugares, era o referencial que eles tinham da mulher, que a mulher não podia ir prum negócio porque ela era desclassificada, era julgada de “à toa”. Então a mulher tinha que ter hora pra ficar... a moça de família, que eles chamavam era aquela moça que não podia... até certa hora não ficava na rua, não ia pra bailes, quando uma moça ia pra bailes e no lugar se sabia, ela era mal vista, mal colocada, e, naquele tempo, se a mulher não fosse bem colocada ela não arrumava casamento, não casava. Então tinha todos os preconceitos daquela época, que hoje não existem. Hoje o maior preconceito de você deixar alguém sair é o preconceito da violência, das drogas, dessas coisas assim que você vai pra rua e você não sabe. Só que naquela época não era esse tipo de violência de andar na rua, era... tinha uma violência de alguém, um homem te pegar, te “tarar” , que naquele época se falava isso. Acontecia, como acontece até hoje. Você não vai pra rua por causa de... de... de tarado, porque você deixa de sair. Você sabe que você tá sujeita a isso também, mas, hoje em dia, é mais por causa da violência, né? Mas naquela época não tinha esse tipo de violência de assalto, de alguém chegar e puxar uma arma ou outro troço pra assaltar, não existia esse tipo de, de coisa tão... como hoje. Aquilo era uma coisa muito rara de acontecer, de alguém sacar uma arma pra você e isso acontecer. Mas existia essa coisa da sociedade. A sociedade em si, ela cobrava isso da mulher, que ela fosse uma mulher prendada, que ela soubesse ser dona-de-casa, que ela tivesse aquelas coisas que não... Então, num lugar pequeno era pior ainda, né, que todo mundo sabia da vida de todo mundo, todo mundo vigiava a filha de todo mundo, o filho de todo mundo. Então quer dizer, e meu pai, por ser uma pessoa do campo, ele (tinha essa mente conservadora) muito mais ainda. Ele não tem instrução, a cabeça dele ainda era...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Mais fechada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Mais fechada ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Como é que a senhora conheceu o Seu Joaquim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: O que aconteceu: eu não o conheci, ele que me conheceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah é? {risos}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É. Porque quando ele imigrou pra cá, justamente foi no ano seguinte que a minha irmã casou. E ele foi na festa de casamento da minha irmã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É. De penetra {risos}, com o tio dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Então o tio dele já conhecia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: ... o meu cunhado. Era amigo do meu cunhado. Então ele disse que me conheceu ali. Eu não o conheci. Ele é que me viu, não fui eu que o vi. Aí então, como ele ia muito pra casa desse tio no final de semana, ele às vezes soltava (do ônibus) lá em Cabuçu, ia lá no bar, que eu ficava no bar trabalhando, dava uma olhadinha e pegava o ônibus e ia embora. Entendeu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;{Aí há novamente, uma interferência de Luiza, filha da entrevistada}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Foi... Fala que foi o tio que deu a carta de chamada para o meu pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah é? Foi esse tio que deu a carta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Foi esse tio que deu a carta de chamada pra ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Morava já...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Já, já estabelecido. Porque essa tia dele é que chamou os tios dele todos, que ela estava no Brasil, né? Ela também teve carta de chamada, ela chamou eles, e esse tio deu a carta de chamada pra ele. Aí, então, o que aconteceu: ele, ele de vez em quando ia lá e numa dessas idas lá e uma vez meu pai tava colocando uma laje lá, e coisa e tal, ele deu umas paqueradas e tal, mas eu não me ligava. Aí uma vez ele chegou assim, eu atendendo o freguês, porque paquerava atendendo o freguês {risos}. As paqueras eram todas lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É. As paqueras eram lá. Na rua e lá, né? Na rua e lá. Então ele pegou uma vez, né, já com... bem com uns vinte e dois, por aí, acho que foi o que eu tinha quando eu conheci ele. Ele... aí um dia ele perguntou se eu queria namorar com ele Eu falei “ah, namorar? É.” Mas não que fosse assim, aquele negócio assim ah, sabe, me bateu aquele negócio. Não. Foi casualidade: ah, to fazendo nada, você também, né {risos gerais: entrevistada, sua filha e entrevistadora}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Se aproveitou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela {voltando-se para a filha}: Quem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Você! Começou a gostar dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela {voltando a falar com a entrevistadora}: Entendeu? Então foi assim, meio que desse tipo. Aí eu já tava... é... tava terminando a faculdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: A senhora fez o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Eu fiz biologia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Biologia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: A senhora chegou a trabalhar com...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Cheguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Professora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, cheguei a dar aula três anos e alguma coisa. {agora fala em um tom de voz mais baixo, como se estivesse falando consigo mesma, pensando em voz alta} Não, acho que foi mais... {voltando a falar no tom de voz “normal”}&lt;br /&gt;É, foi três anos e alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E o fato do Seu Joaquim ser português ajudou em alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não. Aquilo foi uma casualidade, porque eu namorei brasileiro, tá? Eu namorei brasileiro, eu namorei português, mas... eu namorei mais brasileiro do que português.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É. Entendeu? Não foi... foi uma coisa ao acaso, foi uma brincadeira, sabe como é que é? Um... foi o que eu falei: eu não to fazendo nada, você também...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É, é...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Foi assim. Entendeu? Não que eu dissesse assim: ah, tô morrendo de amor, não sei o que lá... Eu achava até gozado, né, olhava assim por olhar, tanto que às vezes uma amiga: pô, ele é legal, ele é bonitinho, ele é um gato, não sei o que lá e tal. Aí eu falei: ah, não tem nada a ver, aquela coisa toda. Então foi uma coisa meio que... assim... eu não o paquerei. Só que depois é que eu fui saber que ele já havia me paquerado, isso quando eu tava com quinze an... {corrigindo-se} com quatorze anos, né? Que foi quando a minha irmã casou eu tava com quatorze anos. Então foi assim, não que eu tivesse, assim ah, eu vou namorar um português, vai ser um português. Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E nessa ocasião ele tinha acabado de chegar, então, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, não. Aí ele já estava na Petrobrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah, já estava na Petrobrás?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Já estava na Petrobrás. Ele já tava na Petrobrás, tava fazendo o primeiro ano de engenharia na (universidade) Gama Filho, ele tava começando na Gama Filho, né? E depois ele trancou a Gama Filho... {corrigindo-se} Não, ele tava na Gama Filho. Aí depois eu terminei com ele, terminei com ele acho que foi com vinte e... {nesse momento, a entrevistada baixa o tom de voz, voltando-se para a sua filha, que estava sentada ao lado da entrevistadora} quatro anos, que eu conheci a namorada do teu pai. Foi com vinte e quatro. {voltando a falar com um tom de voz mais alto} Aí eu terminei com ele, aí nesse período ele começou a namorar outra pessoa, foi quando eu fui a Portugal. Eu fui a Portugal e quando eu voltei de Portugal eu terminei com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Com ele, com...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Com Seu Joaquim. Com o Joaquim. Eu terminei com ele... {volta-se para sua filha, que se encontrava de pé, próxima à pia da cozinha, local onde se realizava a entrevista. Com uma vasilha nas mãos, a entrevistadora: “Luiza, bota isso aí”, e estende a vasilha para a filha} Aí nesse período ele ficou... namorou, ficou noivo e depois é que eu fui saber... não, ele mesmo me disse... mas ele nunca deixou, assim, de me procurar. Ele sempre vinha me procurar e eu fiquei um ano e pouco só na... na... é... só de... de flertezinho, né, só nas paqueras. Aí depois de... Quando foi depois de um ano e meio ele pegou e insistiu novamente em voltar, foi no início de... em janeiro, mais ou menos, onde bateu até aquelas fotos, né, {a entrevistada refere-se a algumas fotos que mostrava para a entrevistadora, minutos antes do início da entrevista} que ele tava num retiro com a noiva dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Aquela foto que a senhora me mostrou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Aquela foto. É. Aí é que eu fui... Eu só fui saber que ele tava pra casar depois que eu estava casada com ele, porque até então eu não sabia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah é?? {risos}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É... Eu não sabia de nada disso, que ele ta... Aí depois ele pegou... ele, ele sempre ligou, né. Uma vez me procurou, dizendo que eu era culpada de ele estar noivo, estar namorando, aquela coisa toda. Aí de tanto insistirem, eu resolvi concordar com ele de casar. Então vamos casar? Vamos casar. Aí a gente voltou (a namorar) em fevereiro, no final de fevereiro, depois do carnaval, que eu brinquei carnaval né, {risos}, brinquei o carnaval todo, feliz da vida, aí foi quando ele entrou dentro da minha casa, porque até então eu não namorava em casa. Namorava na rua, nunca namorei em casa. Aí foi quando ele conversou com o meu pai e falou que queria casar, aí, quer dizer, nós voltamos em fevereiro e casamos em julho, dia três de julho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Na Igreja...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Na Igreja, tudo direitinho, como manda o figurino. E tudo nos seus “trinques”. Aí foi quando eu... aí... não, não... ele mesmo quis logo casar, entendeu? Acho que ele tinha... {risos}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Partiu dele, então... {mais risos}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Partiu dele de ca... de... de voltar e casar logo. Então ele quis casar logo, ”não, quero, quero casar”. Aí eu também falei assim: ah, já ta assim, vambora casar logo, então. {alguns risos} Entendeu? Acho que ele ficou com medo de eu não voltar pra ele de novo {mais risos}. Aí foi mais ou menos nesse nível, nesse ponto que eu o conheci. Quer dizer, eu casei praticamente com vinte e seis anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Vinte e seis anos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Eu com vinte e seis anos e ele também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E o filho, o Antônio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Antônio veio logo a seguir. Engravidei em de... Casei em julho, engravidei do Antônio em janeiro. Em janeiro. Aí...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora {a entrevistadora, nesse momento, volta-se para a filha da entrevistada, que estava sentada a seu lado}: Quantos anos você tem de diferença pro seu irmão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Quase três.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Quase três. E... assim, o que a senhora buscava passar pra eles de Portugal, alguma herança de Portugal, alguns valores de lá, ou os já apreendidos aqui no Brasil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, eram os apreendidos porque não tinha, como eu já disse a você, não tenho cultura nenhuma, assim, de lá. Você tem aquele referencial de hábitos porque teu pai tem os hábitos e você adquire os hábitos, né? Os hábitos, assim, de... de como proceder de vida, de caráter, de pensar, de organizar tua família, isso eu adquiri. Agora, passar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;{nesse momento, mais uma interferência de filha da entrevistada}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Comida também... A gente come comida de Portugal...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela {voltando-se para a filha}: Sim, mas é uma comida, Luiza , que praticamente é quase tradicional. Todo mundo aqui já conhece, já passou... {tornando a falar com a entrevistadora} Alguém... algum brasileiro sempre já comeu alguma coisa que tenha aprendido com um português e que tenha comido na casa de alguém e já passou até a uma receita normal da culinária. Entendeu? Isso aí já... O que é que é uma bacalhoada? Todo mundo hoje come na... você vê: o brasileiro, em si, tem... a maior parte dele, se puder, vai ter o bacalhau. É ou não é? De preferência ele vai ter... ele pode botar outras coisas, mas se ele puder ter dinheiro disponível pra botar o bacalhau pra todo mundo, ele vai botar o bacalhau e ele vai...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Pelo menos no domingo, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, ele vai botar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza{filha da entrevistadora}: Mas a gente tem aquele lance: natal. Natal sempre tem que ter o bacalhau...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;{neste instante, inicia-se uma conversa entre mãe e filha, em um tom mais “acalorado”}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, eu to falando Luiza...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: ...se não tiver o bacalhau...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Imagine, mas é isso que eu to falando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Não é, não é a família... não é... Entendeu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Presta atenção, mas eu não to falando do dia-a-dia. Eu to falando geralmente do natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Ah, ta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: O referencial que eu passei... e que eu to falando. Isso, do referencial do comer, isso é um referencial que o brasileiro tem do português. Né? {voltando a falar com a entrevistadora} Quem é que no natal, aqui no Brasil, não quer ter o bacalhau? Todo mundo não corre atrás do bacalhau?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É ou não é? Então é um referencial que o brasileiro adquiriu das tradições, até porque existe toda uma... é... sempre algum brasileiro é neto ou tem parentesco com alguém da família que tenha casado com alguém... Sempre tem alguma origem. Se não tem, tem de espanhol, que também tem esse hábito de comer bacalhau e aquela coisa toda. Então tem esse referencial. Agora, tradições, por exemplo, pra eles, e levar eles pra lugares portugueses também... eu também nunca fiz com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Hoje em dia a senhora faz ou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não. Também não faço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: De freqüentar casas portuguesas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não. Só fui uma vez, agora há pouco tempo. Ele (o marido) não vai... a gente não tem vida também social. E outro dia que ele levou a Luiza num coisa aí, só onde tinha uma concertina, né, uma... uma sanfona tocando, pra ela ver. Mas referencial também não tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Nem música portuguesa, nem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Não, isso aí sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Música portuguesa tem, por exemplo, quando vai à alguma festa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Festa de família sempre toca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Festa de família. Só que não é que é festa de família só tem música portuguesa. Não. Na festa de família, por exemplo, quando casa alguém: toca tudo. Toca rock, toca samba, toca tudo e finaliza com ela, ou entre ela no meio, aquela coisa, entendeu? Ou seja, é dado a todo mundo... porque não tem só português na... a festa não é só de português, tem brasileiro no meio, tem todo mundo, entendeu? E até porque a gente gosta também. E até porque, por exemplo, eu tanto... é... sou como a Luiza, né... Eu gosto de escutar um rock, uma música americana, uma música francesa, uma música italiana, uma música brasileira, adoro um samba, entendeu? Então quer dizer, tem um pouco de tudo, até porque tem... a maior parte dos portugueses que ainda existem, que são poucos dentro do Brasil, eles já filhos portugueses. Então o que é que acontece: todo mundo gosta, vai botar uma música só? Não. Bota música pra todo mundo. E nesse meio a gente vê que os brasileiros que tão no meio, eles se juntam, participam, são muito participantes. Eles gostam de participar e gostam de aprender. Todas as... por exemplo, casamento de família que a gente já participou, todo mundo se infiltra no meio e aprende, quer aprender como é que é e como não é. Mas não existe, assim, uma coisa muito fechada como, por exemplo, tem raças que elas são fechadas, principalmente os Árabes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Os Árabes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Eles são...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Os Judeus também...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Os Judeus... Eles são muito fechados no recinto deles de família. Até mesmo pra casar a descendência deles com outras pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Eles costumam casar entre si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Entre si. E... e principalmente no caso de ser um homem casando com uma brasileira. O judeu não aceita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Eu acho que ele tolera mais do que, por exemplo, se uma mulher judia casar com um não-judeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Tolera mais a mulher casar com um não-judeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: É verdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Eu também pensei que fosse o contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, é porque ela é... eu não lembro agora, mas tem uma coisa da mulher. A judia, ela é tida como a... uma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: É porque é dela que vai vir o filho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É dela que vai vir o filho, então o filho é que é o herdeiro, que é o nato. Entendeu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah, sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Entendeu: Então quando é um brasilei... um judeu casando com uma brasileira, esse filho já é discriminado do meio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: É, tipo, a gente também não tem muita certeza sobre isso, né, mas eu acho que é assim que funciona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Isso eu não sei te contar direito, mas é por esse lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: É, eu acho que é sim. Eles falam que... que tem que ser... tem que ser da mãe porque vai ser o filho, e blá, blá, blá, eles...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É como se a genética vem pela linha materna, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: É, pela linha materna, porque é ela que gera, entendeu? Então é como se fosse isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Então seria ela a responsável por passar aqueles...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: E o cara que casa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: ... valores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: ... com a mulher, no caso, ou se a mulher que casar com um judeu for aceita, tem que abdicar da religião, tem que abdicar de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Tem que se converter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Tem que se converter ao...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, isso não, por exemplo, não existe no meio de português com brasileiro. Ninguém que... que abre mão de nada, nem de religião, nem de... desse negócio, porque eu acho que justamente naquela época a colonização veio pra cá justamente por causa da língua, e por causa do que oferecia, né: a facilidade, principalmente que, naquela época que o pessoal saiu de lá foram fugindo da guerra, porque ninguém queria servir, porque ia pras Áfricas, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Né, morreu muita gente nisso. E pra fugir de... do regime de Salazar. Entendeu? Porque naquela época já estava passando por aquela crise de... do pessoal ficar muito preso no campo, não tinha muito pra onde as pessoas evoluírem muito. Então as pessoas do campo, elas queriam ter uma oportunidade maior , como por exemplo, hoje o pessoal vem do Nordeste, do campo, da seca, pra cidade, pra quê? Pra ter uma vida melhor. Mas você pode conversar com qualquer nordestino que o sonho dele é voltar pro Nordeste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: A senhora pensa em voltar pra Portugal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: O pai dela {aponta para sua filha} pensa. Se eu for é por livre pressão dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah, é? {risos}. Porque pela senhora mesmo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não. Eu me mudaria do Rio, mas não pra lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Pra onde a senhora tem vontade de ir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Eu acho que eu ia pro Nordeste. Ou pro Sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Pro Nordeste?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Entendeu? Ou o Nordeste ou... Não é o Nordeste dessa área coisa, né, porque tem “estados” na Paraíba que tem clima super agradável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: A-ham... Lugares...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Principalmente a capital, João Pessoa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, eu acho que Pernambuco também, eu acho que tem lugares que são promissores, se você tiver uma... uma certa colocação, uma certa... se você souber doutrinar as coisas, se você já tiver um alicerce, você consegue ter uma vida boa. Ou o Sul que é um país extremamente... o pessoal tem uma cultura...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza{corrigindo a mãe}: País, mãe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Um Estado que tem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza{voltando a corrigi-la}: Estado, mãe? Região!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora {voltando-se para a filha da entrevistada}: A gente entendeu, Luiza!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É uma região que tem uma certa cultura, o povo é um povo, assim, educado, um povo mais conservador na cultura deles, entendeu? Então, já estive e gostei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É mais próximo do que é o...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, não, não...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: ... português.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, não é por causa disso não. É porque eu tive lá e gostei da maneira como eles vivem. Cidade limpa, as pessoas organizadas, educadas, menos violentas, entendeu? Então você... você vê isso. Eu acho assim: eu acho que o carioca ele... ele é o melhor, assim. É o mais comunicativo, mais expressivo, mas ele também é o... Nesse ponto que tem o positivo, também tem o negativo: quando ele dá pra ser o que não presta, também, ele é o pior. Né, quando o meio não favorece a ele...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;{Barulhos na cozinha. Algumas coisas que estavam sobre a bancada da pia caem no chão devido ao forte vento que entrava pela janela aberta. Luiza solta um grito: Ai!}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela {falando com Luiza}: Eu te pedi pra você fechar (a janela). {voltando, agora, a falar com a entrevistadora} Eu tenho essa coisa, né... Então você vê que você tem regiões diferentes e que você chega ali, o povo tem hábitos diferentes e pode ser feliz assim. Que não dá pra entender, por exemplo, por que é que... de... de uma região pra outra, um governante não copia as idéias do outro, a maneira de administrar uma cidade da outra. Você vai lá, você vê as ruas, determinados municípios lá, cada um tem uma calçada de um jeito, tudo organizadinho, tudo limpinho, você vai pra outra (cidade) a calçada tem todo um calçamento de uma cor, que é padrão, as rodoviárias extremamente limpas, os ônibus tudo no horário certo, direitinho. Então por que essa organização não ser copiada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Lá no Sul, então, diria que é mais uniforme as administrações dos três estados, o que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: O Nordeste eu não conheço, mas no Sul, eu gostei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Muito mais do que no Rio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Muito mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E Portugal é assim também? Se tem muita discrepância de uma região de Portugal pra outra na questão de organização, limpeza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, não que eu visse. O único lugar que eu vi, assim, que parece um pouco com o Rio de Janeiro e que me identifica muito, que se eu tivesse, assim, de optar um lugar pra morar, que eu sou de Braga...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Braga é... Desculpe perguntar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Norte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Norte de Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, norte de Portugal. ... seria, no caso, Lisboa. Eu gosto de Lisboa, acho que tem a ver com o Rio de Janeiro, é uma área, assim, de litoral, é mais quente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Entendeu? É mais quente. Então, mas lá em Lisboa você já vê , já vê gente na rua, você já vê muito assalto, até porque houve uma... é... por exemplo, muito português da Angola, ele veio e o governo português ele deu apoio total. Então muita gente veio e se refugiou lá e também ficou e não quis saber de nada, entendeu? Então levaram a vida assim, “a lá vantê”, ou então ficaram pela rua, ou então se tornaram mais violentos. Então você encontra já gente pela rua pedindo, então já ta uma cidade mais misturada, né? Raças e tudo; você vê muito brasileiro, você vê angolano, você vê... tudo, quanto é raça você vê lá agora. Ta parecendo o Rio de Janeiro, tem tudo! Então é um lugar que você se identifica... é, por exemplo, o pessoal tem uma vida social muito, muito mais liberal, ninguém se incomoda com ninguém. Então você tem teatro, você vai pro teatro, os teatros lá eles param pra você fazer lanche, os cinemas já... Quando eu fui lá, que eu tava com... Tem mais de vinte anos que eu fui lá, no meio da sessão do cinema, o cinema para o filme, você vai ao banheiro e depois você volta, tem seu lugar. Eu estranhei, né, aonde é que eu tava, que eu nunca tinha visto isso. Hoje em dia já tem nos, nos cinemas já tem um barzinho, uma coisa, né. Mas isso já há muito tempo que tem lá. Então quer dizer, você circula de noite, por exemplo, tem a vida noturna igual tem em Copacabana, mas com segurança. Então essas coisas que... se eu tiver, assim, hoje que eu tivesse que ir , se eu tivesse que optar por um lugar, eu optaria por Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Faz muito tempo, então, que a senhora esteve lá pela última vez?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Pela última vez, agora fez sete anos. Mas eu fui muito rápido, fui, assim, dezesseis dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E tá bem diferente do Portugal que a senhora deixou pro Portugal de hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, ta bem dife... Bom, que eu deixei eu não lembro, mas quando eu fui a primeira vez, há vinte e poucos anos atrás, ele tá bem diferente. Quando eu fui há vinte e poucos anos atrás, as estradas eram horríveis, eram... que lá era muita serra, as estradas são tudo muito em “S” , e muitas coisas... Então eu senti muito... Você pra ir prum lugar perto, você demorava muito mais porque as estradas não te ofereciam... Depois que o... que o... que Portugal entrou pra Comunidade...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Européia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Européia, ele teve uma... uma... uma virada muito grande. Você chega lá, você pega a auto-estrada que você faz percurso rapidinho. Tem tudo na... tudo muito moderno. É um tapete, você fica, assim, encantada, então quer dizer, tem muita limpeza, você chega nos lugares tá tudo direitinho, ninguém mexe no... Chega numa praça pública que tem jardins e tudo, mas sempre igual tudo. Ninguém toca, ninguém mexe, então ainda tem uma certa... ainda mantém um certo padrão de conservar os costumes, né? De limpeza, de organização. O professor lá é tido como um doutor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ele é mais respeitado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Ele tem tanto conceito quanto o médico. Você, por exemplo, o padrão, hoje em dia que você tem no Brasil que é mais respeit... um pouco mais respeitado ainda é o médico. Ah, é o doutor , nem engenheiro é colocado como doutor. Ah, ele é engenheiro, mas... né? Nem todo mundo coloca assim, a não ser que seja uma cara seja um cara de nome, ou o advogado seja um advogado muuuuito famoso, aquela coisa toda. Mas se não for, advogado então... Ah, advogado? Né, se tornou uma coisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Professor, então...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não tem. Mas uma professora primária há vinte anos atrás, quando eu tive a primeira vez, era a senhora. Todo mundo olha você como diferente. A senhora professora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Isso lá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Lá. Eles têm salários bons, eles têm... Os filhos têm acesso que hoje estão tendo em escolas particulares, que os filhos estão tendo esse direito dos filhos estudarem... que isso é novo aqui, é de uns tempos pra cá, que antigamente não tinha. Mas lá os filhos... as professoras têm. Elas são recicladas sempre, ela têm uma cultura muito mais ampla, a professora primária, ela não fica presa só a aquela coisa, ela tem uma... uma cultura maior, um Q.I de matérias muito mais abrangente. Por isso até que os dentistas não foram aceitos lá em Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É. Porque, por exemplo, aqui as profissões... eles são melhores porque eles só se voltam pra parte de odontologia. Mas lá eles têm uma noção maior da medicina. Eles têm matérias a mais do que aqui. Então por isso até que eles não são tão bem preparados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Mas saem mais completos, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Mas tem uma, uma responsabilidade maior, entendeu? Então quer dizer, por que é que não era aceito? Porque no curriculum deles não preenchia todas as matérias que tinham lá. Então eles são mais cobrados. Agora, dizem agora, não sei te dizer, o Antônio deve saber, que eles estão até retirando algumas matérias, até pra não sobrecarregar. Mas o professor lá era muito mais completo. Por exemplo, eu conheço uma amiga que ela era professora primária lá, voltou, esteve no Brasil, voltou novamente, o emprego dela tava lá pra ela, e ela sabia francês, latim, inglês, e ela sabia biologia mais do que eu, que fiz uma faculdade. E ele nunca tinha feito faculdade nenhuma. Então a... a... o tudo do conhecimento que é dado lá ao professor, ele é... pra ser professor, ele tem que ter uma... uma... uma carga de matérias muito maior do que aqui. Então ele é bem mais conceituado. E ele também tem que ter um conhecimento muito maior. Então hoje um professor aqui de... de primário, ele faz em qualquer lugar e, às vezes, muitas das vezes, o local de ensino não é nem legalizado. Só vai ser legalizado não sei quanto tempo depois. Então não tem essa prioridade no número de matérias que ele tem que ter, tipo aquele básico, até nas faculdades você vê. É um absurdo, numa faculdade que você faz hoje de engenharia não-sei-o-que, você não ter o português.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É verdade...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Entendeu? Eles tiram uma porção de matérias que seriam básicas você ter. Nunca poderiam tirar o português, teriam que fazer a faculdade toda e ter noções, nem que fossem superficiais, mas sempre teriam que estar batendo nas regras de escrever, de acentuar, de falar, né? Então, isso é cortado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Acho que uma das principais diferenças entre a... que a senhora vê entre a educação daqui do Brasil e a educação de lá de Portugal é justamente esse fato, né? De lá eles saírem mais completos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, do curriculum de lá ser mais completo do que o daqui. Isso é que eu pude observar com as pessoas, assim, que eu chegava lá, conversava né? Por exemplo, eu tenho uma prima que fez letras lá. Ela leu mais livros da literatura brasileira do que eu. Entendeu? Ela sabia mais quem eram os escritores brasileiros e tava mais a par deles do que eu, que tinha passado por... pela escola todo esse tempo. Então quer dizer, além de ela saber os escritores, a literatura portuguesa, ela também sabia bem a brasileira, ela conhece bem da literatura brasileira. Então teve um foco muito maior, que às vezes a gente acha que pra que é que é isso? É uma cultura inútil, que a gente tem mania de colocar muito isso, da cultura inútil, de dizer assim: vou ter arte pra quê? Qual é a influência da arte? Mas tudo tem um porque, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Não vê a real importância que isso pode ter na educação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Na educação, né? Como é que você vai passar? Então essa é a visão que eu tenho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: A senhora falou que casou na Igreja e tal, como é que é seu vínculo hoje com a religião?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Eu sou católica. Continuo sendo católica, mas eu também gosto... estou conhecendo o evangélico, a Igreja Evangélica e os membros dela, alguns membros dela e me identifico...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;{nesse instante, há uma pausa para a troca da fita do gravador. Fita 2, lado “A”}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Então a gente estava falando da religião. A senhora é católica. E a sua família era tradicionalmente católica?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Toda ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Então a senhora já foi criada dentro do ambiente do...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Católico. Da Igreja Católica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Do catolicismo, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E Santos de devoção, a senhora tem algum Santo de devoção?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Eu tinha. Hoje em dia eu já... é... Como eu freqüento agora reuniões evangélicas, eu larguei um pouco essa coisa de... de Santo. Entendeu? Mas eu tinha Nossa Senhora da Penha com referencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Nossa Senhora da Penha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Da Penha. Não era nem Nossa Senhora de Fátima. Nossa Senhora da Penha. Era a Igreja que eu gostava de ir, de vez em quando ir lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Onde é a Igreja? Aqui mesmo no Rio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: No Rio de Janeiro. Aquela da Penha mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah, sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Era quando eu... de vez em quando tinha. Ela também tem um referencial todo português, né? Não sei se você sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Não, não conheço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Ela foi construída pelo... pela colônia portuguesa. Então ela todo ano, em outubro agora ela tá tendo a festa e tem... tinha bandas portuguesas que tocam lá, tinha todas as tradições. Essa era uma tradição que meu pai de vez em quando fazia. Era em outubro, ir na Igreja da Penha. Onde tinha muito português, dava muito português, hoje não dá, porque aquilo ficou em volta tudo de favela, né? Onde ali você encontrava tudo quanto era comidas, tremoços, esses troços assim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Comidas típicas portuguesas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É, e... o pessoal fazia piquenique, coisa que o português tem muito o hábito de fazer. Piquenique, né? Tem muito... eles lá não chamam de piquenique {virando-se para sua filha, a entrevistada lhe indaga}. Como é que é, Luiza, que eles chamam? Tem outro nome que dá... Entendeu? O pessoal tem muita mania de, de passear em Portugal, parando nos locais e levando comida e... sabe? Então eles tem muito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza {filha da entrevistada}: Eles fazem isso lá em Fátima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela {voltando-se para Luiza}: Em todo lugar eles fazem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: (Mas em Fátima eles fazem muito)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela {falando com a entrevistadora}: Entendeu? A... {nesse momento é interrompida por sua filha}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: A gente tem até torneirinha pra lavar a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Mas, mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Sério mesmo. Eles estendem a toalhinha bonitinha, igual você vê em filme americano, (estendem) lá. Tem mesinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Leva tudo, leva...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Mesa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Em todo lugar que... não, mas lá em Portugal é inteiro. Em todo lugar que você passa, pelas estradas, nas serras, sempre você encontra uma mesa de concreto, uma cadeira, o pessoal chega, para e forra um... uma... uma toalha, faz o seu lanche... Merenda! {lembrando o nome pelo qual o piquenique é conhecido em Portugal}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Merenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Lá chama merenda (sic). E todo mundo leva, faz aquela merenda e vai embora. Então tem muito, reuni família, quando eles vão fazer... não é só pra Fátima. Qualquer Igreja que eles vão visitar: São Bento, o (Sameiro) em Braga, a família já vai, mas já vai com a... com a merenda e no meio do caminho come e faz a festa, aquela coisa toda. Então tem muito disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E time de futebol? A senhora tem algum time aqui no Rio, ou tinha lá em...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Aqui eu torcia pelo Vasco e lá em Portugal em não tenho nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza {talvez um pouco contrariada pelo fato de sua mãe falar que não torce para um time português}: Benfica, mãe!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela {com um leve tom de desdém}: Ah, Benfica...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: O vovô é Benfica, eu sou Benfica, o Antônio é Benfica, você também é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É mais por tabela, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Não, nós somos “benfiquenses”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Ela {apontando para a filha} é que ta dizendo, não sou eu não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Meu pai que é “portista” {torcedor do Porto} [?]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: E hoje em dia a senhora olhando... quando a senhora chegou ao Brasil, toda essa sua trajetória, o que é que a senhora tira de... de lição?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não sei. Realmente eu não sei. Eu acho que a única coisa ruim disso tudo, por exemplo, é que... eu gostaria de ter aqueles vínculos que eu falei, de família, né? De ter minha família, de ter tido, assim, parentes, aquela coisa, avô, avó, primo, tia... Por exemplo, eu perdi tias que eu nunca conheci. Um primo meu morreu esses dias e eu não tive emoção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Justamente pela falta de convivência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Né? Quem é? Tem primo que eu não conheço direito e tem primos segundos {de segundo grau} muito menos. Então você perde uma identidade. Essa identidade de família, quando você emigra, que você não volta mais ao local que você... de origem, você perde essa identidade. E isso fica um vazio. Pra uns, não, mas pra mim fica porque eu gosto de família, do laço da família. Entendeu? Por exemplo, é... se você me perguntar assim: Por que é que você não iria hoje embora do Brasil? Por que é que você tem dificuldade de ir embora do Brasil hoje? Se Lá é melhor do que o Brasil? Não. O povo é melhor do que o brasileiro? Não. Você se identifica com o povo de lá? Não. Por quê? Porque eu gosto de... Eu sou brasileira! Eu gosto de bater papo com todo mundo, eu gosto de andar à vontade, eu gosto da bagunça, eu gosto da farra... Eu não sou vascaína, mas eu torço pro... sou... Meu espírito é flamenguista, vamos dizer assim {risos}. Então, é... eu sou carioca. E lá o pessoal é mais conservador, mais na dele. Então você... tá ruim hoje o Rio de Janeiro? Tá. Garanto que uma parte dos cariocas, se dissesse assim: eu posso ir pra outro estado ter a mesma vida igual eu tenho no Rio de Janeiro, mais tranqüila, todo mundo sairia e pegaria, como todo mundo hoje ta imigrando dentro do Brasil. E todo mundo está procurando as oportunidades melhor (sic) pra fora, pra tudo quanto é lugar, né? Então... mas... é... por que você iria embora? Questão de segurança. Porque aqui só não ganha dinheiro quem não quer. Aqui no Brasil só não ganha dinheiro quem não quer. Porque você vê que a pessoa encosta em qualquer sinal ela vende. Né? Ela encosta no sinal ela vende água, ela vende alguma coisa, quer dizer, tem essa facilidade de você fazer alguma coisa. Que você vai chegar na Europa e você... ninguém vai deixar você fazer isso, porque tem regras, tem normas. Aqui nós não temos regras nem normas. Então ninguém vai te deixar. Se você hoje montar uma micro-empresa clandestina em Portugal você dança, você é preso, você é punido. Você não pode ter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Hoje em dia aqui no Brasil...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: ...Todo mundo faz isso. Então quem paga o imposto hoje em dia é quem tá com a porta aberta. E ele paga muito caro porque os outros não pagam nada. Quem paga imposto? Não sei o teu {apontando para a entrevistadora} pai, se ele é empregado. Ele é empregado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Recebe em folha? Quem paga, quem é descontado legal é quem recebe em folha. Quem não recebe em folha (não paga não). Então quer dizer, sempre acaba partindo por esse lado. Lá você tem toda uma doutrina, se alguém descobrir, alguém dedura você. Porque ninguém quer pagar pro outro não pagar. Então a população tem essa coisa: eu pago, o outro também tem que pagar. Eu faço o outro também tem que... Então tem... todo mundo quer, assim, seja igual pra todo mundo. Então tem essa coisa. Agora o que é que você estranha... que, por exemplo, se você disser : é, você tem condições de ir pra lá? Você tem... você vai encontrar morada, você vai encontrar coisas... Por exemplo, hoje um filho de bra... de português, dentro de Portugal, tem mais regalias do que o português. Tanto que você viu a situação da Luiza de fazer uma prova lá {a filha da entrevistada fez uma prova para ingressar numa faculdade em Portugal}. Ela teve todo essa aparato que às vezes você não tem aqui pra você fazer uma prova, sendo brasileiro. É ou não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Você vê que ela foi fazer uma prova lá de duas matérias. Só de duas matérias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Mas prova pra quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Pra...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Eu fiz... Calma aí! Eu fiz só de duas matérias porque eu já tinha passado no vestibular aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Sim, mas presta atenção, se você fosse pros Estados Unidos ou pra outro país qualquer, você não tinha essa convocação. Não é te dado esse direito. Você... {a filha balança a cabeça, como que discordando com a mãe} Não, não é te dado esse direito, Luiza, porque você nem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Mãe, não é só pra brasileiro não, tá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Presta atenção...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: É pra qualquer imigrante em Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Presta atenção, pra filho de... de coisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza {com um tom de voz próximo da impaciência}: Qualquer imigrante em Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela {repreendendo a filha}: Calma, por favor, Luiza...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza: Pô, eu tava na frente de uma... eu tava atrás de uma imigrante na prova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Sim, mas depende do imigrante, de quem ele é filho, Luiza. Se ele é filho de português, ele tem o direito. Tanto que os angolanos... revoltou muito o... a... os portugueses que eles vieram e receberam subsídio pra voltar. Quem quis voltar, preto ou branco, né, porque em Portugal não tinha negro até acabar a guerra nas Áfricas, nos países da África que eram... pertenciam a Portugal, então ele recebia eles. E deu toda a assistência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Afinal eram ex-colonos, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Pois é. Mas se já tinham aquela coisa... com o filho era aquela coisa. Então eles receberam essa ajuda, que poderiam não ter recebido. O governo poderia ter rejeitado. Mas eles receberam. Por exemplo, é... brasileiros, filhos de brasileiros meus, amigos meus que foram embora, na fase da Luiza, menores do que a Luiza, chegaram a Portugal, voltaram pra Portugal, o marido foi assassinado aqui, a família voltou pra Portugal e chegando em Portugal eles receberam ajuda de custo pra estudar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza {corrigindo a mãe}: Assassinado não, seqüestrado, mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela {voltando-se para a filha}: Ele foi assassinado. Você não sabe o que eu tô falando, fica quieta. {Agora tornando a voltar-se para a entrevistadora} Então eles receberam ajuda... {mais uma vez falando com a filha} Não tô falando de quem você tá pensando, não. Não senhora! {para a entrevistada} Então eles recebiam pra escola de graça e ainda recebiam subsídio. Um salário todo mês pra eles...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Pra eles estudarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Pra eles estudarem. E não eram portugueses. Eram brasileiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Mas filhos de portugueses?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Filhos de portugueses. Mas só pelo fato de eles serem órfãos e de menor, eles receberam ajuda de custo do governo. Entendeu? Então tem essa... e... essa ajuda que você... o brasileiro aqui, nem ele brasileiro tem essa ajuda numa coisa necessária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistada: É verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Você...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Nem o próprio nativo. Quiçá o filho nascido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Nativo {português} tem. Entendeu? Então eles receberam toda uma ajuda e nunca mais voltaram. Eles são brasileiros e não voltaram mais. Todos três são brasileiros e não voltaram mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ficaram por lá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Ficaram por lá. Então tem essa coisa assim de... de que às vezes assim, as pessoas colocam uma [?] Não, porque aqui também não aceita. Aqui também não aceita. Você... entendeu? Aqui também não aceita. Por exemplo, a minha mãe, ela ficou trinta e oito anos, se não me engano, dentro do Brasil, ela tem bens dentro do Brasil, ela paga impostos dentro do Brasil, ela é aposentada dentro do Brasil, porque ela pagou, contribuiu aqui e se ela não vier todo ano dar visto no passaporte ela não entra mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ah é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Mas ela mora lá, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Ela tá morando atualmente lá, mas ela é contribuinte no país. Ela todo ano declara os bens dela e paga imposto ao Brasil. E ela contribui...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É porque ela tem bens aqui, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Tem bens aqui. Então uma pessoa que tem trinta e oito anos de Brasil, ela não pode ficar três ou quatro anos sem entrar dentro do Brasil? Isso não tem lógica. Se ela deixar de ficar... perder o visto de... no passaporte dela, que tem no máximo um ano e meio, dois anos, eles cortam o direito dela. Se ela quiser voltar novamente, ela não... não volta mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Não pode?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não pode. Entendeu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Caramba...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Então às vezes as coisas são... são colocadas de uma maneira... entendeu? Por exemplo, ela tem que vir agora. Não só tem que vir por causa da aposentadoria dela, ela poderia... pode passar um atestado médico de lá, de vida dela pra cá. Mas se ela passar mais de um ano e meio sem ela entrar dentro do país, mesmo ela mandando, não aceitam o INSS e cortam a aposentadoria dela, que já cortou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Caramba... Já cortaram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Já cortaram. Ela já ficou seis meses sem receber. E o dinheiro não sai do Brasil. O dinheiro fica em poupança aqui no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Em poupança, então, ela não pode, no caso, tirar e levar pra lá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não. Ela não leva porque ela chega aqui, gasta ele aqui. Ela já deixa pra gastar aqui. Você entendeu? Então... mas só que quando ela chega aqui, ela tem que ir no INSS, entrar com uma ação pra esperar pra liberar aquele período, pra novamente ela fazer outra carta, pra depois sair e ficar outro tempo. Toda vez é essa burocracia. E, no entanto, ela não contribuiu em Portugal esses trinta e oito anos que ela ficou fora, nunca contribuiu. Contribuiu apenas cinco anos como rural, e ela tem a aposentadoria dela lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É bem diferente o sistema de lá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Bem diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: ... e o daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Entendeu? Então ela pagou... contribuiu só cinco anos lá e o governo lá deu direito a ela como rural, porque ela tinha sido rural num período anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Rural que a senhora diz, que trabalhava no campo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Do campo, do campo. Só que ela nunca tinha sido contribuinte no campo, porque não descontavam no campo. Quem trabalhava no campo não contribuía pro... no caso lá eles chamam “Caixa”. Aqui é “INSS”. Então ela nunca tinha pago o INSS lá. Lá só pagou cinco anos de INSS e conseguiu se aposentar. E a aposentadoria dela lá vale mais do que a daqui, que ela contribuiu sobre cinco salários e só recebe um e meio. E meu pai só recebe um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Tem algo... nessa trajetória toda tem algo que a senhora se arrepende de ter feito, assim, ou se arrepende de não ter feito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É. Ou nesse caminho todo que a senhora percorreu, desde que a senhora chegou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não. Não tem nada não. Eu gosto daqui. É aquele negócio (que você tinha me perguntado), é, eu ir embora daqui. É a raiz. Porque, o que é que acontece: como eu não tive uma raiz, a raiz de lá, da minha origem, eu não tive uma família lá, eu tenho medo da perda das pessoas que eu fiz aqui. Entendeu? Porque eu sou assim, muito raiz, muito da... da... Por isso que eu digo pra você: tenho emoção no Hino Nacional? Tenho. Porque é uma raiz que eu criei. Eu não tive uma outra identidade. Então você dizer assim: vai embora, eu não consigo. {Silêncio. A entrevistada, mais uma vez, é tomada por forte emoção, indo às lágrimas} Nem tem como ir embora {falou com voz embargada}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza {percebendo as lágrimas da mãe, se aproxima}: Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela {ainda com voz embargada}: Porque é como se novamente perdesse essa raiz. Você entendeu? Perdesse aquilo tudo que você não teve. Quem você tem? Eu só tenho as minhas irmãs e um tio. Mas eu tenho os amigos aqui, aquelas pessoas que fizeram a minha história, a minha cultura, que passaram pela minha vida. Então essas coisas assim eu tenho medo de perder. Porque é outra raiz que eu vou ter que criar, com quarenta e nove anos? Então não tem... Então eu acho assim: todo ser humano, ele tem que ter um referencial e poucas pessoas entendem o imigrante como se fosse uma pessoa assim: ele ta aqui, mas ele não ama isso aqui. Mas não é bem assim, porque não diz que mãe é aquela que cria? Pátria é aquela que cria também. Entendeu? Pátria é aquela que cria. Então quer dizer, eu tenho... (ele tem) esse referencial. Por exemplo, a minha mãe tá lá, mas o referencial dela é esse aqui. Por que é que ela fez uma opção de estar lá agora? Por tranqüilidade, pra poder, vamos dizer assim, estar dentro do lugar que ela nasceu, ter uma vida tranqüila... Mas na verdade, na verdade, ela gosta disso aqui. Ela queria estar no meio dos filhos e dos netos. Mas por opção do meu pai... Por revolta também. Uma pessoa que contribui pro país, é... a vida toda... Pra você ver, ele chegou em cinqüenta e... dois?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Três.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Entendeu? E que você se aposenta e você fica com um salário mínimo. E se você quiser sobreviver aqui, se você não tiver uma renda, você não consegue sobreviver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: É verdade. Hoje em dia a saída é fazer previdência privada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Entendeu? E uma pessoa que trabalha a vida toda, de domingo a domingo, de sol a sol e que praticamente a renda dele vai ser pra quê? Pra pagar um plano de saúde. E que você não tem o direito de ir e de vir... Então o que é que acontece: se eu posso ter isso em outro lugar que ele tenha assistência médica de graça, ele não paga plano de saúde, ele tem remédio com desconto, ele tem uma caderneta de poupança que ele ganha mais pela idade dele do que as outras pessoas, que lá em Portugal, acima, acho que, de sessenta e cinco ou setenta {a entrevistada dá uma ênfase maior a essa última palavra, indicando que a real idade para a concessão do benefício é de setenta anos}, a pessoa idosa ela tem direito a... a poupança dela rende mais. Então tudo isso te faz o quê? Até porque eles não gostam de vida agitada, eles gostam de vida pacata, porque, você vê, o meu pai foi prum lugar onde não tinha uma vida, assim... vamos dizer... tumultuada, de centro urbano. Não. Ele foi prum município que não tinha nada, que mal tinha ônibus naquela época, quando a gente foi pra lá. Tinha “Maria-fumaça”, essas coisas todas. Então ele foi prum lugar disso. Então quer dizer, ele procurou o quê? Novamente o campo, que era um lugar que tinha a identidade dele. Lugar parado, lugar quieto, onde iam aquelas pessoaszinhas (sic) calmas, né, que Cabuçu também era assim. Hoje em dia não, porque o Rio de Janeiro tomou... Qualquer bairro do Rio de Janeiro seja lá da... mais pobre possível tá todo tomado. O tráfico tá em todo lugar dentro do Rio de Janeiro. Você vai num lugarzinho aí qualquer, que não tem... que mal tem uma padaria, o tráfico ta lá. O roubo ta lá. Então quer dizer, isso é que você... às vezes a pessoa procura. Condeno eles? Não. Eu aceito a opção deles. Eles chegaram, (por exemplo), eu quero desfrutar disso, agora eu tenho isso pra desfrutar... Agora, pergunta se eles têm o mesmo lazer. Continuam não tendo lazer nenhum. Eles estão satisfeitos com isso, isso tem a identidade deles, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Então hoje a senhora diz que ser brasileira pra senhora é mais significativo do que ser portuguesa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Muito mais. Muito mais. E pra muitos que foram criados... Por exemplo, é... a minha irmã é brasileira e a outra é portuguesa, a mais velha. Ela também não tem nenhuma... Ela ficou, morou um ano lá, foi embora pra ficar um ano lá e não ficou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Não agüentou, então...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não, ela não quis. Os filhos não quiseram, ela não quis também, porque não tinha... você perde... é o que eu digo pra você: você... perde a identidade, você... é... quer dizer, é aquele negócio: se você pensar bem quando você se mistura no meio do português, o português tem muita coisa a ver com o brasileiro também. Mais dado, mais falado do que, muitas das vezes outras raças que são mais fechadas. Então há toda uma mistura, né, você vê... Não é que houve essa mistura agora, essa mistura vem desde a imigração, que o brasileiro já se misturava com a... o português já se misturava com a brasileira. Até mesmo [?] Então tudo teve esse... essa coisa e tal. Tudo misturado, filhos, em festa, aquela coisa toda. Então eu acho que você fica mais... você adquire mais os hábitos daqui, a convivência daqui. E depois você vai adquirindo pros filhos que vêm. E eu não tinha... como eu disse a você, eu não freqüentava nenhum lugar fechado, assim, de... de famílias portuguesas, que você tinha que ser com... só com o português. Não existia isso. Então é o que eu digo pra você, quem foi a minha família? A minha família era o comércio. Era quem morava quem morava no bar, quem o freqüentava, quem entrava e saía todo dia. Eles eram a minha referência. E a escola. Os colegas da escola, a escola, né? Era a referência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Então tem mais alguma coisa que a senhora gostaria de falar? Que a senhora gostaria de acrescentar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;D. Manuela: Não. Eu só gostaria, assim, que... que a... no caso, né, isso vai pra trabalhos de escola, né, pra sua professora, que... passasse um pouco mais de... de amor ao país, de responsabilidade aos alunos pela... pelo... pelo país. E que eles, como educadores, tivessem, assim, um foco maior de passar uma coisa mais profunda, é... Principalmente sendo uma universidade a Fluminense, uma universidade federal, do governo, que essas pessoas que ocupam cargos públicos, como professores e outros... né, que eles realmente vestissem a camisa do país e passassem pro aluno a responsabilidade de ser brasileiro, de fazer do Brasil um país melhor e... não ocupar esse cargo simplesmente pra ter um emprego seguro. Porque... é eles que passam...o professor é uma identidade pro aluno. É um referencial, assim como um pai e uma mãe. Ele tem esse referencial. Eu acho que, assim, abaixo do pai e da mãe, o professor ele fala muito pro aluno. Então ele passar de uma maneira melhor de caráter, de responsabilidade, de ser uma pessoa que se coloca, porque o... é... uma das coisas que eu acho, assim, que banalizou muito a educação, foi quando coloca pra profes... pra criança a “tia”, a intimidade, e o aluno faz o que quer dentro da escola e dentro da sala de aula, até mesmo dentro da universidade. Eu acho que o professor ainda tem que ser um, um alvo de respeito. Assim como um pai é um referencial e uma mãe, o professor também ser um referencial de respeito do aluno. E ele tem que fazer a diferença. Ele tem... porque quando eu trabalhei, a minha diretora não deixava que... que a gente fosse vestido de qualquer jeito, de uma maneira devassa, decotes e minissaias, ou coisas parecidas, e fumar e... Então, a vida privada do professor ela não deve ser passada pra dentro da sala de aula, a forma de vida que ele leva. Se ele leva uma vida abusiva do lado de fora... ele deve ser um referencial da melhor maneira possível. Ele deve passar pro aluno a... uma, uma questão do caráter da melhor maneira possível. Entendeu? Até pra formar cidadãos melhores, né? Se ele formar cidadãos melhores, ele vai formar também políticos melhores dentro do país. Porque eu acho que muitos deles não são porque também não tiveram bons professores também, pessoas que também passassem... A família e a escola, né? Os dois não tiveram. Então esse é o que eu passo, pra eles passarem pra vocês que ter um cargo público seja lá o emprego lá onde for, que seja um ato de trabalho e de honra, e não pra... pra usar o cargo só pra ter o emprego e pra fazer bandalha e trabalhar quando quer, né? Assim como a Luiza, outro dia foi lá na... na aula, e o professor falou quinze minutos e mandou todo mundo pra casa e não quis saber da distância que era, onde não era, de onde vinham, como se o dinheiro que as pessoas pagam passagem não tivesse valor, simplesmente porque esse professor ele só foi ali assinar o ponto. Ele não quis saber o sacrifício que alguém passa pra chegar até ali, pra se locomover, pra tu chegar (até ali) pra ter uma aula. Então esse respeito eles têm que passar. De responsabilidade pro... principalmente pro jovem de hoje. Então essa a minha finalização. Obrigada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: Ta bom então! Obrigada!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38027118-117032781327071766?l=fadotropicalrio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/feeds/117032781327071766/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38027118&amp;postID=117032781327071766' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/117032781327071766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/117032781327071766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/2007/02/entrevista-fado-tropical-no-29-dona.html' title='Entrevista Fado Tropical no. 29: Dona Manuela'/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38027118.post-117024544018924255</id><published>2007-01-31T03:57:00.001-08:00</published><updated>2007-02-04T00:04:21.480-08:00</updated><title type='text'>Entrevista Fado Tropical no. 40: Maria de Jesus Leandro</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Entrevista Fado Tropical no. 40: Maria de Jesus Leandro&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FICHA DE ENTREVISTA PROJETO FADO TROPICAL: EFT040&lt;br /&gt;Data de realização da entrevista: 11/11/2006&lt;br /&gt;Local: Residência da entrevistada&lt;br /&gt;Entrevistado(a): Maria de Jesus Leandro&lt;br /&gt;Data de nascimento: 21/07/1926&lt;br /&gt;Local: Vila Real, Trás dos Montes&lt;br /&gt;Data de chegada ao Brasil: 17/07/1953&lt;br /&gt;Local: Rio de Janeiro&lt;br /&gt;Profissão atual: dona de casa&lt;br /&gt;Profissões anteriores: dona de casa&lt;br /&gt;Estado civil: viúva Filhos: 6 Netos: 7&lt;br /&gt;Entrevistador: Carolina Fernandes Calixto&lt;br /&gt;Curso: História&lt;br /&gt;Período: 5º&lt;br /&gt;Gravação: (x) digital&lt;br /&gt;Duração total aproximada: 33`33``&lt;br /&gt;No. de páginas do depoimento transcrito: 21 (Arial 12)&lt;br /&gt;Data da conferência: 22/11/ 2006&lt;br /&gt;Data da assinatura da carta de cessão: 22/11/ 2006&lt;br /&gt;Fotos: (x) sim&lt;br /&gt;Número de fotos: 5&lt;br /&gt;Observações:&lt;br /&gt;A cessão dos direitos tanto da entrevista quanto do material iconográfico foi cedida sob a forma de áudio que está veiculada no mesmo CD que a entrevista realizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Projeto “Fado Tropical” – História OralEFT040Entrevistada: Maria de Jesus LeandroEntrevistadora: Carolina Fernandes CalixtoLocal: Residência da entrevistadaCidade: Rio de Janeiro&lt;br /&gt;Bairro: InhaúmaData: 11/11/2006Transcrição da entrevistaConvenções: para a presente transcrição adotaram-se as seguintes convenções:( ) – Parênteses: indicam os trechos de transcrição acerca do qual não se tem certeza da fidedignidade&lt;br /&gt;[?] – Interrogação entre colchetes: indica um trecho ininteligível, não transcrito em função do áudio, no qual não se arriscou aproximação.{ } Chaves: indicam partes do áudio com risadas. Também podem servir para pequenos esclarecimentos.[ CF ] Iniciais entre colchetes: Indica uma intervenção do entrevistador no meio da fala do entrevistado, ou vice-versaNotas de rodapé: usadas quando há necessidade de esclarecimentos longos, como no caso de nomes de pessoas e locais específicos.INÍCIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Entrevista com D. Maria:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Seu irmão é mais velho ou é mais novo? [1]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Meu irmão é mais velho. [DM: Mais velho?] É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Então D. Maria, é... prá começar eu queria que a senhora falasse um pouco como que era a vida da senhora...[DM: Lá em Portugal] em Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: É, lá em Portugal, minha filha, a gente trabalhava muito e ganhava pouco, né? Ganhava muito..., e trabalhava muito e ganhava pouco. Aí eu me casei muito nova. Aí vieram logo os filhos. Aí meu marido foi obrigado a vir para o Brasil prá dar vida melhor aos filhos. Aí eu fiquei grávida de três meses..., de dois meses. Aí quando eu vim para o Brasil, a minha filha..., minha filha e eu [?] um de seis meses, outra de sete..., outra de sete anos,e outra de seis, de cinco e outra de dois. [2] Num sei, devia começar pelo mais velho, né? [CF: Uhum..], muito bem... { o entrevistador verifica o material de gravação e a entrevistada faz uma pausa para esperar } [CF: Pode continuar]. Aí meu marido veio prá... para o Brasil, ao cabo de dois anos..., de um ano, ele mandou-me vir. Mandou-me vir e assim que eu cheguei aqui eu fiquei muito doente. Não tinha saúde pelo que eu não me dava aqui de jeito nenhum. Minha vida era chorar por minha terra, né? (Quer dizer que depois Deus me deu muitos) filhos aí eu acostumei. Acostumei aqui, graças a Deus, tudo bem. Meu marido trabalhava muito, a gente conseguiu... Passei nove anos de aluguel, ao cabo de nove anos a gente comprou uma casinha, construiu e... meu marido faleceu e me deixou bem, graças a Deus. Me deixou vivendo bem. [CF: Só um minuto] [3]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Aí a senhora veio, é...para o Brasil e aqui continuou vivendo de dona de casa e a senhora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não, nunca trabalhei, sempre trabalhei em casa. Tinha seis filhos, é... eu e meu marido,... eu tinha que olhar por eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E Ele trabalhava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Meu marido trabalhava de caminhão. [CF: Caminhão?] Caminhão de entrega. [CF: Ah...] [?]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E o,... a senhora em Portugal, antes de casar, a senhora morava com seus pais, certo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Eu morava com meus pais. Meu pai faleceu, eu tinha quinze anos, quando meu pai faleceu. Aí eu fiquei a morar com a minha mãe e com meu irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E eles trabalhavam em quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Trabalhava na lavo..., na terra. [CF: Na lavoura né?] Na lavoura. [CF: Ah sim!]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E como que era lá a cidade,... onde vocês moravam...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, a cidade era pobre. Tinha...Não era tão pobre como algumas cidadezinhas que tinham lá, né? Mas era, era, uma cidade pobre, num tinha...só tinha vinho e azeite, num tinha...tinha milho. É, o que dava mesmo coisa era o milho e num... e, só tinha vinho e azeite. A fartura de lá era vinho e azeite.[?]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Era no campo mais...ou...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: No campo, a gente trabalhava no campo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E o que que falavam naquela época sobre o Brasil, assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, falavam muito bem do Brasil. Meu pai também esteve aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Antes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Antes. Meu pai antes também esteve aqui. Deixou os dois filhos lá, e esteve aqui, lá na Bahia. Aí depois foi embora. Arrumou um dinheirinho aqui e foi embora. { o telefone tocou} Me dá licença. [CF: Ok!] [4]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: ...que seu pai veio antes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, meu pai veio pra cá, pra o Brasil, aí esteve na Bahia, não sei quanto tempo, aí foi pra lá, deixou dois filhos, um casal. Aí depois quando foi pra lá ainda... teve oito. Foram oito filhos. Eu era a mais nova. Aí ele... quando ele morreu eu estava com quinze anos. Fez muita falta, ele... aí é que eu soube... foi sofrimento e...,solteira... quando disseram que meu pai faleceu. Aí depois eu casei e (melhorou) a vida. Começaram a vir os filhos e depois foi obrigado, meu marido, a vir aqui para o Brasil para dar mais conforto aos filhos. Graças a Deus...sofri muito porque eu era muito doente. Não tinha saúde e só vivia a chorar com saudades de minha terra. Mas depois fui acostumando e agora já fui a Portugal e estava morta por vir embora. Estive lá três meses, e já...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Há pouco tempo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não, já faz tempo. Estive lá três meses e estava morta por vir embora com saudades do Brasil. E agora fui lá..., fiquei lá... era pra ficar dois meses e fiquei quarenta dias. Também não agüentei as saudades daqui. Que já deixei netos...e não agüentei a saudades, quer dizer, que agora é... a saudades é do Brasil. {risos}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Mas é... , mas por que que vocês escolheram vir para o Brasil e não para outros países?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não, nós viemos aqui para o Brasil porque meu marido tinha aqui um tio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Tinha o que?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Tio. [CF: Um tio!] Um tio. Aí ele escreveu pro tio, aí o tio escreveu uma carta de chamada pra ele vir aí ele veio. [CF: Uhum] Aí o tio arrumou emprego pra ele numa garagem, lavar carro, aí ficou... Quer dizer que foi o tio que arrumou emprego pra ele. [CF: Hum... entendi!] Naquela época era melhor de arrumar emprego do que agora, agora tá mais difícil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: É...e era aqui no Rio de Janeiro mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Aqui no Rio de Janeiro mesmo. [CF: Uhum]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E como você imaginava o Brasil antes de vir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, eu...sei lá, eu imaginava que a fala era diferente da nossa, que eu chegava aqui, não ia entender nada do que o pessoal falava...Quando eu cheguei aqui, pra mim estava tudo escuro, quer dizer que eu fui morar no Andaraí, pra mim era tudo escuro e eu tive sorte de ter uma senhoria muito...muito boa. Ela era uma nortista, mas ela era muito boa prá mim. Aí quer dizer que...ela mandava a filha comigo pra me ensinar a comprar as coisas, porque eu não sabia, não é? Aí quer dizer que depois tudo correu bem. [?] no Andaraí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Ela era sua vizinha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Era senhoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Senhoria...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Era minha senhoria, dona da casa. [CF: Ah sim!] Dona da casa onde eu morava. [CF: Entendi!] É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E a viagem pra cá? Vocês vieram como?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, a viagem... viemos de navio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevistadora: De navio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: De navio. Aí, eu vim a... toda...foram dezessete dias, foram dezessete dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Dezessete dias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Dezessete dias. Eu (vinha calma) mas deitada que não conseguia me levantar, de enjôo. [CF: Hum...] De enjôo. No barco veio é... veio a minha cunhada e veio o meu cunhado comigo. E aí atravessei (é...pra cá). E veio meu cunhado e a minha cunhada comigo. Foi que me ajudaram a cuidar das crianças, senão estava perdida porque eu passei muito mal na viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Mas era confortável o navio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Era, o navio era confortável, minha filha, mas balançava muito, né? Aí eu enjoei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Aí então, quando a senhora chegou no Brasil, o que a senhora achou? Superou as expectativas...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Olha, no princípio eu achei tudo muito estranho. Pra mim era tudo... tudo estranho, mas depois eu fui acostumando... Num instante eu acostumei a andar sozinha, no bonde ... , ir [?] meu marido numa rua na Praça Sães Pena, que ele trabalhava lá, na garagem [?]...Aí,né,...aí fui acostumando e ...e agora tá tudo bem, graças a Deus. [CF: Ah...]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Aí, e quais eram as principais dificuldades aqui, no Brasil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: As dificuldades era... Tinha que pagar o aluguel da casa, o meu marido ganhava pouco, aí depois ia [?] e eu e mais três primos..., dois primos, interou-se prá comprar um caminhão .... Um caminhão não, o dono do caminhão vendeu os dois,... Tinha cinco, vendeu! Mas tudo bem. Aí já viu: (o que vinha era ou) prá consertar os caminhões, ou era prá gente comer. Aí foi muitas dificuldades mesmo. O dinheiro que ele ganhava era prá...era tudo prá conserto dos caminhões. [?] [5] depois Deus nos ajudou a comprar outros novos..., a vender os velhos e a comprar outros novos, e graças a Deus depois foi tudo bem. Consegui comprar a casa, e depois foi..., meus filhos começaram a trabalhar, e graças a Deus foi tudo bem. Eu só...só o que não está bem é que perdi o meu marido e que tenho muitas saudades dele. {com tristeza }[CF: Hum...]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E quanto ao preconceito contra os portugueses? Sofreu, ou...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não... algumas vezes me chamavam-me...(Noutro) dia mesmo eu estava internada no... era no IAPETEC [6]... Naquele tempo é...IAPETEC era de motoristas, né? Meu marido trabalhava com carro. Aí me...me chamaram de galega. Eu falei pra eles: “Eu num sô galega. Galega são os da Galícia [7], eu não sou da Galícia...”. Aí eles ficaram de... um médico mesmo! Um médico me chamou de galega! Eu falei pra ele: “Doutor, o senhor com tantos estudos não sabe? Que galego é quem mora na Galícia? Quem nasceu na Galícia? Eu não nasci na Galícia. Eu nasci em Portugal. Aí ele ficou...Digo assim..., tinha uma senhora lá que era da... era espanhola. Aí eu falei: “Quem pode ser galega é dona Encarnação. Aquela é espanhola, pode ser galega, {risos} agora eu não.” [ CF: E o seu mar..] Aí chamavam-me branca azeda, algumas vezes é..., diz, oh: “Lá vai a branca azeda”. Agora não, agora, graças a Deus, moro aqui, todos os vizinhos gostam de mim. Graças a Deus nunca briguei com ninguém aqui... No Brasil, nunca entrei numa..., num..., nunca tive nada com a polícia, nunca... Graças a Deus num...tudo bem. [CF: A...] Já sou mais, já sou mais brasileira do que portuguesa. {risos} [CF: Tá certo.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: É..., que costume, assim, brasileiro ou carioca, que a senhora teve mais dificuldade de se adaptar? {a entrevistada não entendeu a pergunta} Que costume aqui que não tinha lá e foi mais difícil pra se adaptar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah... tem nada não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Nada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não. É... acostumei logo aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: A língua...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Língua e tudo...a língua é igual a minha.[uhum] A língua,algumas vezes é que o pessoal falava que não entendia o que eu falava. Aí eu falava..., digo assim: “Como é que não entende o que eu falo se vocês falam a minha língua?” {risos}. Algumas vezes é..., agora mesmo eu tô falando [?] porque eu botei dentes, aí...tô falando assim mais coisa, que tá muito novo ainda, não é? .[CF: Tá se adaptando.] É. Aí tá a me atrapalhar um pouquinho prá falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Então,... mas...,assim,... quem ajudou mais a vocês a se adaptarem foi a sua senhoria, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: É, mais a minha senhoria. Quer dizer que minha senhoria era nortista, todo muito falava que ela era..., que ela era brava. [?] depois o pessoal me contaram, ficaram com pena de mim, e também tinham me conhecido, e ficavam com pena de mim porque minha senhoria era muito ruim. Prá mim ela não foi. Meu filho, que nasceu aqui primeiro, ficou muito doente, teve princípio de meningite, e eles é que me ajudaram. Como meu marido trabalhava, iam [?] prá casa dele... E [?] (lá em casa) sempre que precisava ficavam com as crianças... Foram muito bons pra mim. Hoje em dia ela é falecida e ele também e eles foram muito legal pra mim, vossa senhorias. O que me valeu foi isso também. Me ajudaram muito. Na noite de Natal, que eu não sabia ainda como era aqui o Natal, não é? Porque era tudo muito diferente de Portugal, aí eles me levaram amêndoas, nozes, frutas secas... tudo...me levaram pra eu comer. Como, eu tinha chegado ainda a pouco tempo de Portugal..., [CF: Uhum] aí eles foram muito bons pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: O Natal era diferente daqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Lá é..., lá é diferente porque lá a gente num..., num come peru, num come pato, num come carne, num come..., só bacalhau, porco...essas coisas assim. Outro dia é que a gente come. Outro dia, no dia de Natal é que a gente come. Faz arroz de forno, (peru) assado, e aquilo tudo. Agora na véspera é só batata, bacalhau, [?] essas coisas... sorda [8]! Que fazemos a ceia de Natal. [CF: Hum...] É..., sorda é bacalhau refogado com... (que tal refoga) a galinha. [?]. Depois faz aquele molho e bota (frango) ali dentro. [CF: Ah! Hum! Que gostoso!]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: A senhora freqüenta algum clube português?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não, não freqüento nenhum. [CF: Não freqüenta...?]. Não, não freqüento não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Ah! E aí a alimentação em casa. É..., assim, depois que vocês vieram pra cá vocês continuaram comendo as mesmas coisas que vocês comiam lá...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não, é..., o tio do meu marido que me mandou vir, ele..., a primeira coisa que ele me falou quando eu cheguei aqui, prá eu cozinhar feijão, prá dar feijão preto pras crianças, não deixar, é..., as crianças sem..., [CF: Feijão] sem feijão preto, porque lá em Portugal não tinha né? [CF: Uhum] Então ele falou pra mim, dizia: “Ó, agora não vai começar aí a dar feijão manteiga, que é muito quente, muito pesado...” prá dar... feijão preto. Aí eu sempre tinha o feijão preto pras crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Mas a senhora..., sentiu isso na alimentação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não, eu também me acostumei... Meu marido é que não, é que nunca comeu feijão preto. [CF: É?] Não, nunca comeu. A comida do meu marido era..., era arroz e frango, macarrão e frango, bacalhau..., era a comida dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E a senhora depois se acostumou assim, a... alguns dias especiais, fazer alguma..., alguma comida que você comia lá...que a senhora comia lá...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, fazia! Ainda fiz essa semana prá mim, que eu só faço comida pra mim, não é? Meu filho está trabalhando e almoça lá. Eu só faço comida prá mim. Essa semana fiz arroz, é... aqui chamam baião de dois não é? [CF: Hum...] Aí eu fiz prá mim comer. [CF: Hum...]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Assim, chega Natal, a senhora ainda faz bacalhau, faz...essas coisas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah faço! Quer dizer que faço frango, peru, ou qualquer coisa assim por causa das crianças, mas prá nós não. Prá nós é bacalhau. [CF: Hum...] É arroz de forno, é rabanada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E em relação à música? A senhoria ouvia, quando veio pra cá..., ainda ouve músicas da terrinha...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Olha prá lhe dizer..., prá ser franca, eu não sou muito chegada às músicas portuguesas. [CF: Hum...] Meu filho gosta muito. Meu marido também gostava. Mas eu não sou muito...[CF: Uhum] Ainda tem algumas que eu..., mas eu não sou muito chegada às músicas portuguesas não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Ah, ela tava lembrando de uma aqui, né... a moça...? [9] {a entrevistada não entendeu a pergunta} A moça tava lembrando de uma aqui agora..., quando ela veio aqui...[ DM: Quem?] A menina que tava aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah é! Estava lembrando, a minha nora. Estava lembrando de uma...mas também nem sei. Eu vou até lhes dizer que num...que num sou muito chegada a música..., meu filho gosta. Meu filho é brasileiro, mas ele gosta muito de música portuguesa, né? Mas eu num...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: A senhora prefere as músicas daqui, então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: É. Gosto muito de Roberto Carlos, gosto..., gosto muito do..., como é? Do...desses cantores aí!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: A senhora também tinha quantos anos quando veio prá cá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Deze...vinte e sete. [CF: Vinte e sete?] Vinte e sete anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: A senhora é adepta de alguma religião?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Sou portuguesa. Sou portuguesa! Sou católica. [CF: Católica?]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Aí tem algum santo de devoção?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Tenho! Um deles..., ó..., olha aí. [10] [CF: Vários?] É...Nossa Senhora de Fátima está lá dentro, tenho...é... Nossa Senhora da Conceição... Eu sou devota de todos os santos. Pra mim é..., todos..., num tem..., tem a Nossa Senhora de Fátima que [?] ela não é? Que é a Nossa Senhora, não é? Nossa Senhora [?] é tudo, é tudo a mesma Nossa senhora, não é? [CF: Uhum] Esse não, esse é sagrado coração de Jesus e sagrado coração de Maria [11]. Mas a Nossa Senhora da Conceição..., é tudo a mesma santa: Nossa Senhora das Dores, a mãe de Jesus. [CF: Aham]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: É... a senhora é ligada a futebol? Tem algum time?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Tenho. Vasco. [CF: Vasco?] Vasco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Assim que chegou no Brasil...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Foi, logo que cheguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: É... mas aí como foi..., aí a senhora decidiu torcer pro Vasco por conta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Minha conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Por que..., por causa da ligação com Portugal...ou não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah...deve ser, eu sei lá...é que na família todo mundo torcia pro Vasco e eu também torcia pro Vasco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Na sua família...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Tudo é Vasco. Tudo é Vasco. [CF: E o pessoal...] (Foi antes de tudo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Todo mundo agora no...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Tem momento aí que ele...[12], agora ele já se acalmou mas primeiro ele chorava quando o Vasco perdia...custava a...{risos} O avô dele é flamengo. Ele já faleceu também, tem três meses, que ele faleceu...o avô do meu neto. Aí quer dizer que ele é flamengo. Quando ele vinha...qualquer dia ele vinha entrar com a camisa eu não deixei ele entrar aqui dentro de casa. {risos}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E na Copa do Mundo, agora? Como é que foi? Vocês torceram pro Brasil, prá...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, claro. No dia de jogo de Portugal, a gente torceu pra Portugal, não é? [CF: Prá Portugal...] Prá Portugal. No dia de jogo do Brasil era pro Brasil que a gente torcia, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: O que levava prioridade era o Brasil, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: O Brasil, claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: A senhora tem notícias ...tem notícias de Portugal? A senhora tem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Tenho, mais da...da minha sobrinha. Já tem três meses que morreu meu sobrinho. Aí elas me ligaram, depois eu liguei pra elas, ...e outro dia eu liguei pra elas. Acaba (que a gente se fala) só no Natal mesmo. [CF: Uhum] (E ano novo). Tem uma também na Suíça, que também de vez em quando me liga... [CF: Uhum]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Aí então a senhora falou que voltou prá Portugal, né...foi uma vez só? Que a senhora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Foi duas. [CF: Duas vezes?] Duas vezes. A primeira foi sozinha, a segunda foi com meu marido, mas eu num... Meu marido queria lá ficar dois meses, mas aí ele comprou a passagem pra dois meses. [CF: Na primeira vez?] Na segunda vez. Mas é...,agora da primeira eu fiquei porque ele num me mandava a passagem e eu num podia vir. [CF: Hum...] Mas aí depois da primeira..., da segunda vez eu... meu marido já andava ruim já...ele operou a espinha, depois tornou a operar a espinha e...andava de muletas [CF: Uhum]. Já estava ruim. Aí lá...tava muito frio na época que a gente foi, tava muito frio, e eu morria de saudades de ...ainda num tinha netos...só tinha dois netos. Naquela época eu só tinha dois netos. Mas é...morria de saudades daqui do Brasil...Nossa Senhora! Aí tive que pagar uma taxa pra poder vir antes do marcado. Tivemos que pagar uma taxa. (Quer dizer) “Vamos pagar taxa que eu vou embora. Não vou ficar aqui nem mais um dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Tiveram que pagar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Tivemos que pagar prá... quer dizer, já tinha pago outras coisas não é?[CF: Nossa Senhora!] Aí foi que tive que pagar mais pra poder vir embora antes que não podia nem... nem se pode vir antes nem depois. Tem que vir naquele dia que está marcado. [CF: Que está marcado...] É. Nem se pode vir antes nem depois. [CF: Uhum] Tem que vir no dia marcado, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: É, como é que a senhora conheceu o seu marido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Olha, o meu marido..., na aldeia né? Aí meu marido andava sempre, andava trabalhando sempre fora como quem vem assim do..., da Bahia..., trabalhar praqui, assim... Aí ele me..., andava sempre vindo muito com a [?] na terra, onde a gente... Aí eu nem conhecia ele... Lá todo mundo se conhece. [CF: Uhum] Aí quando..., depois ele um dia foi lá na terra..., eu sei lá...foi...eu me apaixonei por ele. {risos} E ele me...mas não ficamos...”Peraí” [13]. O pai dele era primo do meu pai. [CF: Primo?] É. O pai dele era primo do meu pai. Aí quer dizer que começamos a namorar e... ao cabo de... eu tinha quinze anos ..., dezesseis anos! Aí quando eu tinha dezoito casamos. [CF: Dezoito anos?] Aí foi por isso que eu sofri. Porque eu ainda era muito nova, num... Aí já viu. [hum...]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: É...quanto a...é, essa transmissão dessa herança lusa pros seus filhos e netos? Vocês conversam sobre Portugal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, conversamos! Conversamos muito. Ele..., tanto com meu neto, como (o meu filho) mais velho que está com doze anos... Ele fala muito em Portugal, ele gosta muito de Portugal. Quando O Brasil...quando Portugal perdeu, né, a seleção, ele chorou. Chorou à beça, porque... eu digo assim: “É Gabriel[14], é assim mesmo meu filho”. Num... a gente tem que saber ganhar e tem que saber perder, não é?(Se não a pessoa acaba maluca)... quando o Brasil jogou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Eles já foram prá Portugal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Nenhum deles?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não, ninguém foi. Só...(eu, fui duas vezes), meu marido foi uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E eles compartilham dessa cultura portuguesa, dessas comidas e..., tudo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, gostam! Gostam das comidas portuguesas...do bacalhau então, gostam mais do bacalhau até do que eu. {risos} São apaixonados por bacalhau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Eles se sentem então mais portugueses...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: É! Sentem sim...Eles são até...têm orgulho de ser netos de portugueses. [CF: Uhum]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: É..., assim, vendo a sua história, olhando pra trás, a senhora vê alguma coisa de muito positiva nessa vinda pra cá, pro Brasil? [DM: Como?] Alguma coisa muito positiva nessa decisão de ter vindo para o Brasil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Ou a senhora preferiria hoje lá..., melhor ter ficado lá em Portugal...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah não. A vida lá em Portugal...porque agora lá em Portugal tá bom não é? Lá em Portugal agora tá bom. Quer dizer que na nossa época não tava bom. Tava...tava muito pobre mesmo. Agora não. Lá em Portugal tá..., tá bom. Tem vezes que vai muita gente daqui lá prá Portugal, não é? Tem gente brasileira..., lá em Portugal. Mas agora prá nós não tem muita gente não... Tem muita gente que já vai embora pra lá, que eu conheço que já foi embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: A senhora não tem vontade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM. Não. Eu não tenho vontade. Prá eu ir...Eu podia ir. Vendia e ia pra lá, mas num...e a saudades? [CF: É...] E a saudades da família? Minha família tá aqui. Quer dizer que lá só tem sobrinhos. Eu não tenho mais irmãos, mais tias, tios,... Só tenho sobrinhos mesmo. Eu gosto muito deles, mas num... Mas a minha família são meus filhos, [CF: Uhum] os meus netos. [CF: Uhum]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Então foi...foi bom a senhora ter vindo pra cá? Foi melhor a senhora ter vindo pra cá do que ficado lá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, foi. Foi muito bom. Graças a Deus a gente fez muitos amigos aqui. Fez muitos amigos brasileiros, graças a Deus...Foi muito bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E teve alguma coisa de muito ruim nessa decisão de ter vindo pro Brasil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não, não achei nada não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Mais a questão da adaptação, talvez... [DM: Como?] A questão da adaptação...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, isso aí foi. Isso aí me custou-me muito. Me custou muito acostumar aqui... meu marido falava assim: “Se eu tivesse dinheiro eu mandava-te embora. Eu mandava-te embora pro Brasil..., prá Portugal”. Mas acontece que eu não ia, não é? Que eu não ia deixar meus filhos. Que se eu fosse ele não ia me deixar levar os filhos, não é? Ficava... [CF: Uhum...] Aí quer dizer que num...que eu tivesse muitas saudades que... eu sonhava com Portugal...sonhava muito. Mas é...mas agora não, agora não... Tenho saudades, sim, das minhas sobrinhas, mas principalmente a minha sobrinha..., que eles ligam prá mim..., se não a gente num...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E eles vêm prá cá? Já vieram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não, também nunca vieram não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E o que que a senhora diria prá alguém é..., que tivesse tentando vir tentar a vida ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não, agora ninguém quer vir não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Não, é..., qualquer pessoa, independente de ser da sua família...um conselho que a senhora daria. Porque...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, eu diria prá não vir porque agora aqui tá ruim, né? [CF: Uhum] Eu diria pra não vir. Tá bom pra quem já tá aqui...já fez...já fez...já tá em casa...vive bem...Agora, pra vir agora não. [CF: Não né.] Que tá muito difícil os empregos... Pra vir agora, só passeando, só passeando, só passeio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E o que significa pra senhora ser portuguesa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah, eu me orgulho muito de ser portuguesa. Ah, orgulho...Ser portuguesa pra mim...me chamam de portuguesa... com muito gosto. Agora já ninguém chama. Antigamente é que chamavam: “Oh, portuguesa!”. Agora já num... já ninguém chama de portuguesa não que já... todo mundo sabe o nome da gente. Já ninguém chama de portuguesa... antigamente chamavam : “Oh portuguesa!”. (Por exemplo), na feira e tudo... Agora já num tem nada disso não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: A senhora nunca saiu do Rio? Já visitou outros estados aqui do Brasil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: São Paulo só. [CF: São Paulo?] São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Mas a senhora gostou mais de ficar aqui no Rio ou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah gosto mais do Rio. São Paulo eu...Eu fui muitas vezes em São Paulo, quando a minha irmã era viva, eu ia muitas vezes em São Paulo. Com a minha filha, eu ia lá... Mas depois que ela morreu eu nunca mais fui ainda a São Paulo. [CF: Uhum] Minha sobrinha ainda me telefonou semana passada. Foi domingo..., me ligou. Aí quer dizer que... ficar aqui é melhor. Que a terra... prá (ganhar) a vida lá é melhor. [uhum] Tá entendendo? Lá é melhor de se viver. Mas eu num trocava o Rio por São Paulo não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Nem por outro lugar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não, nem por outro lugar. Já acostumei aqui num,...num trocava...nem por...que aqui era melhor. Que a minha andou pra vir praqui, se mudando pra cá. Depois os filhos vieram...eram novos não é? Aí tinham já os coleguinhas lá e ficaram lá. Mas ela tinha muita vontade de vir praqui porque ficava... aqui estava eu e estava a minha irmã. A minha irmã que também já é falecida. Aí ela queria vir pra ficar perto da gente. Pra ficarmos todos perto. Mas era ruim prá ela. Se ela tivesse vindo, era ruim prá ela. [CF: Uhum]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Por causa do emprego né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Por causa do emprego. Os filhos já estavam acostumados lá, já estavam trabalhando, e essa coisa toda... E depois também viajaram... [?]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: A sua irmã veio depois da senhora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Veio. Eu fui a primeira a vir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Aí por que que ela foi prá São Paulo e não pro Rio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não porque não fomos nós que mandamos vir. Foi lá de São Paulo que mandaram vir ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E já tinha emprego já garantido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: É, e já tinha emprego garantido lá em São Paulo: meu cunhado. Aí quer dizer que não podia vir praqui. [CF: Uhum] Aí tem..., meu marido mandou vir um irmão... Quer dizer, quando eu vim, veio o meu cunhado e a minha cunhada comigo. Vieram os dois e veio uma menina de nove anos. Veio prá...que a tia mandou ela vir e também veio comigo. Aí viemos todos. Aí quer dizer que quando cheguei aqui eu entreguei ela a tia. [CF: Uhum] Aí é...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Naquela época tava vindo muito português?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Ah tava! Naquele tempo tinha...vinha muita gente. Muita gente mesmo. Os navios andavam sempre cheios. Vinha tudo de navio. Andavam sempre cheios. Agora não, agora não, agora tá...num ta vindo não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Mas por que que a senhora acha que naquela época vinha mais portugueses...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Vinha porque naquele tempo lá tava ruim. Portugal tava ruim. Aí eles vinham tentar a vida aqui. [CF: Uhum] Aí quer dizer que naquele tempo teve muitos que se arrumaram bem aqui e foram embora prá Portugal ou pra Alemanha. Diz que... tem um que até... ele era dono da padaria. Ele e a mulher. Não teve filhos. Aí eles foram embora, foram embora... Viveram aqui tem..., ainda a pouco tempo. De vez em quando eles vêm aqui. Sempre vêm me visitar. Aí quer dizer que eles foram embora. Quer dizer, fecharam casa, fecharam quarto, que eles viviam de aluguel... e tão aí...em Portugal. Foram tratar das terras deles, que tem lá, não é? [ CF: Ah, tem terras, né?] Têm terras lá e... tão lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Então de família a senhora só tem suas sobrinhas lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Só, só tenho sobrinhos. Sobrinhos e..., nem sei se tenho ainda primos, agora sobrinhos, sobrinhos eu sei que tenho [CF: Uhum]. Já morreu algum mas... Ainda tenho lá sobrinhas. Somente as minhas sobrinhas é que...tem uma que não, que num...tenho nada com ela. [?] [CF: Uhum]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: O Contato é por telefone...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: O Contato é por telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Mais no...Natal...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Natal, Páscoa, ...Eu ligo pra elas ou elas ligam pra mim. Aí se elas ligarem no Natal eu ligo no Ano Novo. Se eu ligar no Ano Novo elas... Mesma coisa era com a minha irmã em São Paulo. Eu ligava no Natal e ela ligava no Ano Novo. Era assim. Uma ligava num dia e a outra ligava no outro. [CF: Uhum]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Agora, prá terminar, o que que a senhora gostaria de acrescentar? Mais alguma coisa...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Num sei. Acho que minha vida já está aí toda. Aí é que...é minha vida foi difícil, [?] (muito sofrimento)...Acho que não tenho mais nada a acrescentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: A senhora mora sozinha aqui? Nessa casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Moro com meu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Ah, a senhora e seu filho, mas prá lá tem mais gente...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Prá lá tem. Tem é...tem a minha filha com dois..., com o marido e um filho. [?][15]. E tenho é... depois tem..., no primeiro andar tá o meu filho... esse que saiu agora. Mora lá no primeiro. No segundo mora a minha com o filho e o marido. E no terceiro andar mora a minha filha, que ela é separada...que já morreu. O ex-marido dela já faleceu também. Aí...e meu neto. O filho dela casou, aí depois se separou, e agora (estava aí).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: É bom que não dá nem prá sentir saudade. Todo mundo junto, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Tá... todo mundo junto. [CF: Que bom!] Eles se preocupam muito comigo, todos eles, graças a Deus...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Só pra terminar, só mais uma perguntinha, ...tem que esperar rodar aqui [16]Já tá rodando. É... agora só o que que a senhora achou da entrevista....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: É...achei bom. {risos}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Falar o que você aproveitou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: É foi bom! {risos}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Foi bom lembrar de tudo isso...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Foi...,lembrar é..., só assim eu lembrei de Portugal, lembrei de..., foi bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E a senhora vai poder usu... tudo isso a senhora vai ter depois acesso, vou deixar com a senhora, a entrevista...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Não..., não tem problema não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: E..., conforme for publicado o livro, se for publicado mesmo, eu trago pra senhora ver... Ah, já pode mandar pros seus conterrâneos lá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Tá legal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CF: Brigada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DM: Nada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[1]Antes do início da gravação estava relatando à D. Maria sobre a minha dificuldade em utilizar o gravador de MP3 que pertencia ao meu irmão, então comecei a gravar e D. Maria se mostrou interessada em saber se meu irmão era mais velho que eu. Achei melhor não apagar esse trecho e tentar começar novamente para que o clima da entrevista permanecesse como estava.&lt;br /&gt;[2]Não fica claro nesse trecho nem durante a entrevista, se ela veio para o Brasil já com algum dos filhos. Acredito que ela tenha tido pelo menos alguns de seus filhos em Portugal pois ela dá a entender que na viagem para o Brasil foram seu cunhado e a sua cunhada que ajudaram a cuidar das crianças porque ela passou muito mal na viagem.&lt;br /&gt;[3]O meu celular vibrou e achei que poderia interferir na gravação e então pensei em pausá-la, mas desisti no mesmo instante e prossegui a entrevista. O celular estava no silencioso e não interferiu no áudio.&lt;br /&gt;[4]Achei melhor pausar a gravação pois seria uma indelicadeza de minha parte se não o fizesse. Dei prosseguimento à entrevista relembrando à D. Maria o assunto sobre o qual a mesma falava.&lt;br /&gt;[5]Não ficou claro quantos carros eles compraram, mas é evidente que não eram novos e que deram muitas despesas.&lt;br /&gt;[6]Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Empregados em Transportes de Cargas. Ver: &lt;a href="http://www.hospitalar.com/noticias/not2518.html"&gt;http://www.hospitalar.com/noticias/not2518.html&lt;/a&gt; acesso em: 22/11/2006&lt;br /&gt;[7]Galícia ou Galiza: é uma &lt;a title="Comunidades autônomas da Espanha" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Comunidades_autÃ´nomas_da_Espanha"&gt;comunidade autónoma&lt;/a&gt; situada no noroeste de &lt;a title="Espanha" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Espanha"&gt;Espanha&lt;/a&gt;, ao norte de &lt;a title="Portugal" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Portugal"&gt;Portugal&lt;/a&gt;, com &lt;a title="Estatuto de Autonomia de Galiza" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Estatuto_de_Autonomia_de_Galiza"&gt;estatuto&lt;/a&gt; de nacionalidade histórica. Localizada no noroeste da &lt;a title="Península Ibérica" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/PenÃ&amp;shy;nsula_IbÃ©rica"&gt;Península Ibérica&lt;/a&gt;, é limitada a oeste e norte pelo &lt;a title="Oceano Atlântico" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Oceano_AtlÃ¢ntico"&gt;Oceano Atlântico&lt;/a&gt;, a leste pelas comunidades de &lt;a title="Astúrias" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/AstÃºrias"&gt;Astúrias&lt;/a&gt; e de &lt;a title="Castela e Leão" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Castela_e_LeÃ£o"&gt;Castela e Leão&lt;/a&gt; e a sul com o país &lt;a title="Portugal" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Portugal"&gt;luso&lt;/a&gt;. Ver: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Galiza"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Galiza&lt;/a&gt; acesso em: 22/11/2006&lt;br /&gt;[8]Referia-se à sorda de bacalhau, uma comida portuguesa típica.&lt;br /&gt;[9]Referia-me à moça que, antes de começar a entrevista, tinha ido na casa de D. Maria e eu pude escutá-la perguntando a mesma se não se lembrava de certa música portuguesa. Logo em seguida D. Maria revela que a moça era sua nora.&lt;br /&gt;[10]Neste momento D. Maria me apontou os quadros e as fotos de santos que estavam no cômodo em que estávamos&lt;br /&gt;[11]Referia-se a dois quadros na parede a nossa frente.&lt;br /&gt;[12]Referia-se ao seu neto que acompanhou boa parte da entrevista pela janela, do lado de fora. Um menino que aparentava ter uns sete anos de idade.&lt;br /&gt;[13]O que pude entender desta fala de D.Maria é que ela e seu marido não começaram a namorar logo, como se primeiro precisassem, primeiro “oficializar” a relação perante as suas famílias.&lt;br /&gt;[14]O neto de D. Maria que assistiu boa parte da entrevista.&lt;br /&gt;[15]Neste trecho ininteligível, D. Maria falou o nome deste filho sobre o qual estava falando.&lt;br /&gt;[16]Neste momento mudei o lado da fita de um dos gravadores.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38027118-117024544018924255?l=fadotropicalrio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/feeds/117024544018924255/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38027118&amp;postID=117024544018924255' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/117024544018924255'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/117024544018924255'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/2007/01/entrevista-fado-tropical-no-40-maria.html' title='Entrevista Fado Tropical no. 40: Maria de Jesus Leandro'/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38027118.post-116900064571427751</id><published>2007-01-16T18:17:00.000-08:00</published><updated>2007-01-16T18:24:05.810-08:00</updated><title type='text'>Entrevista Fado Tropical no. 41: Irene dos Anjos Lopes Martins</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Entrevista Fado Tropical no. 41: Irene dos Anjos Lopes Martins&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FICHA DE ENTREVISTA PROJETO FADO TROPICAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Código da Entrevista: EFT041&lt;br /&gt;Data de realização da entrevista: 01/11/2006 e 20/11/2006&lt;br /&gt;Local: Casa da Entrevistada&lt;br /&gt;Entrevistada: Irene Dos Anjos Lopes Martins&lt;br /&gt;Endereço: Rua Marquês de Abrantes, 95 – ap 1001&lt;br /&gt;Data de nascimento: 25/11/1935                              &lt;br /&gt;Local: Coimbra – Portugal&lt;br /&gt;Data de chegada ao Brasil: 29/05/1962                   &lt;br /&gt;Local: Praça Mauá&lt;br /&gt;Profissão atual: Do lar&lt;br /&gt;Profissões anteriores: Do lar&lt;br /&gt;Estado civil: viúva                  &lt;br /&gt;Filhos: 2 (dois)            &lt;br /&gt;Netos: 3 (três)&lt;br /&gt;Entrevistadora: Rafaela Luciana Sartori&lt;br /&gt;Curso: História            &lt;br /&gt;Período: 6o (sexto)&lt;br /&gt;Gravação: (X) Digital  (X) em fita&lt;br /&gt;No. Fitas: (1CD + 1Fita)        &lt;br /&gt;Duração total aproximada: 15 minutos + 5min = 20 min&lt;br /&gt;Número de páginas do depoimento transcrito: 11 (Arial 12)&lt;br /&gt;Data da conferência: 17/11/2006&lt;br /&gt;Data da assinatura da carta de cessão: 20/11/2006&lt;br /&gt;Fotos: (X) sim&lt;br /&gt;Número de fotos: 02 (duas)&lt;br /&gt;Observações: Devido a alguns cortes que houve na gravação digital, refiz algumas perguntas posteriormente numa gravação em fita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Projeto “Fado Tropical” – História Oral&lt;br /&gt;Entrevistado: Irene dos Anjos Lopes Martins&lt;br /&gt;Entrevistador: Rafaela Luciana Sartori&lt;br /&gt;Local: residência do entrevistado, no bairro Flamengo, Rio de Janeiro&lt;br /&gt;No dia 01/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevista com Dona Irene dos Anjos Lopes Martins – Cód: EFT041&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OBS: a gravação está com pequenos cortes e interpolações, o que prejudicou a transcrição. Preenchi algumas partes que ficaram cortadas, colocando-as entre parênteses, pois ainda me lembrava de vários trechos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafaela: Então, Irene, a primeira pergunta é sobre como era a sua vida em Portugal, a sua, da sua família...&lt;br /&gt;Irene: A vida em Portugal era assim, trabalhar no... não, não tínhamos uma vida assim, como é que se diz... tínhamos uma vida de classe média, meu pai era funcionário público, éramos uma... uma... como é que se diz... uma vida boa, pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a senhora... era seu pai, sua mãe...&lt;br /&gt;Minha irmã, meu pai e minha madrasta, perdi minha mãe eu era muito nova, tinha três anos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas irmãs então?&lt;br /&gt;É, somos duas irmãs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá, o seu pai era funcionário público, como é que era? Onde a senhora morava lá, era em Coimbra mesmo?&lt;br /&gt;Não, era aldeia. Era distrito de Coimbra... Era uma aldeia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era essa que estava nas fotos?&lt;br /&gt;É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E... lá, o que as pessoas falavam do Brasil?&lt;br /&gt;Não falavam muita coisa não, quer dizer, sempre tinha um ou outro que tinha imigrado pro Brasil e falava: “ah, tenho fulano, tenho parente assim e assim no Brasil”, mas não comentavam muito não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A senhora, o que pensava do Brasil?&lt;br /&gt;Eu pensava que era mais bonito do que era quando eu cheguei (risos). Eu fazia assim... sei lá, eu pensava que era uma cidade muito linda, muito cheia de... tudo limpinho... Quando cheguei na Praça Mauá, que vi as ruas tão sujas, fiquei decepcionada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como foi a idéia de vir para o Brasil?&lt;br /&gt;Foi assim: eu e meu marido fomos criados juntos, assim, a gente morava na mesma aldeia, quer dizer, ele na casa dele e eu na minha, éramos colegas de... colegas, a gente saía, ia na missa, ia nos bailes. Aí depois ele veio para aqui, para o Brasil, e alguns anos mais tarde ele me escreveu, se eu queria namorar com ele... Aí eu aceitei. Ai namoramos por cartas uns dois anos até nos casar. Casamos por procuração, aí eu vim encontrar com ele aqui no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a viagem? A senhora veio de navio?&lt;br /&gt;Vim de navio, foi uma viagem foi muito cansativa, muito cheia de saudades, que deixei os meus colegas, deixei tudo, e vim sozinha. (Escrevia) um diário no navio, cada dia eu escrevia um pedacinho, depois mandei para minha irmã. A viagem foi tranqüila, foi com saúde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o seu marido, qual era o nome dele?&lt;br /&gt;João (...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João... ele veio aqui pro Brasil, por que ele veio pra cá?&lt;br /&gt;Ele veio porque já tinha um irmão aqui e o irmão chamou ele pra vir trabalhar com ele, e ele veio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A senhora não conhecia ninguém aqui, só ele?&lt;br /&gt;Não, só conhecia ele. Nem o irmão dele eu não conhecia. Quando eu encontrei o irmão dele... era filho... era irmão só por parte de pai. Então era muito mais velho do que ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles trabalhavam com o quê?&lt;br /&gt;Com bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram morar aonde?&lt;br /&gt;Viemos morar na Senador Vergueiro num quarto e sala. Você que está solteira ainda, nunca, nunca, nunca caia numa dessas, ir morar com a sogra! Porque o meu marido quando veio trouxe a mãe dele, que era viúva, (...) ele não ia abandonar a mãe. Aí, também não tinha possibilidade de morar num apartamento grande, alugou um pequeno, quarto e sala. Fomos morar nós, eu e a mãe dele. Mas a gente sempre se deu bem, nunca teve assim problema. Nós ficamos ali naquele apartamento uns quinze anos. A gente foi economizando e viemos comprar este aqui, maior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele trabalhava com o irmão dele, a senhora sempre ficou em casa...?&lt;br /&gt;Eu fiquei em casa e comecei a costurar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para fora?&lt;br /&gt;Para fora. Para uma fábrica em Copacabana. Para me distrair, pois quando cheguei eu chorava muito, tinha muitas saudades da minha terra, da minha família, dos meus colegas... Porque a gente... ele trabalhava o dia todo, eu ficava sozinha dentro de um apartamento. Porque quem tinha uma vida, (na vila eu fala com um e com outro) eu fiquei muito parada, então eu consegui, como é que se diz, consegui trabalhar fazendo roupas e aí me distraía. Trabalhei bastante tempo e até hoje ainda trabalho, mas já tenho os meus clientes. Parei de trabalhar para a fábrica (...) Foi muito meu amigo, foi um bom marido. (...) A gente graças a Deus tinha muito amor um pelo outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quais foram as principais dificuldades suas?&lt;br /&gt;As dificuldades foram assim, como é que se diz, me adaptar... Não é que eu... Eu morava aqui, tinha ele e tudo mais. Mas assim... lá era um nome e aqui era outro, aí então foi difícil a adaptação. Mas depois me acostumei, me dei muito bem com os brasileiros, gosto muito deles, tenho muitos amigos. E graças a Deus, a dificuldade de ter o que querer comer e não ter, graças a Deus eu nunca tive. Também não dava pra a gente ir assim... viagem, cinema, fazer essas coisas, extravagâncias não dava mas, para a diária graças a Deus sempre tivemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha... os brasileiros assim... preconceito, ou alguma piada que a senhora ou um outro colega seu, português...&lt;br /&gt;Não, não. Às vezes, uma brincadeira a gente escuta até no rádio, mas assim, pessoalmente, nunca tive, nunca vi nenhum brasileiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha o seu cunhado (...) ele ajudou? Quais eram as pessoas que foram ajudando para (vocês) se adaptarem aqui?&lt;br /&gt;Ele ajudou, a esposa dele, que a esposa dele era brasileira, muito minha amiga, e tinha uma senhora lá de Portugal, casada com o primo do meu marido, que também começou a me ensinar a ir para aqui, para ali, e fui conhecendo outras portuguesas e a gente... foi conhecendo (...) para andar na rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a senhora ia para algum clube de portugueses?&lt;br /&gt;Não. Quer dizer, agora, mais tarde, fui naquele clube lá da Barra, mas nunca fui assim a clube nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu marido torceu para o Vasco?&lt;br /&gt;Meu marido torceu pro Vasco, eu mesma nunca torci. Eu torço assim, por exemplo, na Copa.. claro, se jogar Brasil e Portugal, eu torço pra Portugal, mas se jogar Brasil com outros países, eu torço pelo Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na última Copa então, Portugal foi até mais a frente que o Brasil...&lt;br /&gt;É, foi, mas pouco mais também. (risos)   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aqui, na sua casa (...) vocês comiam comida portuguesa, faziam um prato assim que lembrasse lá?&lt;br /&gt;Mais ou menos. A gente sempre faz um pouquinho à moda de lá, mas também me habituei muito... a gente lá, por exemplo, não comia feijão preto. Se comia muito feijão, mas se aparecia algum feijão preto, a gente catava e jogava de fora, não se comia. Aqui me acostumei... meus filhos foram criados com feijão preto; eles adoram, tanto um quanto o outro, eles adoram feijão preto. Feijão com arroz, batata frita (...). Lá a gente não comia, era outro tipo de comida. Mas... a gente às vezes puxa um pouquinho mais à moda de lá, mais à moda daqui...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que músicas vocês ouviam?&lt;br /&gt;(Meu marido) gostava muito de música portuguesa, mas eu não (...), até mesmo, por exemplo, agora não (...), que eu não quis, mas o meu filho, quando estava em casa, ficava naquele (canal) lá de Portugal, acho que é TVA. Eu não me entusiasmei com aqueles programas de lá não. Tanto que aí, quando ele casou, ele quis deixar aqui em casa; (eu disse para) não deixar meu tempo qualquer  (?) com os programas de lá; (as novelas daqui são melhores que) os programas de lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A senhora tem alguma religião?&lt;br /&gt;Tenho. Sou católica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Tem algum santo de devoção?)&lt;br /&gt;(Sim, a Nossa Senhora, mas ela não é Santa, é mais alta. Rezo para ... e) Para São Judas Tadeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(E a senhora é devota da Nossa Senhora?)&lt;br /&gt;(Sim, da Nossa Senhora de Fátima, já estive no santuário)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(É aquele da foto?)&lt;br /&gt;(Sim), é naquele lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui tem uma pergunta sobre a Copa do Mundo, como foi  a última... E... a senhora procura ter notícia de Portugal, (...)?&lt;br /&gt;Procuro, procuro, telefono para lá várias vezes, a gente está assim (...) eu falo com os meus parentes que estão lá (...). Agora o pessoal que vem a gente não conhece mais, mas há pouco tempo (?) ainda pergunto por elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A senhora voltou pra Portugal desde que veio?&lt;br /&gt;Fui duas vezes lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi (com alguém?)&lt;br /&gt;Fui uma vez com o meu marido e com o meu filho e outra sozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a senhora se sente um pouquinho, com tantos anos, (carioca?)&lt;br /&gt;(Sim).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(E voltaria para Portugal?)&lt;br /&gt;E se me pedisse se queres voltar pra Portugal, não volto porque tenho meus filhos aqui, que são parte de mim. E segundo, eu acho que já não me adaptava lá muito bem com o clima do inverno, do frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quanto aos seus filhos, desde pequenininhos, a senhora criava eles, o que a senhora falava de Portugal?&lt;br /&gt;Não falava assim muita coisa não. Não tinha assim (muito o que falar). (...) Quer dizer, o mais novo já foi lá duas (vezes) (...) que quando a gente foi lá na primeira vez ele (...) mas não tenho assim... (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como os seus filhos se sentem? Eles se sentem um pouquinho portugueses?&lt;br /&gt;Ah sim, sentem. São muito amigos da minha pátria. O Marcelo, por exemplo, (...). O Antônio Fernando gosta também, mas um pouquinho menos (?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São dois filhos, o Marcelo...? O mais novo é o ...?&lt;br /&gt;Marcelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eles moram aqui por perto?&lt;br /&gt;O Antônio Fernando mora em Belém do Pará e o Marcelo mora na Barra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eles gostam de (músicas portuguesas)?&lt;br /&gt;Não, não se interessam...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eles quando eram pequenininhos não dançavam, tinham roupinhas típicas?&lt;br /&gt;Não, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A senhora observa neles, já viu neles alguma coisa que é bem típica de português?&lt;br /&gt;Eles são parecidos com o pai e comigo, mas que eles pratiquem coisas de Portugal, não.  (...) tipicamente, mas assim na... O Marcelo gosta tanto que fez a nacionalidade portuguesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem algum deles, principalmente o Marcelo, que pensa (em trabalhar lá)?&lt;br /&gt;Ah, sim, se tivesse uma oportunidade, ele ia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portugal está se desenvolvendo tanto, não é?&lt;br /&gt;É. Se tivesse uma oportunidade (ele ia). Agora, graças a Deus, ele é funcionário público (...), só (iria a Portugal) se fosse uma coisa séria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando para trás, o que a senhora vê de bom, de positivo de ter vindo para o Brasil?&lt;br /&gt;Eu não sei o que é que teria acontecido se eu (tivesse ficado lá. Aqui tivemos) uma vida com trabalho, como eu já falei, nunca quis comer o que não tivesse o que comer, sempre tive, graças a Deus, comida com fartura, se quiser (...). Mas eu não sei como é que seria a minha vida, porque eu fiz a vida aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(E o que a senhora) vê de negativo de (ter vindo ao Brasil)?&lt;br /&gt;(Não vê nada de negativo.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, o que a senhora diria para alguém que quisesse vir lá de Portugal para vir trabalhar no Brasil?&lt;br /&gt;(Diria que) pensasse mais de uma vez para vir, porque a situação aqui não está brincadeira. Melhor ficar por lá que aqui não está bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A senhora acha que lá está melhor?&lt;br /&gt;Eu acho. Por enquanto tem mais um pouquinho de segurança, que aqui não se consegue. Aqui está muito difícil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que significa para a senhora ser portuguesa?&lt;br /&gt;(Significa ser honesto, trabalhador. Tenho muito orgulho de) ser portuguesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como é ser portuguesa (no Brasil)?&lt;br /&gt;Rafaela, não sei te explicar... Como é ser português e morar aqui no Rio de Janeiro...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que tem de diferença de a senhora ser portuguesa aqui no Rio de Janeiro?&lt;br /&gt;Não, eu me sinto bem, eu acho que (aqui está melhor) que se estivesse lá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem mais alguma coisa que a senhora gostaria de falar?&lt;br /&gt;Não, só que estou bem aqui, gosto daqui, tenho meus filhos aqui, meus netos. Gosto dos brasileiros, adoro o Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Marcelo tem filhos já?&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles [os seus netos] gostam de falar de Portugal, de ouvir falar?&lt;br /&gt;Gostam. A minha neta (... gostaria de ir) lá, mas a situação não dá. Com certeza, todos eles gostariam de ir lá se tivessem situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que a senhora achou da entrevista?&lt;br /&gt;Achei legal! (risos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Continua na próxima página).&lt;br /&gt;Projeto “Fado Tropical” – História Oral&lt;br /&gt;Entrevistado: Irene dos Anjos Lopes Martins&lt;br /&gt;Entrevistador: Rafaela Luciana Sartori&lt;br /&gt;Local: residência do entrevistado, no bairro Flamengo, Rio de Janeiro&lt;br /&gt;No dia 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrevista com Dona Irene dos Anjos Lopes Martins&lt;br /&gt;OBS: esta entrevista foi feita para completar os cortes da entrevista anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafaela: Bem, Dona Irene, são umas perguntinhas só... A senhora tinha dito que era católica... Sobre os seus santos de devoção, quais são? A senhora é devota de que santos?&lt;br /&gt;Irene: São Judas Tadeu, Santo Antônio e Nossa Senhora de Fátima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Nossa Senhora de Fátima é aquela que estava nas fotos, não é?&lt;br /&gt;Isso. Tinha aquela basílica de lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os seus filhos, eles pequenininhos, a senhora... o que a senhora falava para eles de Portugal?&lt;br /&gt;Nada. Não fala nada não sobre Portugal. Eu, quer dizer, eu falava de... eu tentei criar eles na religião católica, mas não fala sobre Portugal não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o seu marido, falava?&lt;br /&gt;Não. Meu marido era muito fechado com os filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que significa para a senhora ser portuguesa?&lt;br /&gt;muito orgulho. Tenho muito orgulho de ser portuguesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que a senhora podia falar um pouco sobre essas duas fotos aqui, que a senhora me emprestou? Falar um pouco sobre elas, lembranças...&lt;br /&gt;Essa aqui de Fátima, eu lembro com saudades. Quando eu tirei essa foto, eu já tinha uma certa idade e ia me despedir de nossa Senhora, que eu nunca mais voltaria lá. Então, com saudades.... {apontando a outra foto} Aqui, com alegria de estar com as minhas netas num lugar bonito, que é o Pão de Açúcar. É só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A senhora ainda pretende voltar para Portugal a passeio?&lt;br /&gt;Não, filha, não pretendo. Até que meu filho talvez vá lá esse ano em julho, e ele quer que eu vá com ele mas não estou com vontade de ir. Até porque eu não tenho assim muita, muita saúde... E eu lá... Eu só tenho uma irmã, nós éramos só duas irmãs; e essa minha irmã está aqui no Brasil, está em Belém, que agora, na primeira semana de dezembro, eu vou pra lá e vou visitar ela. Quer dizer, a gente vai se encontrar e vai passar o Natal juntas. Então, quer dizer, essa era uma das coisas que eu iria a Portugal para ver, que ela já é mais velha do que eu... já se passaram... para passar juntas uns dias. Mas, como ela está aqui, então é difícil... eu acho que não vou mais lá não. Não sei, a gente nunca pode dizer “dessa água não beberei”, pode ser que eu resolva ir, mas por enquanto não tenho assim na minha idéia de ir não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38027118-116900064571427751?l=fadotropicalrio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/feeds/116900064571427751/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38027118&amp;postID=116900064571427751' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/116900064571427751'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/116900064571427751'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/2007/01/entrevista-fado-tropical-no-41-irene.html' title='Entrevista Fado Tropical no. 41: Irene dos Anjos Lopes Martins'/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38027118.post-116899658926782920</id><published>2007-01-16T17:13:00.000-08:00</published><updated>2007-01-16T18:13:51.476-08:00</updated><title type='text'>Entrevista Fado Tropical no. 39: Maria Isabel de Andrade Bessa</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Entrevista Fado Tropical no. 39: Maria Isabel de Andrade Bessa&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FICHA DE ENTREVISTA PROJETO FADO TROPICAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Código da entrevista (ver mapa de entrevistas): EFT039 (parte I)&lt;br /&gt;Data de realização da entrevista: 14/11/2006&lt;br /&gt;Local: Rio de Janeiro/RJ&lt;br /&gt;Entrevistada: Maria Isabel de Andrade Bessa&lt;br /&gt;Data de nascimento: 11/07/1959&lt;br /&gt;Local: Toita - Portugal&lt;br /&gt;Data de chegada ao Brasil: 20/05/1965&lt;br /&gt;Local: Rio de Janeiro&lt;br /&gt;Profissão atual: do lar&lt;br /&gt;Profissões anteriores: comerciante&lt;br /&gt;Estado civil: casada&lt;br /&gt;Filhos: sim (2)&lt;br /&gt;Entrevistador: Ricardo Gilberto Lyrio Teixeira&lt;br /&gt;Curso: História&lt;br /&gt;Período: 7º&lt;br /&gt;Gravação: (X) digital&lt;br /&gt;Duração total aproximada: 1:06:54&lt;br /&gt;No. de páginas do depoimento transcrito: 29 (Arial 12)&lt;br /&gt;Data da conferência: 21/11/2006&lt;br /&gt;Data da assinatura da carta de cessão: 22/11/2006&lt;br /&gt;Fotos: (X) não&lt;br /&gt;Observações: O local de nascimento não pôde ser verificado. A entrevistada não tem certeza.&lt;br /&gt;Durante a entrevista, a entrevistada informou que sua vinda ao Brasil se deu em fevereiro de 1964. Ao preencher a Ficha de Entrevista, procurando saber o dia exato de sua vinda pelo passaporte da mãe, descobriu que viera em 1965, na verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FICHA DE ENTREVISTA PROJETO FADO TROPICAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Código da entrevista (ver mapa de entrevistas): EFT039 (parte II)&lt;br /&gt;Data de realização da entrevista: 14/11/2006&lt;br /&gt;Local: Rio de Janeiro/RJ&lt;br /&gt;Entrevistada: Maria Isabel de Andrade Bessa&lt;br /&gt;Data de nascimento: 11/07/1959&lt;br /&gt;Local: Toita - Portugal&lt;br /&gt;Data de chegada ao Brasil: 20/05/1965&lt;br /&gt;Local: Rio de Janeiro&lt;br /&gt;Profissão atual: do lar&lt;br /&gt;Profissões anteriores: comerciante&lt;br /&gt;Estado civil: casada Filhos: sim (2)&lt;br /&gt;Entrevistador: Ricardo Gilberto Lyrio Teixeira&lt;br /&gt;Curso: História&lt;br /&gt;Período: 7º&lt;br /&gt;Gravação: (X) digital&lt;br /&gt;Duração total aproximada: 0:28:53&lt;br /&gt;No. de páginas do depoimento transcrito: 12 (Arial 12)&lt;br /&gt;Data da conferência: 21/11/2006&lt;br /&gt;Data da assinatura da carta de cessão: 22/11/2006&lt;br /&gt;Fotos: (X) não&lt;br /&gt;Observações: O local de nascimento não pôde ser verificado. A entrevistada não tem certeza.&lt;br /&gt;Durante a entrevista, a entrevistada informou que sua vinda ao Brasil se deu em fevereiro de 1964. Ao preencher a Ficha de Entrevista, procurando saber o dia exato de sua vinda pelo passaporte da mãe, descobriu que viera em 1965, na verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Projeto “Fado Tropical” – História Oral&lt;br /&gt;Código da Entrevista: EFT039 (parte I).&lt;br /&gt;Entrevistada: Maria Isabel de Andrade Bessa&lt;br /&gt;Entrevistador: Ricardo Gilberto Lyrio Teixeira&lt;br /&gt;Local: residência da entrevistada, no bairro de Vila Isabel, cidade do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;No dia 14 de novembro de 2006.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Legendas (exceto para as notas de rodapé):&lt;br /&gt;( ) - trecho de transcrição acerca do qual não se tem certeza da fidedignidade&lt;br /&gt;[ ] - utilizados para identificar as falas do entrevistador que estão no meio da resposta do entrevistado, ou vice-versa&lt;br /&gt;{ } - utilizadas para identificar as observações do entrevistador sobre alguns trechos da entrevista&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ENTREVISTA:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ricardo: É… Você podia falar um pouco da vida da sua família... Como é que era a vida em Portugal?&lt;br /&gt;Isabel: Você quer que eu fale o que? Aquilo que eu já tinha falado pra você, de novo?&lt;br /&gt;Ricardo: É!&lt;br /&gt;Isabel: Ta, eu vou falar. Olha só. O meu pai, ele era brasileiro, ta? Ele era porque já faleceu, né? Então, ele era brasileiro. Aí ele... os pais dele... a mãe dele... O pai dele morreu num acidente de automóvel, e logo depois que a mãe... Logo depois, assim, um tempo, não sei, né... que o pai dele morreu, a mãe dele conheceu um... O pai dele era italiano, né, e a mãe era brasileira. E a mãe dele conheceu um português e foi pra Portugal com... é, quer dizer. Ta levando ele, o meu pai, um irmão que ele tinha e uma irmã dela, da minha avó. E eles foram lá pra Portugal. Quando chegou lá, a mãe dele foi morar em outro lugar e ele ficou morando com essa tia, que era bem mais velha. Ficou morando com essa tia. Ele tinha 14 anos. E a minha avó, depois, também morreu, não se sabe do que... Meu pai também não sabe dizer, só sabe dizer que ela morreu. Nunca soube dizer pra gente. E depois ele conheceu minha mãe, casou com a minha mãe e nasceu o meu irmão, nasceu eu e eles tinham um... Como é que se diz? Um, um padrão de vida bom, né? Até porque eles eram donos de um... Antes o meu pai tinha tido, tinha trabalhado numa barbearia. Eles não tinham estudos, minha mãe é que tem mais. O meu pai não tem estudos nenhum. O meu pai mal sabia ler e escrever. A minha mãe não. A minha mãe, ela concluiu o ensino fundamental, né? E eles casaram e tal... aquele negócio todo. Quando meus pais tinham, lá, o... como é que se diz... o restaurante, e lá, aquela história que eu já te falei do negócio do Salazar, que ele era terrível. Ele era muito... Eles viviam assim, sempre fiscalizando tudo, não é igual aqui {rindo}. Lá não, eles fiscalizavam mesmo. E o meu tio, que era sócio do meu pai... E esse restaurante, antes, deixa eu te falar... Esse restaurante, ele era muito grande, era perto da praia, então tinha, assim, muitos empregados e, por ele ter muitos empregados, sabe que tem que ter aquela fiscalização toda. O meu tio, como ele entendia dessa parte de contabilidade, essas coisas todas, ele fazia também a parte da contabilidade. Então, o que que aconteceu? Ele deu um golpe lá no fisco. Segurou a {risadas}... a grana lá e a minha mãe e meu pai não tavam sabendo de nada. E quando o negócio estourou mesmo, o meu tio se mandou pros Estados Unidos, né? Ta lá até hoje. É esse que eu te falei que... [Ricardo: A-hã... {mostrando que sei quem é...}] Então, a minha mãe e meu pai ficaram numa situação muito difícil. Porque eles... Aí o fisco veio e tomou tudo. Nós morávamos na casa que... era um restaurante grande de frutos do mar, em frente à praia, na praia, no Porto, em Matosinhos&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt;. O nome da rua eu não me lembro, qual era a rua. Sei que era uma rua em frente à praia, era uma praia de pescadores, não é praia de banhistas não. E nessa época o fisco veio e tomou tudo, confiscou tudo. E meu pai e minha mãe ficaram sem nada, com uma mão na frente e outra atrás. Aí nós fomos morar com a minha avó em Sever&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;, nessa cidadezinha {fazendo referência ao mapa e às informações que eu havia levado sobre a cidade}. O meu irmão já morava lá, meu irmão já morava lá, porque quando eu nasci, a minha mãe mandou ele pra lá morar com a minha avó, pra desmamar, aquele negócio todo. E meu pai... Ah! Mas antes, o meu pai, depois, ele começou, de novo, a trabalhar na profissão dele. Naquela hora eu não te contei isso. Ele começou a trabalhar como barbeiro, né? E a minha mãe foi trabalhar, antes da gente vir para o Brasil, ela foi trabalhar em Trancoso&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;[3]&lt;/a&gt;. Trancoso é uma cidadezinha que tem, assim, mais... como é que se diz? É... Não tão provinciana como a Sever, né. Uma cidadezinha, assim, com mais gente, com mais recursos. E a minha mãe trabalhou lá, nessa época, parece que uns 6 meses, de cozinheira, porque era o que a minha mãe sabia fazer! Trabalhou de cozinheira lá. Aí o meu pai ficou trabalhando na barbearia lá também, mas aí o dinheiro também era pouco, aquela situação toda, e eu já estava na casa da minha avó. Foi aí que meu pai resolveu vir pro Brasil, porque ele falou: “Bom, sou brasileiro, né. Vou tentar a vida lá”. Aí ele pegou, foi, foi lá no Consulado, veio de graça&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;[4]&lt;/a&gt;, e nós ficamos lá. E ele ficou aqui durante um ano, né, e nós lá, continuamos lá. Aí, até que meu pai foi... Meu pai chegou aqui, foi pra casa dos parentes e tal, aquele negócio todo. Depois ele conseguiu um emprego de porteiro num prédio ali na Tijuca&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;[5]&lt;/a&gt;. Aí quando ele já tava trabalhando, já tinha, assim... Não! Minto... Não foi na Tijuca. O primeiro prédio que ele trabalhou foi na... Eu não sei se eu to detalhando muito! Tem que detalhar?&lt;br /&gt;Ricardo: Não. Pode contar da maneira que você preferir.&lt;br /&gt;Isabel: Aí ele pegou... Antes dele trabalhar na Tijuca, ele foi trabalhar no Leblon&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn6" name="_ftnref6"&gt;[6]&lt;/a&gt;! Trabalhou no Leblon e tal. Aí ele conseguiu esse aqui depois, ou ele foi mandado embora, ou ele quis sair... Isso eu não sei. Sei que depois ele veio morar aqui na Tijuca, na {rua} José Higino, na parte de cima da José Higino. Aí ele trabalhou lá. Ele já tava trabalhando lá, já tinha o que... quatro... uns seis meses mais ou menos, e ele mandou dinheiro pra que nós viéssemos. Quer dizer, só pra minha mãe! Porque ele queria só pra vir a minha mãe! Porque o dinheiro era pouco, e não dava pra trazer... E naquela época, não precisava de visto, porque tinha que mandar uma Carta de Chamada. Hoje você precisa de visto, aquele negócio todo... Não! Uma Carta de Chamada, como se fosse assim, uma representação. Tanto que eu tenho uma tia que mora aqui também, ela veio... a minha mãe mandou que ela viesse pra cá, mandou com uma Carta de Chamada. Então, não precisava de visto nem, nem... Só depois ir lá no Consulado e reconhecer que tava aqui, alguma coisa assim, mais ou menos. Aí ele mandou a Carta e nós viemos. Só que ele queria que minha mãe viesse sozinha, mas minha mãe falou que não, aí ele falou assim, ele falou que (trouxesse) a mim. E o meu irmão ficou até... o meu irmão ficou lá até uns onze anos mais ou menos. Eu vim com cinco anos. Cheguei aqui em fevereiro de 1964, 64. Aí nós chegamos aqui, fomos morar nesse prédio, depois a minha mãe... Não! Aí meu pai, depois, foi mandado embora. Tinha uns meses que nós távamos aí. E meu pai foi trabalhar na {rua} José Higino, mas na parte de baixo já, naquela parte ali perto do bombeiro&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn7" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn7" name="_ftnref7"&gt;[7]&lt;/a&gt;. Aí nós fomos morar ali. Aí nós ficamos ali. Aí minha mãe, ela não... A minha mãe levantava de madrugada pra lavar carros com meu pai, pra poder ter mais dinheiro, porque o salário de porteiro era salário mínimo, era muito pouco. E como o prédio era grande, eram dois blocos, tinham muitos carros, muitos carros na garagem. E o pessoal pagava, né. Eu lembro que minha mãe levantava de madrugada com meu pai pra lavar. Eles tiveram uma vida muito dura quando eles chegaram aqui. Muito dura mesmo! Aí foi melhorando. Minha mãe tinha uma prima, né, que é essa senhora que eu te falei, que é prima do meu avô, ela vendia roupas na feira. Ela chamou a minha mãe e perguntou se a minha mãe não queria vender roupas. E naquela época, era de porta em porta que se batia pra vender. E ela foi na cidade&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn8" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn8" name="_ftnref8"&gt;[8]&lt;/a&gt;, comprava as roupas, depois ia a Petrópolis&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn9" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn9" name="_ftnref9"&gt;[9]&lt;/a&gt; comprar roupas pra vender aqui. E ela ia de porta em porta, e as pessoas abriam porque não tinha aquela violência que tem hoje, então abriam. E ela começou a juntar um dinheirinho e tal. E ela... nós saímos daqui da Tijuca e fomos morar em Engenho de Dentro&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn10" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn10" name="_ftnref10"&gt;[10]&lt;/a&gt;, num condomínio de casas. Era um condomínio com casas, onde minha mãe alugou uma casinha já. O meu pai já não era mais empregado de ninguém, nem a minha mãe. E aí eles venderam... a minha mãe começou a vender roupas, já estava vendendo... O meu pai, minha mãe comprou uma carroça de pipoca pro meu pai. Só que meu pai não {rindo} dava pro negócio, pra vender pipoca. Não tinha jeito. Aí minha mãe comprou uma freguesia de queijo, de queijo, ainda existe essa marca, Miramar. Eu não sei onde é, mas tem queijos ainda da Miramar. Então, aí, minha mãe comprou essa freguesia. Também ia de porta em porta, vender os queijos {rindo}. Aí esquecia os fregueses porque ele dava fiado e o pessoal não pagava e acabou perdendo a freguesia que tinha. Até que tinha uma família, do seu Manoel, que era amigo do meu pai lá de Portugal, amigo dele de infância e tal, e eles foram lá em Engenho de Dentro oferecer... Quer dizer, quem foi, foi a esposa dele... Oferecer se a minha mãe não queria comprar esse bar, que era aqui na {rua} Duque de Caxias, ali na pracinha&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn11" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn11" name="_ftnref11"&gt;[11]&lt;/a&gt;. Aí a minha mãe, na época, não tinha o dinheiro todo pra comprar o bar. Pediu a ela que esperasse mais uns meses, porque naquela época você dava a entrada e pagava em prestações a perder de vista. Aí ela esperou. E não tinha inflação, então, o que que acontece... Ela esperou uns meses, e o dinheiro continuou sendo aquela mesma entrada e as mesmas prestações, e aí minha mãe conseguiu juntar mais um dinheirinho e conseguiu comprar o bar, onde tinha a casa atrás e nós morávamos atrás. Ela reformou lá atrás, onde a gente morava... Deixou tudo bonitinho. E nós ficamos lá de 1968 até janeiro de 75. Foi quando minha mãe comprou esses dois apartamentos aqui. Aliás, comprou um só, comprou o lá de baixo&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn12" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn12" name="_ftnref12"&gt;[12]&lt;/a&gt;, que ela mora. Aí nós nos mudamos pra cá, depois, a minha mãe, nessa época, vendeu o bar lá. Depois comprou outro na Suburbana&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn13" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn13" name="_ftnref13"&gt;[13]&lt;/a&gt;, na Avenida Suburbana... É, é isso mesmo, na Avenida Suburbana... Aí, logo depois que ela comprou o outro bar lá na Suburbana, ela comprou esse outro apartamento aqui agora&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn14" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn14" name="_ftnref14"&gt;[14]&lt;/a&gt;, que eu moro. Ta? Aí ela comprou esse. Depois ela saiu... Ficou uns anos lá na Suburbana, era um bar bom e tal. Depois ficou uns anos lá na Suburbana... Depois a minha mãe teve uma queda muito difícil, porque eles tiveram... se meteram com um sócio... compraram umas lojas lá na Ilha do Governador&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn15" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn15" name="_ftnref15"&gt;[15]&lt;/a&gt;. É... Meu pai vendeu o bar da Suburbana. Com esse dinheiro eles compraram umas lojas. Era feito uma galeria com uma porção de lojas, ta? E eles, e eles, como se diz? Eles iam alugar algumas lojas e uma eles iam fazer um açougue, entendeu? Só que o lugar... Eu não sei se você conhece a Ilha do Governador. Você conhece?&lt;br /&gt;Ricardo: Muito mal.&lt;br /&gt;Isabel: Ah... é um lugar assim... meio... sabe? Não ia dar certo aquilo lá. Conclusão: eles investiram o dinheiro que eles tinham e não ia dar certo. E aí acabou que deixaram as lojas pra lá. O pior é que ninguém queria comprar as lojas {rindo}. Eles tinham as lojas, mas ninguém comprava. E minha mãe nessa época ficou... Eu já era casada e já tinha as crianças e tal&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn16" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn16" name="_ftnref16"&gt;[16]&lt;/a&gt;. Aí eu, eu, naquela época... o Marcus tinha, meu marido... O Marcus tava trabalhando no Banco Nacional. Não! Minto. No HSBC, que era o antigo Bamerindus. Trabalhava no Banco, nessa época. Então a gente não podia ajudar muito. Salário de bancário era muito pouco! Ele era caixa. Ganhava muito pouco. Então a gente não podia ajudar eles. Eu sei que eles passaram, assim, um aperto, né? E depois eles conseguiram lá vender uma parte dessas lojas pra um senhor, seu João. Vendeu lá, e com esse dinheiro a minha mãe comprou um bar na {rua} Lobo Júnior, na Penha&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn17" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn17" name="_ftnref17"&gt;[17]&lt;/a&gt;. Aí, foi nesse bar aí que o Marcus entrou de sócio com ela, porque nós tínhamos... Depois, nessa época, nós já tínhamos comprado um táxi, tínhamos uma Kombi também, porque o Marcus depois, nessa época, já tinha saído lá do HS{BC} e tinha ido trabalhar lá no SERPRO&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn18" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn18" name="_ftnref18"&gt;[18]&lt;/a&gt;. O Marcus era motorista do SERPRO... Tínhamos uma Kombi e tínhamos o táxi. Aí ele vendeu o táxi, vendeu a Kombi, e nós compramos uma parte porque, na época que a minha mãe comprou o bar lá da Penha, da Suburbana... da Suburbana não! Da Lobo Júnior! Era... foi só uma parte, né? O dinheiro só dava pra pagar uma parte. E tinha um sócio. Aí o que que a minha mãe fez depois? O Marcus comprou a parte desse sócio. Então, ficou sendo sócios o Marcus e a minha mãe. E o outro sócio, que tinha uma outra parte do outro sócio, que era o tal dono das lojas, também. Aí a minha mãe pegou e comprou a outra parte dele. Então a minha mãe ficou com duas partes e nós ficamos com uma. E ficamos lá até 1986, 7, 8, 9... até mais ou menos 1990, nós ficamos lá, nessa época lá. Depois, o Marcus comprou um outro bar... aí depois o Marcus desfez a sociedade com a minha mãe, e o Marcus comprou um bar na... Não, minto! Não foi aqui não! Já to falando besteira! Não foi nada disso! {rindo} A minha mãe depois vendeu a parte dela, o Marcus era sócio... A minha mãe não queria mais trabalhar lá, achava muito cansativo, aquele negócio todo. A minha mãe vendeu a parte dela pra um outro sócio. Um outro rapaz, um outro senhor que entrou de sócio com o Marcus. Aí ficou o Marcus e esse senhor. Mas aí o Marcus não tava se entendendo bem com esse sócio, {rindo} entendeu? Esse sócio era meio esperto, sabe? Aí o Marcus, meio assim... O Marcus é uma pessoa muito honesta, trabalhou com a minha mãe e nunca teve esse problema de... sabe? Aí esse cara tinha mania de... sabe? Passar a mão e tal. Aí o Marcus falou: “Você quer saber de uma coisa? Vou vender minha parte!” Aí ele pegou e vendeu a parte dele, vendeu a parte dele. Aí o Marcus comprou de novo com a minha mãe aqui na {rua} São Francisco Xavier&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn19" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn19" name="_ftnref19"&gt;[19]&lt;/a&gt;. Aí nós tivemos um bar ali na São Francisco Xavier, com a minha mãe e com meu pai. Aí ficamos lá... ficamos lá uns dois anos, uns dois, três anos. Lá também era muito cansativo. Minha mãe trabalhava pra caramba, aí meu irmão também ia pra lá, sabe, aquele negócio todo. Depois a minha mãe falou assim: “Eu não vou mais comprar bar nenhum. Eu vou vender porque eu não quero mais...” E naquela época o juros do dinheiro tava dando muito {rindo}!! Aí minha mãe pega {rindo}, vende... a minha mãe: “Ah! Vou vender, que agora não preciso mais trabalhar, vou botar esse dinheiro, que vai ficar rendendo juros, não-sei-o-que, não preciso mais!” Aí minha mãe pegou e vendeu. E o que que aconteceu? O {rindo muito} Collor&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn20" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn20" name="_ftnref20"&gt;[20]&lt;/a&gt;, logo que ela vendeu, o Collor tomou conta do... como é que se diz? Da grana. Eu {rindo} me dei bem. Olha só, eu realmente sou abençoada, porque na época, a nossa parte, a minha parte, eu não sei porque, eu falei assim: “Eu vou trocar tudo em dólar. Eu não vou botar nada no banco! Vou botar em dólar.” E a minha mãe falou assim: {falando mais alto} “Ta maluca!! Tu vai ficar com esse dinheiro em casa? Ta arriscado de ser assaltada, não sei o que e blá-blá-blá...” E eu já tinha sido assaltada aqui, né&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn21" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn21" name="_ftnref21"&gt;[21]&lt;/a&gt;? Naquele assalto que teve aqui e tal. Aí eu falei assim: “Não, não. Não vou botar o meu dinheiro no banco não. Vou botar tudo em dólar, porque o dólar ta subindo pra caramba!! Eu vou ganhar é... Eu vou ficar esperando por esse presidente maluco aí?” Mas ele ainda não tinha entrado não!! Foi logo quando ele tava... “Eu não sei qual é a desse presidente!!” Olha só!! Peguei e segurei a grana e troquei em dólar. Por quê? Porque na época em que o cara pagou, ele já pagou uma parte em dólares. Então, essa parte dos dólares, eu já fiquei com ela. Então o que que eu fiz? Eu fui lá e troquei a outra. E guardei em casa, fiquei com os dólares em casa, e me dei bem! Porque, se não, eu tinha ficado, {rindo} eu e minha mãe, sem nada!! Nós tínhamos ficado sem nada!! Porque saiu daquele... Eu não me lembro quem era o presidente na época... não me lembro quem era... não sei...&lt;br /&gt;Ricardo: Antes do Collor era o Sarney.&lt;br /&gt;Isabel: O Sarney? Então. Na época do Sarney. Tinha saído, entrado o Sarney... Foi lá e tomou tudo. Minha mãe ficou: “Ah!! E agora?!?” {rindo} E eu falei: “E agora?” Olha... quando eu soube disso eu disse: “Gente, não é possível!! {rindo ainda} Me dei muito bem!!” Porque aí eu fui procurar um outro, como é que se diz? Um outro bar, né? Pra comprar. Aí o Marcus comprou um bar lá na, ali na {rua} Conde de Bonfim&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn22" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn22" name="_ftnref22"&gt;[22]&lt;/a&gt;, lá em cima. Foi aí que nós compramos o bar e tal... Até nós... Aí ficamos lá, o que? Bastante tempo. Ficamos lá uns cinco anos mais ou menos, até nós virmos pra esse aqui. Aí, quando chegamos aqui, ficamos aqui também... aí, depois viemos pra {Boulevard} 28 de Setembro&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn23" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn23" name="_ftnref23"&gt;[23]&lt;/a&gt;. Ficamos aqui, o que? Cinco anos também, na 28 de Setembro. Depois eles {os proprietários} venderam o imóvel e ficou aquela briga, e ainda ta essa briga até hoje. A gente ainda ta brigando com eles na Justiça, porque o imóvel foi vendido, mas nós tínhamos o contrato e já tava terminando, o contrato, e eles não quiseram renovar. Mas a gente ficou em cima, eu entrei na Justiça pra que eles renovassem. E até hoje ta lá e eles tão brigando na Justiça lá, pra ver se eu pego a minha grana, né? E tamos até hoje aí, assim, tentando viver {rindo}.&lt;br /&gt;Ricardo: Mas, assim... E a sua experiência com... de imigrante... na época, quando você era pequena, que você veio, é...&lt;br /&gt;Isabel: Ah. Pra mim foi horrível, foi horrível. Porque, primeiro, porque eu saí... Eu já tava assim... Eu não entendia muito bem de eu morar numa casa onde eu tinha empregados, e depois meu pai ser empregado dos outros. Vê se você... Dá pra entender? Porque era assim: lá, a casa em que eu morava, o restaurante, a casa em cima, era, assim, uma casa maravilhosa, sabe? E tinha arrumadeira, porque minha mãe trabalhava embaixo, mas a minha mãe não trabalhava... Ela era a chefe, ela comandava lá, porque era um restaurante muito grande! Sabe aqueles restaurantes com aqueles panelões imensos, assim {fazendo um enorme círculo com os braços}? Tinham vários empregados lá embaixo, e tinha, lá em cima, as empregadas. Eu me lembro que tinha minha tia, que cuidava de mim, e também tinha uma empregada que cuidava de mim. Então, quer dizer, eu era assim... Eu me via... Não que eu entendesse o que que era rico, o que que era pobre, até porque eu ainda não tinha maturidade pra entender isso. Mas eu sabia que o que eu queria eu podia ter, entendeu? Ah! {rindo} “Eu quero isso.” Eu tinha! E de repente, eu já me vi assim, tendo que ir pra casa da minha avó, que era uma aldeia onde não tinha saneamento... que não tinha nada... não tinha água, não tinha luz... não tinha nada! Aí a gente fica pensando: “Por que sua mãe tinha dinheiro e sua avó morava assim?” Porque a minha avó, ela não saía daquela cidade! Ela não saía. E tanto que ela não saiu, porque ela veio pro Brasil em 1976, nós trouxemos o meu avô e a minha avó pra cá. E eles ficaram aqui seis meses e não se adaptaram à vida daqui. Quiseram voltar lá pra cidadezinha do interior, lá de {rindo} Portugal, sem água, sem luz, sem nada! Porque eram pessoas do campo, eles não se adaptavam. Então, não adiantava minha mãe querer botar luz lá porque não tinha rede pra levar essa luz lá... Não adiantava a minha mãe querer botar água lá porque não tinha rede pra levar água lá. A água lá só chegou, é, se eu não me engano, mais ou menos, em 80 e... 83... por aí, foi que a luz e a água chegou a Sever. Porque antes não tinha. E eles não queriam sair de lá. Mas aí, eu morava numa casa onde eu tinha todo o conforto, e eu senti muito porque fui pra casa da minha avó. Eu não entendia que eu chegava lá e dizia assim: “Vó, eu vou dormir suja?” Isso eu me lembro, porque eu ficava muito sujinha! Mas era um frio, uma coisa assim, absurda. Porque no Porto não era aquele frio que tem lá. Lá é uma coisa, assim, absurda. É neve constante, no inverno, neve! Então eu falava assim: “E eu vou dormir suja?” E a minha avó ia e passava um pano molhado na gente. E diziam que português não toma banho. Realmente não dá pra... Eles não tomavam banho! Porque não tinha condições. Era um frio danado, não tinha um banheiro pra tomar banho. Você tinha que tomar banheiro de bacia, banho de bacia! Uma friagem danada. Não tinha... Vai tomar banho aonde? Perto da lareira, na sala, na frente de todo mundo {rindo}? Então realmente eles se limpavam, eles não usavam... Eles faziam banho de pochoco. É! Aqueles banhos... As mulheres se lavavam, lavavam suas partes, e só! E os homens se lavavam... Não se sujavam porque viviam agasalhados. E nessa época foi no inverno, que nós fomos pra lá. Foi no inverno. Então, eu não sei, assim... é... Quando eu cheguei aqui eu já estranhei. E achei assim... quer dizer, já senti porque fui morar lá, então já achava aquilo tudo tão horrível, tudo aquilo. E a criança, ela sente porque, de repente, ela começa a analisar mas ela não tem respostas! Por mais que eu perguntasse, eu não entendia as respostas!!! Como é que você vai chegar pra uma criança de cinco anos... E não época eu não tinha cinco, eu tinha quatro, chegar e dizer assim: “Olha! Foi o Salazar que tomou tudo!” Ta. “Mas por quê?” Então, quer dizer, eu não tinha muito essas respostas. Então eu não entendia porque na casa da minha avó não tinha uma geladeira, que não tinha o que eu queria comer... Lá não tinha nada disso. E a minha mãe também, sem dinheiro nenhum. Minha mãe foi trabalhar de empregada, de cozinheira, numa pensão em Trancoso, né? Então, pra mim foi muito difícil. E quando eu cheguei aqui no Brasil, foi pior ainda! Porque quando eu cheguei aqui no Brasil, meu pai... Eu fui morar numa casa... Porque lá, a casa da minha avó, não tinha isso, mas era uma casa grande!! Tinha lareira, tinha essas coisas todas... Mas eu cheguei aqui no Brasil e eu fui morar num apartamento pequeno... Era bonitinho, sabe? Tinha cozinha, sala... Não era esses apartamentos pequenininhos de empregado que só têm... de porteiro, que só têm um quarto, sala, aliás, só têm um quarto e uma cozinha. Ele tinha um quarto, uma salinha, uma cozinhinha, mas era tudo pequetitinho {gesticulando com as mãos sobre o tamanho dos cômodos}. Então, quer dizer, eu... sabe... eu não entendia aquilo! E outra coisa! De eu não poder ficar em certas partes. A discriminação naquela época era muito grande! Muito grande! Eu não podia andar pelo prédio, assim, eu não podia ficar na portaria com meu pai...&lt;br /&gt;Ricardo: Mas você acha que era por você ser filha do porteiro ou por você ser portuguesa?&lt;br /&gt;Isabel: Não! Ah! Discriminação por eu ser portuguesa? Eu não tive essa discriminação... Eu tinha assim, muita gozação. Porque naquela... Hoje já não tem, mas naquela época... Porque hoje a gente fala que é português, a gente tem orgulho de dizer, mas naquela época era difícil, sabe por quê? Porque as pessoas, isso quando eu já tava maiorzinha, o pessoal ficava sacaneando... “O português é burro, o português é isso, português é aquilo”... Aquelas coisas, né... Piadas de português... Teve aquelas coisas. Mas quando eu era pequena não. Não era por eu ser portuguesa não. Era por ser a filha do empregado. Porque na portaria só podia ficar o empregado, não podia ficar a filhinha do empregado, entende? E eu não podia. Porque eu adorava ficar na portaria com o meu pai! Mas eles não deixavam. Era uma discriminação, assim, sabe, por eu ser a filha do porteiro, porque as outras crianças podiam brincar a vontade lá na portaria. Podiam correr, porque tinha um hallzinho onde as crianças ficavam brincando... E nesse prédio da José Higino lá de cima, eu não podia. Aí, depois, quando nós viemos pra cá, pro, pra José Higino, embaixo, aí eram dois blocos. Era um prédio muito grande, tinham muitas crianças, então, eu brincava muito lá. Mas também tinha discriminação. Tinha, muita, muita discriminação porque eu era filha do porteiro. E muito, muito assim... as vezes, tem certas coisas que eu lembro, assim, que eu passei, sabe, assim, é... “Vamos brincar!” “Ah, ela não!” Sabe, assim, tipo, “Ah, ela não!” Mas isso daí, essas discriminações, eu lembro que quando a filha do porteiro, é, a... [Ricardo: do seu Pereira] do seu Pereira... também tinha. Também tinha, essas discriminações. Não por ela ser filha dele, mas eu acho que... Quer dizer, {rindo} mas eu acho que até por ela ser filha dele sim, por ela ser filha dele sim... Tinha algumas, sabe, as vezes eu olhava assim, e via... Como uma vez, eu tava.... pode falar?&lt;br /&gt;Ricardo: Pode...&lt;br /&gt;Isabel: Pode? Eu tava no prédio e eu não sei quem era, não me lembro quem era o porteiro, e tinha... E esse porteiro tinha um garotinho que tava brincando com outro menino que era sobrinho dele, e proibiram, não sei porquê, proibiram. Não lembro quem era a síndica. Não sei se era a Adriana, na época. Eu não sei. Eu sei que proibiram deles brincarem lá embaixo e eu achei aquilo terrível, porque cansei de ver um monte de criança lá embaixo brincando. Não era da época de vocês&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn24" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn24" name="_ftnref24"&gt;[24]&lt;/a&gt; não. Eu ainda não... Se eu não me engano, eu tava grávida do Bruno nessa época. Foi bem antes de vocês. Eu não sei se era a Adriana... Não me lembro quem era a síndica. Eu sei que você... Tinha o porteiro... Tinha as crianças, tinha os dois menininhos brincando lá embaixo, e mandaram avisar que não podia descer, é... não sei porquê, não podiam brincar lá embaixo. E eu achei aquilo terrível, falei: “Meu Deus do céu, qual o problema?” Tinha na época, tinha um menino aqui que descia, morava no primeiro andar, no apartamento do meu tio... tinha os netos do seu Rubens, o mais velho que descia, e o... tinha mais alguém aqui no prédio, que morava na cobertura, um garoto que morava na cobertura. Que às vezes eles... ah! E o filho da minha vizinha aqui {apontando em direção ao apartamento 304}, o... Felipe. Chegou a conhecer? [Ricardo: Não, acho que não.] Não? Então, e o Felipe. Então, eles andavam de bicicleta lá embaixo. Quer dizer, se eles podiam, porque que os filhinhos ou o sobrinho do porteiro não podiam? Essas discriminações, entendeu, que tinha e tem até hoje {rindo}. Mas foi assim... Agora, por eu ser... Quando chegava a época de eu ir pro colégio, quando eu estudava ali, que eu me mudei, de Engenho de Dentro pra cá, eu fui estudar na Argentina&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn25" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn25" name="_ftnref25"&gt;[25]&lt;/a&gt;. E eu tinha, como é que se diz... Não é medo. Não é medo de saber que eu era portuguesa. Era um receio que as pessoas... Não era vergonha de ser portuguesa, não, nada disso. Era um receio que eles fossem me encarnar... De falar piadinha. Porque eu ouvia muito isso no outro colégio, muito!&lt;br /&gt;Ricardo: E nessa época você ainda tinha sotaque?&lt;br /&gt;Isabel: Não...&lt;br /&gt;Ricardo: Você perdeu rápido?&lt;br /&gt;Isabel: Rápido, muito rápido. Porque uma criança com cinco anos, ela... Eu nem me lembro de ter sotaque, nem me lembro. {rindo} Pra mim eu sempre falei assim, entendeu? Porque eu nem me lembro de ter sotaque. Então, eu nem me lembro... E a discriminação, nesse ponto de eu ser portuguesa, acho que não. Eu é que não gostava de dizer porque eles encarnavam, falavam, entendeu? Então eu não falava. Tanto que, quando eu já tava no segundo grau, já tava fazendo o segundo grau, não sei quem na sala chegou e falou assim: “Tem algum estrangeiro aqui?”, porque tinha um japonês. Aí ele levantou o braço e falaram: “Ah não... Você nem precisa dizer {rindo}!” e ele falou: “Pô eu podia ser brasileiro... Por que não?”, aí eu fui e levantei... e as minhas amigas, todo mundo olhou pra mim e falou: “Ué, mas você é da onde?”, aí eu falei: “Eu sou portuguesa.” Mas naquela época não tinha mais, né? Eu já tava grande e tal... Mas aí nessa época não tinha mais essas discriminações não... Mas... mas, sei lá. Agora... só isso! Tem mais nada não. Hoje eu tenho maior orgulho de dizer que eu sou portuguesa, que eu vim de lá... Tenho muita vontade de voltar lá, muita vontade. Muita, muita, muita. De conhecer o meu país.&lt;br /&gt;Ricardo: Você nunca voltou desde que você veio?&lt;br /&gt;Isabel: Não... não. Nunca voltei. Tenho muita vontade de voltar. Mas eu vou voltar, se Deus quiser {rindo}. Bom, eu tenho medo de andar de avião, né? Eu vou de navio {rindo}. Ah, eu... eu vim pra cá de navio, eu esqueci de te dizer que eu vim pra cá de navio. Que nós viemos num navio, num navio francês. Tem até uma história muito engraçada. Porque na época que meu pai comprou a passagem, meu pai comprou a passagem de segunda, ou de terceira, não sei, aí, quando eu olhei o tamanho daquele barco, assim, imenso, e aí eu vi aquelas pessoas todas lá em cima... E aí eu falei, “Ah, eu vou ficar ali em cima...”. Quando nós entramos no navio {rindo}, tamos descendo a escada, descendo a escada, e aí eu falei: “Não era pra subir?”, não, era pra descer! Aí, quando nós fomos pra um quarto lá embaixo, que era um camarote, era um camarote que tinha cama beliche. Eram pra várias pessoas. Era de segunda ou terceira, sei lá. E a gente via aquela janelinha redondinha e a água... Quando subia, assim {esticando-se para ver a janela}... a água estava perto, tava perto. Não estava, assim... a altura, né... E eu falei... e eu pensando né... Aí, o navio já tinha zarpado, já tinha, assim, uns 15 minutos que já tinha zarpado e a minha mãe ouviu o nome dela no alto falante pra que a minha mãe comparecesse à cabine lá em cima. Não sei mais ou menos... Porque nós temos um tio que ele é almirante da marinha. Então, ele tinha recomendado que quando nós chegássemos... ele já tinha falado pro pessoal lá, que era pra reservar um camarote de primeira classe. Olha que sorte! Aí minha mãe ouviu, né. Minha mãe me pegou, tava eu e ela no barco, aquele negócio todo, e subimos. Subimos elevador, subimos escada... até chegar lá em cima. Quando cheguei lá em cima pela primeira vez, eu fiquei encantada com aquele mar, assim... porque já tava, já dava pra ver ainda a praia lá, o porto lá... Mas já pequenininho, né... 15 minutos, já tava bem adiantado. E o meu tio, ele tinha ido de lancha. Ele foi de lancha, ele conseguiu atracar lá no navio, subiu e tava lá em cima. Ele tava recomendando ao comandante lá do navio e tal... Conhecimento dele lá conseguiu que nós fôssemos de primeira classe. Aí nós fomos... minha mãe desceu, pegou as malas e tal... O cara já foi, desceu com a gente, né, o camareiro... Desceu com a gente, aí subiu. Era um navio lindo, muito bonito, todo acarpetado de vermelho, aquelas portas brancas com dourado... Nunca mais esqueci... Porque é uma coisa que fica muito na criança, né... Aquele luxo todo e eu fascinada né... aí entramos. E lá tinha cassino, tinha as piscinas... à noite tinha show... e o restaurante era maravilhoso, aquela coisa toda. Quer dizer, eu fiz uma viagem maravilhosa. Minha mãe enjoou o tempo todo, e eu lá. Engraçado que eu fico pensando como a minha mãe me deixava, assim, sabe... largada. Eu ia, eu corria aquilo tudo... Eu jamais, se fosse a minha filha, eu ia andar o tempo todo, eu não ia soltar a mão dela! Mas eu não... Eu subia aquelas escadas, eu descia... E tinha uma menina no navio que era da minha idade, então nós ficávamos sempre por lá andando, correndo, brincando... E outra coisa interessante foi quando eu vi um negro a primeira vez. Que eu nunca tinha visto um negro. Aí, tinham dois meninos africanos no navio... E a primeira vez que eu vi, eu fiquei assim... {mostra-se sem palavras, maravilhada} Como é que eu vou falar...? Eu fiquei assim, é... apreensiva! Eu não sabia, entendeu? O que que era uma pessoa negra! Eu nunca tinha visto, né.&lt;br /&gt;Ricardo: Nem nunca tinha ouvido falar?&lt;br /&gt;Isabel: Não. Não, nunca tinha visto. Nunca tinha visto lá. Na aldeia não tinha, no Porto não tinha. Naquela época, os negros não entravam em Portugal assim não. Não entravam, Salazar não deixava. Não deixava. Ele era.... o Salazar, ele era racista demais. Negros eram tratados, sabe, igual bicho. Foi aquilo que eu te falei, na África eles eram tratados como escravos, aquela coisa toda, mesmo ainda da época do Dom João. Então, quer dizer, eu nunca tinha visto. E tinham dois meninos. Na hora, eu fiquei assim, meio assustada. Eu não entendia muito bem aquilo de cor, não-sei-o-que... As pessoas falando com eles e tal... E eles, muito simpáticos, até. E a menina que tava comigo correu pra falar com eles. Depois, não é que eu não queria mais sair do lado deles?! {rindo} Eu queria tocar, sabe? Achava que era pintado... Queria tocar, queria ver... sabe? Eles eram, assim, muito, assim... Eles eram garotos. Deviam ter o que? Uns 14 anos, 13 anos... Eram crianças também, ainda. Não eram adultos não. Eram dois meninos. Eu não sei se tinha mais alguém com eles, se tavam levando... Só sei que tinham eles dois no navio. No navio todo só tinham eles dois. Eles tavam vindo pro Brasil. Então, eu achava o máximo conversar com eles, né. E ficava andando. Onde eles iam, tava eu atrás {rindo}, e a garota atrás deles. A gente achava muito interessante. Quando eu cheguei aqui no Brasil, que eu desci ali no porto {rindo}, que eu vi um monte eu falei: “Êêê! {rindo}!” Aí, falei eu pra minha mãe: “Olha! Têm muitos, mãe! Têm muitos”. Isso eu lembro porque meu pai pegou um táxi desses... aqueles fordecos antigos... Engraçado que quando eu cheguei aqui no Brasil, era muito engraçado os carros da época. Era Gordini&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn26" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn26" name="_ftnref26"&gt;[26]&lt;/a&gt;, era... DêChaVê... era... o fusca&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn27" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn27" name="_ftnref27"&gt;[27]&lt;/a&gt; né... a Rural&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn28" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn28" name="_ftnref28"&gt;[28]&lt;/a&gt;... Uns carros muito engraçados... Eu tava vendo essa novela das 6&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn29" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn29" name="_ftnref29"&gt;[29]&lt;/a&gt;... Tinha um, como é que é o nome? (Beveta), (Bereta)... Como é que é o nome desse carrinho? Você já viu essa novela das seis? [Ricardo: Não... ] Tem um carrinho... Naquela época não tinha mais, quando eu cheguei aqui, não devia existir esse carrinho aí... Mas tinha um parecido, que era o... eu não sei se era o Vemaguet &lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn30" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn30" name="_ftnref30"&gt;[30]&lt;/a&gt; ou o DêChaVê que parecia com ele, sabe? Era (Devereta), (Bereta)... Sei lá, um negócio assim. Essa novela das 6 que tem. Então, eu achava assim, a cidade muito... assim, estranha... Aqueles carrões, aqueles carros pretos... Porque lá em Portugal eu via carros, mas eu não me lembrava muito como eram os carros lá. Eu me lembrava, assim, do trem, que lá é o comboio, né... Acho que é... Comboio. O ônibus lá é carreira... Então eu me lembrava, assim, da carreira, do trem, mas não... E me lembrava também dos ônibus de dois andares. Isso eu me lembrava, porque a gente andava muito. Agora, dos carros, eu não me lembrava... eu não me lembro de ter andado de carro lá. Devo ter andado, mas não me lembrava. Quando eu cheguei aqui, quando eu olhei aquela.... Aqui, muito movimentado, aqueles carros pretos, os táxis eram todos pretos. Aqueles fordecos todos pretos. E aqueles carros maiores eram, na época eram... Simca&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn31" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn31" name="_ftnref31"&gt;[31]&lt;/a&gt;, o (Impala), um outro, era o &lt;a title="Aero Willys" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Aero_Willys&amp;amp;action=edit"&gt;Aero Willys&lt;/a&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn32" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn32" name="_ftnref32"&gt;[32]&lt;/a&gt;... {rindo} Uns carros muito engraçados. Rabo de peixe... Eram uns carros muito engraçados. Então, quando eu desci ali no porto que o meu pai foi nos buscar, no porto, né, tava um calor desgraçado, fevereiro, um calor miserável, né. Aí, nós descemos ali que eu cheguei e falei: “Mãe, tem muitos, tem muitos, muitos negros, muitos, muitos”. E lá eles não falam negros, eles falam pretos. Eles falavam pretos, “Os pretos”, né... Então era, assim, muito engraçado na época. E o que que você quer saber mais?&lt;br /&gt;Ricardo: Eu queria saber o seguinte... O seu pai era brasileiro, né? Ele falava sobre o Brasil pra você... [Isabel: Não!] Você não lembra... [Isabel: Não! {repetidas vezes}] Você não tinha nenhum tipo de informação sobre o país quando você veio?&lt;br /&gt;Isabel:Não, nenhuma. Até porque o meu pai, ele... Meu pai era um português, né, nascido aqui. Ele era um português nascido aqui. Ele só nasceu aqui. Ele adorava Portugal, a paixão dele era voltar pra Portugal. Ele morreu, coitado, sem voltar lá. [Ricardo: É...] Mas é, mas a paixão dele era voltar pra lá. Ele adorava aquilo lá. Ele nunca comentou nada. A única coisa que ele comentava era que ele tinha nascido em São Cristóvão&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn33" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn33" name="_ftnref33"&gt;[33]&lt;/a&gt; e na rua Figueira de Melo, só. Mais nada. Mas eu vim saber que meu pai era brasileiro quando eu já estava aqui. Alguns anos depois é que eu soube que meu pai era brasileiro, porque pra mim ele era português. Nunca me falou. [Ricardo: Pra todo mundo {ele era português}, né?] É... é, é! Pra todo mundo, é. Ninguém... Quando eu falava que meu pai era brasileiro {rindo}, o pessoal: “Não é possível!” E ele ficava bravo. A única vez que ele ficava bravo era quando alguém dizia assim pra ele: “Sai fora português, volta lá pra tua terra!” Aí ele falava: {com sotaque de português e rindo} “Pra tua terra não! Que eu estou na minha terra!! Sou tão brasileiro quanto tu!” Aí ele mostrava a carteira de identidade, aquelas coisas todas... Não, mas ele era engraçado, mas ele era um, um... um português brasileiro, porque... Aliás, um brasileiro português, porque tudo dele era de lá. E engraçado que ele nem tinha sangue português, porque a mãe era brasileira, não sei os antecedentes da mãe, mas o pai era italiano, era de Milão, né, então, quer dizer, eu devo ter parentes na Itália também... Eu devo ter parentes na França... Ah, deixa eu te contar uma história interessante... Você sabe que meu bisavô era um padre francês, por isso que eu to falando, que eu devo ter... Não devo ter muitos parentes, porque um padre, né? A minha, a minha bisavó, ela, ela tinha uma estalagem em Portugal e nessa época os padres eles vinham muito pra Portugal da França... Ali, não sei se fazia fronteira, não sei como é que é... Então eles vinham muito a Portugal. Se instalavam lá na estalagem dela. E numa dessas ela engravidou e nasceu a minha avó. Mas ele nunca registrou a minha avó... E nem podia {rindo}. A minha avó só tinha o nome da mãe. E ela sempre falava: “O meu pai era um padre”, e eu dizia assim: “Mas vó, ele ia lá?” “Ia!” Aí eu falava assim: “mas ele gostava, assim de vocês? Ele tratava vocês como filhas?” “Ah! Tratava...” “Você chamava ele, assim...” “De pai? Ah não! De pai não! Era padre...” Acho que era padre, é... como é que era? Padre Antônio... Padre Antônio... Eu não sei o nome dele... Padre não-sei-o-quê... Ela falava o nome dele. Mas, que não podia registrar. Naquela época já tinha essas coisas... {risos}&lt;br /&gt;Ricardo: É verdade. E assim, os costumes, quando vocês chegaram aqui, vocês tiveram dificuldade... Você teve dificuldade de se adaptar com comida?&lt;br /&gt;Isabel: Ah, sim!&lt;br /&gt;Ricardo: O clima?&lt;br /&gt;Isabel: O clima não! O clima não, porque eu odeio frio, quer dizer, eu devo ter adorado, né? Chegar aqui, ficar no calor e andar à vontade... Agora, comida, sim! Porque as batatas aqui, eu não me lembro muito bem... As batatas aqui tinham gosto, pra nós, tinham gosto... Parecia que elas tinham querosene. Era muito... a batata... Eu não como batata cozida... Mas a batata de lá tem outro gosto! Tanto que o... Teve um amigo, um amigo do Marcus que viajou pra Portugal. Eu pedi a ele que trouxesse batatas pra mim. Aí eu comia aqui e dei pra eles e falei: “Agora vocês vêem... Olha o gosto como é diferente!” Tem gente que acha que não, mas a batata é tirada lá da aldeia mesmo, sabe? Que foi lá na aldeia dele, eu não sei qual aldeia que ele mora, quer dizer, que a família dele mora... Então ele foi lá e trouxe de lá mesmo. A batata não é aquela que vende na cidade, que já vem lavada, que já vem cheia de agrotóxicos... A de lá mesmo, da aldeia, que eles tiravam da terra, assim, sabe? E o feijão preto, né, que pra nós era uma novidade, que lá não tem. Não sei se tem agora. Na época não tinha. A gente conhecia feijão branco, feijoca, feijão manteiga, só. Os outros, esse... como é que é? Mulatinho, feijão fradinho, isso que eu não me lembro de lá, não. Agora, o preto não tinha. Agora não sei se já tem, mas na época não tinha. E era bem difícil a comida. Tanto que a gente... Eu não comia, porque a minha mãe continuava fazendo a comida como fazia lá em Portugal, entendeu? A gente só sentia alguma diferença quando a gente ia na, comia na, na casa dos outros. Outra coisa era o arroz branco. Lá eles não comiam o arroz branco. Eles comiam o arroz com cebola e o tomate. Nós comemos muitos anos aqui em casa o arroz com... Agora que eu não faço mais! E o Bruno reclama pra caramba, porque ele não gosta de arroz branco, né? Todo dia, todo dia ele fala: “Ai, arroz branco!” e eu falei: “Você aprenda a fazer o arroz com tomate e quando você casar você faz na sua casa!” {risos do entrevistador} Aqui, não! Ah, não faço porque dá muito trabalho! Mas é mais gostoso, né? Mas é mais fácil o arroz branco. Quê mais você quer saber?&lt;br /&gt;Ricardo: E, assim... Quando você conheceu, casou com o Marcus, é... teve algum tipo de resistência dos seus pais, por ele ser brasileiro?&lt;br /&gt;Isabel: Não, porque o meu pai era brasileiro... nem podia, né? Não, nenhuma... normal.&lt;br /&gt;Ricardo: E hoje em dia, assim, como é que você mantém as relações com Portugal...? No sentido de...&lt;br /&gt;Isabel: {interrompendo} Não, com Portugal não mantenho muito não. Não tenho muito. Até porque, lá em Sever, a única pessoa que eu acho, quer dizer, lá em Sever, têm alguns tios, irmãos do meu avô que ainda são vivos, né, mas que eu não tenho, assim, nenhum contato. O único contato que eu tenho lá de Sever, da cidadezinha, é com a minha madrinha, que de vez em quando ela manda uma carta, manda outra carta... mas é muito difícil falar por telefone. Uma vez na vida, outra na morte. Falar pelo telefone... É mais até por carta...&lt;br /&gt;Ricardo: Mas, assim, no sentido de costume... é... Vocês freqüentam associação portuguesa...?&lt;br /&gt;Isabel: {interrompendo} Ah, não... não...&lt;br /&gt;Ricardo: Músicas...?&lt;br /&gt;Isabel: Não. Até porque, quer dizer, meu pai e minha mãe eles freqüentavam quando eram pequenos. Eles iam muito nas Casas das Beiras... é... Não! É Casa das Beiras, o nome dela. Ia nos (porgueiros)... é... quê mais? Eu ia com eles quando era pequena sim. Agora, eu, não! Assim, depois de grande, eu não freqüento. Nada disso. Até gostaria, porque eu adoro aquelas músicas de lá. Gosto muito! Eu gosto, gosto de fado... gosto dessas músicas assim. Meu pai cantava. Eu sei muita música de lá porque meu pai cantava, né. Ele adorava. Ele vivia cantando as músicas e eu aprendi as musiquinhas de lá. E eu gosto. Mas eu não freqüento não! Porque se eu for, quem que eu vou levar comigo? {rindo} Bruno? Beatriz? Marcus? Eles detestam essas músicas, então...&lt;br /&gt;Ricardo: Eles não se interessam? [Isabel: Não!] Nem perguntam?&lt;br /&gt;Isabel: {interrompendo} Não, não. Nem perguntam. Pra você ver, o Bruno foi saber agora da onde... Agora não! Há coisa de alguns meses atrás... Porque eu to pedindo os direitos de igualdade dele, né, e tô tentando tirar meus documentos... Foi aí que ele foi saber o nome da cidade que eu vim... essas coisas todas. Porque ele não sabia nada disso. Nunca se interessaram.&lt;br /&gt;Ricardo: Até, quando eu perguntei a ele como se escrevia Sever, ele disse que era com “C”, e eu não tava achando...&lt;br /&gt;Isabel: É com “S”, né?&lt;br /&gt;Ricardo: É com “S”... Quase que eu não consegui achar... E futebol... assim, é...&lt;br /&gt;Isabel: Ah. Futebol. Quando eu era pequena, eu ia muito, em Portugal, eu ia muito com meu pai assistir o Leixões&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn34" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn34" name="_ftnref34"&gt;[34]&lt;/a&gt;... Não, minto... o Benfica&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn35" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn35" name="_ftnref35"&gt;[35]&lt;/a&gt;. Leixões jogava com o Benfica {rindo}. E tinha um campo lá que nós íamos, lá no Porto, lá. Ainda deve ter, né, mas na época tava em construção ainda. Só tinha aquelas arquibancadas de... {sugerindo serem de madeiras} Hoje é um estádio maravilhoso, mas na época era aquele estádio ainda com aquelas arquibancadas de madeira {rindo}. Era bem... eu lembro, eu era pequenininha e meu pai me levava pra ver. Meu pai era Benfica doente. Ele adorava.&lt;br /&gt;Ricardo: E vocês chegaram aqui e vocês passaram a torcer pro...&lt;br /&gt;Isabel: Quando eu cheguei aqui, não... Quando eu cheguei aqui, meu pai já era Vasco. Eu cheguei aqui e meu pai já era Vasco, mas eu tinha horror... eu tinha horror ao Vasco. Eu vou te dizer porquê. Porque meu pai, ele era um vascaíno doente, mas doente mesmo, sabe? De ficar muito mal humorado quando o Vasco perdia e ficar feliz da vida quando o Vasco ganhava. E era assim: quando o Vasco tava perdendo... Nós tínhamos, quando nós morávamos no Engenho de Dentro, nós tínhamos uma televisão muito antiga chamada Emerson {risos}, e o raio da televisão vivia dando defeito. Já tinha sido comprada de segunda mão então {rindo}, a televisão tava sempre com defeito. E o meu pai, eu lembro do meu pai, {rindo muito} quando tava jogando o Vasco, ele dava uma porrada na televisão porque ela parava... Ela tinha umas listras, que eu não sei qual é o nome daquilo, mas eram umas listras assim, na horizontal, então elas ficavam passando assim... Eu não sei qual é o nome daquilo... Então, ela, ela, ele dava porrada nela. Então, o Vasco perdia e, se a gente falasse alguma coisa, ele batia na gente. Em mim e no meu irmão. Ele batia. Nessa época o meu irmão já tava aqui. Ah, eu esqueci de dizer, que logo depois, dois anos depois, minha mãe mandou o meu irmão... Quando nós moramos no Engenho de Dentro, meu pai e minha mãe mandaram meu irmão vir de Portugal. Então, ele batia na gente. Então, eu tinha horror ao Vasco. Então, o que que eu fiz, eu falei assim, como o meu pai detestava o Flamengo, eu falei: “Eu vou ser Flamengo!” {rindo} Pra, pra, pra irritar o meu pai. E o meu pai morria de raiva quando a gente dizia que era Flamengo. O meu irmão foi ser Fluminense. O meu irmão, ele já gostava, já gostava do Fluminense, até porque tinha verde, e vermelho, né, e... Claro que não tinha nada a ver com Portugal, mas ele gostava, porque tinha o verde e vermelho. Mas ele... mas eu não. Eu falei: “Eu vou ser Flamengo pra irritar o meu pai”. E depois eu meu apaixonei, ne, pelo Flamengo. E aqui em casa, quer dizer, eu, Marcus, somos Flamengo, e a Beatriz. O Bruno era Flamengo, mas como o Bruno é Maria-vai-com-as-outras, depois que começou a andar com o Pedro, virou Vasco.&lt;br /&gt;Ricardo: É verdade. Ele virou Vasco.&lt;br /&gt;Isabel: Mas como o Bruno não liga muito pra futebol, né... o Bruno nem quer saber de Vasco. Ele não é muito chegado a futebol não.&lt;br /&gt;Ricardo: E olhando assim, hoje em dia, pra toda a experiência que você passou como imigrante, os seus pais, o que que você acha que foi de melhor... O que que você, por exemplo, diria pra uma pessoa que fosse passar por essa experiência da imigração?&lt;br /&gt;Isabel: Que não vá! Que não saia do país onde mora. Não que a gente tenha se arrependido, porque nós viemos pra cá numa época boa... Porque, se fosse hoje, quem é que ia sair de Portugal pra vir cá? Ninguém. Ninguém é louco. O pessoal só quer sair daqui pra ir pra lá. Mas pra vir pra cá, acho que ninguém. Acho que nem pra passear... Pra conhecer e ir embora. Morar aqui não. Agora, na época, pra nós, a experiência foi boa. Por quê? Porque nós fizemos... Meu pai fez a vida dele aqui, né... Eu não sei se lá, naquela época, se fosse hoje, eu acho que ele não viria, ta? Hoje ele não viria. Mas naquela época, com o Salazar... O Salazar não dava chance a ninguém. De, de, de o país... Portugal ficou trinta anos, mais ou menos, pelo domínio do Salazar&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn36" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn36" name="_ftnref36"&gt;[36]&lt;/a&gt;. Eu não sei se é bem esse, a quantidade... o tempo, né. Mas o Salazar não dava oportunidade pra ninguém. Ele não deixava o pessoal crescer. Ele não deixava. Mas você vê, Portugal era um país tão atrasado, entendeu, que televisão lá era só pra elite e não tinha... e nós... e, e, se tinha, era uma rede só, uma emissora, e não passava toda hora não. Era uma horinha por dia, pra você ver, naquela época. Eu acho que ele era o país mais atrasado da Europa, né. Não é possível, porque eu cheguei aqui, eu vi, assim... Lá, as pessoas... sabe como é que as pessoas namoravam lá? Era assim... que nem eu to com você, assim {sentado, em sofás diferentes, um de frente para o outro}, bem longe. Assim, sabe. A gente namorava assim. Não podia pegar na mão, não. Não se tocavam. Elas namoravam assim, elas se falavam. Não eram nem namorados, elas se falavam. Porque não andavam abraçadas. Então, quando eu cheguei aqui no Brasil, uma coisa que me surpreendia muito era isso. As pessoas se beijarem na rua! Eu ficava olhando aquilo... Pra mim era uma coisa, assim, absurda! E pra minha mãe também! A minha mãe também. Porque lá não era... lá era muito atrasado. Você não tinha... como é que se diz... é, é... você não sabia o que passava no mundo, porque tudo eles censuravam. Isso podia entrar, isso não. Era uma censura danada. Então, eu quase não sabia o que tava se passando aqui. Por exemplo, se você tem... Você sabia assim, de uma catástrofe... Isso você ficava sabendo. O que acontecia. Uma guerra, um troço, uma coisa assim, muito grande, ta? Agora, uma coisa, tipo assim, como é que eu vou dizer? “Leonardo Di Caprio ganhou 20 milhões de dólares pra fazer o filme do Titanic”. Isso você nunca ia ficar sabendo. Entendeu? É uma suposição. Ele não deixava. Então, era um país muito atrasado. Naquela época, era muito bom, as pessoas que saíram de lá, maravilha. Eu, eu, eu acredito que se meu pai tivesse ficado lá, não teria tido as oportunidades que ele teve aqui, entendeu? Agora, hoje, não. Hoje, não aconselho ninguém a sair do país de Portugal pra vir pra cá. Não aconselho, nem pensar. Eu to querendo ir pra lá! {rindo} as pessoas têm que sair daqui pra ir pra lá, mas, quer dizer, pra nós, a nossa experiência foi boa, entendeu?&lt;br /&gt;Ricardo: E a religião na vida de vocês?&lt;br /&gt;Isabel: Ah, nós sempre fomos católicos.&lt;br /&gt;Ricardo: E algum santo em especial?&lt;br /&gt;Isabel: Ah, tinha. Fátima. A Nossa Senhora de Fátima.&lt;br /&gt;Ricardo: Aqui no Brasil vocês...&lt;br /&gt;Isabel: Aqui no Brasil... lá... eu não... eu não sei... A minha mãe, a minha mãe, também. A minha mãe, eu não sei bem quais são os santos dela. Acredito que seja Nossa Senhora de Fátima. Eu tenho vários. Eu tenho Nossa Senhora de Fátima, eu tenho São Judas Tadeu, eu tenho Santo Expedito, eu tenho... como é que se diz? Santa Edwiges... é... Nossa Senhora da Aparecida... Todos... Eu, eu, mas assim, o que eu mais me... mais me apego é a Nossa Senhora de Fátima.&lt;br /&gt;Ricardo: E, assim, já terminando, o que que significa pra você, ser português, ser portuguesa?&lt;br /&gt;Isabel: Hoje em dia, pra mim, é um orgulho muito grande. Eu tenho muito orgulho do meu país, sabe? Orgulho mesmo! Tenho, assim, um orgulho muito grande de ser portuguesa. Hoje. Tenho um orgulho danado, porque naquela época, é aquilo que eu te falei... Portugal era um país que as pessoas riam, que as pessoas, é... é, é... como se diz? Chacoalhavam com as pessoas... aquele negócio todo... aquelas piadas. Você era muito, sabe... assim, “Ah, português é burro”. Até o dia em que eu cheguei à conclusão e digo: “Não. Português não é burro. Português é muito esperto.” Porque ele vem pra terra dos outros fazer fortuna, né, e os otários deixam! Então eu cheguei à conclusão de que o português não era burro. Quando eu tomei consciência disso, eu digo “Não, eu tenho que ter orgulho do meu país”. Que meu pai chegou aqui com uma mão na frente e a outra atrás, embora ele sendo brasileiro, mas a minha mãe, no caso... e hoje em dia eu, eu moro bem... ta. Eu não sou rica, mas eu tenho uma situação de vida, uma, como é que se diz, um padrão de vida mais ou menos. Não sou uma favelada, graças a Deus, entendeu? E poderia até ser, porque, se de repente meu pai chega aqui e não consegue nada, e fosse morar na... e outro dia a gente tava até comentando... Tem uma situação muito engraçada, que um dia meu pai foi ver um terreno na Barra&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn37" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn37" name="_ftnref37"&gt;[37]&lt;/a&gt;. A gente morava aqui, ainda, na Duque de Caxias, né. Aí, foi lá na Barra ver o terreno, ali na Avenida Sernambetiba mesmo. Sabe que a Barra, aquilo ali não tinha nada, não tinha nada. Aí nós chegamos lá, nós vimos o terreno e aí a minha mãe falou assim: “Mas comprar um terreno aqui? Ele tá até barato, mas não tem nada!” E o moço que queria vender pra gente: “Não, minha senhora. Não tem nada agora, mas daqui há alguns anos vai ter!” Aí minha mãe: “Mas aí eu vou comprar um terreno aqui? Vou construir uma casa”, e a gente olhava em volta, assim... Foi por volta de 1970, 70, 71... por aí... tinha nada. Tinha uma casa aqui, uma casa ali, outra casa lá... era uma coisa assim, bem... E aquela praia... Eu já feliz da vida. “Oba! Vou morar em frente à praia.” Mas ao mesmo tempo, a gente achava muito longe. Aí a minha mãe falou assim, “Ah não. Não vou comprar, não.” Eles vendendo, fazendo aqueles loteamentos. E o meu pai assim: “Eu vou morar aqui nada. Ficar aqui? Isso aqui, daqui a pouco, vai é virar uma favela!” ele falou... {rindo} Gente! Como eu me arrependo de não ter comprado! Um terreno na Sernambetiba! Olha... meu Deus do céu. Mas realmente, naquela época, na Barra... A Barra era uma coisa assim, muito deserto. Mas você quer ver, a Barra ela começou a ser mais povoada, é o que? Coisa de uns vinte e cinco anos pra cá. Vinte... mais ou menos uns vinte e cinco anos pra cá. Porque até quando eu casei, há vinte e cinco anos atrás, a gente ia num barzinho que tinha lá no Alto&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn38" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftn38" name="_ftnref38"&gt;[38]&lt;/a&gt;, na, na... ali na Barra... era muito deserto. Uma ou duas ruazinhas que eram mais... Tinha aquela rua dos motéis... Tinha uma outra rua que tinha não-sei-o-que-lá... Era umas ruas assim, que tinham. Era, às vezes... Essa rua dos motéis, ela era bem, como é que se diz, bem movimentada, né, porque era a rua dos motéis, e uma ruazinha lá que tinha uns barzinhos, que tinha o tal do Oswaldo, que nós íamos, e tinha, na pracinha do Alto, que a gente ia muito... Mas era assim, sabe. Uma coisa aqui, uma fabricazinha ali. E, de repente, a Barra começou por causa do Shopping... Começou quando começou a ser construído o Barra Shopping. Foi aí que começou a ficar bem movimentado. Começou o BarraMares, aqueles condomínios chiques, aquelas coisas todas... foi quando começou. Mas até então, a Barra não tinha nada. Era um deserto só. Minha mãe não quis comprar o terreno.&lt;br /&gt;Ricardo: E como é pra você ser português e viver no Rio de Janeiro hoje em dia?&lt;br /&gt;Isabel: Você sabe que eu nem tenho, assim, essa coisa? De, de ser portuguesa? Pra mim, não faz diferença... É como se eu tivesse morando lá... Lógico, lá seria diferente. Eu acho assim, que lá, o frio, essas coisas todas... Mas, em... no sentido de eu ser portuguesa, não. Não tenho. Não tem uma diferença não.&lt;br /&gt;Ricardo: E agora, pra finalizar, o meu professor, ele tava falando, é... Esse meu professor, por acaso, a mãe dele é portuguesa também, e ele contou a história da Dona Inês de Castro, e ele falou que a gente poderia perguntar a todo imigrante português que a gente conhecesse, perguntar se ele conheceria essa história. Que é uma história que já vem passando, por tradição oral, já há muitos séculos, né. Aí eu queria perguntar a você se você conhece a história.&lt;br /&gt;Isabel: Não. Posso até conhecer a história da Inês... da Inês... morta... É alguma coisa assim...&lt;br /&gt;Ricardo: É... E você se lembra de alguma coisa?&lt;br /&gt;Isabel: Não. Eu já ouvi falar alguma coisa assim... De uma Inês... da Inês... não... E como é a história?&lt;br /&gt;Ricardo: A história é que, é... Na época, Dom Pedro... Pedro era filho de um rei português, que eu não lembro mais o nome, e aí ele vem a conhecer a mulher dele... a futura esposa dele traz uma acompanhante que é a Dona Inês de Castro, que era filha de uma família importante da Espanha, inimiga... rival, da época, do rei. E aí o Pedro se apaixona pela Inês e o pai dele, pra evitar que ele case com ela, ou alguma coisa assim, alguma coisa desse tipo, manda matá-la. E quando ele sobe ao trono, ele vira o Dom Pedro I da história de Portugal, ele manda retirar o cadáver dela da onde foi enterrado, coroa e... coroa ela depois de morta e dá um beijo nela. E essa história se passa no século XIV, se eu não me engano. E até hoje as pessoas repetem...&lt;br /&gt;Isabel: Eu ouvi falar alguma coisa assim... Que não-sei-o-que... Ah, “porque agora a Inês é morta”... não-sei-o-que... Mas nunca... Não sabia dessa história não.&lt;br /&gt;Ricardo: E se você quiser acrescenta alguma coisa...&lt;br /&gt;Isabel: Não...&lt;br /&gt;Ricardo: E o que você achou da entrevista, do projeto que a gente ta fazendo...?&lt;br /&gt;Isabel: Ah. Muito legal. Achei ótimo! Achei que vocês deviam fazer... mas é só com os portugueses? Ou com outros imigrantes?&lt;br /&gt;Ricardo: No caso desse projeto, dessa disciplina&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn39" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftn39" name="_ftnref39"&gt;[39]&lt;/a&gt;, é só sobre imigração portuguesa no Rio de Janeiro. No Estado do Rio, né.&lt;br /&gt;Isabel: Ah. Mas eu acho que tem outras histórias... a minha, a minha história é pequena. Porque tem... tem muitas histórias, assim, bem mais interessantes que a minha. Nossa! Têm histórias aí, que você vê, que as pessoas vieram pra cá dentro de... como é que é? Caixas... de caixas...&lt;br /&gt;Ricardo: Containeres...&lt;br /&gt;Isabel: É! Dentro de caixotes, né. O Marcus é que diz, às vezes ele fala pra mim {rindo}: “Seu pai te trouxe pra cá num caixotinho”. Mas muita gente, é, é... veio assim. Em caixotes, é. Vieram escondidos. Clandestinos. Assim. A família do meu tio que tem muita história interessante. Meu tio. Esse que é dono desse apartamento aqui em baixo. Ele... Tem muitas histórias da família dele mais interessantes do que a minha. A minha história...&lt;br /&gt;Ricardo: Não. Mas é sempre representativo da experiência que o português enfrenta aqui. E a sua história eu achei bem mais interessante quando eu descobri que o seu pai também era brasileiro. E ele foi um imigrante em Portugal...&lt;br /&gt;Isabel: Foi...&lt;br /&gt;Ricardo: E depois ele se torna um imigrante brasileiro no Brasil.&lt;br /&gt;Isabel: É. Ele foi pra lá com quatorze anos. É. Pra ele também deve ter sido difícil, né. Porque sair daqui... Bom, não sei que tipo de vida ele levava aqui, né. Mas pra ele foi, ele... Aqui era a cidade. Da rua Figueira de Melo, que ele nasceu, ele foi morar na aldeia. E ele devia ter, assim, uma vida muito difícil. Ele... A mãe dele morreu logo, ele ficou morando com essa tia lá, que casou com um português muito grosso, muito estúpido, que batia muito nele, ta? Batia muito nele, muito mesmo. Ele falou que ele apanhava, assim, horrores... Mas não era apanhar de cinto, não. Era de pau. Apanhava de pau, de ferir. O meu pai tinha umas cicatrizes nas pernas, que ele apanhava de pau. Aqui na cabeça também tinha, que uma vez ele deu com o pau e abriu a cabeça dele, perto do nariz, quer dizer... umas coisas, assim, absurdas. Ele... E depois, ele ficou morando com ela... E depois esse homem morreu e essa tia dele ficou cega. E ele cuidou dela. Ele era solteiro ainda, não tinha ninguém, porque o irmão dele, depois, também, se mandou aqui pro Brasil, entendeu? O irmão dele era... o irmão dele trabalhava na Varig, ele era... como é? Comissário de bordo da Varig. E ele se mandou pra cá. E ficou por aqui. Nós tivemos contato com ele quando nós morávamos no Engenho de Dentro. Umas duas vezes só. Nunca mais soubemos dele. Até uma vez, eu falei pra minha mãe que eu ia botar na Internet, “procura-se”, né, pelo nome. Pra ver se a gente tem alguma noticia dele. Ou de lá, ou daqui. Ou se ele mora aqui no Brasil, ou se voltou pra Portugal. Nós não sabemos. E ele veio pra cá. E ele ficou cuidando da tia cega, até casar. Quando ele casou com a minha mãe, a minha mãe ainda... Que depois que a minha mãe casou com meu pai, parece que ela ainda durou uns meses, só. Depois logo ela morreu. Quer dizer, pra ele não era fácil também, né. [Ricardo: É...] Viver sozinho com ela, que era velhinha, e sem mãe, que a mãe morreu logo depois que ele foi pra lá. Ele não sabe dizer do que que a mãe morreu. Então ele teve uma vida meio difícil. E só trabalhou. O meu pai trabalhou muito, a vida inteira, ele não se divertiu, não teve nada na vida. Só trabalhou. Outro dia a gente tava até falando isso. Eu tava conversando com a minha mãe que ele não... Que a minha mãe, agora, não trabalha mais. Tá aposentada. Quer dizer, que ela sai, ela se diverte, ela viaja, ela faz um monte de coisas... E eu queria que o meu pai tivesse usufruído disso tudo também. Da aposentadoria dele... mas, infelizmente, Deus não quis. Coitado, ele ainda tava trabalhando quando ele morreu! Não tinha se aposentado ainda, mas é isso aí...&lt;br /&gt;Ricardo: É isso aí. Obrigado, Isabel. A entrevista foi ótima!&lt;br /&gt;Isabel: De nada!&lt;br /&gt;Ricardo: Vou pegar aqui...&lt;br /&gt;Isabel: Será que gravou tudo direitinho?&lt;br /&gt;Ricardo: Eu acho que...&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Segundo a Wikipedia, “Matosinhos é uma &lt;a title="Cidade" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade"&gt;cidade&lt;/a&gt; &lt;a title="Portugal" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Portugal"&gt;portuguesa&lt;/a&gt; pertencente ao &lt;a title="Distrito do Porto" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Distrito_do_Porto"&gt;Distrito do Porto&lt;/a&gt;, &lt;a title="Região Norte (Portugal)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Regi%C3%A3o_Norte_%28Portugal%29"&gt;Região Norte&lt;/a&gt; e subregião do &lt;a title="Grande Porto" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Porto"&gt;Grande Porto&lt;/a&gt;, com cerca de 28 500 habitantes. É sede de um pequeno &lt;a title="Município" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Munic%C3%ADpio"&gt;município&lt;/a&gt; com 62,30 km² de área e 167 026 habitantes (2001), subdividido em 10 &lt;a title="Freguesia" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Freguesia"&gt;freguesias&lt;/a&gt;. O município é limitado a norte pelo município de &lt;a title="Vila do Conde" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Vila_do_Conde"&gt;Vila do Conde&lt;/a&gt;, a nordeste pela &lt;a title="Maia" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Maia"&gt;Maia&lt;/a&gt;, a sul pelo &lt;a title="Porto" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Porto"&gt;Porto&lt;/a&gt; e a oeste tem costa no &lt;a title="Oceano Atlântico" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Oceano_Atl%C3%A2ntico"&gt;oceano Atlântico&lt;/a&gt;”, e que, em 1960, o concelho tinha uma população aproximada de 91017 habitantes. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Matosinhos"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Matosinhos&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;[2]&lt;/a&gt; Segundo a Wikipedia, “Sever é uma &lt;a title="Lista de freguesias portuguesas" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_freguesias_portuguesas"&gt;freguesia&lt;/a&gt; &lt;a title="Portugal" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Portugal"&gt;portuguesa&lt;/a&gt; do &lt;a title="Lista de municípios portugueses" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_munic%C3%ADpios_portugueses"&gt;concelho&lt;/a&gt; de &lt;a title="Moimenta da Beira" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Moimenta_da_Beira"&gt;Moimenta da Beira&lt;/a&gt;, com 12,52 km² de área e 603 habitantes (&lt;a title="2001" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/2001"&gt;2001&lt;/a&gt;). Densidade: 48,2 hab/km²”. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Sever_%28Moimenta_da_Beira%29"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Sever_%28Moimenta_da_Beira%29&lt;/a&gt;, em 20/11/2006. Moimenta da Beira é um “&lt;a title="Município" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Munic%C3%ADpio"&gt;município&lt;/a&gt; com 219,75 km² de área e 11 074 habitantes (2001), subdividido em 20 &lt;a title="Freguesia" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Freguesia"&gt;freguesias&lt;/a&gt;. O município é limitado a nordeste pelo município de &lt;a title="Tabuaço" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tabua%C3%A7o"&gt;Tabuaço&lt;/a&gt;, a sueste por &lt;a title="Sernancelhe" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Sernancelhe"&gt;Sernancelhe&lt;/a&gt;, a sul por &lt;a title="Sátão" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A1t%C3%A3o"&gt;Sátão&lt;/a&gt;, a oeste por &lt;a title="Vila Nova de Paiva" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Vila_Nova_de_Paiva"&gt;Vila Nova de Paiva&lt;/a&gt; e &lt;a title="Tarouca" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tarouca"&gt;Tarouca&lt;/a&gt; e a noroeste por &lt;a title="Armamar" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Armamar"&gt;Armamar&lt;/a&gt;”. Em 1960, tinha cerca de 15272 habitantes. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Moimenta_da_Beira"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Moimenta_da_Beira&lt;/a&gt;, 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;[3]&lt;/a&gt; Segundo a Wikipedia, “Trancoso é uma &lt;a title="Cidade" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade"&gt;cidade&lt;/a&gt; &lt;a title="Portugal" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Portugal"&gt;portuguesa&lt;/a&gt;, pertencente ao &lt;a title="Distrito da Guarda" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Distrito_da_Guarda"&gt;Distrito da Guarda&lt;/a&gt;, &lt;a title="Região Centro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Regi%C3%A3o_Centro"&gt;região Centro&lt;/a&gt; e subregião da &lt;a title="Beira Interior Norte" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Beira_Interior_Norte"&gt;Beira Interior Norte&lt;/a&gt;, com cerca de 3 500 habitantes. É sede de um &lt;a title="Município" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Munic%C3%ADpio"&gt;município&lt;/a&gt; com 364,54 km² de área e 10 889 habitantes (2001), subdividido em 29 &lt;a title="Freguesia" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Freguesia"&gt;freguesias&lt;/a&gt;. O município é limitado a norte pelo município de &lt;a title="Penedono" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Penedono"&gt;Penedono&lt;/a&gt;, a nordeste por &lt;a title="Meda" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Meda"&gt;Meda&lt;/a&gt;, a leste por &lt;a title="Pinhel" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pinhel"&gt;Pinhel&lt;/a&gt;, a sul por &lt;a title="Celorico da Beira" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Celorico_da_Beira"&gt;Celorico da Beira&lt;/a&gt;, a sudoeste por &lt;a title="Fornos de Algodres" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fornos_de_Algodres"&gt;Fornos de Algodres&lt;/a&gt;, a oeste por &lt;a title="Aguiar da Beira" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Aguiar_da_Beira"&gt;Aguiar da Beira&lt;/a&gt; e a noroeste por &lt;a title="Sernancelhe" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Sernancelhe"&gt;Sernancelhe&lt;/a&gt;”. O concelho tinha, em 1960, cerca de 18224 habitantes. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Trancoso"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Trancoso&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;[4]&lt;/a&gt; Segundo a entrevistada, pelo fato do pai dela ser brasileiro, ele pôde voltar de garça para o Brasil.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;[5]&lt;/a&gt; Segundo a Wikipedia, “A Tijuca é um &lt;a title="Bairro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Bairro"&gt;bairro&lt;/a&gt; da Zona Norte da &lt;a title="Cidade" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade"&gt;cidade&lt;/a&gt; do &lt;a title="Rio de Janeiro (cidade)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro_%28cidade%29"&gt;Rio de Janeiro&lt;/a&gt; [...]. Considerado tradicionalmente como um bairro de classe média e classe média alta, é cercado por comunidades de baixa-renda como as &lt;a title="Favela" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Favela"&gt;favelas&lt;/a&gt; do &lt;a title="Morro do Borel" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Morro_do_Borel"&gt;Borel&lt;/a&gt;, da Formiga, do &lt;a title="Morro do Salgueiro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Morro_do_Salgueiro"&gt;Salgueiro&lt;/a&gt;, da Casa Branca e da Chacrinha. A partir da &lt;a title="Década de 1980" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/D%C3%A9cada_de_1980"&gt;década de 1980&lt;/a&gt; passou a perder moradores para o bairro da &lt;a title="Barra da Tijuca" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Barra_da_Tijuca"&gt;Barra da Tijuca&lt;/a&gt;. [...] A Tijuca é um dos bairros mais tradicionais do &lt;a title="Rio de Janeiro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro"&gt;Rio de Janeiro&lt;/a&gt; e se localiza fisicamente próximo à Zona Sul, &lt;a title="Barra da Tijuca" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Barra_da_Tijuca"&gt;Barra da Tijuca&lt;/a&gt; e do Centro da cidade, atualmente é um bairro tipicamente &lt;a title="Urbano" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Urbano"&gt;urbano&lt;/a&gt;, mas sua origem está em uma região de chácaras. [...]Embora tipicamente &lt;a title="Urbano" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Urbano"&gt;urbano&lt;/a&gt;, possui a maior &lt;a title="Floresta" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Floresta"&gt;floresta&lt;/a&gt; urbana do mundo (&lt;a title="Floresta da Tijuca" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Floresta_da_Tijuca"&gt;Floresta da Tijuca&lt;/a&gt;), plantada por determinação de D. &lt;a title="Pedro II do Brasil" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_II_do_Brasil"&gt;Pedro II do Brasil&lt;/a&gt; na segunda metade do &lt;a title="Século XIX" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9culo_XIX"&gt;século XIX&lt;/a&gt; pelo major &lt;a title="Archer" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Archer&amp;amp;action=edit"&gt;Archer&lt;/a&gt;, em terras de café desapropriadas, para combater a falta de água que se instalara na então capital do Império.” Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tijuca"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Tijuca&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref6" name="_ftn6"&gt;[6]&lt;/a&gt; Segundo a Wikipedia, “O Leblon é um &lt;a title="Bairro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Bairro"&gt;bairro&lt;/a&gt; da Zona Sul da cidade do &lt;a title="Rio de Janeiro (Rio de Janeiro)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro_%28Rio_de_Janeiro%29"&gt;Rio de Janeiro&lt;/a&gt;, localizado na faixa de terra entre a &lt;a title="Lagoa Rodrigo de Freitas" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lagoa_Rodrigo_de_Freitas"&gt;Lagoa Rodrigo de Freitas&lt;/a&gt; e o &lt;a title="Oceano Atlântico" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Oceano_Atl%C3%A2ntico"&gt;Oceano Atlântico&lt;/a&gt;, junto à encosta do &lt;a title="Morro Dois Irmãos" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Morro_Dois_Irm%C3%A3os&amp;amp;action=edit"&gt;Morro Dois Irmãos&lt;/a&gt;. A vizinhança é eminentemente de classe média-alta e alta, [...] porém com duas áreas principais de baixa renda: a &lt;a title="Cruzada São Sebastião" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Cruzada_S%C3%A3o_Sebasti%C3%A3o&amp;action=edit"&gt;Cruzada São Sebastião&lt;/a&gt; e a favela do &lt;a title="Vidigal" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Vidigal"&gt;Vidigal&lt;/a&gt; (localizada à beira da Av. Niemeyer). [...] O bairro teria sido batizado em referência a um antigo proprietário de terras da região, que seria holandês ou flamengo e apelidado de &lt;a title="Le Blonde" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Le_Blonde"&gt;Le Blonde&lt;/a&gt; ("o loiro") por moradores”. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Leblon"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Leblon&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn7" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref7" name="_ftn7"&gt;[7]&lt;/a&gt; O quartel fica na Rua José Higino com a Rua Antônio Basílio. Os fundos do quartel ficam na Avenida Maracanã.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn8" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref8" name="_ftn8"&gt;[8]&lt;/a&gt; Centro da Cidade do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn9" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref9" name="_ftn9"&gt;[9]&lt;/a&gt; Segundo o Wikipedia, “Petrópolis é um &lt;a title="Município" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Munic%C3%ADpio"&gt;município&lt;/a&gt; do &lt;a title="Estados do Brasil" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Estados_do_Brasil"&gt;estado&lt;/a&gt; do &lt;a title="Rio de Janeiro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro"&gt;Rio de Janeiro&lt;/a&gt;. Sua área é de 774.606 km² e sua população de 302.477 habitantes, em &lt;a title="2004" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/2004"&gt;2004&lt;/a&gt;, segundo o &lt;a title="IBGE" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/IBGE"&gt;IBGE&lt;/a&gt;. O município tem cinco distritos: &lt;a title="Petrópolis (distrito)" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Petr%C3%B3polis_%28distrito%29&amp;action=edit"&gt;Petrópolis&lt;/a&gt;, &lt;a title="Cascatinha" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Cascatinha&amp;amp;action=edit"&gt;Cascatinha&lt;/a&gt;, &lt;a title="Itaipava" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Itaipava"&gt;Itaipava&lt;/a&gt;, &lt;a title="Pedro do Rio" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_do_Rio"&gt;Pedro do Rio&lt;/a&gt;, e &lt;a title="Posse (Petrópolis)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Posse_%28Petr%C3%B3polis%29"&gt;Posse&lt;/a&gt;. Situa-se a 42 km da &lt;a title="Rio de Janeiro (cidade)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro_%28cidade%29"&gt;capital do estado&lt;/a&gt;. [...] a cidade possui um movimentado &lt;a title="Comércio" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Com%C3%A9rcio"&gt;comércio&lt;/a&gt; e serviços além de produção &lt;a title="Agropecuária" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Agropecu%C3%A1ria"&gt;agropecuária&lt;/a&gt; (com destaque para a &lt;a title="Fruticultura" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fruticultura"&gt;fruticultura&lt;/a&gt;) e &lt;a title="Indústria" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ind%C3%BAstria"&gt;industrial&lt;/a&gt;. A cidade é constantemente chamada de &lt;a title="Cidade Imperial" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade_Imperial"&gt;Cidade Imperial&lt;/a&gt;. [...] Situada na &lt;a title="Serra dos Órgãos" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Serra_dos_%C3%93rg%C3%A3os"&gt;Serra dos Órgãos&lt;/a&gt;, a mais de 700 metros do nível do mar”. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Petr%C3%B3polis"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Petr%C3%B3polis&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn10" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref10" name="_ftn10"&gt;[10]&lt;/a&gt; Segundo a Wikipedia, “O Engenho de Dentro é um &lt;a title="Bairro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Bairro"&gt;bairro&lt;/a&gt; da Zona Norte da &lt;a title="Cidade" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade"&gt;cidade&lt;/a&gt; do &lt;a title="Rio de Janeiro (cidade)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro_%28cidade%29"&gt;Rio de Janeiro&lt;/a&gt; [...]. É um dos que formam a região do &lt;a title="Grande Méier" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_M%C3%A9ier"&gt;Grande Méier&lt;/a&gt;. A sua origem remonta à época colonial, quando suas terras sediavam um engenho de &lt;a title="Açúcar" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/A%C3%A7%C3%BAcar"&gt;açúcar&lt;/a&gt; que lhe deu o nome”. Possui uma estacao ferreviária da &lt;a title="Estrada de Ferro Central do Brasil" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_de_Ferro_Central_do_Brasil"&gt;Estrada de Ferro Central do Brasil&lt;/a&gt;. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Engenho_de_Dentro"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Engenho_de_Dentro&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn11" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref11" name="_ftn11"&gt;[11]&lt;/a&gt; Praça Tobias Barreto, em Vila Isabel.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn12" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref12" name="_ftn12"&gt;[12]&lt;/a&gt; O apartamento 201, onde a Dona Adília mora atualmente.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn13" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref13" name="_ftn13"&gt;[13]&lt;/a&gt; Segundo a Wkipedia, a Avenida Suburbana, o antigo nome da avenida Dom Hélder Câmara, “é um dos principais eixos viários da Zona Norte carioca ligando o bairro de &lt;a title="Benfica" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Benfica"&gt;Benfica&lt;/a&gt; ao de &lt;a title="Cascadura" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cascadura"&gt;Cascadura&lt;/a&gt;, cortando inúmeros bairros suburbanos como &lt;a title="Cachambi" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cachambi"&gt;Cachambi&lt;/a&gt;, &lt;a title="Engenho de Dentro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Engenho_de_Dentro"&gt;Engenho de Dentro&lt;/a&gt;, &lt;a title="Del Castilho" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Del_Castilho"&gt;Del Castilho&lt;/a&gt;, &lt;a title="Piedade" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Piedade"&gt;Piedade&lt;/a&gt;, &lt;a title="Abolição (Rio de Janeiro)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Aboli%C3%A7%C3%A3o_%28Rio_de_Janeiro%29"&gt;Abolição&lt;/a&gt; e &lt;a title="Pilares" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pilares"&gt;Pilares&lt;/a&gt;. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Avenida_Dom_H%C3%A9lder_C%C3%A2mara"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Avenida_Dom_H%C3%A9lder_C%C3%A2mara&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn14" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref14" name="_ftn14"&gt;[14]&lt;/a&gt; O apartamento 303, onde a entrevista foi realizada.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn15" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref15" name="_ftn15"&gt;[15]&lt;/a&gt; Segundo a Wikipedia, “a &lt;a title="Ilha" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha"&gt;Ilha&lt;/a&gt; do Governador localiza-se no interior da &lt;a title="Baía de Guanabara" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ba%C3%ADa_de_Guanabara"&gt;Baía de Guanabara&lt;/a&gt;, &lt;a title="Estado" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Estado"&gt;Estado&lt;/a&gt; do &lt;a title="Rio de Janeiro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro"&gt;Rio de Janeiro&lt;/a&gt; [...]. Descoberta em &lt;a title="1502" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1502"&gt;1502&lt;/a&gt; por navegadores &lt;a title="Portugal" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Portugal"&gt;portugueses&lt;/a&gt;, constitui-se na maior ilha da baía da Guanabara, atualmente com cerca de 42 quilômetros quadrados de área. Nela se localiza o &lt;a title="Ilha do Governador (bairro)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_do_Governador_%28bairro%29"&gt;bairro homônimo&lt;/a&gt;, na &lt;a title="Rio de Janeiro (Rio de Janeiro)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro_%28Rio_de_Janeiro%29"&gt;cidade do Rio de Janeiro&lt;/a&gt;, e o &lt;a title="Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Aeroporto_Internacional_Antonio_Carlos_Jobim"&gt;Aeroporto Internacional Tom Jobim&lt;/a&gt;. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_do_Governador"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_do_Governador&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn16" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref16" name="_ftn16"&gt;[16]&lt;/a&gt; Os filhos, Bruno e Beatriz.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn17" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref17" name="_ftn17"&gt;[17]&lt;/a&gt; Segundo a Wikipedia, “a Penha é um &lt;a title="Bairro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Bairro"&gt;bairro&lt;/a&gt; da Zona Norte da &lt;a title="Cidade" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade"&gt;cidade&lt;/a&gt; do &lt;a title="Rio de Janeiro (cidade)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro_%28cidade%29"&gt;Rio de Janeiro&lt;/a&gt;, no &lt;a title="Brasil" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil"&gt;Brasil&lt;/a&gt;. O bairro tem como referência central a &lt;a title="Igreja da Penha" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_da_Penha"&gt;Igreja da Penha&lt;/a&gt; no alto de uma pedra e o &lt;a title="Hospital Getúlio Vargas" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Hospital_Get%C3%BAlio_Vargas&amp;action=edit"&gt;Hospital Getúlio Vargas&lt;/a&gt;”. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Penha_%28Rio_de_Janeiro%29"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Penha_%28Rio_de_Janeiro%29&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn18" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref18" name="_ftn18"&gt;[18]&lt;/a&gt; Serviço Federal de Processamento de Dados.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn19" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref19" name="_ftn19"&gt;[19]&lt;/a&gt; Na Tijuca.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn20" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref20" name="_ftn20"&gt;[20]&lt;/a&gt; O ex-presidente Collor, empossado em 15 de março de 1990, bloqueou, por 18 meses, os saldos em contas correntes e cadernetas de poupança que excedessem 50 mil cruzeiros. Fonte: LEMOS, Renato. COLLOR, Fernando. In: ABREU, A. A. de; et allii. Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, CPDOC, 2001, p. 1445.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn21" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref21" name="_ftn21"&gt;[21]&lt;/a&gt; O apartamento da Isabel foi invadido e assaltado há alguns anos atrás.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn22" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref22" name="_ftn22"&gt;[22]&lt;/a&gt; Na Tijuca.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn23" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref23" name="_ftn23"&gt;[23]&lt;/a&gt; Em Vila Isabel. Segundo a Wikipedia, “Vila Isabel é um bairro da &lt;a title="Zona Norte (Rio de Janeiro)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Zona_Norte_%28Rio_de_Janeiro%29"&gt;zona Norte&lt;/a&gt; da cidade do &lt;a title="Rio de Janeiro (Rio de Janeiro)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro_%28Rio_de_Janeiro%29"&gt;Rio de Janeiro&lt;/a&gt;, cercado pelos bairros vizinhos &lt;a title="Tijuca" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tijuca"&gt;Tijuca&lt;/a&gt;, &lt;a title="Grajaú (Rio de Janeiro)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Graja%C3%BA_%28Rio_de_Janeiro%29"&gt;Grajaú&lt;/a&gt;, &lt;a title="Andaraí" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Andara%C3%AD"&gt;Andaraí&lt;/a&gt; e &lt;a title="Maracanã" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Maracan%C3%A3"&gt;Maracanã&lt;/a&gt;. Possui uma &lt;a title="Área" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81rea"&gt;área&lt;/a&gt; de 321,71 hectares e uma população de 81.858 (segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE - Censo Demográfico 2000). [...] O bairro surgiu por idéia do &lt;a title="Barão de Drummond" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Bar%C3%A3o_de_Drummond"&gt;Barão de Drummond&lt;/a&gt;, um empresário progressista, no fim do século XIX. O Barão comprou as áreas da antiga &lt;a title="Fazenda dos Macacos" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Fazenda_dos_Macacos&amp;amp;action=edit"&gt;fazenda dos Macacos&lt;/a&gt; e a urbanizou, projetando e construindo um bairro com inspiração francesa, inclusive possuindo um Boulevard. [...]De acordo com a descrição do lote comprado pelo Barão de Drumond, a Fazenda dos Macacos é delimitada pelo Morro dos Macacos ao norte, ao sul pelo rio Joana (o qual corre ao longo das Avenidas Maxwell, Engenheiro Otacílio Negrão de Lima e Professor Manoel de Abreu), a leste pela Rua São Francisco Xavier e a oeste pela Rua Barão do Bom Retiro.Mesmo assim, não só na cabeça dos moradores, mas também nos registros da &lt;a title="Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Prefeitura_da_cidade_do_Rio_de_Janeiro&amp;action=edit"&gt;Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro&lt;/a&gt; e da &lt;a title="Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Empresa_Brasileira_de_Correios_e_Tel%C3%A9grafos"&gt;Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos&lt;/a&gt;, a dúvida persiste, pois os limites indefiniram-se com o tempo.” Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Vila_Isabel"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Vila_Isabel&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn24" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref24" name="_ftn24"&gt;[24]&lt;/a&gt; Bruno e eu. Temos mais ou menos a mesma idade.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn25" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref25" name="_ftn25"&gt;[25]&lt;/a&gt; Escola Municipal República da Argentina, em Vila Isabel, no Boulevard 28 de Setembro.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn26" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref26" name="_ftn26"&gt;[26]&lt;/a&gt; Provavelmente o &lt;a title="Renault-Willys Gordini" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Renault-Willys_Gordini&amp;action=edit"&gt;Renault-Willys Gordini&lt;/a&gt;, fabricado a partir de 1962.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn27" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref27" name="_ftn27"&gt;[27]&lt;/a&gt; Fabricado pela Volkswagen a partir de 1959.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn28" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref28" name="_ftn28"&gt;[28]&lt;/a&gt; Provavelmente a &lt;a title="Rural Willys" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Rural_Willys&amp;amp;action=edit"&gt;Rural Willys&lt;/a&gt;, fabricado a partir de &lt;a title="1958" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1958"&gt;1958&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn29" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref29" name="_ftn29"&gt;[29]&lt;/a&gt; Novela das 18hs da Rede Globo, O Profeta.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn30" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref30" name="_ftn30"&gt;[30]&lt;/a&gt; “Camioneta DKW-Vemag Vemaguet 1001. Veiculo Produzido entre &lt;a title="1956" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1956"&gt;1956&lt;/a&gt; e &lt;a title="1967" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1967"&gt;1967&lt;/a&gt;. Em &lt;a title="1961" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1961"&gt;1961&lt;/a&gt; passou a se chamar Vemaguet e até &lt;a title="1963" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1963"&gt;1963&lt;/a&gt; as portas abriam ao contrário, conquistando o apelido de portas "suicida" ou "DêChaVê". No ano de &lt;a title="1964" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1964"&gt;1964&lt;/a&gt; as portas começaram a abrir normalmente. Os modelos datados de 1956 a 1957 foram montados pela Vemag sob licença da &lt;a title="DKW" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/DKW"&gt;DKW&lt;/a&gt; da Alemanha e eram derivados da perua DKW F91 Universal.” Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Camioneta_DKW-Vemag"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Camioneta_DKW-Vemag&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn31" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref31" name="_ftn31"&gt;[31]&lt;/a&gt; Provavelmente o &lt;a title="Simca Chambord" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Simca_Chambord&amp;amp;action=edit"&gt;Simca Chambord&lt;/a&gt;, de &lt;a title="1959" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1959"&gt;1959&lt;/a&gt;, ou o &lt;a title="Simca Esplanada" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Simca_Esplanada&amp;action=edit"&gt;Simca Esplanada&lt;/a&gt;, de &lt;a title="1966" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1966"&gt;1966&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn32" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref32" name="_ftn32"&gt;[32]&lt;/a&gt; Fabricado a partir de 1960. Todas as informações sobre os modelos de automóveis, quando não indicada a fonte, foram retiradas de &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_autom%C3%B3veis_brasileiros"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_autom%C3%B3veis_brasileiros&lt;/a&gt; em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn33" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref33" name="_ftn33"&gt;[33]&lt;/a&gt; Segundo a Wikipedia, “São Cristóvão é um &lt;a title="Bairro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Bairro"&gt;bairro&lt;/a&gt; histórico do &lt;a title="Rio de Janeiro (Rio de Janeiro)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro_%28Rio_de_Janeiro%29"&gt;Rio de Janeiro&lt;/a&gt;, localizado na Zona Norte da cidade. [...]Ao longo do &lt;a title="Século XX" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9culo_XX"&gt;século XX&lt;/a&gt; a atividade fabril norteou o perfil de São Cristóvão. Em &lt;a title="1940" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1940"&gt;1940&lt;/a&gt; foi inaugurada a Avenida Brasil, principal via de escoamento da produção do bairro. Junto com as indústrias, vieram imigrantes de todas as partes do Brasil à procura de emprego. Houve um processo de ocupação desordenada, &lt;a title="Favelização" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Faveliza%C3%A7%C3%A3o"&gt;favelização&lt;/a&gt; das áreas em torno das fábricas, entre as quais o &lt;a title="Morro da Mangueira" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Morro_da_Mangueira&amp;amp;action=edit"&gt;Morro da Mangueira&lt;/a&gt; conquistou notoriedade. Ao passo em que havia a ocupação de imigrantes, a classe média se moveu para os bairros da Zona Sul da cidade. Os antigos sobrados e casarões foram transformados em pequenas lojas comerciais e pensões.” Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Crist%C3%B3v%C3%A3o_%28Rio_de_Janeiro%29"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Crist%C3%B3v%C3%A3o_%28Rio_de_Janeiro%29&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn34" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref34" name="_ftn34"&gt;[34]&lt;/a&gt; O Leixões Sport Club é um clube de &lt;a title="Matosinhos" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Matosinhos"&gt;Matosinhos&lt;/a&gt; fundado em &lt;a title="28 de Novembro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/28_de_Novembro"&gt;28 de Novembro&lt;/a&gt; de &lt;a title="1907" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1907"&gt;1907&lt;/a&gt;. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Leix%C3%B5es_Sport_Club"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Leix%C3%B5es_Sport_Club&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn35" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref35" name="_ftn35"&gt;[35]&lt;/a&gt; “Sport Lisboa e Benfica é um clube desportivo, considerado como um dos mais significativos do futebol português. [...] Segundo o &lt;a title="Guiness" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Guiness"&gt;Guiness&lt;/a&gt;, o Benfica é o maior clube do mundo em número de sócios: mais de 160.000”. Em 1904 foi fundado o clube &lt;a title="Sport Lisboa" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Sport_Lisboa"&gt;Sport Lisboa&lt;/a&gt; (28 de Fevereiro). Em 1906, o clube &lt;a title="Grupo Sport Benfica" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Grupo_Sport_Benfica&amp;action=edit"&gt;Grupo Sport Benfica&lt;/a&gt; (26 de junho). Em 1908, a 13 de Setembro, ocorre a união do &lt;a title="Sport Lisboa" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Sport_Lisboa"&gt;Sport Lisboa&lt;/a&gt; e do &lt;a title="Grupo Sport Benfica" href="http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Grupo_Sport_Benfica&amp;amp;action=edit"&gt;Grupo Sport Benfica&lt;/a&gt;, formando assim o Sport Lisboa e Benfica. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Sport_Lisboa_e_Benfica"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Sport_Lisboa_e_Benfica&lt;/a&gt;, 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn36" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref36" name="_ftn36"&gt;[36]&lt;/a&gt; Entre 1932 e 1968.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn37" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref37" name="_ftn37"&gt;[37]&lt;/a&gt; Barra, ou “Barra da Tijuca é um bairro nobre da zona oeste da cidade do &lt;a title="Rio de Janeiro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro"&gt;Rio de Janeiro&lt;/a&gt;. Possui 18 quilômetros de praia, sendo a maior da cidade e 3 grandes lagoas principais, além de lagoas menores e canais. Possui quatro vias principais, [... dentre elas] a &lt;a title="Avenida Sernambetiba" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Avenida_Sernambetiba"&gt;Avenida Sernambetiba&lt;/a&gt; (que corre ao longo do litoral)”. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Barra_da_Tijuca"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Barra_da_Tijuca&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn38" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920#_ftnref38" name="_ftn38"&gt;[38]&lt;/a&gt; “O Alto da Boa Vista é um &lt;a title="Bairro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Bairro"&gt;bairro&lt;/a&gt; da zona norte do &lt;a title="Rio de Janeiro" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_de_Janeiro"&gt;Rio de Janeiro&lt;/a&gt; que faz divisas ao sul com &lt;a title="São Conrado" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Conrado"&gt;São Conrado&lt;/a&gt;, a sudoeste com a &lt;a title="Barra da Tijuca" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Barra_da_Tijuca"&gt;Barra da Tijuca&lt;/a&gt;, a sudeste com a &lt;a title="Gávea (Rio de Janeiro)" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/G%C3%A1vea_%28Rio_de_Janeiro%29"&gt;Gávea (Rio de Janeiro)&lt;/a&gt;, a leste com a &lt;a title="Tijuca" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tijuca"&gt;Tijuca&lt;/a&gt;, a nordeste com o &lt;a title="Grajaú" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Graja%C3%BA"&gt;Grajaú&lt;/a&gt;. O &lt;a title="Parque Nacional da Tijuca" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Nacional_da_Tijuca"&gt;Parque Nacional da Tijuca&lt;/a&gt; ocupa grande parte de seu território, seguido por amplas residências de classe alta e por pequenas &lt;a title="Favela" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Favela"&gt;favelas&lt;/a&gt; ao longo de suas encostas. [...] situado a uma altitude média de 300 metros acima do nível do mar e [...] rodeado pela &lt;a title="Mata Atlântica" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Mata_Atl%C3%A2ntica"&gt;Mata Atlântica&lt;/a&gt;”. Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Alto_da_Boa_Vista"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Alto_da_Boa_Vista&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn39" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=38027118&amp;amp;postID=116899658926782920#_ftnref39" name="_ftn39"&gt;[39]&lt;/a&gt; Projeto Fado Tropical, da disciplina História Oral, ministrada pelo professor Marcos Alvito no segundo semestre de 2006.&lt;br /&gt;Projeto “Fado Tropical” – História Oral&lt;br /&gt;Código da Entrevista: EFT039 (parte II).&lt;br /&gt;Entrevistada: Maria Isabel de Andrade Bessa&lt;br /&gt;Entrevistador: Ricardo Gilberto Lyrio Teixeira&lt;br /&gt;Local: residência da entrevistada, no bairro de Vila Isabel, cidade do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;No dia 14 de novembro de 2006.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Legendas (exceto para as notas de rodapé):&lt;br /&gt;( ) - trecho de transcrição acerca do qual não se tem certeza da fidedignidade&lt;br /&gt;[ ] - utilizados para identificar as falas do entrevistador que estão no meio da resposta do entrevistado, ou vice-versa&lt;br /&gt;{ } - utilizadas para identificar as observações do entrevistador sobre alguns trechos da entrevista&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ENTREVISTA:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;{Após o término da I parte da entrevista, a conversa continuou e a Isabel pediu que eu religasse o gravador para que ela pudesse acrescentar algumas coisas. Aproveitei e pedi que contasse também sobre a ida de seu pai à África.}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ricardo: Pronto! Retomei aqui. Como é que é barbante, hein?&lt;br /&gt;Isabel: Barbante? Lá, é nagalho. Sabe, um barbantinho que tem no chão? Não se fala barbante. É nagalho. É... Frigideira lá, é... sertanha, sertã... Alguma coisa assim, sabe? É... Concha. Concha de feijão é gadanha. {risos} Sabe o que que é ancinho?&lt;br /&gt;Ricardo: Sei.&lt;br /&gt;Isabel: Lá é engasso. É. Engasso. Deixa eu ver se eu lembro de algumas coisas que eu falo e lá é diferente... que eles falam, assim... Agora eu não lembro mais. É, é... Banheiro lá é salva-vidas, né. Isso vocês sabem...&lt;br /&gt;Ricardo: É. Muita coisa a gente já ouviu aqui...&lt;br /&gt;Isabel: Porque lá, banheiro não existe. É quarto de banho. Entendeu? Lá é um quarto de banho. Banheiro é o salva-vidas. É... Fila, lá, é bicha. Você sabe o que que é bicha?&lt;br /&gt;Ricardo: Lá? Não...&lt;br /&gt;Isabel: É. Então vou te falar. Pode falar?&lt;br /&gt;Ricardo: {rindo} Pode!&lt;br /&gt;Isabel: É porque fila é uma coisa comprida, né. Por que que é bicha? Bicha é lombriga, lá. Entendeu? E aqui, a gente chama de lombriga, e lá, é bicha. Então, porque que a bicha é fininha e comprida, então, por isso, {rindo} porque o nome da fila lá é bicha. O pessoal fala: “Lá é bicha”, e ninguém sabia porquê, né. Então. É por isso. É porque lá, lombriga não existe. São bichas. Eles falam “Ta com bichas”, ao invés de falar “Ta com vermes... com lombriga”, “Ta com bichas”. “Ta cheio de bichas”. É. Deixa eu ver se eu lembro de mais alguma coisa... Às vezes... Não... Às vezes, eu falando com eles aí, com o Bruno e com a Beatriz, eu falo: “Olha o nagalhinho aí... Pega o nagalho”. “Ah, mãe! Que coisa!” e eu falo: “Olha o nagalhinho.” Mas tem outras coisas. A minha mãe que, às vezes, ela fala, “Tostegão”. Ah, nesse dia eu ri muito. A minha mãe caiu na rua. Aí eu virei e falei assim: “Mãe, mas como é que você caiu?” Aí ela fala: “Eu dei um tostegão!” {risos} e eu: “Que que é isso?” “Não sabes o que é um tostegão?” Aí eu falei: “Não. O que que é, mãe?” Aí ela falou: “Um tostegão...” e fez assim {como se tivesse tropeçado, virando o pé} aí eu falei: “Não! Você fez uma torção no pé!” {risos} “Tostegão! Você torceu o pé e caiu?” Não é torção, não. Como é que fala? [Ricardo: Trombada?] É tropeço! “Você tropeçou e caiu.” E aí ela falou assim: “É!” É porque lá é tostegão. É o que? Você dá o tostegão. {rindo} Ai meu Deus do céu. Deixa eu ver se consigo lembrar mais alguma coisa. Ah! Voltando, né... A parte da África. Antes do meu pai e da minha mãe perderem lá, o restaurante, um ano mais ou menos antes, o meu pai cismou que tinha que ir pra África. Aí falou: “Vou pra África. Vou pra África conhecer, porque eu quero conhecer”. Aí, como lá no restaurante tinha o meu tio, que era sócio, a mulher dele também trabalhava lá, a minha tia, irmã da minha mãe também, e a família toda trabalhava lá, no restaurante. Mas os sócios mesmo eram o meu tio e o meu pai, né. E a minha mãe. A minha tia, irmã da minha mãe, mais nova, ela trabalhava lá. Tomava conta, assim, das coisas. E a esposa do meu tio... Tinha um outro tio também, que esse também foi pros Estados Unidos. Ele já morreu. Ele também trabalhava lá. Ele também era casado e a esposa dele trabalhava lá. Todos trabalhavam lá. Cada um tomava conta de uma coisa. Porque tinha um monte de empregados, e cada um... Pra você ter uma idéia de como era o restaurante, era assim... Um restaurante mais ou menos do tamanho, sabe de que? Bota assim... dois Petiscos da Vila&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt;. Era mais ou menos assim, entendeu? Só que ele não era de esquina. Era, né... Era mais ou menos assim, uns dois Petiscos da Vila. Grande, aquela parte comprida, assim... Imagina... Dois assim... E cheio de partes divididas, porque uma parte era onde ficava o pessoal dos vinhos, e tinha aqueles tonéis, enormes, né, e tinha aquelas medidinhas, onde o pessoal tomava o vinho... Tinha uma outra parte que era negócio de jogo também... O pessoal jogava cartas, aquela coisa toda... Tinha sinuca e tinha a parte do restaurante. Era bem grande. Sendo que o restaurante eram dois andares. Tinha uma parte em cima também. E nessa época, meu pai cismou que tinha que ir. E como tinha muita gente lá, meu pai falou assim: “Ah, vou conhecer a África, vou conhecer...” E foi. Aí, pegou dinheiro e tal, e foi pra lá. Só que lá, era assim, ele achou que ia chegar lá e ia ser bem recebido, que ia ter um hotel... aquelas coisas. Que nada. Chegou lá, uma pobreza danada, ta. Por quê? Os portugueses que moravam lá, entendeu, escravizavam os escravos. Escravizavam os negros. E eles mesmos também não tinham muito dinheiro. Por quê? Porque o comércio era pouco, era... Não entrava nada... País pobre... Então eles não tinham muito, muitos recursos. Então, tinha, assim... a barbearia... O pessoal ganhava uns trocadinhos. Muito pouco... Que hotel, que nada! Chegou lá, não tinha nem onde ficar. Então, “O que que eu vou fazer?” Aí começou... Alugava um quarto, pra poder, é, é... como é... Mas era tudo caro, porque eles viam que era de fora, né. Então, quer dizer, era tudo muito difícil. Então começou a gastar dinheiro, e dar o dinheiro... Conclusão. Ficou muito mal. Ele, quando ele escreveu a carta pra minha mãe, dizendo que a minha mãe mandasse dinheiro que era pra ele voltar, né, ele tava cheio de piolho {rindo}. Cheio! Não tinha lugar pra tomar banho... Tudo era pago. Água era pago. Ele contava que... E era assim... tudo muito caro. Muito caro. Que os portugueses lá, que administravam os negócios lá, eram donos de qualquer coisa lá, eles metiam a mão no pessoal que era de fora. Eles sabiam que eram turistas. Hahahaha! Eles metiam a mão. Porque era novidade. Por que quem que ia sair de lá pra ir pra África? Só o meu pai! {risadas do entrevistador} Não, não tinha... Quem que vai conhecer a África, naquela época? Ninguém! Só o... Agora, o pessoal ia pra lá pra explorar, entendeu? Porque eles iam pra lá explorar as riquezas que tinha lá. Era tudo explorado. Mas isso, o próprio Salazar mandava. As empresas do Salazar iam pra lá, pra explorar tudo. Tirar as riquezas toda da África, né? Porque Portugal... a África não é um país tão pobre. Ela se tornou pobre porque eles tiravam tudo... Eles sugaram tudo... Portugal sugou tudo o que pôde. Quando não deu mais, falou: “Ah, agora deixa eles soltos pra lá!” E continua essa pobreza que ta lá. Eles querem sair de lá. Moçambique... Como é que é? Uganda, Angola... Vivem numa pobreza danada. Que eles não têm recurso. O Salazar nunca deu escola, nunca deu educação, saúde, nunca deu nada... E os portugueses que moravam lá ainda exploravam, então... Agora, só o louco do meu pai que foi pra lá. Se meter lá. Coitado do meu pai. Que, quando ele foi pra lá, foi muito bom o navio... tudo... Aquela festa... O pessoal não ia pra África... O pessoal ia pra outros lugares, né. Iam pra outros países... Eles deixaram ele lá, né. Ninguém ia se aventurar na África. Olha... que maluquice, que loucura. Agora, tem muito português que foi pra lá e se deu bem, entendeu? Comprou terra e começou a exploração. Começou... A mão-de-obra de graça. Botava os negros lá pra trabalhar como escravos. Pagavam muito pouco... Ou, às vezes, nem pagavam. Eles trabalhavam por comida. Então, quer dizer, dava o mínimo possível. Meu pai dizia que era subumano. Ele dizia que, às vezes, ele chegava a chorar do que ele via lá. As crianças... Ele falou que, muitas vezes, ele deixou de comer pra dar... o pouco dinheiro que ele tinha. Ele ficava com tanta pena, do que eles faziam com as mulheres e com as crianças, entendeu, que ele chegou a dar... Tirar dele e dar pras crianças. Porque ele falou... Ele falou que uma vez, ele chegou a chorar. Ele falou que viu uma injustiça tão grande, entendeu, que ele chegou a chorar com o que ele via lá. Agora, vai ver... o que que ele foi fazer lá?&lt;br /&gt;Ricardo: É verdade...&lt;br /&gt;Isabel: Pois é... Um país muito pobre. E hoje em dia está um pouco melhor, né. Mas mesmo assim. Portugal não deu condições deles, deles crescerem. A mesma coisa que a Princesa Isabel fez aqui com os negros. Ela assinou a Lei Áurea, mas ela não deu condições pros negros, pra eles crescerem, pra eles se tornarem pessoas dignas. Por quê? Os negros, na época que eles foram libertados, eles... Quem é que veio trabalhar? Eles preferiram, os donos de engenho, eles preferiram... dos cafés, esses, né, os coronéis... eles preferiram pagar aos italianos do que pagar pros negros. Então, o que que aconteceu? Eles largaram os negros aí. Não foi... o que eles fizeram? A Princesa Isabel, ela não deu uma estrutura pra eles... Criar colégio, criar, é, é... como é que se diz? Uma, uma... Condições de trabalho, saúde... Não deu. Por isso que hoje, eles tão aí, coitados. A maioria que mora em favela são negros, porque eles não tiveram condições. Isso já vem dos antepassados. Porque... tudo bem que ela assinasse a Lei Áurea, mas ela desse uma condição de vida melhor pra eles. E não deu. É porque todo mundo fica assim: “Ah, porque a Princesa Isabel... Ah, porque ela assinou a Lei Áurea...” Ela assinou porque ela foi coagida, já... porque o pessoal lá de fora já tava... É! Coagindo, já! Porque lá fora não existia mais. Os Estados Unidos já tinha dado a libertação dos negros deles lá. Porque se não, ela também não tinha dado não. Agora, por que que ela não obrigou, então, a... a, a... como é que se diz? Os coronéis... a dar emprego pros negros que já tavam trabalhando lá? Que que aconteceu? Eles saíram das fazendas, ta, e foram se agrupando em lugares, formando colônias. E até hoje ta aí. O pobre não tem... Ta aí esse negócio das faculdades agora, né. Por isso que eles tão dando as... como é?&lt;br /&gt;Ricardo: As cotas...&lt;br /&gt;Isabel: As cotas pros negros. Isso que eles tão fazendo agora, isso tinha que ter sido feito na época. Dar as cotas pras crianças que estudavam nos colégios de ricos... Eles tinham que ter feito isso com os filhos dos escravos, e com os próprios escravos... Botar pra trabalhar. Mas pagar um salário digno. Não! Eles pegaram essas pessoas... abandonaram. Tanto a Princesa Isabel, quanto os outros que vieram, ta, e foram abandonando, porque... Até, quando eu cheguei aqui no Brasil, era um racismo danado. Em 1963 tinha muito racismo. Muito mesmo! Hoje não tem tanto, né. Ainda tem, ainda tem. Preconceito, é... coisa... Mas naquela época era muito pior. Nossa Senhora! Pior! Pra você ter idéia, naquela época, você não via um negro bem de vida. Não tinha. Não tinha! Hoje você vê. Mas naquela época não tinha. Eu não conheci ninguém naquela época. Não conheci. Ninguém. Naquela época, que morasse, pra você ter uma idéia, no prédio onde eu morava, onde meu pai era porteiro, as únicas pessoas negras que tinham, eram as empregadas. Ninguém era negro e morava lá. Nem mulato. Os negros eram os empregados. Não eram... Então, a mesma coisa que fizeram na África. Soltaram, deram a independência da África, mas não deram... Portugal não deu nenhuma assistência. Abandonou. Não quis saber. Eles que se virem pra lá com os recursos que eles têm. Que recursos? Os portugueses tomaram tudo! Tudo que tinha lá de bom, Portugal sugou, sugou, sugou... até não poder mais. E foi o que aconteceu aqui. E é por isso que ta aí. Eu não sei muito bem história, não. Historiador aqui é você. Mas eu vou... Não sei nem se isso o que eu to falando aqui é serio, mas eu acredito, eu, eu, eu... acredito que teria sido isso que tenha acontecido. Eles não quiseram. Agora, eu não sei porquê que eles não quiseram pagar os negros pra trabalhar nos engenhos, e preferiram pagar os italianos. Que aí veio aquela leva de italianos pra cá, de imigrantes italianos, pra trabalhar nas fazendas de café naquela época. Eles podiam ter pago, né? Os negros... Podiam ter pago... Mas será que os negros iam querer trabalhar pra eles? [Ricardo: Em grande parte, também...] Mas aí também existia uma coisa de respeito. Por que é aquele negócio. Como é que você vai respeitar um patrão, uma pessoa, que já te bateu, que já te humilhou... não é? A pessoa acaba ficando... Mas não eram todos... Até porque, naquela época, nem todos, também, batiam. Nem todos açoitavam os negros. Até porque já tinha aquela Lei do Ventre Livre... Já tinha sido assinada. Então, não era tanto assim. Mas algumas eu até acredito que os negros não quisessem trabalhar pra eles, né? Mas... É outra... O negro, coitado, o negro ficou jogado quando, quando houve a Lei, a, a... a assinatura da Lei Áurea. Eles ficaram jogados à própria sorte. A primeira coisa que eles quiseram fazer foi fugir dali. “Estamos livres. Então, vamos sair daqui.” Aí começaram. Então eles ficaram jogados à própria sorte. Eles ficaram fazendo o que? Aí, iam trabalhar em casa de famílias com salários muito abaixo dos brancos, ta, muito abaixo dos brancos. O branco podia ganhar tanto, mas o negro, o negro ganha pouquinho. “Ah, mas é negro!”, era assim que eles falavam. “Ah, é negro, é preto.” Era assim que eles falavam. Então, no que ela, como Regente, ela podia ter mudado isso, né? Se ela deu a Lei Áurea, ela já tinha que ter colocado logo a lei do racismo! Mas não é? Ela devia ter acabado logo com esse negócio. Ah não! Que isso... Já que eles são soltos, eles são pessoas como nós. Gente como nós. Então, eles têm que ter os mesmos direitos que pessoas brancas. E não tinham, né? E até hoje, quer dizer, ainda tem racismo. Eu não gosto nem de falar nisso, porque é uma coisa que... né? A verdade é essa. Porque tem muito racismo por aí. Eu não digo só de negros, não. Eu digo dos próprios índios mesmos... Como o preconceito dos homossexuais...&lt;br /&gt;Ricardo: Dos nordestinos...&lt;br /&gt;Isabel: Dos nordestinos...&lt;br /&gt;Ricardo: São imigrantes, né. Dentro do próprio país...&lt;br /&gt;Isabel: Do próprio país... Então ele é muito, muito... como é que se diz? Muito discriminado. Agora eu não sei. Mas teve uma época que era bem discriminado. Eles falavam assim: “Ah... é paraíba!” Eu tive uma empregada, a Luisa, ela era muito engraçada, sabe? Muito engraçada. E ela gostava muito de mim, muito... Mas sabe, assim, uma pessoa que gostava muito de mim? Ela gostava muito de mim. Então eu casei, e ela deu uma sorte danada, porque ela veio lá do nordeste, e ela veio trabalhar na casa da minha mãe... Pode contar essa história?&lt;br /&gt;Ricardo: Pode, pode...&lt;br /&gt;Isabel: Ela veio trabalhar com a minha mãe. Ela foi mãe aos doze anos de idade. Então, quando ela chegou aqui no Brasil {na verdade, no Rio}, ela tinha vinte e quatro anos de idade. E ela foi trabalhar num bar que a minha mãe tinha ali, como cozinheira. Como ela não tinha onde dormir, como nós tínhamos um quartinho ali atrás, ainda da casa que a minha mãe morava, a minha mãe deixava ela dormir lá. Quer dizer, aí ela ficava como cozinheira durante o dia... De noite ela ficava lá, ajudava minha mãe lá... esse negócio todo. E quando a minha mãe vendeu o bar, a minha mãe chegou pra ela e falou assim: “Olha Luisa, agora não há mais necessidade de você trabalhar...” Ela era muito boazinha. A gente morria de rir. O Marcus conheceu ela. Ela era muito engraçada... Foi na época que eu comecei a namorar ele. Ela era muito engraçada e tal. Aí, a minha mãe falou assim pra ela: “Ó Luisa, agora nós não precisamos mais de empregada, porque nós vamos mudar pra cá...” E minha mãe ia vender o bar lá e tal... Aí ela disse assim: “Ah, dona Adília... não me manda embora não! Eu tenho muitas bocas pra sustentar!” Aí a minha mãe olhou pra ela, porque ela nunca disse pra gente que tinha filhos... Aí, ela tinha seis filhos. Um com doze anos já! Ela tinha vinte e quatro... Ela foi mãe aos doze anos! Então, todo o dinheirinho que ela ganhava aqui, ela mandava lá pra roça, lá pro norte. Pra mãe dela, que ficou com as crianças, né, pra cuidar dos filhos dela. Aí a minha mãe ficou com muita pena dela, sabe... muita pena... e deixou ela continuar com a gente. Então, ela veio morar aqui com a gente, né? Ficou cuidando da gente. Aí, ela conheceu um... o seu Oswaldo. Que era um senhor que trabalhava na companhia de gás. Não sei se era no gás ou se era na Light. Nem me lembro mais. Acho que era no gás. Eu falo “seu Oswaldo” porque ela é que chamava ele de “seu Oswaldo”. Não é que ele fosse velho, não! É porque ela só chamava ele, mesmo depois de casada... é.... E ela conheceu ele. E ele gostou dela e tal, e eles casaram, sabe? Eles casaram e ele montou uma casa pra ela, mandou vir a família toda, os seis filhos, ta, e aí chegou aqui... O maiorzinho, ela botou pra trabalhar lá na padaria... Ali numa padaria que tinha na {rua} Visconde de Abaeté, lá em cima. Não sei se ainda tem. Em frente ao Bar do Costa. Sabe onde é?&lt;br /&gt;Ricardo: Sei mais ou menos... Eu acho... Eu não sei, na verdade, eu não sei se tem padaria lá, né.&lt;br /&gt;Isabel: Não sei se ainda tem padaria... Não sei...Ela botou pra trabalhar ali, que era maiorzinho... Tinha doze anos... E as meninas... Ela ficou em casa... E aí ela ficou assim. E foi pagando... Pagando assim... botou todo mundo pra estudar em escola pública, ta? Todo mundo estudou em escola pública. Mas todos eles conseguiram se dar bem na vida. Todos eles conseguiram, é., é... se formar... Esse que trabalhava na padaria, eu acho que foi o único que não se formou. Porque, logo depois, um tempo, ele casou... Aí comprou um sítio lá não-sei-aonde e acho que foi embora pro sítio... Foi morar na roça. Os outros, um fez desenho industrial, a outra fez economia... E todos assim... Todos se formaram. Uma é médica. Ela conseguiu, a mais nova... Depois ela teve uma filha com esse, com esse Oswaldo. Uma filha... Como é o nome da garota? Aparecida de Lourdes. Aí eu dizia assim pra ela: “Mas Luisa, porque um nome tão feio?” Aí ela dizia assim: “Não sabe por quê? Porque eu conheci ele ali na frente da Nossa Senhora de Lourdes&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;, né, e Aparecida, porque eu rezei muita pra Nossa Senhora da Aparecida pra arrumar um marido” {rindo}. Então, ficou Aparecida de Lourdes, o nome da garota. Podia ser Lourdes Aparecida. Mas ela botou Aparecida de Lourdes. Aí, essa Aparecida de Lourdes, ela conseguiu, é... formar... Fez medicina, ta. Passou pra UERJ&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;[3]&lt;/a&gt;, fez medicina e ele, e ele tinha... [Ricardo: E foi uma pequena oportunidade...] Mas é... Ela, ela era muito batalhadora. Você quer ver? Ele tinha um cargo mais ou menos lá na Light. Eu não sei qual era o cargo... Ele não ganhava mal, não. Pra época, não ganhava. Até porque, montar uma casa e trazer seis filhos.... Depois eles compraram uma casa na Penha, na Vila da Penha&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;[4]&lt;/a&gt;... Uma casa muito legal... Mas eles moraram aqui muito tempo, sabe aonde? Ali na {rua} Torres Homem&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;[5]&lt;/a&gt;, numa casinha que eles alugaram, ali na, na... na Torres Homem. Alugaram. Mas ela, sabe o que ela fazia? Ela vendia... Ela alugava... como é? Ela lavava roupa pra fora... e passava. Ela lavou muito tempo roupa pra fora. Então, ele comprou máquina pra ela, pra ela lavar roupa pra fora. {rindo} Na época, ele fez um gato lá na luz pra não gastar. Então, uma vez eu fui lá com a minha mãe, fui levar meu convite de casamento pra ela, e tava lá uma máquina trabalhando. Tchi-tchi-tchi {imitando o barulho da máquina}. Aí ela falou assim: “Ah, eu to lavando roupa pra fora pra poder ajudar”, e eu falei “Ué, você lava na máquina? Mas que que adianta? Tu ganha... e a luz...”, aí ela falou assim: “Nãao... Oswaldo fez um gato. Não pago luz não!” {risadas do entrevistador} E ela batalhava muito pra poder, é, é... botar os filhos pra estudar. E ele, né, que ajudou muito a ela. E era assim, os irmãos mais velhos iam ajudando os mais novos. Esse que se formou em, em... que fez desenho industrial, ele conseguiu um emprego na Globo. E ele ganhava bem lá, entendeu? E conseguia, e ajudava a pagar os estudos dos outros... E foi assim também, sabe? Um ajudando o outro. Parece que teve uma só que não estudou, que não quis nada, que eu acho que era a penúltima, né. Que não quis nada. Quis ser... Quer dizer... Não quis nada, assim, era cabeleireira. Foi a única que eu lembro... Uma vez até encontrei com ela. Ela tava trabalhando num salão desses aqui. [Ricardo: Que legal...] Foi a única. A maioria, quer dizer, todos eles se formaram. Não sei em quê. Eu sei que uma era economista, fez economia, teve um que fez desenho e a mais nova que fez medicina. As outras eu não sei o que fizeram. O mais velho também, que se mandou lá pra roça, arrumou filho cedo... Aquele negócio, né. Doze anos... Já tem aquela... já sabe, né. Negócio de roça... Eu acho que ele gostava lá da roça dele, de repente... [Ricardo: É... viveu muito tempo...] É. Mas era muito... Então, quer dizer, a discriminação tinha mesmo. E naquela época, os nordestinos, então... Era aquilo. Nordestino vinha pra cá pra ser empregado, como os negros, e aquela coisa toda. Você vai em São Paulo, na rodoviária de São Paulo, você fica bobo de ver... O povo chegando com aquelas malas... A minha mãe, ela teve lá há pouco tempo. Ela falou: “Minha filha, o que você vê de gente chegando... com malas, e aquelas criancinhas... Que vêm lá do norte, muita gente chegando. Muita gente vindo pra São Paulo.” Pessoal vem de lá com aquele sonho, né. De que vai chegar, vai arrumar um emprego...&lt;br /&gt;Ricardo: Muitos não conseguem, né...?&lt;br /&gt;Isabel: Não conseguem, né.&lt;br /&gt;Ricardo: Querem, às vezes, voltar, e não conseguem...&lt;br /&gt;Isabel: Quer dizer, 90% não conseguem. Olha, no outro dia, eu vendo uma história no Fantástico... Foi semana passada... Acho que foi, semana passada... Eles fizeram uma reportagem de umas pessoas que tavam num prédio, lá no centro de São Paulo, que eles tinham tomado o prédio. Os sem-teto. E me chocou muito a história de uma senhora. Eu cheguei a chorar. Até falei pro Marcus. O Marcus, (sem reação, porque eu disse, nessa semana,) que eu ia ajudar essa senhora. Eles tinham tomado esse prédio lá, os sem-terra. Então, a Globo fez uma reportagem. Muita gente deve ter visto. Com as pessoas, o que que aconteceu um ano depois. Um ano... Não sei se foi um ano atrás... Ou foi em 2002... Eu não sei... Como estavam algumas famílias que estavam naquele prédio, que foram, foram sendo, é, é... como é que se diz? Despejadas daquele prédio. Aí mostrou algumas das famílias. Umas ganharam algum dinheiro do Governo, ou da Prefeitura, não sei. E outras, ganharam um salário fixo. Parece que de duzentos e poucos reais... Alguma coisa assim. E mostrou a história dessa família. Olha só. Eles vieram de Campos. Campos, mas eu acho que não é Campos, a cidade, acho que não é Campos daqui não {Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio}, a cidade de Campos. Campo Grande, Campo Grande... Eles eram de Campo Grande, mas não é a cidade de Campo Grande não. É... Campo Grande, não sei... acho que é no Mato Grosso...&lt;br /&gt;Ricardo: É... Campo Grande é a capital do Mato Grosso {do Sul}, eu acho...&lt;br /&gt;Isabel: Por aí, né? Aí eles vieram... Porque, aí, ela falando, que ela tinha um padrão de vida muito bom lá, tinha casa própria, tinha tudo. Mas que a filha dela mais nova teve um problema...&lt;br /&gt;Ricardo: Ah, eu vi... Vi...&lt;br /&gt;Isabel: Você viu essa reportagem? Ai, aquilo me chocou tanto! Tadinha...&lt;br /&gt;Ricardo: A menina queria voltar pra rever os avós...&lt;br /&gt;Isabel: Pra rever os avós, tadinha.&lt;br /&gt;Ricardo: E ela tinha medo de os avós morrerem e ela não conseguir vê-los de novo...&lt;br /&gt;Isabel: E ela não conseguir ver de novo... Ah! Aquilo me chocou tanto! Nossa! E agora ela falou, depois, mostrando a casinha dela, assim... Um cômodo... Dois cômodos, parece... E ela falando assim: “É pequenininha, mas é minha”... Ai, aquilo me chocou tanto! Que eu falei, “Meu Deus do céu! Se eu conseguisse um dinheiro, eu juro que eu ia lá ajudar!” Aquela família... Eu sei que tem...&lt;br /&gt;Ricardo: Eu lembro que a menina devia ter uns dez anos e falava como se ela fosse uma adulta, já. Pelas dificuldades que passava...&lt;br /&gt;Isabel: É, é, é... Mas as crianças que passam dificuldades, elas são mais adultas. Se você pegar uma criança dessas... eu não digo da favela, porque as crianças da favela, além delas serem mais adultas, elas têm mais maldade que as outras... Maldade, que eu digo, assim, elas... elas maldam mais do que um adulto vai fazer com ela do que uma criança é... como é que se diz? Daqui. Uma criança de classe média. No caso, sabe? É porque ela já é, como é que se diz? Gato escaldado... Então... Tem mais medo... Mas se você pegar uma criança assim, da roça, dessas crianças que passam dificuldades, que trabalham no campo... você pega uma criança dessas que trabalha lá, põe pra falar, você vai ver como ela se expressa muito melhor do que uma criança de seis anos. Uma criança de seis anos já se expressa muito melhor do que uma criança de seis anos daqui. Porque é criado... Como é que pode? Com computador, com tudo... Ela tem muito mais desenvoltura pra falar... Fala errado, mas ela fala com mais desenvoltura. Eu tava vendo, domingo agora passou uma reportagem, também no Fantástico, que também mostrou... Eu não sei... Foi em Fortaleza, a Regina Cazé fazendo reportagem de umas crianças... De um professor de surf...&lt;br /&gt;Ricardo: É... Eu não vi, não cheguei a ver...&lt;br /&gt;Isabel: Não viu? Ele faz um trabalho, assim, maravilhoso, com as crianças da periferia. Ele pega as crianças e ensina a surfar. Então, ele faz uma aula dentro de um galpão, numa sala...&lt;br /&gt;Ricardo: Numa sala de aula...&lt;br /&gt;Isabel: Numa sala de aula, parece... com quadro, com tudo... Então, ele dá aula prática. Aula teórica, né? Ele dá aula teórica ali. Então, aí você vê, vem uma menina falar, a garota deve ter o que? Uns sete anos... {risadas a respeito de uma crise de tosse do cachorro} Que tem sete anos, falando... Você tem que ver como ela fala, como ela se expressa bem. E o filho do cara que dá aula... como ele se expressa bem. Ele falando: “Nós pegamos...” o menino falando... “Nós pegamos essas crianças, né, da rua, das favelas, e trazemos pra cá pro meu pai dá aula... pra gente ensinar o surf a eles... pra tirar da rua... pra tirar da favela...”, quer dizer, quantos trabalhos sociais não podiam ser feitos por aí, né, essas coisas todas... Tantos artistas que têm grana... Esse pessoal com empresa, que podiam ajudar... Não ajudam, né. Têm muitas ONGs aí que só sabem ganhar dinheiro... A gente fugiu do assunto, né? {risadas}&lt;br /&gt;Ricardo: É... {risadas} Bom, Isabel, muito obrigado de novo!!!&lt;br /&gt;Isabel: Nada! Obrigada você! E eu falo pra caramba!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Restaurante em Vila Isabel localizado no Boulevard 28 de Setembro, esquina com a rua Visconde de Abaeté.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;[2]&lt;/a&gt; Basílica Nossa Senhora de Lourdes, no Boulevard 28 de Setembro, em Vila Isabel.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;[3]&lt;/a&gt; Universidade do Estado do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;[4]&lt;/a&gt; “A Vila da Penha é um bairro suburbano do Rio de Janeiro, localizado na Zona Norte da cidade. [...] forma ainda com seus bairros adjacentes (&lt;a title="Vista Alegre" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Vista_Alegre"&gt;Vista Alegre&lt;/a&gt;, &lt;a title="Brás de Pina" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Br%C3%A1s_de_Pina"&gt;Brás de Pina&lt;/a&gt;, &lt;a title="Vila Kosmos" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Vila_Kosmos"&gt;Vila Kosmos&lt;/a&gt;) a Grande Vila da Penha.” Fonte: &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Vila_da_Penha"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Vila_da_Penha&lt;/a&gt;, em 20/11/2006.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;[5]&lt;/a&gt; Rua de Vila Isabel, no Rio de Janeiro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38027118-116899658926782920?l=fadotropicalrio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/feeds/116899658926782920/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38027118&amp;postID=116899658926782920' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/116899658926782920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/116899658926782920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/2007/01/entrevista-fado-tropical-no-39-maria.html' title='Entrevista Fado Tropical no. 39: Maria Isabel de Andrade Bessa'/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38027118.post-116899636384772846</id><published>2007-01-16T17:03:00.000-08:00</published><updated>2007-01-16T18:05:58.726-08:00</updated><title type='text'>Entrevista Fado Tropical no. 38: Ernesto Orlando Guedes Pereira e Alberto José Guedes Pereira</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Entrevista Fado Tropical no. 38: Ernesto Orlando Guedes Pereira e Alberto José Guedes Pereira&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficha de Entrevista – Projeto Fado Tropical:&lt;br /&gt;Código da entrevista: EFT038&lt;br /&gt;Data de realização da entrevista: 16/11/2006&lt;br /&gt;Local: Olaria – Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;Entrevistado: Ernesto Orlando Guedes Pereira&lt;br /&gt;Data de nascimento: 29/06/40&lt;br /&gt;Local: Conselho de Armamar – Distrito de Vizeu&lt;br /&gt;Data de chegada ao Brasil: 14/03/53&lt;br /&gt;Local: Rio de Janeiro&lt;br /&gt;Profissão atual: Aposentado&lt;br /&gt;Profissões anteriores: Operário em uma fábrica alimentícia italiana que produzia macarrão - borracheiro – mecânico – padeiro&lt;br /&gt;Estado civil: Casado&lt;br /&gt;Filhos: 4&lt;br /&gt;Netos:1&lt;br /&gt;Entrevistador: Leonardo Leitão&lt;br /&gt;Curso: História&lt;br /&gt;Período: 7º&lt;br /&gt;Gravação: (x) digital&lt;br /&gt;Duração total aproximada: 1h. 36min. 21segs.&lt;br /&gt;Nº de páginas do depoimento transcrito: 26&lt;br /&gt;Data da conferência:22/11/2006&lt;br /&gt;Data da assinatura da carta de cessão: 22/11/2006*&lt;br /&gt;Fotos: (x) sim&lt;br /&gt;Número de fotos: 3&lt;br /&gt;Observações: Essa entrevista é composta por duas fichas de entrevista, uma vez que foi feita simultaneamente com dois entrevistados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficha de Entrevista – Projeto Fado Tropical:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Código da entrevista: EFT038&lt;br /&gt;Data de realização da entrevista: 16/11/2006&lt;br /&gt;Local: Olaria – Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;Entrevistado: Alberto José Guedes Pereira&lt;br /&gt;Data de nascimento: 11/12/38&lt;br /&gt;Local: Conselho de Armamar – Distrito de Vizeu&lt;br /&gt;Data de chegada ao Brasil: 14/03/53&lt;br /&gt;Local: Rio de Janeiro&lt;br /&gt;Profissão atual: Mecânico (Aposentado)&lt;br /&gt;Profissões anteriores: mecânico&lt;br /&gt;Estado civil: Casado&lt;br /&gt;Filhos: 2&lt;br /&gt;Entrevistador: Leonardo Leitão&lt;br /&gt;Curso: História&lt;br /&gt;Período: 7º&lt;br /&gt;Gravação: (x) digital ( ) em fita cassete&lt;br /&gt;Nº. de fitas: ( ) Duração total aproximada: 1h. 36min. 21segs.&lt;br /&gt;Nº de páginas do depoimento transcrito: 27&lt;br /&gt;Data da conferência:22/11/2006&lt;br /&gt;Data da assinatura da carta de cessão: 22/11/2006*&lt;br /&gt;Fotos: (x) sim&lt;br /&gt;Número de fotos/documentos: 4&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observação: Essa entrevista é composta por duas fichas de entrevista, uma vez que foi feita simultaneamente com dois entrevistados. O entrevistado cedeu a cópia de 2 documentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Projeto “Fado Tropical” – História Oral&lt;br /&gt;EFT038&lt;br /&gt;Entrevistados: Ernesto Orlando Guedes Pereira e Alberto José Guedes Pereira&lt;br /&gt;Entrevistador: Leonardo Leitão&lt;br /&gt;Local: Oficina de automóveis de Ernesto Pereira.&lt;br /&gt;Cidade: Rio de Janeiro&lt;br /&gt;Bairro: Olaria&lt;br /&gt;Data:16/11/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Transcrição da entrevista&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convenções – Para a presente transcrição adotaram-se as seguintes convenções:&lt;br /&gt;( ) – Parênteses: indicam os trechos transcritos nos quais, em função do áudio, não se teve certeza da exatidão.&lt;br /&gt;(?) – Interrogação entre parênteses: indica um trecho ininteligível,não transcrito em função do áudio, no qual não se arriscou aproximação.&lt;br /&gt;{ } – Chaves: Indicam partes com comentários sobre ocorridos durante a gravação e esclarecimentos que complementam o áudio.&lt;br /&gt;[ ] – Colchetes: Intervenção do entrevistador na fala do entrevistado.&lt;br /&gt;/ / - Barras: Utilizadas para todas as intervenção do 2º entrevistado (ex: /Alberto: ...exemplo.../&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INÍCIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: É... como era... isso só, isso são as perguntas só... como era sua vida lá, da sua família em Portugal, como era a vida?&lt;br /&gt;Seu Ernesto: Era, vamo lá ver, meu pai era caminhoneiro né, entregava vinho, [vinho] o caminhão lá carregava os tonéis de vinho e levava pra, entrega no Porto, tudo que era lugar lá... que a gente num, lá num tinha como estudar por que era... só ia estudar no, lá no, no Porto né, e na vila, mais o que? É...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Como era a vida lá na aldeia?&lt;br /&gt;Seu Ernesto: Olha eu, eu só brincava né, era garoto, [vida boa?] era boa, ainda mais quando tinha neve né? {o entrevistado abriu um sorriso} fazia bonecos, [bonecos de neve, aqueles grandes assim? nariz?] é, tudo, braço, tudo, e... eu jogava muito futebol [é, é?] é a gente jogava muito futebol a gente brincava muito... A única coisa que num tinha lá era pipa, era peão... lá num tinha peão. E estudava... estudava das oito da manha à meio-dia, vinha almoçar em casa voltava uma hora, até às vinte. De segunda à sábado, ah, domingo... domingo não. Já no Porto, a do Porto era interno né? você ficava direto, o tempo todo, só volt... vinha nas férias [quanto tempo o senhor estudou lá?] {o entrevistado tomou um gole d’água} no Porto foi de 49 a 51, dois anos e pouco. E eu não... eu não cheguei a fazer o quarto, a quarta série lá, aí eu fui fazer é na (?) fiz a quarta lá, fiz de novo tinha até o ginásio. Aquelas festas que tinha lá no lugar lá, no... lá nas aldeia(sic), minha família era uma família tradicional do local, e meus avós tinham quintas, fazendas, lá é quinta né, que aqui é fazenda. Lá então tinha comidas, bebida pro ano todo, alimentação... azeite... vinho... frutas... quase todo mundo diz que lá a verdade é essa, calor nem pensar no inverno, então no inverno nada dá, pouca coisa dá, porque o inverno é de cair gelo mesmo, a verdade é essa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Como surgiu a idéia de vir pra cá?&lt;br /&gt;Seu Ernesto: Ah...uma irmã do meu pai que tinha padaria aqui na, ali na Barão de Mesquita, que casou com um que veio de lá também, português, era o nome dela é Maria, dona Maria, irmã do meu pai, então eles, eles foram lá em 49 e levaram até um carro daqui, não me lembro agora qual o... qual a marca dele, naquela época era de navio. Aí disseram que (iam dar força ao meu pai) e disseram pra que viesse, com eles. Mas aí, aí meu pai veio com eles e a gente ficou estudando no Porto. E assim, veio com eles, quando foi... mais ou menos um ano e pouco, um ano e meio mais ou menos meu pai foi, voltou. Depois de um ano e pouco ele voltou. Aí chegou lá a gente já tava... já num tava mais no Porto, no colégio... que tinha passado aliás, acho que juntamente desse tempo que ele veio e voltou, aí a gente não podia continuar no colégio porque se meu pai viajar pra vir morar em outro país, a gente teve que, (?) fui obrigado a sair do colégio. Aí ele chegou lá, por lá pelo meio do ano, e um tio meu, da parte da minha mãe, o nome dele é Ernesto, (foi falar pra ele voltar e ele voltou), aí ele veio morar, aí dia 20, aí ele fez a cartinha pro meu pai também (foi pra lá) e aí e viemos dia 23, eu meu pai e meu irmão Alberto. Aí viemos, mas... não viemos com ele, ele veio primeiro e depois a tia mandou a carta de chamada, não mandou a carta de chamada(?) aí ficamos aí com eles, só (?) a gente chegou em março e minha mãe veio em dezembro desse mesmo ano. E aquela vida né? Tinha que lavar roupa era.. com 12 anos,{risada do entrevistado}tinha que fazer comida, não tinha dinheiro, hoje em dia, imagina naquela época, o dinheiro até que dava, trabalhando, (é uma guerra). Naquela época só aquele que tivesse mais reconhecimento e mais... fosse bom de profissão, é que vencia, não tinha esse negócio de enrolar ninguém não, tinha que fazer tudo certinho, (nesse caso, imagina) naquela época não tinha (linhas nacionais) que hoje só é tudo supermercado elas... Elas era(sic), tipo assim, lojas nas esquinas quando abriram, como fosse um mercado, e faziam tudo que tu vê em (mercado), Nova Iorque, lá na vila Nova Iorque. Aí eles... muito trabalho, eles fazia que nem... em vez de vir dinheiro vinha alimentação, saco de quarenta quilos de batata, cebola, arroz, tudo, dava pra passar o mês todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: O que que falava lá do Brasil? O que era comentado?&lt;br /&gt;Só falava bem. Difícil quando um deles chegasse aqui que não fosse no mínimo de carro. Só falava bem. Só que aqui era muito humilhado, naquela época a educação era ainda muito... a gente era chamado de, ou português ou galego, mas é... mas não era todo mundo, inclusive porque a gente encontrou muita gente amiga mesmo, que incentivavam a gente, amigo (?), qualquer lugar que você chegava tu era ajudado. Também a educação aqui era fraca. Tu vê, eu, eu cheguei de lá, fui fazer, já tinha a Suam em Bonsucesso, só que não era Suam era Luso-carioca. Aí a gente foi fazer, eu quis estudar, mas não tinha condição de... mas estudamos mesmo assim eu fiz o ginásio aqui, que eles acabaram falando; não, o ginásio você já tem com o que você estudou lá [na vila] já na vila de (?) na quarta série lá no (Sobral) [já sabia tudo?] sabia tudo, tudo, sobre o mundo todo... história, geografia, então quer dizer. E eu aproveitei essas (oportunidades) (?) muitas vitórias e muitas derrotas, a verdade é essa, faz parte da vida. Morava em Bonsucesso até 58, saí do meio de Botafogo, de Botafogo a gente se mudou duas vezes até fixar moradia ali na Vila Nova Iorque, aí quando minha mãe chegou de avião tinha local pra morar direitinho, dentro da oficina, [é?] é, era uma casinha pequena, mas, todo mundo era pequeno era mais fácil dividir, né? [é] a pessoa, [e qual foi o mais velho? o mais velho de todos] já foi na maternidade já fica mais... (ficava no lugar aqui), três pessoas, na época era muito, e a minha irmã nasceu na maternidade, um ano depois em 64, 64 não 54. A minha mãe chegou em 53 no final e ela nasceu em dezembro de... 54, aí ficamos juntos até 58, nisso meu pai já me vendeu a oficina. Chegou a trabalhar de empregado noutra firma, quando chega aqui tudo faz direitinho, era uma portinha, naquela época, o portão não existia, era... madeira um muro baixinho, os carros tudo lá dentro, ninguém mexia, mais depois que começou a aparecer o roubo, aí... [só depois?] não demorou muito não, depois de 60 começou a piorar, aí fomos morar no Vista Alegre, aí sim no Vista Alegre a vida já era outra, a casa era boa, um quintal enorme (?) aí nós vivemos uma vida mais... {nesse momento alguém entrou e deu boa tarde ao Seu Ernesto e pediu licença para pegar algo numa gaveta} Aí do, do Vista Alegre, quer dizer, (?) Brás de Pina, e depois vim pra aqui pra Avenida Brasil, Bonsucesso... E sempre trabalhei com meu pai, eu sempre trabalhei junto com meu pai, meu irmão não, o Alberto saiu fora, mas eu sempre com meu pai, só larguei meu pai mesmo quando... que.. eu vim pra Cascadura pra padaria, isso em 63, foi na época da Revolução, em 64 foi a Revolução. Lá em Cascadura, na padaria meu pai (trocava sempre?) (?) que tinha um supermercado de frente, eles saqueavam, ficavam na porta da padaria, tacavam fogo, tudo pra arrombar, é... era brabo, 64 foi brabo. A gente pra comprar farinha, eles não entregavam mais porque saqueavam, a gente tinha que pegar ir lá no moinho onde eles faziam a farinha e pegar pra levar pra padaria. (?) Mas aí passou também, depois acabou, aí melhorou, em 64 a padaria, saí da padaria em 63, e tudo que eu nunca tiv... nunca tive carteira assinada naquela época né? quer dizer, tinha um plano (?) também, era vinte e poucos anos que eu tinha. Aí eu fui ter carteira assinada na Paris-Wolks, eu acabei sendo empregado lá e foi logo depois, que eu trabalhei com um conhecido, fui motorista dele, morava no Vista Alegre e tinha um botequim na Primeiro de Março esquina com a Ouvidor, era o restaurante (?) Aí eu levava ele seis da manhã e pegava ele dez, onze horas da noite. Eu pegava e deixava ele, e ia pra oficina, trabalhava o dia todo na oficina e à noite ia lá pegar ele... Segunda à sábado, e dia de domingo ia lá com ele, pra ele olhar lá o butiquim... a arrumação lá o... Isso durante... até eu casar, eu casei com o que? Nove anos de Brasil...{nesse momento chega o irmão do seu Ernesto; o seu Alberto) (?) [opa!] O ar, o ar tá fravo malandro! /Aberto: tá,(?) /&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Como você imaginava o Brasil aqui, de lá?&lt;br /&gt;Ernesto: Era tudo criança, não tinha maldade nenhuma pra dizer o... nem sabia que eu ia passar [o resto da vida], pra mim eu ia, eu ia chegar aqui e ia ser maravilha só, mais nada. Todo mundo só falava bem... né? Naquela época... /Aberto: Brasil era o melhor lugar.../ o melhor país do mundo! Num.... não tinha outro lugar. A gente tinha as Áfricas naquela época, podia ir pras Áfricas, que eu tinha inclusive um tio meu, meu padrinho, que ele era oficial do exército lá, ele tinha uma situação boa lá... (não boa) (?).Que aqui tinha mais família também, a verdade é essa, tinha muita família aqui /Aberto:A família... / e todos uma situação tranqüila, num é boa, boa, não é nunca, mas tranqüila, pelo menos viviam bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Qual foi a primeira impressão, aqui do Brasil, quando chegou aqui?&lt;br /&gt;Ernesto: A impressão é que você chegou num lugar totalmente diferente do... do.. do Europa. Aí você... Apesar de naquela época poucos indivíduos queriam... Mas a cidade era maravilhosa. Claro que era, coisa diferente... lá da Europa, nada a ver. /Aberto: Tinha o bonde naquela época. O bonde era ainda elétrico, era o ônibus elétrico, o ônibus elétrico saiu depois. / É, primeiro era o bonde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Por que que vocês escolheram o Rio de Janeiro?&lt;br /&gt;Ernesto: Todas as famílias que a gente tinha, muita família. A minha mãe, a minha mãe aqui ela tinha, aquelas... (?) então era uma facilidade, era facilidade, só a linha da parte da minha mãe, da família dela. Tias dela né? Aqui então era assim, morava tudo pertinho... /Aberto: Era um quase do lado do outro.../ só ver daqui a, ali a... Marquês de (?), então quer dizer, só de uma... de uma família. Aí tinha mais um tio Ernesto, da parte... da parte da minha mãe. /Aberto: Eu (?) ele, ele não tinha... (?)/ Isso foi uma herança. Não! Não foi herança... foi comprado... /Aberto: foi pago, foi pago.../ ...foi parte...(?) /Aberto: a minha mãe tinha direito também a uma parte, aí eu completei a outra parte e fiquei com a casa/ Lá em Maria da Graça. E o... /Aberto: Olha que vai daqui a... / Ah! E o tio Ernesto, aí ele vai (?) a tia Maria /Aberto: O pai podia (?) / inclusive Durval, meu amigo, que foi mé... médico. /Aberto: Era médico... do.../ Até do.. /Aberto: ...do Fluminense ele é.../ Ele foi médico do Fluminense, mas ele era diretor do Souza Aguiar! O cara é, tem que (conhecer e...) (?) Foi em sessenta e pouco, setenta... sessenta e pouco ou setenta, ele era diretor lá do Souza Aguiar... [morava muita gente aqui, né?] Muita gente. /Aberto: O ar tá foda. / Minhas atividades mais foi isso, (?) a vinda ao Brasil foi a partir da família mesmo porque a gente se dava muito bem. /Aberto: E a carteira de chamada que também, só vinha com carta de chamada./ [é?] /Aberto: A chamada sai daqui, (que se num tiver carta não é aceito) É porque só chamavam alguém que... alguém que, mais ou menos tivesse onde morar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Onde vocês moraram, quando vocês chegaram vocês moraram aonde?&lt;br /&gt;Ernesto: Foi logo, foi direto pra Botafogo. Avenida Bartolomeu Portela, /Aberto: Bartolomeu Portela. / E era uma (vilazinha) [e depois?] Aí dali a gente foi pra Bonsucesso, depois (a gente foi) pra Vista Alegre. /Aberto: A primeira estrada do Brasil foi ali. / {nesse momento, seu Alberto saca do bolso alguns documentos antigos, carteira de trabalho, de imigrante, ver anexos) /Aberto: Ai dá o Conselho, dá tudo... tu tem essa, não?/ {seu Alberto se dirige ao seu Ernesto nessa pergunta mostrando a carteira de imigrante} Tenho, mas só que a minha não é assim, a minha ainda é aquela... /Aberto: é (?)/ É! Exatamen... Não, esta aqui eu tenho a do... a do Botafogo. /Aberto: Botafogo é? / É. /Aberto: Essa é de Portugal./ Essa é a de imigrante. /Aberto: De imigrante./ Você já está aqui. /Aberto: Essa é outra, olha.../ Não, eu ganhei esta aqui mas de que o (bem) (?) E uma minha é fotografia. /Aberto: essa aqui que é a carteira de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonado Leitão: Quem ajudou vocês a se adaptarem aqui, quando vocês chegaram?&lt;br /&gt;Seu Ernesto: Foi meu pai que eu era pequeno, então... E os familiares que também deram muita força a gente, a verdade é essa. /Aberto: Então praticamente todo domingo tinha lugar pra... pra ir né? Casa dos parentes.../ Naquela época era mais assim, você chegava final de semana, “ah vem almoçar, passar o dia aqui!” /Aberto: O domingo, as vezes, na maior das vezes, almoçar na casa dos parentes.../ Era o ano todo isso, praticamente, todo mundo, se tivesse, uma vez por mês, estávamos na casa dos parentes, ou num aniversário. E os parentes aqui eram... /Aberto: Garotada, era todo mundo! Ó cinqüenta pessoas da família reunida)/ Ih, é muita gente, então... /Aberto: É muita gente!/ Tanto da parte da minha mãe como do meu pai. Aí o... e depois tinha todos os outros parentes que também... (?) \23:30\-\25:05\ { Nesse momento, Marcelo, filho de Seu Ernesto nos convida a mudar da salinha para o escritório por conta do calor}&lt;br /&gt;Seu Ernesto: Ta melhor aqui dá pra entrevista... [melhorou né?] /Aberto: Porra. / Porra, tava de mais... /Aberto: Tava foda. Num dava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Com qual costume você demorou mais a se adaptar aqui no Brasil? Um costume que foi ruim...&lt;br /&gt;Seu Ernesto: Adaptação... foi só... até a minha mãe chegar, né? /Aberto: Seis meses/ Mais de seis meses, /Aberto: Quase oito meses sem ninguém, só a gente/ É, foi de março até dezembro. /Alberto: é/ De março até dezembro, foi a pior época, foi essa. Depois é... aí já... já era maravilha! Se você tava com os pais... /Aberto: Aí eles alugaram uma casa na Vila Velha bons tempos, viu? /Aberto: Não, mas depois... primeiro foi na of... na oficina. /Aberto: Na oficina./ Nós ficamos na oficia, depois é que fomos pra o ... lá... /Alberto: Pra uma vila/. Pra uma vilazinha do lado do, em frente ao Iorque. [Foi seu primeiro emprego lá na oficina?] Ali a oficina já era do sócio do meu pai com o ... /Aberto: Não ali quem abriu foi o pai/ Então, e quem entrou era o Alexandre... /Aberto: que veio de Portugal também, era o Alexandre/ ... Alexandre lá... português também. Aí os dois formaram uma sociedade /Aberto: formaram uma sociedade os dois, é.../ Que dali... dali não parou mais! Foi só... /Aberto: Aí foi Marmarense, não? Ó a oficina só única, o único do que tu continuou {referindo-se ao Alberto} na oficina, oficina ali em Bonsucesso e a gente foi pra padaria. A única coisa que mudou... O resto, depois da padaria, /Aberto: tudo a mesma coisa.../ Aí foi só oficina a vida toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: O senhor freqüentava clube português?&lt;br /&gt;Ernesto: Todos eles quase. Vila da Feira, Casa do Minho, /Aberto: Casa de Santa Maria aquela.../ Trás-dos-Montes. /Aberto: Trás-dos-montes Tinha muito era ali.../ Casa do Espinho no Vista Alegre, Casa de Viseu /Aberto: ...aquela rua.../ Ali na Tijuca tinha umas dez... / Ali era muitas casas. E a do Minho então, aquela ali nas Laranjeiras era praticamente todo mês a gente... tinha uma farra lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: E a comida em casa, vocês comiam... alimentação em casa, alguma coisa típica assim?&lt;br /&gt;Ernesto: Não... [não?] Não, era alimentação normal. A não ser... a mãe naquela época fazia aquelas bolas né? /Aberto: Com bacalhau... mas na época /Aberto: isso era final de semana, num sáb... num domingo/... é fazia mais era no final de semana, porque também a situação não ajudava né, pra fazer um... /Aberto: o resto era feijão e arroz na época/ a alimentação num... Mas final de semana sempre... sempre era mais regado a algumas coisas diferentes, né... é verdade é essa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Que tipo de música você ouvia? Em casa, ouvia música portuguesa?&lt;br /&gt;Ernesto: É... Gozado que eu, eu ia aos clubes lá no... no Vista Alegre e até um...que a gente até dava o nome que era o Pula Macaco, que era um clubezinho assim pequeno que foi formado por um patrício lá do lugar, o Manuel. E então reunia aquelas famílias, eram mais famílias né, se reunia ali ... e dali a gente fazia... era todo dia tinha farra né... /Alberto: eu fui também no... no... no... Ali na Praça do Carmo, era o Carmelo... o Tênis Clube/ Naquela época já havia /Alberto: o Bafo da Onça lá em... era no início, era até (?) era Catumbi no carnaval sempre tinha uma. Que a gente era novo né, então procurava sempre entrar só pra... conhecer o pessoal e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: E a sua religião?&lt;br /&gt;Ernesto: Católico, sempre. [Algum santo de devoção?] Todos eles. [Todos eles?] Mas a mais caridosa aqui é a... Nossa Senhora de Aparecida. Lá era Nossa Senhora de Fátima e aqui é Nossa Senhora Aparecida. Mas no final é... A gente tem que pedir a Ele /Alberto: Há sempre uma missa.../. A missa todo domingo eu vou à missa, desde... desde...[ainda vai?] até hoje, não falto um domingo. /Aberto: Na (?) eu vou muito também ali. / A gente foi educado só dentro da religião católica. /Aberto: o (?) que a gente pegou. A família já era tradição. O meu padrinho, o nome dele é Ernesto também, ele se formou, chegou a dar uma missa, e foi quando depois foi lá pras Áfricas. Abandonou a minha família, quer dizer, tinha que ter uma tradição. /Aberto: Era pra continuar.../ Era pra dar continuidade, ele acabou... /Aberto: Apareceu, foi na época depois da guerra logo né? / Não, o dele foi antes da guerra, das Áfricas foi antes da guerra. /Aberto: Não foi da, foram chamados depois / O pai é que, o pai é que foi chamado... /Aberto: O pai teve na fronteira em quarenta e dois. / Ah, foi a Lisboa mas não chegou a sair... /Aberto: Não, só levaram os caminhões e... / É então mas depois voltou... / ...ficou sem nada. Até o isqueiro tu pagava uma taxa pra usar. O gás do isqueiro. Eu me lembro que eu tava no Porto naquela época. / E gasolina não existia porque os carros lá, caminhão... /Aberto: Usava gasogênio.../ Gasogênio. [gasogênio?] Gasolina era a coisa mais difícil que tinha na Europa. /Aberto: A gasolina foi tudo pouco../ Aí eles inventaram o gasogênio . /Aberto: E o alemão inventou o (?), o Wolkswagen, pra atravessar o deserto... / Mas aí era só a ventilação que não levava água. /Aberto: O resto era gasolina./ Já o problema de, por exemplo, de andar no deserto sem água era... /Aberto: era ele.../ Era o (?)&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt;. O melhor motor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: E o time do senhor?&lt;br /&gt;Ernesto: O meu aqui... Lá era o Porto, e aqui o Botafogo. Eu fui campeão do Iorque Futebol Clube, aliás, do Iorque Esporte Clube. Ficava na Avenida Nova Iorque. Fizeram um torneio lá... E também eu morei Botafogo, foi o lugar primeiro que eu morei ali, pertinho da vila. /Aberto: Era, o Botafogo era bem ali, no.../ Era na rua de trás, /Aberto: Na outra rua, Bartolomeu Portela era a outra rua / Era uma ruazinha sem saída, era uma ruazinha... /Aberto: Era uma calçada... o campo deles era atrás./ Aí, em Bonsucesso esse clube eles fizeram, uma porção times lá e, era Botafogo, era Fluminense, era Vasco, tudo que era, naquela época os clubes se formaram e então a gente foi campeão... Botafogo... Aí que me entusiasmei mais ainda... {risada do Seu Ernesto}. Já tinha ido morar em Botafogo e ainda fui campeão pelo Botafogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: O senhor busca ter notícias de Portugal, ouve falar de lá?&lt;br /&gt;Ernesto: Agora não. Na... na... naquela época do... que Portugal não era... que a família se... que escrevia mais, mandava até carta, respondia mais. Hoje não... a família foi falecendo, a maioria das pessoas foi perdendo. /Aberto: Foi ficando sem ninguém. Lá em Portugal hoje.. / Não tem ninguém praticamente da família... A maioria aqui também já acabou, hoje. Porque aqui a vida era... o Alberto falou... Tinha sempre um lugar pra ir no final de semana, na casa dum parente, que era muita, muita gente. Quer dizer... e cada um tinha um... um tinha botequim, outro tinha padaria, outro tinha armazém, outro tinha quitanda, outro... a gente tinha oficina, quer dizer, cada um tinha um comércio diferente. Oficina mesmo ninguém teve aqui na nossa família, ninguém teve, parente nem nada, nem... /Aberto: Então é só nós mesmo... só o pai mesmo. /Alberto: Mas também Bonsucesso e (?) foi ocupado tudo nosso. A gente pegava uma né.../&lt;br /&gt;Ernesto: Dali fomos pra Guilherme (Macktóide) depois para a Avenida Brasil ali, Avenida Brasil, Brás de Pinha, da Brás de Pina é que voltamos pra Avenida Brasil... pra Paris, é que ficamos lá... /Alberto: A Paris é que ficao mais que... / Até vir pra aqui. /Alberto: Foi uso capião do terreno. Aquele terreno era pra ser... Eu fui lá, fui lá na época, não tinha don... o dono não apareceu, e na esquina tinha um senhor... /Aberto: Salão (?) da Prefeitura/... dali ele tomou conta do terreno e ficou, ficou o terreno lá limpinho.../Alberto: Mas tinha um vizinho do lado que tinha um armazém aí ele é que disse “não pô arma aí, vai fazendo um negócio aí, faz uma oficina aí.” Aí quer dizer, deu certo pra gente trabalhar lá./ Mas o terreno era dele, só que não tinha escritura não tinha nada, aí ele foi dizendo que era dele.. /Aberto: Mas o caso não era./ Aí fomo lá no, eu tive que ir lá e assinar. O dono de facto era ele mesmo, na verdade era ele. Desde que a gente chegou ali em Bonsucesso, conhecemos seu Pereira, o nome dele era Pereira, /Alberto: Pereira!.../ Ele era o dono daquele terreno, só que naquela época não se pagava nada, né? A verdade era essa, não tinha imposto nenhum, era só ter a escritura, a única, era a única coisa que tinha.../Alberto: E a prefeitura que dava a escritura.../ Aí a gente foi lá... /Alberto: Aí fomos lá pra registrar a firma, aí encontrava que num... / Num tempo... até o do lado, o João foi também lá, pra provar que ele que ‘tava tomando conta daquele terreno, porque se não ele ia... ia.../Alberto: Até o João tava cobrando que ia tomar o terreno da gente./ É... mas não tinha como porque ele é que de facto ficou. Ele já tinha um jipe naquela época e o jipe ficava lá, ele guardava lá dentro, porque ele não tinha garagem... Ele guardava dentro do terreno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: O senhor se sente carioca, um pouquinho assim, carioca?&lt;br /&gt;Ernesto: Muito! Muito carioca... Por que? Porque eu praticamente eu nasci aqui praticamente. Doze anos... Inclusive viver mesmo foi aqui no Rio de Janeiro, tudo, tudo. Desde brincadeira de peão, de pipa, futebol, de tudo, foi mais aqui. A verdade é essa... E até as farras né? Boate... {risos}, clubes... [e o senhor voltou, não né?] Lá não...Nunca mais eu fui à Europa. Ele foi... / Alberto: Eu voltei com.../ Ele foi lá em oitenta e dois. / Alberto: Há vinte e três anos. Oitenta e dois... Vinte e quatro já. / Alberto: Vinte e três Roberto tem vinte e dois./ Então... /Alberto: Foi vinte e três... eu tava aqui./ Tu já tava aqui! Eu vim pra qui em oitenta e dois. /Alberto: Aí o Wilson ficou lá em cima, e quando eu vi eu é que voltei pra parte dele lá e a gente trocou... [O que o senhor achou de lá?] /Alberto: Lá ta, lá ta bom só que o... eles não aceitaram muito o imigrante.../ E aí se invertia... /Alberto: Eles pensavam que o imigrante ia cheio de dólar, de grana. Lá então eles não davam muita... Certas pessoas davam apoio, quem conhecia mais o pai antigamente, dava apoio. / Lá o... Europa... /Alberto: Na própria (chancela) que a gente nasceu é todo mundo difícil. Os (Carroça) que eram mais que, (andavam) com o pai. / Muitos anos o pai né... deu boa situação a ele. E aí quando chegou lá ele que foi daqu... /Alberto: Um hotel lá.../ já tinham uma situação que tinham até local para as pessoas poder dormir, que dizer, é uma pensão né? e comer. Então esse que era o primo empregado com meu pai, na época do caminhão é se deu bem lá. Porque o resto só queria saber das pessoas que levava dinheiro. O importante lá na Europa é esse, é o dinheiro. Já aqui no Brasil não acontecia isso. Acontecia da pessoa ser honesta e correta e acabou... /Alberto: O tio Ernesto é que tava lá, mas tava sem nada também, tinha um apartamento, mas.../ Perdeu tudo, coitado./Alberto: Perdeu tudo no azar. / Era o meu padrinho.../Alberto: Não tinha poltrona, não tinha porra nenhuma... /Não tinha nada. Ele perdeu tudo. Que ele tinha uma fortuna lá, porque ele era oficial. Voltou da África só com a roupa mesmo. Quer dizer, então na Europa tem esse detalhe importante. Se a pessoa não tem dinheiro lá {o telefone toca e Ernesto pede pra que alguém atenda}... Sem dinheiro lá não é ninguém. Pelo contrário, é até maltratado, coisa que aqui... /Alberto: Dão bronca no imigrante, acha que tinha que ir com a posição já... com grana, com aquilo tudo... / E inclusive dar situação boa a eles! /Alberto: Já aqueles caras que eu fui da parte da mulher já eram mais igual... / Ah, da tua parte né? Mas aí já é da cidade, já é do Porto... /Alberto: Era da cidade.../ Era dentro do Porto, quer dizer, é um nível diferente. Mas nas aldeias não... /Alberto: Aí os caras lá pensavam que a gente já tinha retornado aqui a gente tinha dado apoio a eles também. / Nas aldeias o pessoal também que vivia {a voz dos dois se torna indiscernível} Até na aldeia a vida era muito difícil. /Alberto: A aldeia era uma brava do cacete./ Muito difícil... /Alberto: Muito ruim aquilo ali. / Quer dizer, hoje não! Hoje tá maravilha pra eles né? Depois que eles... /Alberto: É, porque as vezes dava um monte de (troço também) / Não... E esse negócio do, do do, do união... agora Européia... /Alberto:Ah é, com... / Portugal pô. Porque o Portugal era um paísinho caidinho mesmo... A única coisa que tinha lá era quem tivesse que nem a nossa família. Se a nossa família tivesse uma situação de terra... Hoje em dia tem... Mas se não tiver... podia ter lugar pra morar, podia ter tudo... não, não, não... Dinheiro não aparecia, não tinha como. Que num... trabalho lá não tinha dentro duma aldeia não tem trabalho... pro pessoal que vive no local. /Alberto: Faltou também tudo lá... Faltou comida, faltou tudo... Aquela época era braba. A Europa era braba. Hoje não, hoje ela é uma maravilha pra eles. /Alberto: Todo mundo com medo deles entrassem pra Portugal, já... o alemão já era. Que os clarões de noite tu via tudo já tavam pertinho já, já tavam na Austrália / E a Europa é pequenininha né? Aqui por exemplo... Daqui... Daqui do Rio de Janeiro pra chegar da Argentina quantos quilômetros tu vai gastar? Pra chegar no Uruguai, quantos quilômetros você vai gastar? Agora lá pra. França, Espanha... é tudo... /Alberto: tudo um ovo!.../ Do Porto à França... Na época tinha barreira né? Então você teria que... Hoje não, hoje passa direto. É dez minutos... do Porto à Espanha. Do Porto à França, da França já é outra estação, Portugal é pequenininho, muito pequeno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Como foi a viagem pra cá, de Portugal?&lt;br /&gt;Seu Ernesto:Viagem /Alberto: Aquela foi braba... / Viagem naquela época era um navio de... navio de guerra transformado pra passageiro./Alberto: (Castelofulizer) Era foda mesmo.../ E no dia, no dia, que o mar estava bravo a água batia e entrava dentro do navio./Alberto: Ele botava de frente.../ Aí ele teve que mudar de posição /Alberto: Pra poder encarar a.../ Encarar.. /Alberto: O dique. Aquela foi foda./ Pra poder pegar, porque de lado, batia e entrava. /Alberto: Aí ia tombar/ Ele foi obrigado a mudar a rédea... /Alberto: E as comida tu comendo já daqui a pouco caí a porra... {Seu Alberto gargalha} os pratos voava tudo. Puta que o pariu, ficar nessa porra já há 14 dias dentro d’água. {o telefone toca e Ernesto atende} Puta que o pariu! Aquela foi foda! /Alberto: aquela foi braba. Aquela viagem mesmo foi... foi foda. Aquilo já deu pra... / E o pior não é... que foi quatorze dias e as cantinas d’água /Alberto: O curso dele, ele desviou o curso./ Não, e a gente parou, mas parava dentro do mar. /Alberto: é que não havia lugar / Tinha que pegar barco pra ir. Ilha da Madeira, Ilha da Madeira, não dava pra... não tinha ... não sei hoje, deve ter... mas naquela época não tinha cais do porto. Você ficava distante, aí vinham os barcos e levavam você pra conhecer lá, conhecer a Ilha da Madeira. Isso é, nuns 3 lugares é assim né? Cabo Verde.../Alberto: A gente botava a moeda os caras mergulhavam pra apanhar moeda. / É... /Alberto: As águas branquinha... / Eles já, viviam daquilo né? Nos navios o pessoal jogava uma moeda e eles... /Alberto: A moeda ia, eles iam... zum, zum, zum... e traziam na boca... filha da puta/ {risos}. Os muleques...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: E na Copa do Mundo, torceu pra quem?&lt;br /&gt;Seu Ernesto: É, pro Brasil... Porque Portugal não tinha condição mesmo. A verdade é isso... Tinha que ser o Brasil mesmo. Mas foi brabo esse... [Acabou que Portugal foi mais longe que o Brasil.] É, deu mais... /Alberto: É, mais ainda ficou um pouquinho né? Tu vê que... /Alberto: Quase ele não ficava classificado. / E hoje, a verdade é essa, hoje Portugal pra mim não... não tem nada! Os filhos estão tudo aqui, família toda aqui. Lá em Portugal praticamente não teve família. /Alberto: É passou de 89 não tem quase ninguém.../ Paris, até pode ter, talvez nem conheça, entendeu? Então hoje toda nossa vida é aqui no Rio de Janeiro e em Minas, São Lourenço... É maravilhoso aquele lugar pra mim. São Lourenço é muito bom. A gente, inclusive a gente tem até lá um lugarzinho pra gente chegar lá e dormir... Situação já... já...O meu já está, é de 86 aquele apartamento. Vinte anos agora... No dia no carnaval desse ano... Vinte anos que eu tou com o apartamento lá. Muito bom! A gente chega lá, fica três, quatro dias, um final de semana assim... Maravilha! E o povo também de Minas é também é muito aconchegante também, né? É igual ao carioca... Só que lá que tem uma coisa... Procura lá... pede uma informação que ta perdido que vai se perder mais... {Seu Ernesto Gargalha} E a gente nota de vários (contatos)... A não ser que pegue um cara conhecido. Se for estranho ele te dá o lugar errado. Como é que pode? Mineiro não é mole não... /Alberto: São Paulo também é uma foda/ É, tem lugar, que tu vai no, o mineiro deixa ir, mineiro não ensinam lugar certo não. ... Ele acha graça, né? Porque aquilo é uma brincadeira pra eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Como o senhor conheceu a sua esposa?&lt;br /&gt;Ernesto: Olha, o lugar onde eu morava, que era Vista Alegre na época... Foi, foi lá. Ela tinha doze anos. Ela, ela... ela é cinco anos mais nova que eu. Cinco a seis anos. E então eu tinha dezoito quando eu fui pra Vista Alegre e ela tinha doze. E aí que eu conheci ela, porque ela (até ia) pra esse clube onde a gente fazia, passava o ano todo de farra lá. E foi lá que a gente se conheceu né? O irmão dela, também até já faleceu, era da minha idade assim, naquela época, mas ele tinha muitos.... a gente, jogava futebol junto, o irmão dela também também... Tinha os parentes da parte das irmãs dela, cunhado... Inclusive tem, tem um da parte da minha esposa, que o pai dele jogava futebol pra caramba, que deixou, ele deixou um... como é que se diz?... deixou uma plantação... que é o filho dele, o Pedrinho, que hoje tá no Fluminense. [ah é?] É filho do, do...hoje tá no Fluminense. Mas tá todo quebrado, coitado. /Alberto: O garoto era magrinho.../ O garoto sempre foi fraquinho, depois... o pai dele sempre foi fraquinho. Mas a pancada que ele levou, que eu vi a última, que foi... aliás a primeira, a pior foi a primeira... foi a que quebrou ele. [Foi?] Pegou bem mesmo, menino fraquinho daquele jeito, foi calejado até hoje... Mas ele joga muito futebol. /Alberto: Ele era foda.../ O garoto era muito bom. /Alberto: Na rua ele brincava, Beto jogava com ele na rua também... /Lá no... em Vista Alegre. /Alberto: Brincava na rua, mas no bola ele era foda. Parecia o capeta. / Ninguém segurava ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Sua esposa é portuguesa?&lt;br /&gt;Ernesto: É, ela veio de lá com seis anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: E o senhor ser português influenciou?&lt;br /&gt;Ernesto: Ah, ajuda... Ajuda sim... Ajuda porque naquela época os pais querem ver você... é... gozado né?... Eu por exemplo, comecei a namorar, eu casei... eu já conhecia ela desde garoto, mas eu comecei a namorar já tinha vinte e cinco anos, vinte e seis anos. Vinte e seis anos, foi quando eu vim da padaria. Aí é que eu comecei a namorar ela. Quer dizer, como vinte e seis anos. vinte e sete anos. Mas os pais dela, o pai dela era sapateiro, ficaram... trabalhava em casa, a oficina dele era dentro de casa, que era um apartamento. Conseguiu fazer de sapateiro quatro apartamentos em Vista Alegre, um pra cada filho. Quatro apartamentos... E foi certinho, um pra cada filho. Sapateiro! Mas só que ele fazia sapato, que era botinha, era sapato de encomenda naquela época. Coisa de ... de artista mesmo. Quer dizer, então tinha uma situação mais ou menos boa, não era... não era das piores, não eram ricos, não tinham nada de riqueza, mas deviam ter... E eu conheci ela, a gente não podia... quer dizer, namorar tinha que tá alguém do lado. Ou uma irmã, ou a mãe... /Alberto: Antigamente era foda! / Se a gente saísse no carro, que graças a Deus, eu sempre andei de carro, a verdade é essa... Não era nem meu carro, era do Araújo, esse que eu levava e trazia todo dia, que ele morava lá pertinho da gente, lá dentro do Vista Alegre. Aí se ia no carro, tinha que ir alguém... Eu e ela sozinho, pra lugar nenhum. Qualquer coisa... Então era um respeito fora de série. Então a pessoa... isso era tradição. Hoje a gente vê os garotos aí /Alberto: Já tão dormindo em casa... / Dormindo não, passar o final de semana fora, com a noiva, a namorada. Quer dizer, totalmente diferente. Aí eu aviso a eles, naquela época era ruim, de facto era ruim, mas você conhecia a mulher só depois de casada. Hoje não, você conhece antes de casar... /Alberto: Primeiro põe dentro da moça, se vai dar certo ou não... {risos} (?)/ Duvido que você desse um beijo na, na... na sua namorada na frente de alguém. Pra beijar! Não é na boca não, até o beijo é no rosto. /Aberto: No rosto!/ Não tinha nada, apertar a mãozinha {risos}, até manhã, até amanhã e acabou! Quer dizer, o respeito de fato era bem diferente. Mas qual... é que, é o que a gente tava falando. O mundo mudou muito. Não poderia continuar daquele jeito né? (risos). A verdade é essa... Por isso também que até, até hoje... até na Igreja mesmo estão falando é uma verdade... as famílias hoje... nada tinha que desfazer a família. Hoje as famílias elas... elas juntam... se der certo deu, se não der.../Alberto: vai embora.../ A verdade é essa... Um ou outro casa e... né? [ É. ] (parte do resto) faz... um casamento legal agora. /Aberto: É / Muito pouco hoje. Pelo menos eu tou sentindo isso, quer dizer, então, aí que se torna o que? As famílias vão perdendo o respeito. /Alberto: Aí já aparece muita gente aí com filho né?./ Compara o nosso caso, se a gente tivesse fase de divertimento pra orientar né? O que que seria da gente? Será que teria cabeça pra... pra chegar e poder sobreviver como pode? Eu tenho clientes, clientes daqui ainda de trinta e quarenta anos atrás, ainda da época do Bonsucesso, [eles vieram pra cá, né?] Olha a gente chegou aqui, aqui na, não houve quem (mudava) (?). O pai dele, o pai dele, é... começou, era lá... era lá na, na... na Paris, a oficina. Aquela lá da Paris começou em sessenta e pouco, sessenta e dois. Primeiro foi a, não foi com o nome de Paris, mas foi com o nome de Marmarense, /Aberto: Marmarense! Que é o nome de Armamar.. Armamar, onde a gente nasceu... Onde a gente nasceu em Portugal. Então a primeira firma que a gente abriu na Paris, o nome era Marmarense, era, o meu pai, o nome de meu pai, dele do Alberto e eu, quer dizer, o nome dos três. Aí eles, ele... a gente foi pra Cascadura, ele ficou lá tomando conta da Marmarense. Só que... Depois disso, depois ele foi pra CarWagem e ele largou a Marmarense. Aí quando eu saí de Cascadura, de Cascadura... da padaria, foi quando eu fui ser empregado lá, na Pa... Aí vendeu pra um, tio do Wilson, pro tio do Wilson, não! Tu largou na mão do tio do Wilson, e do Wilson. /Alberto: Eu fui pagar minha parte lá.../ É! /Alberto: O tio do Wilson entrou, só com uma parte / Pois é, eu sei, aí, aí eu fiquei com a tua parte, por que tu era sócio. /Alberto: É eu era, eu tinha de pegar uma parte./ Só que tu foi pra CarWagem lá onde... /Alberto: Eu fui lá pra CarWagem... / ...na Avenida Brasil. /Alberto: Foi quarenta mil, quarenta mil cruzeiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: O senhor conversa com seus filhos sobre Portugal? Ou conversava, sobre Portugal...&lt;br /&gt;Seu Ernesto: Sempre, sempre, sempre... [O que que o senhor dizia pra eles?] Ah, contava as coisas boas e as coisas ruim né? Que a gente passou lá. Agora, só que eu lá de facto, eu não tive coisa ruim, a verdade é essa. Mas eu sabia que as famílias lá, era difícil sobreviver. Que tinha muito trabalho na roça. /Alberto: O fut... o futuro lá é.../ Lá é roça, não tinha nada de, de comércio, praticamente. /Alberto: ...só podia se tirar uma herança pra tu... / Para ficar rico ali dentro, no local onde a gente morava não tinha como, a gente só podia era sobreviver, viver de um trabalho dia-a-dia, trabalho (?) /Alberto: A comida não faltava porque o.../ É porque, já tava, fartura tinha. /Alberto: O porco cara, tu mata dá pra um ano todo./ É você marcav... você alimentava o porco com comida, de que? Com legumes, com tudo que é de que pode... /Alberto: É, planta... / Nada era comprado naquela época, não existia esse negócio de ração. /Alberto: Era... abóbora, aquelas abóboras.../ É aqueles panelões de.. /Alberto: Era tipo uma.../ Aí matava aquilo pra dar alimentação pro ano todo, todo ano tinha que matar... Mas era o que. Oitenta quilos? Um porco de oitenta quilos. /Alberto: Pô, não, uma (misancia) era quinhentos quilos/ Sei lá, era muita coisa. /Alberto: Era um grandão aquilo era uma praga pra matar. / Mas é, a pessoa, vê ó. Vaca não tinha lá, leite de vaca não existia, /Alberto: Só de cabra.../ ...e boi não existia, também... /Aberto: Também não.../ Carne? Comer carne? Jamais, eu só vim saber o que era carne aqui, lá até tinha carne, até tinha, mas pra comer carne de boi não exisita, ninguém matava boi lá, de jeito nenhum, boi era só pra puxar carroça, e envelhecia, morria, acabou... /Aberto: Lá não matavam não, não tinha.../ Não tinha isso aí, agora tinha um carneiro, a cabra o coelho, aí sim, mas de exceção... /Alberto: A caça tinha.../ A galinha, o frango né? /Aberto: Galinha, é, o frango também.../ E... o peixe! O peixe era fartura a verdade é essa. /Aberto: O peixe vinha quase todo dia trazido da (Alejo).../ Todo dia tinha peixe, fresquinho... /Aberto: Do D’ouro, vinha a peixeira lá, meu pai que dava até carona.../ Ou ia de carona de caminhão ou ia no ônibus, o ônibus que fazia era... Viseu... /Alberto: Moitenta da Beira, Viseu (?) / Era... perto do Porto não chegava ao Porto, era antes do Porto era... Vila Real! Fazia Vila Real-Viseu... /Alberto: Fica pro outro lado Vila Real.../ Eu só sei que era uma vez por dia, que ela passava pra um lado... /Alberto: Com horário, só tinha um horário, você pega ou larga, não voltava, você tinha que andar.../ Então justamente esse caso da, da peixeira que ia pegar o peixe lá no D’ouro, ela podia ir no ônibus ou vir no ônibus, já que às vezes o caminhão não dava pra levar e trazer. /Alberto: É o pai às vezes ia pra.../ Ia pra lugar que não voltava nem pra casa, ficava 4, 5 dias /Alberto: Até falavam que o pai tava comendo ela... {riso do seu Alberto}/ A peixeira lá, mas isso faz parte da vida né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Seu filho tem algum traço assim, seus filhos têm algum traço que você ache português, um traço português mesmo?&lt;br /&gt;Seu Ernesto: Não, acho que não que... porque, eu não tive nada de, de... mudança pro lado europeu, a única coisa que consegui conter o lado europeu é a honestidade, é levar a coisa a sério e ensinar a eles o caminho certo, só isso, por que a verdade é essa. Não adianta, você: “ah, é fácil ganhar dinheiro é só enrolar, é só...” não adianta. Eu falava sempre isso, não adianta, o freguês tem que ser amigo, não adianta dizer: “o freguês é rico”, tem que ser amigo... amigo é o que? Você tratar bem dele, cuidar bem dele, né? Fazer o serviço direito, não enrolar, por que é bom quando vê freguês, tem freguês que hoje continuam os filhos, que os pais faziam comigo, os filhos fazem com eles, que dizer, isso alguma coisa de bom deve trazer, né? Porque jamais uma pessoa que (vem ter 20), 30 anos, que os filhos vão crescendo e depois dão continuidade... Deve ter alguma coisa de bom. Agora, sobre o resto acho que eu aprendi mais foi aqui mesmo, a verdade é essa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: E em casa tinha comida portuguesa, (?) das crianças?]&lt;br /&gt;Ernesto: Não, porque minha esposa também veio aprender [aqui...] aqui, quer dizer, o caso da minha mãe, por exemplo, ela ainda fazia algumas comidas portuguesas já a minha sogra já não fazia... tanta coisa. Que ela também não era, o local dela, não era um local de alimentação variada. /Alberto: Tem lugar de Portugal que é meio brabo.../ É a alimentação é aquele arroz e feijão, que lá num é arroz e feijão é batata e cebola {risos}, o feijão, mas não preto! Não preto! Feijão ou branco ou amarelo /Alberto: Aquele negócio: feijoca.../ Feijoca! Que aqui a comida é totalmente diferente. /Alberto: A alimentação aqui é muito boa, não tem como.../ Agora é lógico, tem algumas coisas tradição que minha mãe fazia aquelas bolas, aquele bolo rei... Até hoje a gente compra na padaria... ali na Majestosa, uma padaria que tem. /Alberto: Na Ilha.../ Na Ilha, aquela broa que lá... o folar! /Alberto: É o folar, é.../ O nome que a gente dá é folar... Que lá em Portugal eles fazem uma festa quando é na Páscoa, então eles fazem aquele pão que é um pão maravilhoso, ele é recheado de, só de toucinho, lingüiça, então dá um sabor ao pão maravilhoso... Quem sabe fazer né? E o cara lá é português, o dono, quer dizer chega lá, /Alberto: Lá da região do (?)tejo)/ Pra você ver, lá é uma coisa que lá faz uma vez por ano, não pode fazer também direto, porque alimentação é... /Alberto: É tradição do lugar/ Ele passou a fazer uma vez por domingo, todo domingo ele faz, e todo domingo, quer dizer ele não faz muita quantidade, deve fazer uns 10, 12, no máximo 20, o pessoal gosta né? {o seu Ernesto dá uma gargalhada}&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Olhando pra trás assim, o que é que o senhor vê de mais positivo da decisão de ter vindo pro Brasil?&lt;br /&gt;Ernesto: Acho que... positivo, bem, assim como que... [trajetória...] olha, eu acredito que lá não tivesse construído o que graças a Deus construí aqui, a verdade é essa. Na Europa não teria esse privilégio, que é justamente o imigrante quando vinha pra aqui já vinha com esse destino. Que teve muitos também que nada conseguiram, a verdade é essa, Meus parentes, mesmo amigos, teve muitos que chegaram aqui e só tiveram... /Alberto: Tiveram a casa.../ a casa, a casinha pra morar e... /Alberto: aquele lá, (Carneiro)... / é, não precisa muito, o tio (Luê), os filhos, só teve o Joaquim que evidente que ainda é dono lá na... daqui da (Verticalet), o resto tudo /Alberto: (?)/ Eram três filhos, três, era o Joaquim, o Luiz, /Alberto: O outro morreu.../ o Joa... o Luiz é que morreu, e o Clélio, /Alberto: Clélio, o Clélio é.../ O Clélio chegou a ser engenheiro agrônomo, hoje está jogado /Alberto: Que ele casou, a garota era boa pra caralho na época, aí botou um chifre nele rapidinho, hoje ele tá com uma escura parece./ É, naquele dia que a gente foi lá que a gente... /Alberto: (?) / era irmã da minha mãe, então muitas famílias aqui também não sobreviveram bem não, que esse meu tio, o Clélio nasceu aqui, mas os dois... /Alberto:Lá do lado de lá./...já vinham de lá, só um que conseguiu progredir, que foi o Joaquim e os outros dois...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: E negativo, da vinda pra cá? Teve alguma coisa de negativo?&lt;br /&gt;Ernesto: Pra mim não. Só teve coisa boa. A única coisa que eu posso dizer é o que? Que lá eu garoto né, criança, a gente tinha no lugar que a gente morava era um lugar que tu tinha fruta, tudo que era fruta. Desde até a cereja que é uma das melhores comidas que tem. /Alberto: Na época das frutas.../ você ia na árvore e pegava... /Alberto: Até aquela pinha/ ...a maçã você ia na árvore e pegava, a pêra tu ia na árvore e pegava... /Alberto: E a pinha do (marão).../ A pinha, a castanha... /Alberto: tem uma pinha do (marão) que só dá acho que é uma vez por ano onde... / A castanha é uma vez por ano só, só em dezembro /Alberto: Não a pinha do marão que tinha lá na (?), só tinha uma / Eu sei, eu sei, mas eu digo lá na gente tinha os pinheiros da castanha, uma vez por ano só em dezembro, é o ouriço /Alberto: O ouriço.../ Aí tu abre ele e sai duas castanhas, duas castanhas de dentro. Isso de facto era uma coisa muito bonita mesmo, nós éramos crianças também... A uva! A uva você pegava no [cacho?] no cacho... /Alberto: Conta pra ele a.../ na videira ainda... /Alberto: A bebida, e depois que deu o... chamavam ela o... quando acabavam de fazer a bebida sempre ficava um.../ Ah, é... /Alberto: Eles davam um nome.../ Eu num me lembro agora o nome que davam ao... / Alberto: É o... aí saía, a garotada saía toda atrás daquela, que aí sobrava que eles não apanhavam tudo, não dava tempo de apanhar tudo, tavam escondida daí então ela depois ainda crescia, aí ainda crescia mais ainda, aí a gente dava um nome lá, aí ficava apanhando aquele troço. Ó, o único que teve em Portugal por nove meses foi o Beto, (Giovani) / Com os pais da... /Alberto: Com os pais da.../ da esposa dele. /Alberto: Eles queriam ficar com ela lá e o caralho, e não... foi quando ele nasceu lá, não, ele foi feito lá e nasceu aqui. Eles queriam que ela ficasse lá pra ter o filho lá, eu digo não pô.../ E os pais dela tem situação lá, tem? /Alberto: Tem, (difícil)... / Quer dizer, tem imóveis, e o irmão dela também tem alguma... /Alberto: O Joaquim é da Câmara de (Elmar), presidente da Câmara de (Elmar)/ ele trabalha pro governo, lá o cara que trabalha pra... tem um a situação de ordenado muito bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: O que que o senhor diria pra um português que estivesse querendo vir pro Brasi, hoje?&lt;br /&gt;Seu Ernesto: Hoje? [o que que o senhor diria pra alguém que quisesse vir pra cá ganhar a vida?] Pra um cara que tiver profissão é maravilhoso aqui. Só é ruim mesmo pro cara que vier pra trabalhar em que? Se não tiver... uma profissão eu acho que, eu não daria de jeito nenhum, incentivo nenhum... /Alberto: Eu acho que... pra trabalhar na roça ou então na.../ Claro! /Alberto: tem profissão que.../ Tenha profissão, agora com profissão acho que não tem lugar como é aqui no Brasil, mas não tem mesmo, não precisa ser nem... /Alberto: Mas o cara dando boa (troça) ele.../ Não... a profissão que tu tenha, sabe que tu, aí foi o nosso caso, se a gente não tem uma profissão... Ia ser um butiquineiro, ia ter um armazém, uma padaria... Conforme a gente, chegou até a trabalhar... Mas, já num é profissão, já é comércio, porque? Porque tu não vai fazer pão, tu não vai fabricar nada que tu vai vender né? Já aqui não, aqui a mão de obra já é diferente, é de profissional mesmo... [tem que saber...] Tem que conter conhecimento de, de... Ainda mais agora que naquela época os carros era... mas hoje, hoje é tudo elétrico. Hoje você apesar de ter uma boa mão de obra tem que ter muito estudo, tem que fazer muitos cursos, pra poder trabalhar até com maquinário, a verdade é essa. /Alberto: Ó cara tem que ir dar pô, senão.../ Agora, tem que gostar né? /Alberto: ...você trabalha com um cara que não.../ É o mesmo caso, os meus mesmo, só dois deram pra mecânica os outros dois, já só pra, organizar a firma pra tomar conta da firma, o Marcelo e o Netinho. /Alberto: Ó, o meu moleque (saiu pra mecânica mas o meu foi no final, pô...)/ Tu vê, eu não forcei nenhum deles, os quatro trabalham juntos. Coisa que, de facto, qualquer patrício fica maluco, um diz “não é possível, não existe, um negócio desse, quatro irmãos juntos”. Briga tem, lógico, briga de que? discutir, mas sair no tapa esse negócio, agressão não, nunca, graças a Deus. Mas eu não obriguei ninguém a fazer isso não, ah! não fiz... quando eles tinham uns 15 anos, 15 anos com carteira assinada né? aí eu falava pra eles: “ó, a profissão de vocês é vocês gostarem, vocês querem trabalhar comigo, aqui trabalha, se não quiser num...agora, só tem uma coisa, ficar dentro de casa não vai ficar, que vocês não são aleijados, não são malucos, não tem doença nenhuma, tem que trabalhar, tem que arrumar uma profissão lá... Que dentro de casa eu não vou deixar vocês entrar se... vagabundando, fazendo nada na vida”. Aí eles preferiram ficar, nenhum deles trabalhou de empregado em lugar nenhum, desde, desde... ó, o Marcelo tem carteira assinada dentro da firma desde 14 anos, hoje ele tá quase formando, tá aí 38, tu vê, daqui a pouco tá aposentando. Os gêmeos foi com 16 foi porque eles eram... os gêmeos eram mais fracos né? Então a gente deu mais uma colherzinha, de começar... mas já vinham pra aqui, só que não pegavam aí no... aí assinou com 16. O Netinho também já foi com 16 também porque tentamos dar a ele estudo... mas a cabeça dele num... num tem jeito... /Alberto: Não sei se foi a.../ É o Netinho não conseguia, Marcelo também não quis estudo... /Alberto: (?) / a cabeça não... e já pra administrar o Marcelo é um cabeça fora de série, quer dizer administrar. E outra coisa, comerciante, tem que saber conversar com o freguês, a verdade é essa, porque é o que a gente fazia, sempre fez, é um facto. Jamais a gente deixava de levar um carro no cliente e trazer. Teve uma vez, nem te contei essa. O Geraldo, da família Werneck, que é... Werneck é aquela que tem a faculdade aqui em Petrópolis, da família, ele é (?) o Geraldo era deputado e o Zé era do Banco do Brasil, a gente ia levar os carros e pegar lá nas Laranjeiras, ali na, no largo das Laranjeiras ali, eles moravam num edifico ali. /Alberto: Aí o Geraldo era da família do Lacerda. / É do Lacerda, mas ele é, é da, da, era da família Lacerda só que.../ Eles chegaram um dia, eles tinham tanta confiança na gente que deixaram um dinheiro de, fizeram uma... Deixaram um dinheiro dentro do carro pra ver o que que ia acontecer com esse dinheiro... por acaso eu... /Alberto: Mais pra testar.../ Isso que eu falei, uma experiência se de facto... Eu peguei o dinheiro que estava lá no chão e botei no porta-luvas, quando cheguei falei: “ó, ta vendo o dinheiro tava aqui no chão” Tava, não existe... /Alberto: (?)/ Quer dizer, então eu acho que a formação de uma pessoa vem nisso, porque hoje você vê, desde aquela época a gente leva e traz carro do cliente, as famílias, é só ligar, “ó, pode pegar meu carro tá com esse problema, assim assim...”. Quantas oficinas fazem isso? Será que tem? As pessoas vêm aqui dentro, as famílias, vêm aqui dentro da oficina ficam maravilhadas... /Alberto: Gente da zona sul que se dá o luxo de, liga e manda apanhar o carro. É mas, e a confiança? /Alberto: Mas nem todos tem, vai muito do motorista, trazer, confiança.../ A maioria, a maioria, é o motorista que leva, agora, fazer que nem a gente faz, a própria família ligar, que aí uma família fala pra outra. Já é tradição, já aprende... que, Alberto, é muito carro que eles levam e traz, não é de firma não, que aí é normal... particular! Famílias chegam aqui ha, não adianta... /Alberto: Chega até, porque às vezes tu tinha que sair do local pra levar o carro, por exemplo, pega a Lagoa, pega o não sei o que, saía daqui meio-dia, só tá de volta três horas, quatro horas, dependendo do trânsito.../ Dependendo do trânsito, e da hora que... /Alberto: ... aí você ficava, “caralho não fiz nada!”, a oficina ficou parada, é um contratempo mas, tinha que ser viu, cara.../ Num tem jeito tem que servir... /Alberto: Esse que ele tá falando, o deputado, então, eu levei ele em Brasília, num Américo/ É naquela época, num Américo. /Alberto: Ele tinha um Américo, eu levei ele em Brasília, e eles queriam que eu me naturalizasse brasileiro.../ Eles queriam até arrumar no Banco do Brasil... /Alberto: Arrumar no banco, nas oficinas do Banco do Brasil/ ...pra trabalhar nas oficinas do Banco do Brasil /Alberto: Que já tinham.../ A nossa cabeça era mais trabalhar pra gente, a verdade é essa... /Alberto: E qualquer serviço que vinha, qualquer um que falava com eles: “pô, tou com meu carro assim”, “não, então pera aí deixa eu ligar, vou ligar pra eles”. Aí ele ligava a gente ia lá resolver a parada./ Você vê, em 62 eu tava com 22 anos, na Paris, já tinha a Paris mas com o nome Marmarense, ainda não era Paris, era Marmarense. /Alberto: Quando eu Wilson entrou, aí virou Paris./ Aí, o cliente morador lá do lado, ele era vendedor de arroz, e o arroz é lá, Uberaba Uberlândia, Uberaba, aí um cliente dele lá, um dos sócios dele, que ele é representante aqui no Rio, falou pra ele ir lá pegar um DKV. Pra trazer aqui, pra vender pra ele um DKV, naquela época! DKV aquela marca linda. /Albert: (?) / Não DKV, era o DKV mesmo! Aí ele foi de ônibus e eu com ele, que ele não era muito bom de dirigir não, o Nonô, foi de ônibus daqui do Rio a São Paulo, em São Paulo pegamos um ônibus. A estrada de Uberaba ainda era barro malandro, o ônibus enguiçou naquela poeirada malandro. /Alberto: A estrada de Brasília era.../ E depois de Uberaba a Uberlândia, ainda era mais cem quilômetros de barro. /Alberto: A Brasília ainda tinha estrada de chão./ Aí me lembra disso, porra, agora tu vê o que é né? Lugar que eu nunca andei na minha vinha, a gente vinha, a viagem tranqüila, passava por São Paulo direto vinha, olha, fizemos isso num dia naquela época! Com um DKV. /Alberto: Ah, eu fui pra Brasília, foi dois dias na época, que a estrada era de chão, nós dormimos em Belo Horizonte porque ele tava com a família, tava, ia de mudanças, já ia deixar, já ia pegar o Geraldo Werneck. / Ele ia ficar por lá mesmo. /Alberto: Ele tinha que ficar lá, então já ia levando quase tudo pra lá, o caminhão levava os troços e ele.../ E ele ia com carro /Alberto: ...ia de carro com a família, ai fomos dormimos em Belo Horizonte. De Belo Horizonte nós tocamos fomos almoçar em Sete Lagoas, Sete Lagoas depois ele disse assim: “pô , deixa que eu levo um pouco”, aí eu digo assim: “puta...” aí tudo os carros são poucos, tu já vê.../ Foi o que aconteceu comigo com o Nono, lá em Barra Mansa fui dar o carro pra ele dirigir, naquela época a pista era mão dupla, era uma pista só, mão dupla, então o que que ele foi, ele foi ultrapassar aquela subida de Barra Mansa, aquelas subidas lá, com um DKV foi ultrapassar um carro malandro, veio outro de frente a sorte é que tinha acostamento. Ah, joguei ele pro acostamento, eu mesmo virei o volante, foi uma coisa de segundos, ia pegar de frente, caminhão de (?) /Alberto: Ah, o caminhão não vira! Aí ele deu uma cochilada e eu: “opa Geraldo, pera aí!” eu disse: “Geraldo (Rosa) dá uma paradinha aí que eu já tirei um cochilo”/ Porra... /Alberto: Ia descer uma (ponte) fudida, muita curva.../ {risos} Vem uma curva danou /Alberto: Ah... cada uma que não é mole...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: O que significa pro senhor ser português? {Seu Ernesto me encarou fixamente por alguns segundos antes de responder}&lt;br /&gt;Ernesto: Eu acho que eu dei muita sorte, porque eu vim de uma família tradicional muito boa. Eu acho que nessa parte pra mim, foi a coisa que eu jamais me arrependo de nada, por causa disso justamente. Embora hoje eu seja mais brasileiro do que português, a verdade é essa, não adianta dizer “ah porque...”. Até não sou nem naturalizado nem nada mas a verdade é que hoje... porque? Porque a família tá tudo aqui, e, as raízes tá tudo aqui, o que eu plantei tá tudo aqui, jamais eu trocaria o Brasil, não digo nem o Rio de Janeiro, o Brasil, porque a gente andar aí pra fora. Se aqui é bom aí fora também tem lugar muito bom, então, quer dizer, jamais trocaria pela Europa. /Alberto: É muito grande o Brasil. / Não trocaria mesmo, de jeito nenhum, depois que a gente plantou aqui né, a verdade é essa... Nem meus filhos também seriam adaptáveis a Europa, primeiro o clima, já é outro, coisa que te deixa muito triste, você vive meio ano e... /Alberto: Meio ano é neve../ Meio ano é praticamente... /Alberto: É chuvas e neve../ Não... é neve, frio... tem que andar todo agasalhado tu não... não pode sair pra lugar nenhum. /Alberto: Plantação... tudo.../ Meio ano é inútil, aqui não, tu vive o ano todo e até de noite. {Seu Ernesto dá uma risada} E ainda tem isso, até de noite. Eu acho que Brasil acho que foi o lugar certinho, que eu acho também que alguma coisa ajuda né? Eu acho pra mim se eu vou pra outro país acho que não daria certo, teria que ser aqui mesmo... Devido também a minha cultura, meus familiares, isso ajudou muito também. /Alberto: tivemos um apoio né?/ (?) Jamais, a nossa família então, foi sempre uma família muito correta, parentes tudo. Nunca graças a... num me lembro um parente, no distrito tudo bem até, é normal no distrito, ter uma briga, ou ter um (caso), isso é normal.. Mas de ser preso por isso ou por aquilo. /Alberto: Não nunca teve nada.../ Nunca, não me lembro mesmo, nunca, nunca graças a Deus nunca fui num... Aliás pra não dizer que não fui numa prisão, sabe como é que eu fui? Não era nem prisão aquilo. Mas, era ali na, aqui no... Catumbi a polícia PM, o doutor Waldir... /Alberto: Ah o Waldir é, que matou a.../ Não matou aquilo ali foi... /Alberto: ...o cunhado né?/ Ele foi... a mulher, ele separou da esposa, doutor ele era da... era advo.. /Alberto: Não ele era engenheiro.../ CEDAE né? /Alberto: Ele era engenheiro de obras.../ Mas ele era da CEDAE. /Alberto: É ele era, ele teve prisão... [especial] especial.../ Aí ele brigou com a mulher e depois de anos de brigas, que já tavam separado, o irmão dela, da esposa dele, eles discutiram alguma coisa e o irmão se meteu, e matou o irmão da esposa... Foi preso. Aí eu ia lá na.... que o doutor Palmeira é um cara amigo pra caraca da gente... maior parceiro. não, é que naquela época era lá na (cadeia) /Alberto: Mas ele era parente do Lula,(?)/ Mas era parente também do (Aloísio Coelho) sócio meu lá da Paris. Mas a gente era muito, muito amigo mesmo. Tu vê eu ia lá toda, toda, um dia da semana eu ia lá fazer uma visita a ele. Que ele não ficava preso, enjaulado não, ele ficava... /Alberto: Não, era cela especial pra... / Cela especial pra advogado mesmo, /Alberto: É o quarto é enorme/ ...o nível da pessoal, e era naquela época, era ali na PM, da Caxam... Catumbi ali né? /Alberto: Ali no batalhão que tem ali.../ É, na PM...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: Como é ser português no Rio de Janeiro?&lt;br /&gt;Seu Ernesto: Hoje? Nada de errado. Hoje é maravilha, naquela época não... Te chamavam de que?{Seu Ernesto dirige essa pergunta ao seu irmão} /Alberto: Era.../{silêncio} Espanhol? /Alberto: Era espanhol.../ não, não, não, era galego! {Seu Ernesto solta uma gargalhada} /Alberto: Ó o galego aí, vermelho pra caralho, no frio.../ Era galego e mais o que? Português... hoje só dá, hoje só amizade, só coisa boa, agora naquela época também era pior porque a gente era criança ainda né? Então, pô, tu vinha de um lugar que todo mundo gostava de você... Mas sacaneavam daquela de fazer pirraça mesmo. /Alberto: Aí chegou o galego aí!/ {risos} Mas aquilo já era da época mesmo, ninguém mudava não... /Alberto: Eu tenho empregado que até me chama de pai, meu segundo pai, ele e a família tá sempre ligado/ Ah, o Ferreira ta sempre por perto... /Alberto: mora na favela, na Nova Holanda. Tinha muita gente também, muito.../ Empregado nosso era amigo nosso, sempre foi, nunca... /Alberto: Tudo que tu podia dar, tu dava, também levava volta pra caralho, roubavam carro... / É, mas naquela época também, é aquela história né, era mais facilidade. /Alberto: Muito roubo de carro que tinha era de empregado.../ A pessoa naquela época deixava, por exemplo, uma firma mais na mão do empregado. Coisa que hoje, não pode acontecer isso. Então eu acho que existia uma confiança maior no empregado. Eu quantas vezes eu viajei pra São Lourenço, e o meu lanterneiro é que fechava a oficina no final do, e vinha até fazer serviço. Coisa que hoje tu não tem condição, quer dizer, não é o certo, deixar o empregado entrar na firma... /Alberto: Ele podia pegar os carros com valor alto (e que estão) (?) / E hoje, por exemplo, trocar uma peça de carro, uma bomba de gasolina, um... é tudo caríssimo, naquela época era o que, tudo mixaria, o motor era tudo mecânico não tinha nada elétrico, hoje é tudo um absurdo o valor. Você tem peça aí que tá mais de dois mil reais. Uma pecinha pequenininha que tu não dá valor nenhum aquilo, e é uma coisa fácil de pegar do, vamos dizer de um carro que já rodou, que está no final quase do... Que aquilo tem uma certa duração, tempo de... Eles trocam, trocam essas peças e revendem pra outros. Então hoje tem que ter muito cuidado com empregado pra não dá esse mal estar a ele, quem acaba perdendo o empregado é... /Alberto: As peças das autorizadas maiores, dessas antigas de mais gabarito, tu vê que as vezes gerente de loja tão tudo envolvido numa porra dum troço. Sai um estoque de tantos carburador, tantas bombas, quando tu vai ver, “vamos levantar”. Aí vai levantar tem duas bombas velhas e não tem...{risos} É!/ É isso antigamente acontecia também. /Alberto: É que nós tínhamos até um almoxarifado./ Sempre teve almoxarifado e era aberto, nunca foi fechado. /Alberto: Ferramentas também.../ Ferramentas, máquina de furar, tudo, lixadeiras, era tudo a vontade, o empregado ia direto lá, não tinha nada de “ah, vou entregar...”. Hoje já é diferente, hoje tá tudo aí ó fechado. {o entrevistado apontou para um salinha acoplada ao escritório} /Alberto: Quando eu comecei na loja também na (TVE), aí era tudo por senha, de manhã cedo largava a caixa levava. Aí se queria pegar uma ferramenta, deixava a ficha e levava a ferramenta, então tinha que devolver.../ Senão não pegava a ficha. /Alberto: ...pra poder pegar a ficha de volta senão a ferramenta tava com ele, aí tu já sabia com quem tava. Depois é porque era muito, muito... sumia mesmo. / Sumia, a verdade é essa. /Alberto: Ou deixava dentro de casa, ou então, a ele ia pagar do bolso dele, aí se virava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: O senhor quer acrescentar mais alguma coisa?&lt;br /&gt;Seu Ernesto: Não tem nada de, o que que você acha (?) tá no limite? Tá no limite? Tá no limite... [não, se o senhor quiser mais, vai mais] É assim... que o principal já foi dito, é eles pra mim acho que foi a maior vitória os quatro tá progredindo né? Que eles fossem dizer assim “não, mas a firma”, não, cada vez tá progredindo mais, acho que não tenho, graças a Deus nada de errado. Agora não... só peço a Deus que eles dêem sorte é no casamento. /Alberto: Complicado né, isso é que é mais.../ Isso é que é a coisa mais triste que tem, é tu ver um filho né? /Alberto: Que as vezes até tá vivo, também com próprio.../ A família! separar... /Alberto: Já fica desanimado.../ Não, aí já desorienta a vida todinha da pessoa, nunca mais é a mesma pessoa. /Alberto: A família é uma tradição boa./ Então de mais o que eu peço é isso, é que eles, consigam pelo menos ser feliz com a família. Que é muito importante pra eles. E o resto é só Deus ajudar e dar saúde, que é muito importante, sem saúde também nada acontece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Leitão: O que que o senhor achou da entrevista?&lt;br /&gt;Seu Ernesto: Acho que valeu. [gostou?] Valeu! E espero que pra você também, [Com certeza, muito obrigado viu?] Nada, de nada, eu acho que a gente... [É uma ajuda que eu acho muito preciso as pessoas que querem, estão dispostas a ajudar a gente.] E se de fato é pra ajudar só agradeço a você também. [Obrigado ao senhor, vou trazer uma cópia pra você da... de tudo que foi dito, e por escrito] Certo... [Pra você ler e confirmar] ...certo... [tá bom?] tá ok... [vou desligar aqui]&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Trata-se do nome do motor que tem refrigeração a água, assim como na dúvida anterior.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38027118-116899636384772846?l=fadotropicalrio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/feeds/116899636384772846/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38027118&amp;postID=116899636384772846' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/116899636384772846'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/116899636384772846'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/2007/01/entrevista-fado-tropical-no-38-ernesto.html' title='Entrevista Fado Tropical no. 38: Ernesto Orlando Guedes Pereira e Alberto José Guedes Pereira'/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38027118.post-116899578882091517</id><published>2007-01-16T16:51:00.000-08:00</published><updated>2007-01-16T17:03:09.113-08:00</updated><title type='text'>Entrevista Fado Tropical no. 37: Carlos José Martins</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Entrevista Fado Tropical no. 37: Carlos José Martins&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FICHA DE ENTREVISTA PROJETO FADO TROPICAL: EFT-037        &lt;br /&gt;Data de realização da entrevista: 10/11/2006     &lt;br /&gt;Local: Clube Português de Niterói&lt;br /&gt;Entrevistado(a): Carlos José Martins&lt;br /&gt;Data de nascimento: 10/04/1927&lt;br /&gt;Local: Portugal, Distrito de Bragança. Freguesia do Rebordelo&lt;br /&gt;Data de chegada ao Brasil: 08/10/1950 &lt;br /&gt;Local: Rio de Janeiro&lt;br /&gt;Profissão atual: Comerciante&lt;br /&gt;Profissões anteriores: Comerciante&lt;br /&gt;Estado civil: Divorciado &lt;br /&gt;Filhos: Dois Filhos nascidos em Portugal&lt;br /&gt;Netos: 4 netos&lt;br /&gt;Entrevistador: Michel Fontenelle  Alcoforado&lt;br /&gt;Curso: História  &lt;br /&gt;Período:  6&lt;br /&gt;Gravação: (X) em fita cassete&lt;br /&gt;No. de fitas: (1)&lt;br /&gt;Duração total aproximada: 37’’&lt;br /&gt;No. de páginas do depoimento transcrito: 14 (Arial 12)&lt;br /&gt;Data da conferência: 24/11/2006&lt;br /&gt;Data da assinatura da carta de cessão: 24/11/2006&lt;br /&gt;Fotos: (X ) sim&lt;br /&gt;Número de fotos: 4 fotos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Projeto “Fado Tropical” – História Oral&lt;br /&gt;EFT-037&lt;br /&gt;Entrevistado: Carlos José Martins&lt;br /&gt;Entrevistador: Michel Fontenelle AlcoforadoLocal: Clube Português de Niterói&lt;br /&gt;Cidade: NiteróiBairro: Ingá&lt;br /&gt;Data: 10/11/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convenções:&lt;br /&gt;( ) Trechos que não entendo devido a dificuldades no áudio &lt;br /&gt;“  “  utilizadas quando o entrevistado ou o entrevistador citam a fala de alguém&lt;br /&gt;[   ] Utilizados sempre como facilitador  do leitor para que este consiga, mesmo que parte, aprender o ambiente e manifestações que aconteceram durante a entrevistas e que não podem ser captadas pelo áudio.&lt;br /&gt;Notas de Rodapé: Utilizadas com o intuito de esclarecer sobre situações que não ficam claras no decorrer da entrevista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Michel: Dia 10 de novembro de 2006, estamos aqui com o Sr. Carlos Martins do Clube Português fazendo uma entrevista pro projeto Fado Tropical da Universidade Federal Fluminense. Sr Carlos, como era a vida da sua família em Portugal?&lt;br /&gt;Carlos: Ótima, maravilhosa, família unida.&lt;br /&gt; M: Eram muitos, a família era grande?&lt;br /&gt;C: Não, éramos três irmãos e meu pai e minha mãe. E a família que eu digo família.Nascemos no meio de muita harmonia e muita paz e muito amor e muito carinho.&lt;br /&gt;M: O senhor tinha muitos tios, parentes. Vocês se reuniam muito?&lt;br /&gt;C:Tinha, mas a gente só se reunia lá no dia da função, que era a matança do porco. Em dezembro, então se matava o porco e se reuniam famílias todas. E faziam um almoço pra essas famílias todas. Inclusive as festas que lá tinham. Tinha Festa do Maio, Festa da Nossa senhora da Trança, Festa das Varas. Então sempre se reuniam a família.&lt;br /&gt;M: E seus pais trabalhavam em que?&lt;br /&gt;C: Meus pais eram comerciantes proprietários.&lt;br /&gt;M: E como era a aldeia, o senhor me contou que vivia em um aldeia, Né?&lt;br /&gt;C: Lá onde vivíamos era a maior aldeia do Conselho, era uma aldeia composta por... Tínhamos a Guarda Fiscal, tínhamos os correios, tínhamos Igreja do lado da aldeia. Portanto era uma aldeia freguesia, porque haviam outras aldeias que era agregadas a ela.&lt;br /&gt;M: A aldeia freguesia é uma aldeia maior?&lt;br /&gt;C: É mais destacada vamos dizer, qualquer um que queira fazer um registro de nascimento, por acaso eu fiz muitos com meu pai que era procurador do registro civil. E as pessoas vinham das outras aldeias pequenas registrar os filhos, registrar os óbitos. Só não casamentos, casamentos tinham que ser no conselho.&lt;br /&gt;M: E o que falavam do Brasil lá em Portugal na época?&lt;br /&gt;C: Falavam bem,  eu vim pro Brasil até por questões que não me dava muito bem. Porque eu me casei com 16,5 e meu casamento foi um fracasso. Embora eu tivesse casado com uma prima carnal minha e onde nasceram 2 filhos e eu já era estabelecido, em 1944 eu me casei e me estabeleci. E em 1950 eu vim para o Brasil, porque eu não agüentava porque minha esposa era mais velha.E eu não era acostumado a ser dominado por ninguém e ela queria me dominar porque eu era mais criança. Então eu vim para o Brasil onde eu me erradiquei onde aqui havia um cunhado&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt; que me deu uma ajuda, que me deu uma sociedade em uma casa. Uma padaria na Avenida Celso Garcia no numero 446, ainda existe essa padaria. Luxuosa Padaria e Confeitaria Rio de Janeiro Ltda, onde trabalhei 3 anos e depois foi vendida e eu já fiquei com meu capital bom para me estabelecer eu comprei... Foi uma luta, uma vida de luta, de trabalho e de sacrifício, em cima de uma caminhão cheio de miudezas que trilhei toda Santa Catarina e Paraná sem conhecer um palmo de terra e lá muito aprendi e trabalhei lá trabalhei uns 8, 10 anos até que comecei a ganhar um bom capital, desse capital bastante para poder me estabelecer aqui.&lt;br /&gt;M: Então o senhor pra cá tentando esquecer um pouco aquela vida que tinha em Portugal?&lt;br /&gt;C: Exatamente, queria esquecer o meu casamento.&lt;br /&gt;M:Começar de novo..&lt;br /&gt;C: começar de novo a minha vida deixando de lado os filhos que graças a deus estão ai agora, por sinal até muito bem.&lt;br /&gt;M: Sr Carlos, e porque o Brasil, porque o Rio de Janeiro?&lt;br /&gt;C: Porque nós lá... Evidentemente, é a mesma língua. Foi um país que de qualquer maneira pertenceu a Portugal, já estavam aqui parentes, tinham parentes aqui. Tinha muitos amigos aqui de minha aldeia.&lt;br /&gt;(Interrupção para atender telefone&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;)&lt;br /&gt;C: Desculpe, que que eu  estava dizendo?&lt;br /&gt;M Falando o porque da escolha pelo Brasil?&lt;br /&gt;C: Vim porque tinha aqui muitos parentes, amigos. Inclusive eu fiquei uns 8 dias em casa de uma parente meu, que chamava Antonio Augusto da Paz, uma família muito conhecida que diziam que era a família mais rica de Niterói nessa época.&lt;br /&gt;[A moça do café entra e pergunto se quero café]. Digo que não. Ele fala “ Feche a porta e não perturbe mais”&lt;br /&gt;E eu fui para São Paulo onde meu cunhado estava,  eu preciso me arrumar aqui como que me arrumava em Portugal na FAbrica Santo Antonio. Eu sempre gostei de ser independente e a minha vida daíí pra cá correu sempre tudo bem graças a Deus. Muita luta, muito trabalho, muito esforço, principalmente quando eu viajei com os Zés Marias para Santa Catarina não tinha estradas e não tinha nada era tudo estradas de chão. Chorei muitas vezes que fiquei preso nas estradas, as duas, três horas da manha. E a gente segue a vencer e graças a deus tá tudo bem.&lt;br /&gt;M: e como o senhor imaginava assim o Brasil?&lt;br /&gt;C: Sinceramente eu nunca imaginei nada eu sempre imaginei que eu tenho que trabalhar. Em qualquer lugar que eu fosse eu teria que trabalhar. E aqui não foi menos só que aqui nós já tínhamos um espaço muito maior do que imaginava. O que eu imaginava? Imaginava uma coisa assim, mais ou menos igual a nossa lá, pela luta mais aqui dá muito espaço. Para quem quiser trabalhar para poder se expandir, quem quiser trabalhar, mais nada.&lt;br /&gt;M: E a viagem?&lt;br /&gt;C: A viagem foi horrível pra mim, porque eu vim no navio North King, não tinha outra condição pra vim. Era o CertaPinte&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;[3]&lt;/a&gt; ou North King,  e  North King era um cargueiro inglês que foi transformado em passageiro, em beliche. Só que tinha eu não dormi nenhuma noite no beliche. Só no convés. Então imagina, lá só tinha garotos, só tinha sujeira, garotos borrando aquilo tudo lá, vomitando. E eu dormi no convés trouxe uma cadeira, essas cadeiras de repouso de abrir e dormir só no convés. E falram “ o Senhor não pode dormir aquii” . Não pode dormir aqui, pode dormir aqui sim. Então, da-me um quarto cá em cima perto do seu, eu disse pra ele. Ele não pode dar e eu dormi ali no convés. E no rio de Janeiro eu botei a cadeira no mar e disse agora eu não vou precisar mais dela.&lt;br /&gt;M: A viagem durou quanto tempo?&lt;br /&gt;C: Durou 17 dias&lt;br /&gt;M: 17 dias&lt;br /&gt;C: Não comi nunca no restaurante do navio. A comida era maravilhosa mais o cheiro era tão forte que não havia quem agüentasse. Então eu trouxe o lanche, e um companheiro meu ia lá pegar uns salpicões. Também não comia, coitado. E eu ia comendo os salpicões dele que tinha lá. Foi a minha viagem tumultuada.&lt;br /&gt;M: E quando o senhor chegou aqui, o que o senhor achou?&lt;br /&gt;C: Maravilhoso, um país maravilhoso. Sempre gostei do Brasil, gosto, gostei, to aqui a 56 anos. Isso aí pra mim, eu sou igual aquele cantor daquele fado “ Sou português e grito ao mundo inteiro, unidos pela amizade e pela historia. Devo ao Brasil o meu respeito e a Portugal devo toda a minha gloria.” Se tivesse 2 corações era um pra cada lado. Assim, é só pra Portugal.&lt;br /&gt;M:O senhor disse que tinha alguns parentes aqui no Brasil. Eu queria que o senhor me detalhasse mais, que grã de parentesco era esse?&lt;br /&gt;C: Eram primos, amigos de infância e tios ate não tinha ninguém.&lt;br /&gt;M: Mas eles já estavam estabelcidos aqui.?&lt;br /&gt;C: Não, não.&lt;br /&gt;( A mulher de Sr Carlos entra na sala e interrompe nossa conversa)&lt;br /&gt;C: Eu já vim pra casa de mus parentes que eram Jose Augusto Carvalho e Antonio Augusto Paz. Foi onde eu fiquei os 8 dias, os primeiros dias. E depois, fui pra São Paulo,  de minha irmã casada. Casou no ano anterior e veio pra São Paulo e foi ela que me chamou até para vir pra cá.&lt;br /&gt;M: E aonde era a casa desses seus parentes?&lt;br /&gt;C: Era na rua Tiradentes, não sei o numero. Aqui mesmo. Eu vim aqui pra casa, trouxe um contrato de trabalho, me garantindo um salário bastante alto por sinal. Eu ainda tenho esse contrato comigo. Para firma Grego Paz e Cia Ltda. Mas eu nunca trabalhei lá.&lt;br /&gt;M: E como era a vida nesses primeiros anos de Brasil?&lt;br /&gt;C: Era... Pra mim não teve assim, eu me dediquei mais ao trabalho.   Nuca fui  uma pessoa assim, de noturnas, em horas de noite. Dedicava-me ao trabalho, felizmente ou infelizmente, eu vim logo pra essa padaria, nós tínhamos tínhamos 26 empregados, isso em 1950. era uma padaria que trabalhava muito, inclusive era uma padaria que esses 26 empregados dormiam e comiam dentro da padaria e o meu cunhado com 3 meses de Brasil me entregou aquilo tudo a mim e foi viajar. Eu com 3 meses, quando não tinha tempo de nada, de fazer a minha barba, almoçar e dormir as vezes meia hora numa cadeira. Para poder agüentar esse rojão todo com a falta dele lá. Tudo suplantou.  Alegre, satisfeito, nunca me arrependi de nada.&lt;br /&gt;M: Há alguns estudos que dizem que os portugueses aqui no Brasil, sofreram alguns preconceitos. E o senhor, sofreu algum?&lt;br /&gt;C: Não, eles só chamavam português de galego. Mas eu , sempre superei isso, nunca liguei pra isso, eu não sou galego. Galego, são os da Espanha que chamam galego. Eu sou português. Às vezes quando me chamavam de galego, falava “ tu falas a minha língua como podes me chamar de galego, como sou galego.” Se tu falas português tu é também português, pelo menos descendente. Eu brincava com eles, mas isso sempre na amizade nunca levei isso a serio. Não tive constrangimento absolutamente nenhum. Também, nunca tive preconceito nem de raça nem de nada. Tive uns 4 empregados escuros. Pra mim eram empregados iguais aos outros. Me dava até muito bem com eles. Teve um até que fiz muita amizade com ele. E olha que ele já era empregado e eu já era patrão.&lt;br /&gt;M: O senhor escutava casos de portugueses que sofreram preconceito?&lt;br /&gt;C: Eu ouvia queixar, nunca vi na minha frente. Eu conheci muito portugueses e muitos brasileiros, e  depois que voltei para Niterói. Eu já fiz uma vida social mais intensa,  eu era muito ligado ao nosso vice cônsul. Era muito ligado as autoridades portuguesas. Fiz parte do centro da comunidade luso brasileira.   Fiz parte do Clube Português, do Ellus, do Real Gabinete português de leitura. Tenho a Medalha Benemérito do clube português, trabalhei a por 21 anos agora aqui. Na época era o melhor clube Português do Rio de Janeiro, tirando o clube Vasco da Gama de Futebol, né?!? Então, tive uma vida assim ativa e social. Me estabeleci aqui com calçados, 2 lojas de calçados.  Que eu fiz a minha vida , talvez eu assentei, passados um 7 anos, e eu fiquei aqui em Niterói e daqui não sai mais. Eu me afirmei Aqui e graças a Deus eu to muito satisfeito.&lt;br /&gt;M: Dizem que o Brasileiro é um povo diferente, que os Sr teve dificuldade de se adaptar?&lt;br /&gt;C: Absolutamente, nenhum. Só que o Brasil gosta de uma farra. Para eles uma festinha, uma festa, um carnaval. È uma  maravilha, eu já não olhava muito isso porque tinha que trabalhar. Eu estive 25 anos, quando botei minha firma de calçados Sapataria Martins LTDA, em 25 em minha vida eu nunca tive uma feriado, um domingo, um dia santo ou um dia santo. Trabalhava todos os dias, só passados 25 anos que minha vida estava bem estabilizada que falei: “ Agora vamos descansar mais um pouco, pra poder descansar um pouco”&lt;br /&gt;M: o senhor sempre teve envolvido com portugueses, né!??! Mas onde eram esses encontros?&lt;br /&gt;C: Nos Clubes, nas feiras da Comunidade ali no Caio Martins, isto que trabalhei lá 12 anos. Lá nós montávamos um restaurante com comidas típicas, nos montávamos e eu era quem gerenciava aquilo e tratava daquilo. Junto com nosso vice-cônsul, Sr. Antonio Correa de Noronha. E eu era muito amigo dele, e eu tinha gosto em ajudá-lo pra tudo. E nós em 7 dias trabalhávamos 4 e fazíamos um faturamento maior do que o resto da feira. A feira toda, com barracas que lá tinha, o Clube Português faturava mais do que tudo isso. E esse dinheiro, dava pra o bispo naquela época. Acho que era o Bispo Navarro, que era pras criancinhas pobres que nós dávamos esse dinheiro.&lt;br /&gt;M: Era todo mês?&lt;br /&gt;C: Não, ano a ano. Era muito trabalho, muita luta. Meu joelho ficava inchado de tanto trabalhar.&lt;br /&gt;M: O senhor sempre foi um grande freqüentador dos Clubes Portugueses?&lt;br /&gt;C: Sempre, portugueses e brasileira. Brasileiro pra mim também é ótimo.&lt;br /&gt;M: Como é a alimentação na casa do senhor?&lt;br /&gt;C: Minha alimentação a que sempre comi na casa de meus pais. Eu quase nem hoje não mudo. Pois casei aqui com uma brasileira,e ela se adaptou a mim. Eu estive no Paraná em um hotel com a minha esposa. E ela lá aprendeu a cozinhar com os cozinheiros e faz uma comida portuguesa muito bem. E Eu venci no Paraná, com um Hotel, porque só tinha comidas portuguesas. Em um lugar chamado Rolandia. E não tinha muito português.&lt;br /&gt;M: Na sua casa sempre se comeu muita comida portuguesa?&lt;br /&gt;C: Até hoje!!! Comida portuguesa não, que hoje comida portuguesa é o bacalhau, porque o resto é a portuguesa. È a  batata que nunca faltou, eu nos primeiros anos que tive aqui comia em media 60 quilos de batata por mês, eu. Comparava um saco de batata fechada pra comer eu.  Eu gostava muito de batata.&lt;br /&gt;M: E que tipo de musica se ouve na sua casa?&lt;br /&gt;C: Sabe que nunca fui de muita musica. Não é porque eu não goste é porque eu não tinha tempo. Eu não tive tempo de me dar o trabalho era difícil. Mas quando ia eu gostava de bolero, tango,samba. E eu gostava dos meus discos e das minhas coisas também. Né?!?!  Quer a era da minha colônia.&lt;br /&gt;M: E qual é a sua religião?&lt;br /&gt;C: Católico.&lt;br /&gt;M : Tem algum santo de devoção?&lt;br /&gt;C: A mim só tenho Deus no céu e nossa senhora de Fátima e Nossa Senhora Aparecida que me recomendo e é meu anjinho da guarda. Me recomendo todo dia desde que me conheço como gente.&lt;br /&gt;M: Pra que clube o senhor torce?&lt;br /&gt;C: Vasco da Gama&lt;br /&gt;M: E como o senhor se tornou Vascaíno? Por que o senhor não nasceu em Portugal Vascaíno?&lt;br /&gt;C:Você sabe que já me convidaram pra ser sócio logo que cheguei aqui mas eu não quis.  Mas eu não torço, torço porque gosto de torcer.&lt;br /&gt;M: e qual  q ligação de ser português e torcer pro Vasco da Gama?&lt;br /&gt;C: è um time mais do coração, mais do sentimento.&lt;br /&gt;M: Na ultima Copa do Mundo, Portugal fez uma bela campanha. E como foi pro senhor?&lt;br /&gt;C: eu já tive aqui parece que foi em 56 que passei um aperto. Portugal, tirou o Brasil  da Copa do Mundo.E tinha um lá um amigo meu que trabalhava com um Ferro-velho ali na rua Paulo César, que começou a parar. Eu disse” Manda parar, para pelo amor de Deus. Estamos felizes porque Portugal ganhou, ao mesmo tempo, não estamos tanto porque o Brasil perdeu. Mas com os dois juntos não tem como torcer.&lt;br /&gt;M: Na ultima Copa o senhor assistia os jogos aonde?&lt;br /&gt;C: Aqui no Clube mesmo,temos aqui um telão.&lt;br /&gt;M&gt; O que o senhor sentiu?&lt;br /&gt;C: eu só senti que o Brasil jogou tão pouco. Com jogadores bons, porque eu não posso dizer, não posso dizer que compraram os jogadores. Sei que tens jogo, Ronaldo, Ronaldinho, todos eles tem jogo pra ganhar de todo mundo e não jogaram. Então estavam doentes, ( ) durante o dia e não jogaram. Porque simplesmente mostraram que não jogaram nada.&lt;br /&gt;M: O senhor procura ter noticias de Portugal?&lt;br /&gt;C: Sempre tenho, eu vou lá todo ano.&lt;br /&gt;M: Ler os jornais?&lt;br /&gt;C:: Leio, até assinei o Mundo Português que vinha direto de lá. Tem a tevê à cabo. A RTP.&lt;br /&gt;M: Todo ano o senhor vai a Portugal, né? E como é voltar a Portugal? Dá vontade de ficar?&lt;br /&gt;C: ( ) não. Talvez eu não me acostumasse mais a ficar lá. Adoro ir lá e adoro Portugal.  Mas pra ficar definitivamente, talvez não me acostumasse.&lt;br /&gt;M: Porque?&lt;br /&gt;C: Não sei parece que isso aqui é... Não sei, a gente se acostumou a ser diferente. Um pouco diferente dos portugueses.Então eu me sinto bem aqui, não há porque morar lá. Tenho mais anos de Brasil do que de Portugal. Fala a mesma língua , fala o mesmo tudo.&lt;br /&gt;M: O senhor já se sente um pouco carioca?&lt;br /&gt;C: Já, um pouco brasileiro&lt;br /&gt;M: De que forma?&lt;br /&gt;C:Em tudo, em participar das coisas brasileiras. Adoro, gosto. Estou aqui no clube português que quando quer fazer festas portuguesas eu quero fazer festas portuguesas e brasileiras. Porque os festejos  brasileiros são necessários, inclusive nosso clube que foi fundado por portugueses teve quase sempre só português. Mas agora, eu acredito que tenha mais, muito mais não, mais o mais ( ) que é português deve ter uns 15 à 20%. Tem festa brasileira, espanhola, italiana.&lt;br /&gt;M: O senhor teve quantos casamentos?&lt;br /&gt;C: Eu!??! Eu casei, eu só tive um casamento. Mas estou com esta minha mulher a 50 anos. Mas não sou casado, nem quero casar. Porque o casamento parece que dá azar. No papel eu não gosto.Sabe porque que eu não gosto de papel assinado? pois quando eu estava em São Paulo em 1952, saiu uma revista. Ahhh,( pausa para pensar), O Cruzeiro. Aonde tinha um senhor português que viviam amigado com a esposa e  tinham filhos e netos. Uma neta foi casada e pediu a avô para casar com a avó.  E ele casou, durou 30 dias o casamento. Ficaram 60 anos amigados e quando casaram ficaram 30 dias. Por isso que eu não quero e ela não quer casar. E também, assim nós somos feliz e é isso que interessa.&lt;br /&gt;M: Sua mulher é brasileira?&lt;br /&gt;C: È bisneta de português.&lt;br /&gt;M: O fato do senhor ser português influenciou na escolha do senhor?&lt;br /&gt;C: Não, não.&lt;br /&gt;M: o senhor falou que seus filhos são portugueses, né?&lt;br /&gt;C: Tenho, tenho 2 filhos e quatro netos brasileiro e dois bisnetos brasileiro.&lt;br /&gt;M: O senhor morava no Brasil já quando eles nasceram?&lt;br /&gt;C: Não, uma que quando eu embarquei pra cá. Porque minha primeira mulher queria me embargar e aquela altura ela podia embargar a minha viagem. E eu naquele tempo já não tinha muito relacionamento já com ela, mas eu já tive de ter relacionamentos com ela pra me deixar vir. Tive que mentir pra ela&lt;br /&gt;M: Esses dois filhos são do primeiro casamento? Eles tão no Brasil?&lt;br /&gt;C: São, são do primeiro casamento. Tão no Brasil os dois. Eu consegui trazê-los.&lt;br /&gt;M: Eles vieram logo depois que o senhor?&lt;br /&gt;C: Não,vieram passados 3 anos. Porque eu tinha muitas saudades do menino e quando eu vim pra cá ele só tinha 4 anos era muito agarrado com ele. Eu já tinha um carro. Que  era o único carro que havia na minha aldeia, era o meu. E  sempre que ele escutava a buzina do carro ele já vinha correndo para se sentar no meu colo e dirigir o carro com 4 anos. E aquilo ficam, no pai sempre agarrado no meu pensamento, e eu tentei mandá-lo vir. Mas pra vir também tinha que mandar ela. Não houve jeito de haver uma reconciliação. Não houve jeito. E ai veio a menina que ainda nasceu lá.&lt;br /&gt;E veio com quantos anos?&lt;br /&gt;C: Meu filho veio com 7 anos e a menina com 3.&lt;br /&gt;M: Vocês sempre conversaram sobre Portugal em casa?&lt;br /&gt;C.Sempre sempre sempre. M: E que que o senhor falava pra eles de Portugal? A memória deles não é tão forte como a do senhor!?&lt;br /&gt;C: Mas ele já foi lá. Quando veio com 7 anos, ele lembra de tudo da aldeia em que ele nasceu. Alias ele nasceu em chaves que eu era estabelecido em Chaves. E depois é que fui para o Bordello que foi quando vim pra cá. E depois, eu queria fazer uma propriedade em minha aldeia e ele disse não pai vai pra praia que eu gosto mais da praia. E ele tinha a essa altura já 18 aninhos e  eu tive a essa altura que atendê-lo.&lt;br /&gt;M: O senhor voltou a Portugal, tava com quantos anos?&lt;br /&gt;C: Fiquei 13 anos aqui sem voltar. Até que estabilizei a minha vida. Primeiro, eu tinha que estabilizar a minha vida.&lt;br /&gt;M: E qual é a relação dos seus filhos com Portugal?&lt;br /&gt;C: Meu filho se sente português, mas ele também gosta muito do Brasil. Ele foi criado aqui. Ele depois formou em Direito, ele depois trabalhou em uma companhia de seguros aqui em um banco. Não quis trabalhar comigo nos calçados. Talvez, fosse uma coisa melhor. E chegou até a ser vice-presidente de uma companhia de seguros, antiga London.&lt;br /&gt;M: E sua filha?&lt;br /&gt;C: Minha estudou só até o secretariado. Não quis fazer mais nada. Ela trabalha nos  Correios. E ela não gosta mais de nada. Ela só gosta dos bares, de tomar um choppinho, é diferente do pai e do irmão. Totalmente diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;M: E seu filho algum traço português?&lt;br /&gt;C: Sim, tem todo. A casa dele é a mesma coisa. Só come igual a mim. Porque ele veio pra qui com 7 anos. As comidas eles são típicas, também. Mas quem que não come uma feijoada brasileira. Não há ninguém. Eu adoro.&lt;br /&gt;M: E sua filha?&lt;br /&gt;C:  A minha filha, isso ai. Já é totalmente diferente.&lt;br /&gt;M: Que que uma casa portuguesa tem que ter pra ser uma casa portuguesa?&lt;br /&gt;C: Tem que ter amor. Os portugueses são muitos amorosos, acolhedores.  Eu me sinto bem quando posso chamar os meus amigos pra sair comigo. Aquela convivência de amizade, de carinho é assim que eu me sinto bem. Sempre fui assim.Mesmo quando minhas possibilidades não seriam tantas. Todo sábado e domingo eu saia pra encontrar meus amigos pra ele almoçar comigo.Estávamos os solteiros e ia procurá-los para ir almoçar comigo. Isso era minha maneira de ser. E até hoje é.&lt;br /&gt;M: Uma casa portuguesa tem que ter um primeiro lugar amor. E que mais?&lt;br /&gt;C: Amor, comida e Dinheiro. Dinheiro é a ultima coisa. Trabalho. Quem tem trabalho tem dinheiro. E verdade?!? Se trabalhar o dinheiro aparece, é uma coisa que vem. Fartura, o pão e vinho sobre a mesa não falta nunca. Nunca falta.&lt;br /&gt;M: E o senhor falou sobre seus netos. Qual a relação deles com Portugal?&lt;br /&gt;C: Não, os netos já foram lá. 2 já foram lá.Outro tem vontade de lá ir, mas como ele está trabalhando em uma companhia de seguros as férias dele nunca coincidem com as minhas. E pra ir a Portugal tem uma despesa, tinha apartamento lá. Tinha carro. E nunca podes ir comigo. Tinha casa e carro até o ano passado. Em Chaves onde meu filho nasceu e eu me estabeleci.&lt;br /&gt;M: e olhando pra trás, valeu a pena vir pro Brasil?&lt;br /&gt;C:Estou satisfeito. Eu ano me arrependo de nada. To muito satisfeito aqui.&lt;br /&gt;M: Que que tem de mais positivo aqui?&lt;br /&gt;C: Pra mim encontrar a mulher que encontrei. Estou com ela a 50 anos vai fazer dia 25.&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;[4]&lt;/a&gt;  e a outra foi poder angariar umas reservas pra eu poder ter agora uma vida tranqüila.&lt;br /&gt;M: E de mais negativo?&lt;br /&gt;C: Que que eu tive de negativo aqui. Sinceramente. Tu quês saber eu não sei o que tive de negativo aqui.&lt;br /&gt;A mulher de seu Augusto de intromete e diz: “Só problema de doença”&lt;br /&gt;C: Tive um enfarto, isso não é negativo. Isso é normal&lt;br /&gt;Me intrometo “ Nem isso é culpa do Brasil, né”&lt;br /&gt;C: Nem é culpa do Brasil. Talvez eu até se tivesse em Portugal eu tivesse mais. Pois, comia mais presunto e salpicão. Tem tudo aquilo de positivo no Brasil, porque deus deu tudo aquilo que pedi e já me deus até muito mais do que pedi.Sou um homem tranqüilo e feliz. Adoro esse Clube Português aqui. Estou aqui a 21 anos. Já o tirei da falência 2 vezes. Está em pé novamente. Graças a deus. E não é meu, è dos sócios. Mas eu gosto assim mesmo. Nos temos aqui 11.000 metros quadrados construídos. Quase tudo eu aqui presente. Eu me sinto bem, me sinto com a minha vida.  Não se pode dizer que ( ) se sente realizado quando se faz um filho e se escreve um livro. Só não posso escrever um livro porque a minha cultura não dá pra tanto. Mas já disse ao filho quero escrever um pelo menos sobre a minha vida. Porque se eu te contasse tudo aquilo que passei aqui no Brasil. Nós passamos o dia inteiro pra te contar o que passei no Brasil. Mais sempre sorrindo, alegre, de amizade.&lt;br /&gt;M: Se o tivesse que aconselhar alguém que ta pensando em sair do seu país. Você incentivaria ou não?&lt;br /&gt;C: Se o pais dele não tem condição de sobrevivência, como naquela época era difícil. Eu estava lá e estava estabelecido. Mas conhecia alguns que passavam maus bocados. Eu aconselho a sair pra um país  onde ele possa viver a vida dele. Mas graças a deus, acho que lá já está tudo bem. E todos aqueles seja português, seja francês, alemão que tenha dificuldade de vencer no pais deles ele tem que procurar vencer em outro lugar pra ele não se tornar uma pessoa morta apagada. Ele tem que fazer alguma coisa pra aparecer. Ele tem.&lt;br /&gt;M: se o senhor tivesse em Portugal hoje o senhor viria pro Brasil?&lt;br /&gt;C: Isso é uma coisa que não posso responder. Se tivesse lá que viria pra cá. Só sei que não me arrependo de ter vindo. Mas se tivesse lá e vir agora já fosse muito difícil  para  mim, porque tenho 80 anos. Já estava costumado aquela vida e fazer uma vida nova com 80 anos não tem condição. Enquanto a gente 18,19, 20 até os 30 anos ele pode procurar outra vida. Ele pode procurar outra vida, é o caso daqueles que se separam depois dos 50, 60 anos de casado pra que!?? Ele não pode fazer mais vida nenhuma, ele vai estragar a vida dos outros ainda. Vai arrumar uma ( ) nova e vai estragar a vida dela. Meu pai dizia muitas vezes, “ Quem aos 20 não é, aos 30 não é aos 40 não é ninguém”.&lt;br /&gt;M: Mas o senhor recomendaria o Brasil?&lt;br /&gt;C: Se ele disser “eu não tenho condições de fazer a vida aqui”. Eu falaria “então procura outro lugar, se é Brasil, se é França se é Espanha.”  Mas hoje nos temos o Mercado Comum Europeu que a gente pode ir pra qualquer lugar para vencer na vida. Agora ficar na miséria dentro daquele pais que ele está é loucura dele. Ele tem que procurar agir, porque Deus ajuda mas a gente tem que procurar agir. Porque não cai do céu pra ninguém.&lt;br /&gt;M: O que significa ser português?&lt;br /&gt;C: Pra mim me sinto orgulhoso, porque os portugueses eles foram heróis do mundo. Eles foram descobridores do mundo, português era português. Tinha garra. Hoje não tem. Hoje já é diferente. Da minha raça pra cá. Já mudou muito. Estão mais acorvardados, porque eles tinham coragem tinham raça eram inteligente. Tanto é que mostraram ao mundo que estamos ai. Inclusive o Brasil sabe disso. [ Irônico]&lt;br /&gt;M: E ser português no Rio de Janeiro?&lt;br /&gt;C: eu sou português em qualquer lugar do Brasil. Onde eu vou, eu sou vejo portugueses, ou português ou filho de português. Ou espanhol também é vizinho da gente. Eu estive 4 anos em Rolandia&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;[5]&lt;/a&gt;, a maior turma de que tinha lá era portugueses. Eu vou pra todo lugar é português. Eu vou pra santa Catarina é português. Eu fui a Curitiba tem português. Eu vou só tem português. Onde eu vou só tem português. Está espalhado pelo mundo inteiro. Não é só no Brasil não.&lt;br /&gt;M: como é pra um homem que trabalhou tanto a vida toda não trabalhar mais?&lt;br /&gt;È duro, eu não paro. Eu venho de Teresópolis 3 a 4 vezes na semana por causa desse clube, o que me faz um bem tremendo.Tenho 80 anos, não tenho motorista e sou eu que dirijo e isso me faz bem.  Mas acho que eu to procurando alguma coisa pra fazer mais, não posso parar.&lt;br /&gt;M: O senhor gostou da entrevista?&lt;br /&gt;C: demais, demais. È sempre um prazer.&lt;br /&gt;Michel. Muito Obrigado mesmo. Sr CARLOS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Em outra ocasião perguntei a ela que era esse cunhado ele me disse que era o marido de sua irmã.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;[2]&lt;/a&gt; Olhar caderno de campo.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;[3]&lt;/a&gt; Mesmo após escutar milhares de vezes não consegui decifrar o nome desse navio.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;[4]&lt;/a&gt; È importante lembrar que a mulher de Sr Carlos estava na sala no momento da entrevista.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;[5]&lt;/a&gt; Cidade no Interior do Paraná&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38027118-116899578882091517?l=fadotropicalrio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/feeds/116899578882091517/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38027118&amp;postID=116899578882091517' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/116899578882091517'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38027118/posts/default/116899578882091517'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fadotropicalrio.blogspot.com/2007/01/entrevista-fado-tropical-no-37-carlos.html' title='Entrevista Fado Tropical no. 37: Carlos José Martins'/><author><name>Marcos Alvito</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_Y5BY3KoPouw/SULioeLmraI/AAAAAAAAAA8/-1M_NYcTh2U/S220/02+-+Fevereiro+-+Uni%C3%A3o.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38027118.post-116894910558430418</id><published>2007-01-16T03:52:00.000-08:00</published><updated>2007-01-16T04:05:05.883-08:00</updated><title type='text'>Entrevista Fado Tropical no. 35: Joaquim Pinto de Mesquita</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/554/3618/1600/909769/EFT035%20-%20Ex%3F%3Frcito%20-%201958.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/554/3618/320/488416/EFT035%20-%20Ex%3F%3Frcito%20-%201958.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Foto 1: Santa Margarida, Portugal, 1957, Seu Joaquim em treinamento do Exército (5o. da direita para a esquerda).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Entrevista Fado Tropical no. 35: Joaquim Pinto de Mesquita&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FICHA DE ENTREVISTA PROJETO FADO TROPICAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CÓDIGO DA ENTREVISTA: EFT 035&lt;br /&gt;DATA DA REALIZAÇÃO DA ENTREVISTA: 10/11/2006&lt;br /&gt;LOCAL: Residência do entrevistado&lt;br /&gt;ENTREVISTADO: Joaquim Pinto de Mesquita&lt;br /&gt;DATA DE NASCIMENTO:02/02/1935&lt;br /&gt;LOCAL: Baião – Distrito do Porto&lt;br /&gt;DATA DE CHEGADA AO BRASIL: 09/06/1956&lt;br /&gt;LOCAL: Rio de Janeiro&lt;br /&gt;PROFISSÃO ATUAL: Vendedor (na padaria do filho)&lt;br /&gt;PROFISSÃO ANTERIORES: Agricultor, Açougueiro, Feirante, Exército em 1956&lt;br /&gt;ESTADO CIVIL:Solteiro&lt;br /&gt;FILHOS: 1&lt;br /&gt;NETOS: 1&lt;br /&gt;ENTREVISTADOR: Henrique Campos Monnerat&lt;br /&gt;CURSO: História&lt;br /&gt;PERÍODO: 4º&lt;br /&gt;GRAVAÇÃO: (x)DIGITAL&lt;br /&gt;Nº DE PÁGINAS DO DEPOIMENTO TRANSCRITO:53&lt;br /&gt;DATA DA CONFERÊNCIA: 22/11/2006&lt;br /&gt;DATA DA ASSINATURA DA CARTA DE CESSÃO: 22/11/2006&lt;br /&gt;FOTOS: (x) SIM&lt;br /&gt;NÚMERO DE FOTOS: 3&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, entrevista de dia dez de novembro de 2006, Vista Alegre. Então, mais o objetivo mais dessa entrevista que a gente tá fazendo, como eu te expliquei lá naquele dia que a gente se encontrou, pra você poder ajudar a gente lá na faculdade, o povo brasileiro em geral a conhecer mais sobre a história dos imigrantes portugueses. Então você tem muita coisa para dizer e com certeza você tem muita coisa para ajudar... pra gente lembrar disso. Ah assim, gostaria que você falasse mais como que era a sua... a vida da sua família em Portugal&lt;br /&gt;Lá né?  É, lá em Portugal.]Aquilo que eu passava lá... Desde que eu me conhecia. Eu comecei a conhecer de cinco anos para frente. De cinco anos pra frente eu já me lembro o que eu fazia. Então o meu pai era... ... Era lavrador. Ele tinha gado, tinha ovelha, tinha cabras, tinha vacas, tinha cavalos. Então ele me botava com cinco, seis anos e disse ó, “vais ficar aqui nesse terreno”-era um terreno grande que dá pasto- “ficas aqui a guardar esse gado todo”. Eu ficava tomando conta ali. E ele saía para os outros lados.&lt;br /&gt;Ele trabalhava como lavrador?&lt;br /&gt;Ele trabalhava fora ou ia para as feiras e eu ficava ali. E ele dava-me aquela a ordem de eu andar o dia todo ali. Escuta, já estás... Já está gravando?[Já.] Então, eu andava ali. Quando era na hora do almoço a minha mãe ia levar lá uma comida e tal e eu nem vinha a casa, eu comia [?]&lt;br /&gt;Sua mãe trabalhava?&lt;br /&gt;Minha mãe estava em casa, estava sempre chamando pra...  ver se eu estava acordado pois eu era pequeno demais. Mas eu adormeci lá um dia, eu adormeci, aquele gados, as ovelhas foram, foram para o campo, chama-se um... terreno do feijão.[Sei...] Comeram os feijãos todos![Ah caraca!] Raparam tudo... os feijões. O meu pai outro dia viu,  o meu pai outro dia foi ver , poxa, “adormeceste, deixaste as ovelhas... comeram os feijões todos. E agora? Não temos mais nenhum. Agora só daqui para um ano.” Escuta, me deu... me deu, me... me deu uma coça, olha aí, tirou o cinto, eu com seis anos, me deu ali umas correadas, mas bateu muito, eu chorava porque eu era pequeno [Claro, seis anos...] Eu disse, caracas! Mas ó, eu apanhei muito dele quando eu era pequeno, tinha seis, sete, oito anos porque ele... . Eu ainda era pequeno, mas não sabia aquela lógica de estar ali sempre firme ali, a cuidar do gado porque estava frio, às vezes, as vezes estava a chover. Então a gente, porra adormecia. Então aconteceu isso nesse, nesse... dia. O gado, e... as vacas, as ovelhas foram e comeram aqueles troços todo que ia dá o fruto para aquele ano, o que que aconteceu, só daí para o outro ano é que nós ia ter isso. Que é como aqui a lavoura. A lavoura aqui é este ano, você semeia um campo de batatas lá, nós semeávamos... A batata é cortada ao meio num campo grande como daqui onde vocês entraram aqui, aqui embaixo onde esta praça, a gente fazia aquela (rotas), botava as batatas com a mão ali naquela (rotas) para depois elas... brotarem pra gente ter mais.[Ficaram um ano sem...] Nós ficamos um ano sem ter  isso.  Porque [passaram dificuldade] as ovelhas comeram tudo. Então lá acontece isso. Então lá, lá tem aqueles meses que é maio, junho, julho e agosto. Então, é, a gente vai fazer por ter as coisas até vir o outro ano de maio, julho e agosto. Porque quando chega maio, junho e agosto, maio junho e julho, as coisas lá se criam. Cria-se o milho, cria-se a batata, cria-se o feijão, cria-se tudo. Para a gente quando chegar o mês de outubro já, já essa mercadoria toda, já está... já está criada. Então a gente vai e colhe tudo, colhe e guarda aquilo, são numas, são numas coberturas lá que a gente usa, em caixas e ora... em caixotes. Então a gente arruma aquilo tudo ali dentro.  [?] do ano todo. É, outubro, novembro, dezembro, janeiro e fevereiro que é inverno, é frio... Então a gente tem que ter aquelas coisas arrumadas ali dentro para comer esses mês todos que é muito frio, que é inverno, entendeu? Mas nesse... mas nessa altura o gado comeu aquilo tudo.&lt;br /&gt;[Comeu...] É, quando ele chegou o outro dia, foi ver e tal... e... aconteceu isso... aconteceu isso comigo. Então, veja bem, eu só tinha um irmão, mais velho e mais velho do que eu. Nessa época eu tinha seis anos e ele tinha nove. Mas ele não ficou em casa, em casa de meu pai não. Ele veio para casa do... do pai da minha mãe, eles gostavam dele. E ele ficou lá, anos e anos até... até doze, treze anos. Só eu é que fiquei em casa do meu pai e depois outro irmão meu que veio depois de dois anos de mim é que ele veio, quer dizer, eu tinha seis e ele tinha três... quatro, não chegava a quatro. Então ele ainda era pequeno e só ficava em casa. Então eu é que me sacrifiquei mais. Eu fui aquele que trabalhava mais. Meu pai, a bem dizer, só tinha eu para trabalhar, pois quando eu cheguei a ter oito, nove anos esse meu irmão que já começou a ter cinco, seis então ele já me ajudava.&lt;br /&gt;E vocês vendiam... feijão... batata?&lt;br /&gt;A gente vendia feijão, vendia milho, vendia batata. E com o feijão nessa época, foi quando eu tinha seis anos. Foi quando foi a guerra, a guerra de 40, que eu tinha seis anos. Então, nessa época, o meu pai, ele tinha umas terras deles boas, e tinha falecido o pai dele há cinco anos. O pai do meu pai faleceu no ano, no ano que eu nasci. Em 1935. Então como ele era um fazendeiro grande, ele dividiu o que ele tinha pros noves filhos. Então, ele ficou numa terra boa lá. Dava muito milho, dava muito feijão, tinha muitas frutas, tinha, pô tinha muita castanha, vinho, tudo, tínhamos, tudo. Então, veja bem, depois, vendia o milho, vendia o feijão vendia batata, quando chegou a guerra, quando chegou a guerra de 40, o Salazar declarou para o mundo inteiro, todo mundo tinha que dar uns cinco, dez, vinte mil homens de acordo com o país. Aqui no Brasil foram mais ou menos uns trinta mil homens para lá. Mas Portugal ia mandar quantos? Uns cinco mil ou oito mil homens.E Salazar disse para o mundo inteiro. Disse para  a América, disse para a Alemanha, disse para a Inglaterra que não ía mandar ninguém para guerra. “Homens...” e ele só falava uma vez... “homens portugueses eu não vou mandar para a guerra. Eu vou pagar tudo, vou pagar tudo em dinheiro”. E ele pagou em dinheiro e não deixou nenhum português ir a guerra. Mas ele deu fome ao povo em Portugal... [Fome...].Ele apertou tudo. Ele, ele, ele, ele teve uma [?] para todo mundo uma senha. Você era obrigado a ir, escuta, a ir ao supermercado com uma senha. Para comprar um quilo de arroz, para comprar um quilo de açúcar, para comprar um quilo de feijão, porque não tinha, tinha que comprar. Então era tudo usado por senha, e... para ninguém comer muito. Então passava-se mal. Era tudo, tudo controlado por ele.&lt;br /&gt;Em Baião isso?&lt;br /&gt;É, em Portugal [Ah, Em Portugal...]Em Portugal inteiro&lt;br /&gt;Se você tinha esse quarto aqui cheiro de milho, de milho e feijão, ele veio e lacrou essa porta. Ele botou aqui uma chave e um cadeado e você não abria ela. Sem ordem dele. Nós tinha aqui toda a comida dentro. Para a gente comer o inverno todo. Batata, milho, feijão, arroz e ele veio lacrou a porta e ninguém , ninguém abria-se as portas. No país todo ele fez isso. Então ele não deixou ir os homens para a guerra, mas deu fome para o povo em Portugal. Só depois, lá pra 42, a guerra começou a acabar e tal. Então ele veio e começou a liberar isso. Já lacrou tudo, quem tinha muito milho, vendia bem vendido, porque havia a guerra lá fora, lá fora  (derrotaram tudo) tudo e... Portugal tinha ali para revender para a Espanha para França e qualquer outro país, porque eles não tinham nada lá. A guerra lá derrotou as lavouras, derrotou tudo, as cidades e tudo. [O lugar onde você nasceu...]&lt;br /&gt;E, na França, na Itália, a guerra acabou com aquelas, com aquelas fazendas todas. Então como Portugal, não foi atingido com.... com isso, o milho de Portugal e o feijão ia para que? ia para aqueles países. Para aquele povo que ficou sem nada. Então, em vez de dar, vamos ver vinte, vamos ver vinte reais uma saca. Ela passou a dar cinqüenta. [Nossa...]&lt;br /&gt;Ele dobrou duas vezes. Então, depois o povo já começou a ter mais, a ter mais um conforto, entendeu? Mas até aí a guerra foi assim, eu tinha seis para sete anos.&lt;br /&gt;Você morava em Baião nessa época?&lt;br /&gt;Morava em Baião&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;E como que era a cidade na época? a aldeia?&lt;br /&gt;A cidade, a cidade era pequenininha. Era uma vila.[Era uma vila.] Hoje já é uma cidade. Então tinha ali um tribunal, tinha a câmara.(que tem hoje, mas mas hoje já são outros prédios. Aqueles velhos já está tudo abaixo. Hoje já fizeram tudo novo. Com mais [?]. Então hoje já é uma cidade, mas antigamente só eram aquelas repartições que pertenciam ao governo. Chamavam-se o civil. O civil era, quando você quisesse, e quisesse se casar você tinha que ir nessa repartição para tirar os documentos para você, para você se poder casar. Mais, ora bem, mais a sua noiva, chama-se (inaudível) em Portugal. A você, agora tá casada, tá casada no civil, pronto. Depois é que vem, o... o casamento, escuta, o casamento pela Igreja. Então só existia essas três, essas três repartições. Era o [?], a câmara e o tribunal. Para quando houvesse qualquer... Olha, eu estive desde, desde, quando, desde que eu me conhecia até vinte, vinte e dois anos eu só vi uma morte em Portugal.[Caraca!]Esses anos todos eu só vi uma morte.&lt;br /&gt;Aquele sujeito com a faca?&lt;br /&gt;É, então, eles, ora, eles não se davam. Era um cara mais alto e um mais baixo. Então eles já andavam brigados há muitos anos. E chegaram a uma conclusão, bom, eles foram para um baile, e depois beberam mais uns copos a mais e começaram, começaram a discutir. Bom, se abraçaram, porque lá o homem antigamente, eles se abraçavam para ver aquele que podia, um, derrubar o outro pro chão e depois dava socos nele no chão. O que ficou debaixo dele, era o mais pequeno e o que estava por cima dele era o mais forte, mas o que estava aqui por baixo. Você, suponha, que você está aqui em cima né?. Aqui, mas eu que estou aqui por baixo, eu fui ao bolso, puxei, escuta, puxei uma navalha minha e trouxe até aqui.E abri com os dentes. E você está aqui. Você está aqui em cima de mim nesta altura e eu vou por trás por trás do teu pulmão, espetei-lhe aqui a navalha. E você por cima de mim, deu mais, deu mais de trinta facadas aqui, trinta, quê..., mas como o cara estava o bêbado, os dois estavam bêbados, eles não acertavam.[Sei.] O outro cara ficou todo... ficou todo ensang... todo esfaqueado e este só com uma facada ali, matou, matou o cara que estava em cima. Só com uma facada matou. Porque ela foi, ela foi direto ao pulmão. [Nossa...] Depois esse que ficou vivo ele passava rente a nossa casa, pra fazer o tratamento para se curar. Eu era garoto e via ele ali.&lt;br /&gt;A cidade não era violenta não?&lt;br /&gt;Não, não, isso era num bairro, num bairro onde aconteceu isso. Lá chama-se assim uma aldeia. Uma cidade, para Baião faltava longe.&lt;br /&gt;E também aconteceu essa morte só. Enquanto eu estive até aos vinte e dois anos lá em Portugal. Nem a gente ouvia dizer. No país todo não havia mortes! Não havia nada! Havia brigas de eu dar um soco num cara. Você dar um soco em mim, e eu, as vezes com, porque lá usa-se uma arma, pau, a gente bate com o pau e tal, mas isso nunca, nunca acontecia morte. Mas isso às vezes é porque as brigas, o povo cisma, eu cismo com você que você que não é um menino legal, ou fez, ou fez qualquer coisa, e eu chego perto de você e digo ò, a gente lá usa, usa muito essa palavra. “Ó pá, porra, você, pô você me sacaneou ontem pô, você não passa de [?] se não a gente vai se dar mal e tal” E as vezes dá um tapa nele, e ou, você vai em mim. Mas aí fica por isso mesmo. [Sei.] Se houver lá, se houver um, uma pessoa que não anda dentro, daquela linha, que saia fora da sociedade, ninguém liga para aquele cara lá mais (inaudível) abandona ele. Então ele fica [?] então todo mundo anda dentro daquela linha. Ninguém vira pilantra.&lt;br /&gt;Em todo Portugal, tanto Lisboa quanto....&lt;br /&gt;É ninguém vira pilantra não, porque, se, se, se souber que é pilantra, o cara vai preso. Ele vai preso a trinta anos de cadeia. A pena máxima de matar uma pessoa é trinta anos. Era trinta anos. E chega! Para que dizer que eu vou dar cem anos, vou, vou dar trezentos anos [?] quatrocentos anos. Pô, ele não dura isso![É.] Então se você está com vinte ou trinta ou quarenta anos e você vai trinta anos para cadeia. Ou, ou você morre ali, ou quando sair de lá você já está quase morto. Então as leis têm que ser assim. Não há de estar lá, cinco ou dez ou quinze anos [?] de você matar uma pessoa é trinta anos de cadeia. E chega! acabou! Agora, se você, aqui, aqui não cumpre isso. Aqui vê-se que tem trinta anos e o cara está a cinco ou seis anos lá e depois é solto, saindo para rua. Depois vem fazer as mesmas coisas [?]. Então, as coisas lá é diferente. Então, eu, eu, eu com essa idade toda só vi essa morte e depois, tinha nove anos eu vim para a cidade do Porto. E estive lá até os doze para treze. Estava lá, lá, lá chama-se uma quinta. Era uma fazenda muito grande duma senhora, é.... era viúva ela. Uma senhora já de 70 anos, viúva, mas era uma quinta muito grande, estávamos quinze homens lá a trabalhar e era o meu primo que é que comandava aquilo tudo ali. E essa senhora entregou tudo ao meu primo. Esse... esse meu primo é quem mandava os quinze homens. Uns tinham 18 outros tinham 20 e eu era o mais novo eu só tinha 9 anos. Mas eu já era, eu já era altinho. E depois eu sempre fui, fui sempre acostumado a pegar no peso e a trabalhar, então eu ganhava tanto como os homens de dezoito e vinte anos, ganhava o mesmo. Naquele tempo eu ganhava 120 escudos e eles ganhavam 125.&lt;br /&gt;Seus...Seus pais estavam em Baião?&lt;br /&gt;E os meus pais ficaram em Baião lá com uma terra. Tinha lá uma fazendinha. E como esse meu primo que ia muitas vezes a casa do meu pai, ele conversou com meu pai e ele me trouxe para o [?] para o Porto, foi onde eu vim.   [Ahn...] Quando eu, veja bem, vim pra essa quinta tinha doze vacas, doze vacas (tourinas) a dar leite as três e meia quatro horas a gente punha-se a pé para (inaudível) aquelas vacas todas. E tinha oito bois. Então, devia eu a ficar, eu é que vigiava aquele gado todo lá naqueles campos [?] para eles comerem o pasto. E de madrugada levantávamos todos para [?] aquelas vacas. E eu ia levar esse leite delas a uma leiteira mais ou menos um quilômetro, quatro horas andando a pé. Levava, um daqui um troço cheio, daqui outro, levava na mão e ia levar a essa moça que estava esperando. E essa moça que juntava os leites todos para depois [?]. Então, com noves anos eu vim para lá, estive lá até aos treze, já estava bem ali. O primeiro, o segundo, o terceiro mês ou quatro mês até quando foi mais ou menos meio ano me dava a idéia de fugir ou de me matar. Eu não me dava ali. Eu sozinho, pô deixei pai e mãe. Pô, eu nunca, eu nunca me passava com a cabeça de eu deixar a minha mãe. Eu só chorava por ela. Eu olhava lá para uma serra, porque de Baião para o Porto é setenta quilômetros. Então fica longe né [É...] (inaudível) e eu nunca tinha vindo para aqueles lados... Depois passou aqueles meses, uns quatro, cinco meses, tal, aí, porra, aí eu comecei a me acostumar. E esse meu primo sempre para me conciliar-me: “Ah, Joaquim, tens que ficar calmo, deixa teu pai e tua mãe, eles estão bem..e tu aqui.vais ganhar um dinheiro e tal...” Esse meu primo quando ía do Porto a Baião, pô, ele parecia um doutor, terno e gravata, naquele tempo quem é que tinha isso? Só quem ganhava bem. Então ele queria que eu fosse igual a ele né? Quando eu faço doze para treze anos meu pai veio lá e levou-me outra vez para Baião. Para fazer outra terra, outra quinta lá, eu já estava grande, fomos para outra fazenda lá. Essa fazenda até que foi boa, veja bem, essa fazenda como eu hoje conheço, conheço Portugal todo, era a melhor fazenda de Portugal, era essa que nós estávamos [?]  e uma que era do mesmo rico que esse rico deu-nos, deu, dispensou essa para o meu pai e dispensou a outra para uma tia minha, irmã do meu pai. E eles precisavam porque ele tinha sete oito filhos e eles tinham pouco, tinham pouco. Então esse procurador lá arrumou essa para o meu pai e arrumou essa para minha tia. Que era a sua fazenda e era a [?]  que era tudo junto, só era dividido. Então nós teve ali de treze até vinte anos.[Trabalhando com seu pai e sua mãe...] Trabalhando com meu pai com minha mãe com meus irmãos. Essas duas fazendas são as melhores fazendas de Portugal. Antigamente eu não conhecia Portugal, pô, já conhecia uma parte, mas não conhecia tudo. Mas depois de eu estar aqui, já fui essas vezes lá, eu corri tudo. Então era uma terras muitos boas, dava muito milho, dava muito feijão, dava muita batata, dava muito trigo, trigo, centeio, cevada, é o que faz o pão né? o trigo, o centeio é que faz esses pães todos aí. Milho, feijão, batata aquilo era uma riqueza nessas duas quintas. Quando chegou aos vinte anos, [?] eu tinha ido, tinha ido à inspeção lá a gente vai, eu tenho que ir a inspeção para saber se a gente vai ao exército ou fica livre. Eu fui e chegou o dia de eu ir lá ao tribunal para medir o meu peso para medir a minha altura e ver se eu era perfeito. Ou ia, ou ia para o exército ou ficava para o lado. Mas eu fui para o exército. Com vintes anos eu fiquei [?]. Naquele ano eu fiquei definitivamente. Não havia salvação que me escapasse. O meu pai meteu-lhe um pedido lá para o padre. Lá os padres têm, têm respeito em Portugal. Se você quiser se livrar de qualquer coisa e se você se der bem com o padre, com seus pais, eles vão (inaudível) e esse padre vai pedir àquelas autoridades e eles atendem aos padres.&lt;br /&gt;E o Sr. queria?&lt;br /&gt;Pô, eu não queria ir. Eu queria ficar. E meu pai ainda [?] mas não teve jeito. Nesse ano só não ia para o exército quem fosse cego e manco, o resto, o resto Salazar, ele queria os homens todos. Porque havia, porque havia Guerra em Angola ainda.&lt;br /&gt;Qual era o ano? 55?&lt;br /&gt;De 55 para 56. Ainda havia guerra em Angola. Então não teve jeito. O que que eu fiz? Eu casei-me antes de ir para o exército.Porque eu namorava ela já há 4 anos, já namorava ela há 4 anos e da minha aldeia a aldeia dela era quase uma hora à pé. Tinha que atravessar uma serra toda, a pé, indo para a aldeia dela. [?] Então eu cismei de casar antes de ir para o exército. Foi a pior coisa que eu fiz. Porque seu eu vou solteiro, e... as coisas eram, as coisas eram diferentes.... [?] porque eu ia casado&lt;br /&gt;eu cismei, no mesmo dia em que cheguei ao quartel, eu não cheguei a tirar a roupa. Eu dei baixa ao hospital em Lisboa. Do quartel para onde eu ia para Lisboa já ficava perto. Chama-se (tanques) escola prática de engenharia em (tanques) ali perto fica o interrogamento e Lisboa é logo a cima, uma hora e pouca. Então, conforme eu vim, eu e outro demos baixa ao hospital, e cheguei lá eu me queixava dos ouvidos, o meu, o meu, quer dizer as minhas palavras que eu disse às autoridades lá era que eu não escutava bem. Pra ver se eu vinha embora, cheguei lá, meteram-me aparelhos, viram minha cabeça toda, [?], estive lá, escuta, nove dias no hospital, mas se eu estivesse doze eu ia perder esse ano e tinha que vir para o ano outra vez. Mas aí me alertaram lá, “você”, o (furiel) que era médico, disse ó...&lt;br /&gt;O quê?&lt;br /&gt;Chama-se o (furiel) [?] lá dentro do hospital. “você não tem nada, você não tem nada e você tem que pedir alta, escuta para ir ao quartel se não você.... você vai perder a recruta este ano e tem que voltar para o ano. Você não tem nada. Você está são, você não tem nada” No outro dia eu pedi alta no hospital e fui para o quartel. Andei um ano e meio lá.&lt;br /&gt;E o que se falava do Brasil naquela época?&lt;br /&gt;Do Brasil na época.... eu já tinha aqui um cunhado e já tinha aqui um tios... [Ah que já tinham vindo] Que já tinham vindo e, a partir de 52 [?] mas eu tinha aqui um cunhado que era irmão dela.&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;, o mais velho. E tinha tios aqui. Tios e primos. Então eles diziam que o Brasil nessa época, tudo era em hortas, porque o comércio tinha pouco. Era chácaras, porque a chácara nesses anos é que dava dinheiro. E padaria, restaurante, já tinha sim, mas como era mais lento eles queriam ir para a chácara. Porque na chácara ganhava-se um dinheiro mais rápido. Então.... quando eu saí fora do exército que eu sai em 57 já no final, eu é nesta época eu tinha aqui o pai dela, o meu sogro. Ele veio para cá. E esses meus tios e esse meu cunhado tiveram que me mandar uma carta de chamada para eu vir aqui para o Brasil. Porque diziam: “Ah, vais para o Brasil, em seis  ou sete anos tu ganhas lá um dinheiro bom para chegar aqui a Portugal e comprar uma fazenda, ou uma quinta.” Porque muitos passavam aqui oito ou dez anos e ganhavam dinheiro para comprar lá uma fazenda. Então já ficavam, já ficavam com uma situação boa. Então eu também vim com essa idéia, né? [?]. Pô, já tinha meu sogro, já tinha o meu cunhado, já tinha tios aí. E esses meus tios já tinham comprado lá a fazenda, lá tinham grana para caramba. Eu disse, “Porra, eu que estou acostumado ao trabalho, ao pesado mesmo, eu também vou.” O que é que eu fiz? Vim eu e ela e o Eduardo&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;[3]&lt;/a&gt; com nove meses. Meu filho veio com nove meses, ele não andava, você veja bem. [?]. Se eu vinha sozinho, e o deixo lá, o caso era outro porque eu sozinho, eu dormir em qualquer lado. Não tem casa faço um barraquito aí de madeira, como era antigamente era tudo em barracos de madeira né? Mas não. Vim eu e ela e o garoto. Com nove meses ele não andava. Estava a começar a andar. Vim para um barraco ali para Rocha Miranda em Turiaçu, tudo assim de madeira [?]. Tivemos que forrar o barraco todo com papelões para não chover nada dentro. É, o piso era terra pura, tudo terra. Sem luz, sem água, sem nada desta vida. Com um barraco feito com tábuas velhas. Estive ali, cinco meses ou seis... seis meses. Mas é chácara, como não dava nada. Éramos cincos sócios mas metade, metade do terreno ainda estava a capim. Só estava a outra metade aberta, não dava para dois homens e nós távamos cinco, pô eu comecei a pensar nisso e fiquei doido, fiquei doido. Porque eu não tinha, eu não tinha dinheiro para voltar embora, se não daí para uma semana eu ia embora, eu ia embora daqui. Eu, escuta, eu passava mal. Passava mal eu e ela. Um pãozinho seco, uma caneca de café puro e um pãozinho seco de manhã. E quatro horas tinha que estar a pé. Só aquilo, chegava meio dia era um pratinho de arroz lá com feijão. Nem frango nem carne, nem nada. Carne era lá de quinze em quinze dias.... Passei mal. Quando eu comecei a ver a coisa que ali que não dava, pô fui ali para a escola quinze em Quintino, sabe onde é né? Em Quintino, é ali perto, é pertinho de Cascadura um pouco. Então eu tinha ali um primo, um primo e um tio, o pai dele lá numa chácara grande. [?] Ali, dentro, dentro da escola quinze. Uma chácara que tinha cento e vinte canteiros já todas a dar verdura. Era uma horta excelente. Eu cheguei ali, e o cara que estava lá, vende a parte dele para ele ir embora para Portugal. Já estava bem, com um dinheiro bom. Dei-lhe 85 mil na mão. 85 mil em cinqüenta... ou foi no final de 58 ou 59, é, assim no princípio. Dei-lhe 85 mil, ele foi embora e eu fiquei ali. Ali em vez de eu estar a tirar 200 contos em Turiaçu, eu fui para lá e tirar oito contos. Oito contos para cada sócio. [?]. Ninguém tirava esse dinheiro em nenhuma parte!  Só nós retirava. Porque, eu disse para esse meu tio e disse para esse meu primo [?].  “Nós pra ganhar em dinheiro, nós temos que fazer isso assim, assim. Vamos ir para as feiras de carrinho, correr estas feiras aí em volta de carrinho”, lotado, lotado de verduras para vender, porque ninguém tinha! Só tínhamos nós.&lt;br /&gt;E aqui, as pessoas falavam bem... Lá em Portugal ainda, as pessoas falavam que o Brasil tinha essas dificuldades todas?&lt;br /&gt;Falavam em Portugal, ora, o povo de lá sabia, eles sabiam o que se ganhava aqui em dinheiro, mas eles não sabiam o que o povo passava. [Que era muito difícil...]Que era difícil... E lá, ora, as mulheres que lá ficavam e vinham os homens para cá e o outro pouco que nunca tinham vindo aqui : “Ora, fulano, passou lá oito anos, ora já comprou uma fazenda aí, ah vamos ver se eu vou pra lá também e tal” Então, então  [?] nesses anos, em 58, de 52 é, é, a 63 veio muita gente, a partir de 63 em diante não veio mais ninguém, (inaudível) porque depois houve a revolução em Portugal em 64&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;[4]&lt;/a&gt; e o país mudou. Mudou por completamente em Portugal. Então há trinta anos que não vem mais ninguém para Portugal, quer dizer não vem de Portugal para o Brasil, vão é daqui para lá.[É, agora é o contrário...] [?] Então, se eu naquela época eu venho sozinho como eu fui para aquela chácara boa.[Sei...] Eu ia estar aqui uns seis, sete anos só, eu ia ganhar um dinheiro bom e eu chegava lá e ia comprar uma fazenda, ou ia comprar um negócio, ou ia comprar uma casa e depois eu ia, [?]. Se não ia comprar um negócio em Baião, que a vila depois também começou a crescer. A crescer a  crescer e está até hoje, hoje tem, hoje tem restaurante, tem dez açougues ali dentro, é padaria é mercados, tem tudo ali dentro e naquela época não tinha quase nada.[Sei...] Não tinha quase nada. Então, o povo no ano em que eu vim, eles se iludiram. “Pô, nós também vai para o Brasil. Pô, fulano esteve lá cinco anos, comprou uma quinta aqui, porra hoje vive aí, cheio, hoje tem isso, tem aquilo.” Então muita gente se iludiu, foi, escuta, foi também o meu caso.&lt;br /&gt;E você escolheu o Rio de Janeiro porque você quis?&lt;br /&gt;Porque o Rio, ora, o Rio de Janeiro (os seus parentes) era o principal aqui, era para onde eles vinham todo. Então tinha muita... Só nas chácaras ali tinha mais de dois mil homens ali. Na Rocha Miranda a Madureira, aquela parte toda ali tinha é, só nas chácaras. Então aquilo dava dinheiro, dava dinheiro. Agora, a gente sempre viveu assim... Depois ao passar dos anos, os anos vão passando, vão passando e a gente vai acostumando aqui. Ou que esteja bem ou que esteja ruim, a gente acostumou. Agora, naquele desde 58, de 60 para frente para frente até quinze ou vinte anos para trás, quem ganhou, ganhou, quem não, ganhou meu filho, agora também, pô, na minha idade eu vou fazer o quê? [É...] Se eu naqueles anos eu dei sorte, ainda era novo para trabalhar em (frentada), tudo bem. Se não dei sorte mesmo de não arrumar nada, também não vou arrumar mais. Ora, dei sorte, vim para cá e comprei essa casa pronta... [A viagem foi tranqüila?] ...  É, tenho umas casas lá em Ituriaçu, ora, ajudei o meu filho, ele se formou em administração de empresas, é, dei-lhe, ora, dei-lhe muito dinheiro para ajudar ele no comércio e eu estou aqui até hoje. Se não, eu, em 78, em antes de eu ir comprar aqui essa casa, eu tinha um dinheiro bom porque eu vendi essa casa para uma indústria em Turiaçu. Chama-se a fábrica do Piraquê, aquela fábrica grande onde faz o biscoito Piraquê. Então ela chegou ali, comprou um bairro todo e eu tinha uma casa nova que tinha feito ali, ainda com um terreno grande e vazio. Então eles chegaram ali e começaram a comprar aquilo tudo para fazer um prédio que fizeram lá hoje. Então ali eles pagaram bem, em antes, em antes de comprar essa casa. Com esse dinheiro que eles me deram, escutam, e o que eu tinha e se eu vendesse aquelas casas, porque eu tenho quatro casas lá, e eu naquela, e eu em 78 eu vou embora, eu, eu e o Eduardo que ainda era solteiro, era novo e formado em administração de empresa, ele tem estudo e mais curso disso e daquilo e ele, ora bem, ele era português, ele veio com nove meses, então ele se empregava bem lá. E se eu vou embora nessa altura, eu botava lá um dinheiro bom, mas a mulher não quis ir. “Ah, agora, a gente está aqui bem... e o teu filho deve arrumar emprego...” [?] de vendermos essa casa a gente vai procurar outra, então [?]. Andei meio ano a procurar casa, porque lá os caras deram meio ano para eu sair de lá, essa firma. Porque se eu comprasse um terreno vazio, em meio ano eu tinha tempo de fazer uma casa né? Depois corri aqui este bairro todo, ainda tinha muitos terrenos desse jeito todo, aqui, aqui em minha rua só tinha quatro casas, era a minha e duas aqui, o resto era tudo mato. É, mas, estava ali o vendedor a vender esta, esta casa, pela Caixa. E eu perguntei a ele se ele podia vender a casa e o cara: pode ver... E entrei aqui dentro, e comecei a ver a casa toda, pô eu gostei muito da casa, bom, escuta, eu adorei e disse, bom, o bairro e um dia este bairro fica bom. [É...] Um dia fica bom. Mas parece que foi Deus quem me mandou aqui... [Que o bairro é ótimo...] Deus mandou eu comprar esta casa. Eu, quando faço, quando faço as minhas orações a noite,  eu digo, foi Deus quem me mandou eu comprar esta casa. Deus é quem quis. Porque eu, eu podia ir para outro lugar, mas em outro lugar o valor de uma casa é de cento e poucos mil e aqui era uma casa de trezentos, quatrocentos mil... [É...]Então, eu estou muito bem aqui, moro aqui desde 78, bom, estamos aqui até hoje.&lt;br /&gt;E a viagem do Sr. para o Brasil em cinqüenta e... foi tranqüila?&lt;br /&gt;A viagem em 58, viemos, embarquei, veja bem, a embarcação era ruim, porque eu tinha que ir de barquinha para o navio, porque o navio não encostava [?] no porto. Ficava retirado uns dois quilômetros, a gente apanhava aqui uma barca, ia para o navio, o navio chamava-se (Chieftain), em inglês, um navio grande [?]. Então, embarcamos, meu pai veio comigo, lá o embarque e tal, trouxe o Eduardo ainda no colo, era menino e... bom ele chorou ali pra caramba, disse que não ia ver mais mas viu, viu uma vez só, mas ainda viu ele, em 82, ele já era rapazinho. Então, embarcamos em  (lençois), andamos do porto até chegar a praça Mauá, doze dias e doze noites, no mar, no mar, sem ver mais terra nenhuma. Doze dias e doze noites...&lt;br /&gt;Foi tranqüila?&lt;br /&gt;Foi tranqüila, eu vim... agora, ela enjoou, porque as mulheres lá vem separado. As mulheres vem todas juntas em quartos [?]. E os homens também vem separados delas, os homens, cada um tem seu quarto mas os homens lá não podem vir juntos lá com as esposas. É separado. Então foi esses doze dias de viagem. Quando chegamos na praça Mauá...&lt;br /&gt;O que acharam do Brasil?&lt;br /&gt;Está lá o meu cunhado, está lá os meus tios, está lá um primo, está lá um.... quer dizer, estavam lá esperando né? Pô, vim, lá, lá até que era bonito. É mais ou menos o que hoje, a praça Mauá ela não mudou nada. Agora que vai ter ali umas reformas que deu aí. Mas o que era há cinqüenta anos, quarenta, é até hoje, a praça Mauá tem o mesmo jeito. Não fizeram mais nada ali até hoje. Então de lá partimos para Turiaçu, em Rocha Miranda, quando chegou ali... porra... barracos, pô, lá eu estava numa casa... [É...] De pedra, toda bem feito. Barracos de madeira, tudo velho, sem água, sem luz, sem nada... É... esse meu tio, ele até faleceu ano passado. Quer dizer, era meu tio e meu primo, foi me amostrar lá as chácaras, “Pô, esta horta,” Eu cá para mim. “Isso aqui não vai dar nada, era muito pequeno”. Éramos cinco sócios e aquilo dava para dois só. Meteram-se a fazer (camaras) a altura desta laje, com uma pá e picareta, fazer (rotas) assim já, fundas já, a altura deste [?] aqui embaixo. Fazer (rota) para tirar esta (tarratinga) fora para botar a terra aqui dentro e com esta (tarratinga) para fazer aquelas paredes nos canteiros...&lt;br /&gt;O que é tarratinga?&lt;br /&gt;É um barro, é um barro que liga, é, que chama-se tarratinga, para se fazer, para fazer as paredes dos canteiros. [?] depois com ela seca, ia-se com a pá, começava-se a (parrear) tudo para ficar aquela parede, deixar aquilo tudo bem feitinho... É isto, isso aqui não vai dar para nada! Isto aqui eu vou passar fome. E assim foi... Tive ali uns cinco ou seis meses e sai fora! Não dava. (E você...) Mas a minha chegada foi dura. É que eu vim duro. Se eu não viesse duro, eu outro dia, eu ia, eu ia embora. Eu ia embora.&lt;br /&gt;E você achou do Rio o quê? Achou legal o Rio?&lt;br /&gt;Depois, é, depois a gente ia de Rocha Miranda até Madureira, Madureira já era aquele centro que tem hoje.[É...] O mercado é onde é o Império Serrano hoje. O mercado lá antigamente era ali. Hoje é o Império Serrano onde tem aquela escola. Mas o mercado ... vender as mercadorias era ali. Então eu disse assim, [?] A cidade eu sei, pô os prédios eram alto e tal. Achei aquilo bonito. De vez em quando eles levaram um dia lá para passear, e depois para tirar os documentos ainda, (inaudível) Mas a gente... teve muitos anos ali que nós não tinha tempo de ir passear não...&lt;br /&gt;Você ia a praia?&lt;br /&gt;Não havia  tempo      [É acabava...] Não tinha praia não tinha nada. A única coisa que a gente ia, ia, [?]  Era este mês de outubro a Nossa Senhora da Penha alí. Era o mês inteiro a Nossa Senhora ali da Penha. [?]. O último domingo é este aí agora. Até vem aí o cardeal lá da cidade, vem uns bispos aí porque vai, vai ser muito bonito. Então era, as únicas festas que a gente tinha assim no mês de outubro, era de ir a festa de Nossa Senhora da Penha. Então, então esse português que já estava há muito tempo aí, eles já estavam acostumados, então eles tocavam, tocavam sanfona, juntavam-se muitos e comia-se, eles traziam os merendeiros, eles traziam [?]  para comer no baixinho daquelas árvores, então a gente ficava ali a sombra, comia-se, dançava-se muito, é na toca daqueles acordeões, então eles usavam isso antigamente. Depois esse português, foi indo, e eles morreram. Acabou-se tudo, hoje não tem mais nada disso. [É] Acabou tudo, acabou tudo. [?]  uns três ou quatro anos para cá não tem dado. Porque a vagabundagem é tanta. Eu digo para ele: “Bom, [?] onde é que eu boto o carro?” O carro fica longe, às vezes todo sujeito [?]. Então eu fico com aquele, fico com aquele receio. Fui lá a pouco tempo a uma missa. A Igreja de cima é muito bonita e o local ali é bom, mas nesse mês que é o mês da Penha, Outubro eu vim com [?]  há uns anos para cá. Então a vida, chega a uns certos anos, muda. [É...]Agora que eu estou com 71 anos, bom, eu ainda posso ir, ainda posso passear, ainda posso me divertir, eu gosto de ir a essas casas portuguesas quando tem lá, “há vamos lá, hoje tem um (rancho), vem lá dois ou três (rancho) [?]” [Rancho?] Rancho é aqueles ranchos portugueses, chama-se rancho que toca... [Ah...] Aquelas castanholas [Sei...] Então a gente vai... Como lá na Auroca, ali na Barra. Tinha aqui a casa de Viseu, aqui, aqui em Vicente de Carvalho. Tem ali em cima outra casa que é a casa “camponês de Portugal” Ali na primavera ali. [?]  É um clube bom, vem sete, oito sanfoneiro tocar aquelas músicas de lá, então a gente se diverte assim, um pouco. Escuta, tem muitos portugueses ali na Tijuca, você sabe onde fica a Tijuca? [Sei...] Então, ali, ali é o bairro onde tem mais portugueses.[Ah é?] E tem muitas casas portuguesas... E quando [?]  quando se tem uma casa. Ah, ele diz assim é casa, é casa das Trás dos Montes, é casa da Vila da Feira, é casa das Aldeias, é casa do Minho, é, é, Casa... outros nomes ali. Então eles diz, é casa... aqueles clubes enche. Vai muita gente, pois eles fazem aquela comida, a moda, a moda de lá. Mas vão brasileiros também. Isso é, isso tá tudo cheio, quem quiser ir vai. Mas eles com oitenta,  oitenta e cinco noventa anos eles vão. É aqueles portugueses antigo, mas vão-se muito, porque aquilo, aquilo faz bem a saúde. Os portugueses que estão aqui até hoje, daqui a vinte anos já acabaram. Daqui a vinte anos já não tem mais nenhum. Eles morrem, já ficam doentes, depois os filhos, já não foram criados nisso. Então isso vai chegar daqui, daqui a quinze anos acaba. Porque essas casas até agora, se mantinham bem, era pros portugueses. Porque pô? quem é que não gosta? de passar uma tarde inteira, você chega lá umas meio dia e meio, abriu, pô já começa a comer, e come até cinco horas. [Nossa...] É a tarde toda a comer... Você vai lá, faz um prato, vem, vem pra mesa, come ali devagar... vai lá, faz outro prato, torna a vir, torna a dançar, vai lá, faz o terceiro prato, vem dança mais, vai apanhar mais, então você come umas cinco ou seis vezes ali... E dança. Pô, o cara se diverte a tarde toda! A pessoa vai embora, vai embora contente. [Muito!] Agora, daqui a quinze, vinte anos já acabou. [?]. Porque desde sessenta e pouco para cá não vieram mais para cá.[É] E os que estão.... Alguns, alguns foram embora, e outros, outros morreram já.&lt;br /&gt;E você acha que na época que você veio para cá, tinha muito preconceito com os portugueses?&lt;br /&gt;Tinha, tinha...[O pessoal falava...]E falava! Escuta, sabe o que eles falavam? ó, as vezes passavam esses caminhões da Conlurb, e esses caminhões da prefeitura.... a gente andava ali na chácara a regar, a regar as plantações com aqueles regadores, ou andava cavando (*****) e eles diziam, eles chamavam a gente de pardal ou coelho : “Ô coeeeeelho! Mas era cada berro rapaz, eles gritavam muito...[Os brasileiros....]Os brasileiros...  ó coelho!” Mas aquilo era de sacanagem, entendeu? Mas muitos, muitos levavam mal... olha, chegaram, chegaram a cercas os caminhões com [?]  e enxada e eles iam, eles iam estourar tudo.&lt;br /&gt;Tinha briga então?&lt;br /&gt;Dava briga! Os portugueses tinham muito disso. [?]  E eles faziam isso. Eles chamavam a gente de coelho e pardal. E pardal, escuta, é os espanhóis mas como o espanhol não veio para chácara, só vieram os portugueses, eles chamavam os portugueses de pardal. Pardal usa-se muito essa palavra na Espanha.&lt;br /&gt;Galego também, não?&lt;br /&gt;Galego, de tanto em tanto “Ô galego” e galego é da Espanha, da Galícia. Mas eles chamavam os portugueses da galego e galego, coelho e pardal eram as três coisas. Eu tinha um tio aí que ele revoltava-se com isso. Se não ele ia, ele matava os caras até.&lt;br /&gt;E já teve alguma história que teve uma briga entre brasileiro e português? Você já conheceu alguma história?&lt;br /&gt;Não, isso eu nunca tive. Brasileiros e portugueses que eu me alembre não. Porque veja bem, o português, ao menos eu penso assim, eu que saí, eu que saí do meu país, eu saí para governar minha vida, e eu não saí para andar a brigar com ninguém. Eu saí para andar em paz logo que ninguém me faça mal, eu também não vou fazer mal aos outros sem ninguém me fazer mal. Eu vou andar dentro da minha linha, agora, não vou deixar abusar, porque eu lidei com muitos brasileiros, porra eu tive um brasileiro da central que era do caminho de ferro, quinze anos a trabalhar comigo, ele já era um senhor, era escuro, mas ele era legal pô ele era de confiança e eu tive ele quinze anos ali na feira ajudando. E ele lidava com dinheiro e tudo. Mas eu cheguei a dizer para ele ó, porque ele chamava eu de portuga, se eu sentir que você me, me roupa, eu tiro tua roupa na feira e você fica nu, para ver se você tem dinheiro dentro da sunga ou em qualquer lado. Ora, eu vou confiar em você. Olha aí, trabalhou quinze, ainda passou quinze anos. E depois eu é que saí, se não ele.... ora, eu nunca mais eu vi, eu não sei se ele é vivo ou se é morto pois eu saí fora em 90. Não vi mais. Mas aí.... Agora, tem brasileiro bom, tem brasileiro ruim, e muitos diz, ah, é preto é isso ou aquilo, mas eu não tenho o que dizer [?]. Esse era preto mesmo, preto, mas era gente boa, era gente fina... e tive muitos empregados paraíba daqui mesmo [?]. Nunca me aborreci com ninguém. Tive um, vinte e cinco anos um paraíba a trabalhar lá na horta que era só minha, trabalhou vinte e cinco anos, no fim de vinte e cinco anos em 90 eu quis sair fora, o que é que eu fiz para ele? Dei-lhe a licença dada, dei-lhe a horta dada, e dei-lhe a pick-up tudo dada assim ó, toma lá. Você que já está na feira há quinze anos, você bem, já conhece a freguesia. Então ajudei ele como ninguém fez isso até hoje. Dar um carro, uma pick-up 73 que na época era boa e dar, escuta dar uma licença da feira que tinha seis pontos, para ele chegar, vender ali tudo e lhe dar a horta.&lt;br /&gt;E ele está vivo ainda?&lt;br /&gt;Está vivo, está lá até hoje. Tem um filho já com 24 anos, já comprou uma casa por setenta mil...[É seu amigo...] Somos amigos até hoje. Trabalhamos vinte e cinco anos, nunca respondemos uma palavra ao outro mais alta, nada! Escuta, nunca tivemos nada, nunca tivemos nada. [?]  Agora, ele, ele entendia o que eu queria, e ele sabia que eu que gostava do trabalho, escuta, do trabalho assim assim, bem feito, e ele fazia o que eu queria. Se eu chegasse duas horas da manhã, ora bem e o chamasse, ele punha-se a pé, e ia para feira ele e mais eu. Pô, se fosse outro ele diria “não vou levantar cedo (é), pô eu só levanto seis horas”... Ele punha-se a pé e ia. Ia comigo. Então, disso, disso eu não tenho o que dizer não... Também eu sou, eu sou um cara que não me meto em confusões. Eu não vou para botequins, eu não bebo, eu não fumo, eu não ando em farras assim em chegar até tarde, sempre eu tive na linha, lá embaixo e aqui. Aqui vai para vinte e oito anos. Oito horas, eu estava sempre a beira da porta aqui em casa. Ah, muitos acabavam o trabalho e tal, iam para o butequim, tomar uns, ficava ali, eu não, oito horas eu estava sempre aqui em casa. Nunca fiquei lá para fora [?]. Quando eu não chegasse, ela já ficava aborrecida, pô vem sempre essa hora e hoje não veio o que que aconteceu? [?]  Olha lá ó, sete e meia eu saio de lá, vinte paras oito, oito horas [?]. As vezes já estou aqui sentado. [É.] Porra, eu gosto de ver o repórter das oito. Eu sempre tive essa hábito. Então, a minha vida foi sempre assim.&lt;br /&gt;E, teve algum costume brasileiro, carioca que você teve dificuldade de se adaptar na época, quando você chegou assim, você achou muito estranho, não foi difícil de se adaptar?&lt;br /&gt;Ah, é.... veja bem, eu estou, eu, eu estou esses anos todos, e muitos, e muitos brasileiros [?]  “Porra você, você veio há pouco tempo de Portugal?” Porque elas acham que eu falo carregado, escuta, que eu não aprendi a falar aqui. Mas isso é hábito meu. Eu, eu vim pra aqui em 58 e já vai para cinqüenta anos. E falo assim. Então é.... agora eu poderia me adaptar mais a palavra daqui, mas eu, eu fiquei assim mesmo... [Tentar falar, mais, mais...]É, mais carregado daqui, porque muitos acham, muitos acham que eu que cheguei há pouco tempo. [?]. Pô, algumas mulheres falam isso e aí, os homens até não falam tanto mas as mulheres falam. Ah, é que eu fui lá a pouco tempo, então eu chego lá, eu, eu...nunca me dediquei  a aprender a falar muito daqui, porque a minha leitura também é pouco, eu escrevo e leio pouco né? Mas isso não quer dizer se podia falar melhor o jeito daqui ou não. Porque você vê, o repórter de lá quando as vezes vem aqui ou eles que estão acostumados, eles carregam muito lá, eles carregam a palavra de lá muito... (É) mas eles estão acostumados a andar no mundo quase todo. E eu fiquei assim até hoje também.&lt;br /&gt;E a comida, você estranhou a comida brasileira?&lt;br /&gt;A comida, olha, a comida... eu como qualquer coisa. Eu tenho, eu tenho um estômago... Você vê, eu estive quinze dias num hospital ali na Lagoa, há dois anos e meio. Porque eu tive um infarto né? É, o João me disse.&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=38027118#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;[5]&lt;/a&gt;] É, aí quase eu vou embora. Eu estive quinze dias lá internado. Ganhei, escuta, ganhei um conhecimento lá com as enfermeiras... Porque eu faço amizade rapaz, eu explico o que é minha vida, e depois, “ah, você é assim, assim...” Então começamos a bater papo, daqui, dali, olha, elas chegavam, elas chegavam com a comida e elas perguntavam se a noite eu queria uma sopinha disto ou daquilo, daquilo. Eu disse: “Olha, eu adoro uma sopa, então a senhora, se me fizesse a sopa conforme você tá falando... Pô, eu adoro isso...” Então elas diziam a comida que eu, que eu gostasse mais elas faziam para mim. [Nossa...]Então, olha, quando viesse eu comia tudo. É, aquilo era insosso, mas o meu estômago comia tudo. [E em 59, 60....] E as vezes ainda comia mais! Em 59 e 60 ( a comida era estranha?), ora bem, era arroz e feijão puro... Pô, eu virava tudo, ainda virava mais... É que não tinha mais.&lt;br /&gt;É a feijoada, você provou, não?&lt;br /&gt;É, a feijoada, as vezes botava daqui um pezinho de porco ainda, para dar um gosto. [?]  A gente era novo e comia tudo. Pô, [?], carne de porco, qualquer coisa aí, a gente comia tudo. Mas a partir de 59 para frente foi, vamos dizer, não chegou a um ano ruim, depois eu fui para essa horta boa e ali eu já comecei a ganhar um dinheiro... Paguei oito contos que eu fiquei devendo em Portugal, porque eu fiquei devendo a minha passagem e lá mais uns troços lá né? Paguei desse chácara que eu tinha em Quintino, paguei esses oito contos, paguei ao meu pai, paguei tudo e comecei a ganhar um dinheiro. Tô lá e já fiz um barraco... Doutras condições, um barraco grande, mais bem feito e em baixo já tem umas tábuas, o piso, já botei tal e tal... E depois saí de Quintino, vim para Madureira ali para rua, para rua Carvalho de Souza. Então alí eu já vim para uma meia-água de tijolo, já tinha assim as paredes. [?]  Já vim para uma meia água. Já tinha cozinha, a sala e quarto, tudo junto. Mas era uma meia-água e já não era um barraco. [?]. Dali é que eu vim ali para Turiaçu que é onde é o Piraquê, comprei aquela horta sozinho. Dali eu vim para uma casa alugada na rua... na rua..., esqueci agora o nome dela, ali em Turiaçu, vim para a rua Iviá.&lt;br /&gt;Rua?&lt;br /&gt;Rua Iviá [Iviá] Iviá, é ali em Turiaçu, é perto do Piraquê. Então, esse, esse meu cunhado já morava ali numa meia água do sogro, e eu vim, eu vim pagar aluguel numa meia água do sogro dele. Estive ali uns anos... Ele era português também, o sogro dele é brasileiro.&lt;br /&gt;[Ah, ele casou com uma brasileira, seu cunhado..] Ele casou com a filha dele que é brasileira... então era brasileiro, era o seu (Omér), mas era gente boa, aquilo era gente fina. Ele era doutro estado aí fora, depois ele veio pra aqui ainda novo e fez a vida dele aí... Mas ele já faleceu. Então, eu estive ali uns anos a pagar aluguel, nessa meia... ali já era sala, quarto, cozinha e banheiro. Ali já era uma casinha Estive ali uns anos, pagava o aluguel e tal. De repente aparece um terreno vazio lá em Turiaçu que foi onde eu fiz essa casa nova, apareceu este terreno, apareceu uma área grande ali, tudo cheio de terrenos, era loteamento... Um veio comprou um lote, outro veio comprou outro, outro veio comprou outro e eu comprei um lote numa esquina que era o meu, era grande era dezoito metros por trinta. Como, eu tinha 9 contos em [?]. 9 mil... O que é que eu fiz? Comprei o terreno com cinco mil e fiquei com quatro. Mas na chácara, eu já tirava mil contos para o meu sócio e mil contos para mim, porque, nessa altura eu ainda tinha um primo meu que era meus dois sócios... Depois, mais tarde ele quis me vender a parte dele eu fui e comprei, fiquei eu sozinho. Então, ora bem, tinha nove contos, dei cinco, dei cinco para um terreno e fiquei com quatro. Daí a quatro ou cinco meses, contratei um pedreiro e comecei a fazer uma casa nova aí, porque eu estava a pagar aqui aluguel de meu sogro, meu cunhado. Daí comecei, a contratar um pedreiro e comecei a fazer, comecei a fazer uma casa. Em 76 ou 78, em 75 ou 76. Comecei ali a fazer uma casa. Estive ali uns dois anos e tal, depois essa fábrica do Piraquê veio e comprou esse bairro todo. Botou as casas todas abaixo para fazer os prédios deles lá. Mas eu fiz ali uma casa, uma casa nova grande, sala grande, dois quartos grandes, cozinha grande e... tinha dezoito por quinze de terreno vazio para fazer ainda dois apartamentos em cima, dois em baixo. Mas essa firma, veio o Piraquê e me comprou isso tudo. Então, nessa época, eu vendi porque eu era obrigado a vender, porque os outros venderam tudo. E eu a ficar ali sozinho, a firma precisava disso. Então foi quando eu vim e comprei aqui esta casa, esta casa em 78 eu comprei-a por 950 mil, 950, o dinheiro era cruzeiro ou cruzado... Mas eu comprei-a bem pô. Hoje a minha casa vale uma nota boa e o bairro começou sempre a crescer né, a crescer, a crescer, depois o que é que fizeram? Como lá é rua, só tinha quatro casas e eu [?]  apartamentos, e era tudo aberto, depois tapou-se o bairro todo ali por cima com um muros, [?]. Hoje, é um condomínio ali dentro.E hoje temos uns dez seguranças ali, e cinco de dia, cinco de noite, tapou-se o bairro todo, só tem aquela saída ali, e lá em baixo onde tá a praça. Só, o resto ninguém entra mais. E aqui em frente a mim, temos uma cabine ali, ali com segurança, tá tudo em dia, e as casas começaram a ganhar, a ganhar valor. Porque um condomínio hoje, as casas, se elas são boas, elas, elas dobram o preço né? E depois aqui, há doze anos para cá, porque há doze anos antes era aberto, mas há doze anos como se tapou tudo e começou-se a botar segurança, então, muitos, muitos vieram, tinham esses terrenos vazios e começaram a construir, e construíram tudo, essa rua tá cheia, e só tem terreno vazio ali, o resto tá tudo cheio. E venderam esses apartamentos agora desse prédio aí ao fundo, vocês passaram em frente. Venderam ali a duzentos mil, é, apartamentos...&lt;br /&gt;E desde que você chegou aqui no Brasil voce sempre frequentou clube português? Nunca, nunca deixou de frequentar?&lt;br /&gt;Não, eu sempre ia, sempre... aos domingos... “ah, hoje na casa tal...”[É o João me conta as vezes que você vai lá...] Tem, tem lá um rancho e a gente vai lá, então, eu digo para ela assim “amanhã nós faz almoço em casa, e nós vai, passeia, e.... é comida que nós [?]  comer,” a gente paga mais um pouquinho e come lá fora, e passeia-se...&lt;br /&gt;E é comida de Portugal né? Isso que é bom...&lt;br /&gt;E a comida [?]. Tem sardinha, tem sardinha portuguesa a vontade, tudo. É, tem daqui e lá. Mas eles fazem... as vezes tem bacalhau, outras vezes é coelho, é cabrito, tem tudo.&lt;br /&gt;Na sua casa, quando você chegou em 59, você comia muita comida de Portugal? Ou era difícil comer a comida da terrinha? [É aqui ou lá?]Aqui. Em 60, quando você chegou aqui.&lt;br /&gt;Ah, aqui, aqui, uns três ou quatro meses não        porque ela tem que cozinhar para cinco sócios. [É...] E ela tinha que fazer a comida igual aqui a da [?]  daqui. Agora, quando eu saí fora disso, que ela começou a fazer a comida só para mim, então ela faz a comida ao jeito dela lá em Portugal a comida. Você vê, o macarrão, o arroz, ela faz tudo ao jeito que faz tudo ao jeito que fazia lá em Portugal. O bacalhau, eu faço também, faz tudo igual. Então, é, não muda muito...&lt;br /&gt;E você ouvia muita música na época? Ou cantava assim?&lt;br /&gt;Não, eu gostava muito de dançar. [De dançar...] Eu dançava pra caramba, eu dançava, eu era apaixonado. É que eu não tinha tempo. [É...] Trabalhava muito e eu chegava cansado. Porque, veja bem, eu chegava a casa as dez horas da noite. Duas e meia eu tinha que me por a pé. Pô, não tinha como... Mas há uns anos para cá eu já, eu já sai fora disso, a gente vai...&lt;br /&gt;Mas quando o senhor tinha tempo para poder ouvir música, o senhor ouvia que tipo de música? Fado, não?&lt;br /&gt;É, ela botava, botava o fado, botava o (Rães), e esse rães que eu gostava [?]. E, e, porra, ela as vezes é que não gostava tanto. [?]  muita gente ouve isso. Esses cantores de lá, o nosse jeito, olha aí. Nós tinha quatro, cinco anos e eu já ouvia essas músicas que eles tocam as vezes aí. Porque essas casas portuguesas, e eles botam essas músicas já antigas há sessenta ou setenta anos, ou há cem anos [?]. E eles botam elas agora que é pra nós ver, o que era naquele tempo, quando muitos portugueses já partiam embora nós agora escuta essas músicas. Aquela (cantando): “Ó, Rita [?]  a saia, Ó Rita [?]  vem” E essa, olha, eu tinha cinco anos, seis e já cantava essa música. Eu tinha lá uma tia e tudo era [?]. Ia lá para um terreno, que ela tinha, criava milho e feijão ela cantava essa música, quando eu era pequeno já havia essa música, e outras mais aí... Porra, eu sempre gostei de festas, gostava de me divertir muito... Mas é que eu as vezes não tinha tempo. Não tinha tempo. A gente trabalhava muito e chegava cansado. Quantas vezes na... temos uma festa, agora, a gente ia, a festa ia até meia noite. Viemos embora. Duas horas, duas e meia tinha que estar a pé. Olha aí, deitava-me, abrias os olhos, fechava os olhos já tinha que ir dormir para eu ir embora.&lt;br /&gt;E você tem algum santo de devoção?&lt;br /&gt;É, os santos, eu acredito em santos. Eu acredito. E... você vê, em minha casa eu tenho muitos santinhos, graças a Deus eu tenho. Eu acredito, bom em Santo Antônio, em São José, bem, em Nossa Senhora Aparecida... Porque a Nossa Senhora é mãe, escuta, é mãe de Jesus que é nossa mãe. Ela é a sua mãe, é a minha mãe. Se ela é mãe de Jesus, ela é nossa mãe. Porque, se... se Jesus é nosso Deus, pô, ela é nossa mãe. Nós sem ela, nós não somos nada. Então é... então é mãe de Jesus e ela transformou-se, diziam em Portugal os antigos – mas eu acho que existem mais – ela transformou-se em sete senhoras, e dessas... e de uma, e de uma em uma ela transformou-se em sete. Mas hoje, hoje talvez tenha mais do que sete senhoras, porque santos têm muitos. Senhoras é que tem poucas, é, é Nossa Senhora de Fátima que apareceu em 1917 que é mãe, que é Mãe de Jesus e depois apareceu Nossa Senhora Aparecida lá no Rio, eu vou lá há quase há quarenta anos. Todo ano eu vou a Aparecida do Norte, então eu acredito muito nela. E eu já tive lá algumas coisas e prometi uma, o corpo de [?]. E eu vou lá [?]. E eu, graças a Deus, tô aqui vivo até hoje. Então, eu tenho fé neles, eu tenho fé em santos, em tudo isso, isso eu tenho. Porque a gente tem, ali no quarto, ali na sala, você vê aqui mesmo, a gente tem alguns ali.... (pausa). Então... Muitos dizem assim, “ora... não se... a gente não deve acreditar numa imagem. [?].” Se a gente tá errado. quem criou as imagens, já há quantas, há quantas décadas, há tanto tempo, há tantos anos atrás... A gente, a gente vê uma imagem, a gente sabe que ela foi feita pro homem, ela foi feita pro homem. E muitos dizem hoje, os crentes dizem que a gente não deve acreditar em imagem que ela é feita pelo homem. Mas veja bem, eu... nós agora estamos aqui os dois. Se você me bate uma foto, você vai ficar com meu rosto, com a minha imagem para toda a vida e eu também vou ficar com a sua. Então se eu estou vendo ali a imagem, a imagem da Nossa Senhora e a imagem de Jesus Cristo, eu sei que não é aquilo que representa... que... ora bem, não são eles que estão ali, mas é uma foto deles... [é uma foto...] É uma foto. Isso é pra gente crer, acreditar, que eles, ora bem, que eles existiram, ora, eles existem, a gente sabe que não são eles ali, mas é uma foto deles. Isso faz a gente ter mais fé. Eu, eu penso assim. Se o pai, se o pai da minha mãe e os pais deles já ensinaram eles assim, então vem passando de gerações em gerações. Agora, se isso for errado, então, eu não sei quem é... quem está certo, né? Porque a gente, ah, é uma imagem, é isso ou aquilo. Bom, é uma imagem, a gente sabe que o homem é que faz aquela imagem, mas Jesus Cristo veio feito um homem! Deus mandou Jesus Cristo um homem igual a você e igual a mim,, para nós acreditarmos nele, porque é que nós, porque é que nós não vai acreditar numa foto de Jesus, numa imagem dele? Pra saber que era ele, que naquela época ele era assim, agora hoje, depois, depois da morte dele... porque ele veio, ele veio a este mundo, Jesus Cristo veio a este mundo, veja bem, veio pra salvar os pobrezinhos, os miseráveis, os pequenininhos, os que passavam mais sacrifício neste mundo... ele não veio para salvar os ricos... ele veio, um pobrezinho, um pobre para escarrar nele, bater nele e matar ele, e ele morrer numa cruz, por nós! Ele morreu numa cruz por nós. Ele sangrou ali o sangue dele, a água dele, o sangue dele por nós... Pra nós um dia termos, termos a salvação... Porque se ele não morresse numa cruz, isso não estava na história até hoje. Então, os judeus naquele tempo, que é que tem muito, tem muito judeu que até hoje eles não acreditam em Deus... escuta, eles não acreditam em Jesus. Porque eles pensavam que Deus ia mandar Jesus Cristo... ia mandar ele um doutor, engravatado e de terno e gravata tudo, bem posto, pra ser, pra ser um profeta deles... mas não, Jesus Cristo veio um pobrezinho, ele veio como se fosse um homem que passasse fome neste mundo, aqui nesta terra. Ele veio a mostrar que era simples que não tinha nenhuma mágoa, que ia perdoar tudo, tudo, tudo e quem tivesse fé nele, ele perdoa todo mundo, mas é preciso ter fé nele. Ora quem tiver fé em Deus, e fez muitos pecados, mas se ele nuns certos anos, a gente tem que pedir perdão a Deus, e Ele perdoa! Aqueles pecados antes [?]  Ele perdoa! Mas nós temos que chegar a uns certos anos e pedir perdão a ele e ele perdoa! Porque ele escuta! Nós não vê ele mas ele está aqui agora aqui presente. Então se a gente tiver fé nele, ele perdoa nós [sei...] agora, tem muita gente “Há isso é um profeta, isso é um profeta qualquer, isso... isso não é ninguém, isso é... pensava que ele era um rei” Porque há uns... naquelas épocas [?]  reis, ó, aqueles poderosos. Então Portugal em muitas, em muitas épocas, só tinha reis e frades. Os reis eram quem mandavam, ai daquele, ai daquele que levantasse uma mão para eles, pô aquele cara, era, aquele cara era degolado. Então nessa época, em qualquer parte do mundo, em qualquer país, se aparecesse uma pessoa, se ele não começar a fazer, a fazer milagres, ele pensava que, que era um profeta, que era lá, escuta, que era um judeu... Muitos países aí em volta, ora bolas, os muçulmanos, e aquela raça dali pensavam que ele era... que ele era um Judeu, que era um profeta de Judeu... mas depois ele transformou-se em muitas, em coisas para o povo ver que não era aquilo que o povo pensava. Ele começou a fazer milagres. Pô, eles, ele, ele, pô depois que começou a criar os apóstolos, que é que ele disse para [?]  pros apóstolos? “Agora, vocês vão pelo mundo adiante e comecem a escrever e a ler e [?].” Então ele ia... e com o poder d’Ele, eles fazia milagres! Mas era com o poder de Jesus. João e Pedro e Tomás e Tiago já faziam milagres, mas era com o poder de Jesus, que mandou eles ir pelo mundo adiante pra pregar o evangelho... então eles foi. Mas a palavra, era, era d’Ele. Agora, depois de umas certas épocas, descobriram, escuta, viram aquelas multidões, e ele curava os cegos, ele curava os surdos, ele curava os mudos, e ele fazia andar, pô, pô,os que não andavam... então, muita gente viu que era o filho de Deus, que foi Deus quem mandou o seu filho homem, ele mandou o seu filho homem... um homem! Olha aí, mas pra gente ter mais fé ainda, foi quando ele foi morrer na cruz por nós... Morreu.... [?]  pensar o que é que estava ali. O terceiro dia... ó, o primeiro dia e o segundo, ele foi aonde? Ele foi vencer a morte ao inferno! Ele desceu ao inferno no primeiro e no segundo dia. Conversou... conversou com o Diabo, com o Demônio. Apanhou o mal dele, apanhou as chaves, apanhou as chaves da morte, do Diabo... Como o Senhor é mais forte, ele apanhou as chaves dele e levou... Venceu a morte, ressuscitou ao terceiro dia, olha aí!
